Nunca votarei neste homem

«A ocorrência dos factos e a sua prova é algo que decorre do próprio processo judicial; fazer um juízo político, antecipando como verdadeiro aquilo que carece ainda de prova era, em si mesmo, estar a antecipar-me a um julgamento, o que acho que não posso nem devo fazê-lo. É evidente que, entretanto, todos tivemos acesso - por vias ilegais - a partes do interrogatório do Eng. Sócrates, portanto não podemos ignorar coisas que ouvimos [...]»

Primeiro-ministro e Secretário-geral do Partido Socialista

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Que terá ouvido António Costa nas partes dos interrogatórios que consumiu? Ouviu Sócrates a confessar ter sido o instigador do assassinato de Sidónio Pais, ou a confessar ter posto a bomba num certo Cessna num certo 4 de Dezembro de 1980, ou a confessar ter virado com as suas manápulas o Tollan só por pirraça? Seria fascinante ter acesso às suas experiências auditiva e cognitiva na ocasião porque ele não o irá revelar em público. Em público, como se pode também ouvir, e ver, e ler, temos um primeiro-ministro e secretário-geral do PS a validar ilegalidades e assassinatos de caráter. Ao não assumir quais são as informações que destaca insidiosamente, isso que passamos pela sua autoridade política e moral a não poder “ignorar”, então vale tudo. Tudo o que ali aparece dito, seja por quem for, é um alvo da sua censura e/ou da sua concordância. Cada um que escolha a sua parte favorita que a mesma levará a assinatura “António Costa” por baixo.

E mais. Que venham novas ilegalidades tão corriqueiras, tão úteis, tão dignas de louvor como estas. É o chefe do Governo e do partido na berlinda que o declara. O critério deixa de ser a Lei, passa a ser a orelha. Se as ilegalidades contribuírem para a nossa decisão de lhes darmos proveito, então bute. Tal como estabelece Costa, o valor cívico transfere-se para o “acesso”. Acesso a interrogatórios fragmentados, por maioria de razão a interrogatórios completos e, corolário, a qualquer registo de devassa da privacidade, da intimidade e da consciência serão não apenas o novo normal como a nova moral. Eis o que resulta de uma declaração que não acredito ter sido espontânea, tal como o embrulho cinicamente dúplice em que aparece lançada no espaço público me leva a crer.

Imaginemos o pior cenário para o PS e para a comunidade: o tribunal prova – sem margem para dúvidas – que Sócrates foi corrompido. Nesse cenário, caso a ideia não seja ilegalizar o Partido Socialista, todo o sistema partidário terá de apresentar uma solução que prometa evitar a repetição de um crime tão grave para a República. Como queremos viver em liberdade, essa solução teria sempre de ser uma melhoria do Estado de direito de acordo com a tipologia da corrupção descoberta. Imaginemos o segundo pior cenário, que igualmente se pode considerar o primeiro dos piores cenários: o tribunal absolve Sócrates das acusações de corrupção. Neste cenário, e caso a ideia não seja permitir que a Justiça volte a ser politizada e usada para golpadas políticas, o sistema partidário teria de apresentar uma solução que prometesse evitar a repetição de uma disfunção repleta de crimes no seio da Justiça. Como queremos viver num Estado de direito, essa solução teria sempre de preservar a soberania dos magistrados judiciais e a autonomia dos magistrados do Ministério Público em nome da separação de poderes e da liberdade. O que não caberá jamais em qualquer um destes dois únicos desfechos legítimos da “Operação Marquês” é a ambiguidade de aceitarmos ilegalidades como instrumentos de cura ou orientação colectiva.

Acontece que este traço da personalidade política de Costa não é uma novidade. Apesar de ser o homem certo no lugar certo na actual conjuntura, apesar de ter uma reputação à prova da Cofina e da Manuela Moura Guedes, apesar de ficar como um dos mais importantes e benéficos políticos na história do regime, aquilo que penso dele não se alterou um nanómetro desde as vésperas do lançamento da “Operação Marquês” como arma contra o PS e contra a democracia (i) e desde a sua entronização como secretário-geral socialista (ii):

i) Declaração de voto23 de Julho de 2014

ii) Incentivos para a lucidez6 de Janeiro de 2015

38 thoughts on “Nunca votarei neste homem”

  1. Pois, pois ! O problema é que não é expectável que nos tempos mais próximos o dito homem se vá candidatar a PR. Aí sim, fará sentido a tua atitude, Valupi. Entretanto o que teremos serão legislativas. E aí não se vota em “homens”, mas em partidos e programas.

  2. Valupi, mais um pouco e fazias-me lembrar o Louçã a chumbar o PEC iv. :)

    Agora a sério.

    Não é impossivel que as “coisas” a que o Costa ouviu sejam as mesmas que tu ouviste e não gostaste. Ao ponto de por mais de uma vez teres tecido durissimas criticas ao gajo.

  3. Isto esta cada vez pior. Eis o texto completo da intervenção que provoca o escândalo deste caramelo :

    “É evidente que, entretanto, todos tivemos acesso – por vias ilegais – a partes do interrogatório do Eng. Sócrates, portanto não podemos ignorar coisas que ouvimos, mas ouvimos em que contexto? Ouvimos na totalidade? Não ouvimos na totalidade? Que outros elementos existem?
    Eu, enquanto primeiro-ministro, acho que o meu respeito quer pelo Estado de Direito quer pela sua dupla dimensão de liberdade de investigação, de liberdade de julgamento e de presunção de inocência, devo manter o recato, o silêncio sobre a matéria e confiar que as instituições façam o seu trabalho.”

    Vocês são doentes, pa, cegos de raiva, ja nem são capazes de ler um texto simples com um olhar frio e neutro. Tudo que o vos cheirar, mesmo estupidamente, à mais pequena duvida sobre a integridade moral do querido lider é o suficiente para sacarem da pistola e desatarem aos tiros, mesmo perante o texto mais inocuo e mais respeitador da presunção de inocência, como é o caso deste. Querias que ele dissesse o quê ? Que não ouviu ? Mas olha la uma coisa, se não estou em erro, o primeiro post que dedicaste à publicação das filmagens num programa de televisão (foi assim que eu soube que elas tinham sido mostradas ao publico) foi para explicar que isso iria ser benéfico pois iria mostrar ao olhos do mundo um homem honesto indignado com as baixezas da acusação. Portanto tu também ouviste o material, ou não ?

    Vota em quem quiseres, claro.

    So espero é que sejas pago, e bem pago, para escrever estas baboseiras, é a unica coisa que ha a dizer…

    Boas

  4. Alves, e que coisas seriam essas? O que é que os interrogatórios revelaram que desse para não gostar?

    Explica lá, tu que és especialista em Louçãs e Costas.

  5. Valupi, sinceramente, não sei. Não vi, não ouvi, não li nada desse folhetim.
    Mas acabo de ler o que o Viegas transcreveu e, se foi isso o que o Costa disse, podias ter transcrito até ao fim. Acho que a sensação de insinuação que sugeres fica muito, mas mesmo muito!,
    diluida.

  6. Aí, my man.
    Eu só tenho pena de ter votado nele uma vez, nunca o PS desceu tão baixo. Alegar escutas para qualquer tipo de julgamento é o mesmo que validar a sua publicação para a luta política e como meio de condenação publica.
    Por isso vamos escutar toda a gente (já o fazem) e se descobrirem qualquer coisa condenável (não ilegal), as escutas estão justificadas, é a inversão de um estado de direito. Já está.
    Mau demais.
    E isso também abrange o artigo de Cancio, pode ter toda a razão do mundo ( ou não, como saber?) mas no fim, neste clima, veio também justificar directa ou indirectamente a publicação de escutas.

    Mas este gajo é só gaffes e mediocridade, no outro dia classificou Marcelo como arte moderna, ora o gajo é o mais posmoderno dos políticos, coisa que Costa nem sequer sabe existir, ora isto vindo de um cínico é preocupante.

    A forçada desfiliação de Socrates foi uma operação de PR, aproveitando o facto de se encontrar fora ( o telemóvel é uma cena posmoderna pro Costa) para se desmarcar do que já estava cozinhado e acelerado pelo caso Pinho.

    Vade retro Satanás
    https://m.youtube.com/watch?v=psqhLJUFM_Q

  7. Valupi, assim era até ter lido o que o Viegas transcreveu. Agora tenho algo a dizer: não foste honesto. Lamento, mas as coisas são como são.

  8. Joe Strummer, cita aí a passagem do artigo da Câncio onde ela justifica a publicação de escutas só para perceber do que estás a falar. Depois comentarei.
    __

    Alves, estás mesmo com problemas na literacia. O que o Viegas traz está na ligação que deixei para cada um poder ler à sua vontade. E o que se pode ler nela é igual ao que a citação que fiz já mostra – isso de Costa começar por dizer que não se pode substituir à Justiça e etc. Daí a minha referência à duplicidade com que Costa embrulha a validação da ilegalidade – esta, a parte que realcei na análise, daí aparecer destacada na citação.

  9. O Sobrinho Barroso honra a memória de seus tios.
    O açoriano não sabe falar. Diz e desdiz. Em debate com o santana parece ainda mais tonto.
    Depois, digamos, a cara de sapo não ajuda ao à vontade.
    O costa lá vai dançando segundo a música que outros desafinam. Sua figura e modos também não ajudam.
    Estou de acordo com VALUPI os Homens contam e muito para fazerem política e despertarem confiança i.é. vontade de neles votar.
    Política séria, corajosa e Republicana.
    Saudades de Mário Soares.

  10. Não é preciso citar, ao abordar a vida intima ou não publica que fez com Socrates está a contribuir para a cada vez maior justificação desse tipo de exposição como argumento. Inevitavelmente leva ao voyeurismo que é alimentado pelas escutas.

    Isto tem uma cronologia e esta entrevista foi realizada após Socrates ter saído do PS, depois de ter permitido dentro do PS ( as pessoas ouvem as escutas) o contrario do que enuncia na entrevista. O crime perfeito.

  11. Torcer citações,cortar-lhes bocados, mostrar morceaux choisis …
    Se tem penas de pato,patas de pato, bico de pato e grasna como um pato,o mais provável é estarmos na presença de um … pato!

  12. a entrevista do João Cravinho é muito mais sumarenta …
    amostra :
    ” e recorda que o antigo primeiro-ministro sempre foi uma força de bloqueio a medidas de combate de corrupção. Em entrevista à TSF, o histórico do Partido Socialista (PS) record…..”

  13. Joe Strummer, vai na volta a Câncio não justificou nada a publicação de escutas. A tua dificuldade na citação está a dar peso a esta hipótese.
    __

    Abraham Chevrolet, do que falas?

  14. Não era João Cravinho ministro da Obras Públicas, quando o Presidente
    da Junta Autónoma das Estradas o General Garcia dos Santos detectou
    um caso de corrupção e, foi obrigado a bater com a porta, por o ministro
    não ter actuado contra o corrupto ???

  15. Joe Strummer, pois não, o que disseste foi:

    “E isso também abrange o artigo de Cancio, pode ter toda a razão do mundo ( ou não, como saber?) mas no fim, neste clima, veio também justificar directa ou indirectamente a publicação de escutas.”

    Donde, a parte do “directa”, no mínimo do “indirecta”, despertou a minha curiosidade posto que nunca a li a justificar escutas. No último texto que escreveu sobre a magna questão, “A tragédia de Sócrates”, não encontro lá isso. Mas como tu dizes que lá está, pedi-te uma citação. Só que não tens citações para dar, né?

    Mesmo assim, poderias desenvolver a parte da justificação indirecta, posto que igualmente ela desperta o meu interesse.

  16. parece que sim , Sr. Madeira. Um general muito interessante , em abril de 2012 disse ao jornal I :
    “Garcia dos Santos denunciou a existência de corrupção na JAE – Junta Autónoma das Estradas, uma empresa pública que depois foi extinguida para dar lugar à EP – Estradas de Portugal.

    Hoje, Garcia dos Santos, em entrevista ao “i”, diz que avisou o então ministro do Equipamento, João Cravinho, do erro que seria avançar com SCUT (auto-estradas sem custos para os utilizadores). E vai mais longe. Admite haver corrupção nas PPP.

    “Tem de se admitir a possibilidade de haver ali [nas PPP – parcerias público-privadas] corrupção e da forte. Como é que se atribui a uma determinada entidade certos privilégios que não seriam naturais? É porque se calhar há alguém que se locuptou com alguma coisa. Infelizmente, outra coisa que funciona mal no nosso país é a Justiça. Nunca chega até ao fim”.

    pois é , as pp do zézito , diz o general , também foi só corrrupção -:)

  17. Cambada de desocupados!
    Tanta área para capinar após um Março e Abril chuvosos.
    O Trabalho fisico ajuda a libertar a mente.
    Bom sucesso e viva o empreendorismo!

  18. Valupi, nunca disse que é ela que justifica as escutas no texto, sou eu que acho que o texto dela ajuda a justificar o clima de voyeurismo e indirectamente as escutas. Como já disse aí acima.

  19. Dona Yo:” locuptou” é o que eu estou a pensar, dum erotismo inovador e corajoso,pois há sílabas que não enganam,ou é só um lapsus calami de quem tenta escrever locupletou?
    Qualquer das alternativas é gostosa! Felicitações!

  20. Sr. Abraão , não se alimentam os troll , é uma regra elementar , não me dê rancho. além disso, estou de dieta.

  21. Joe Strummer, mas entendi-te à primeira. Continuas é sem explicar como é que o texto dela faz isso.

    Para atalhar, chamo a tua atenção para o facto de o texto não fazer qualquer referência à dimensão da sua relação com Sócrates. Ela apenas pega naquilo que Sócrates declarou publicamente.

  22. Penso que o texto é uma reaçao a transmissão do seu interrogatorio pela cmtv e em certa medida síncrono com a reaçao do ps a transmissão da sic e ao caso pinho.
    Por outro lado não esquecer a sua condição e a percepçao publica da contaminação da perspectiva privada na esfera pública.

  23. Joe Strummer, o que ela escreveu não poderia evitar essa e outras interpretações no mesmo sentido. Isso era inevitável dados os factores em causa na sua situação. Porém, objectivamente, o texto é uma tomada de posição sobre o que Sócrates disse publicamente, e só sobre isso. Logo, estar a ir buscar outras motivações, pese a tentação irresistível, é ilegítimo para quem preze a sua honestidade intelectual.

  24. “Honestidade intelectual”, Valupi ? Ah, estas so a dizer que cada um tem a “sua”, OK. E’ uma forma de ver as coisas. Presumo que a “tua honestidade intelectual” esta ilustrada no post acima.

    Boas

  25. Deve ser como a logica. No teu critério cada um tem a “sua”. Olha la, se eu disser “o homicidio é um crime muito grave”, estou a atentar à presunção de inocência de todas as pessoas hoje acusadas de homicidio em processos que ainda não se concluiram por uma sentença definitiva ? E ha diferença entre isto e o que diz o Costa no artigo ?

    Mas ja sei que é diferente, porque no caso do Costa, houve blasfémia…

    Doentes… Doentes ou bem pagos para fazer estas figuras, que ainda é o que te desejo.

    Boas

  26. Em matéria de FCâncio já percebi há muito que o Valupi se comporta como certo público do Salvador Sobral; qualquer peido que ela dê, o Valupi aplaude. Só isso explica que insista na tentativa pueril de tentar fazer passar essa tese peregrina de que o texto por ela escrito vale de per si, que a senhora, jornalista encartada, é, por nascimento, um monumento de isenção e objectividade, e por isso plenamente capaz de deixar à porta do DN a sua condição de pessoa, as suas convicções pessoais, os seus ódios e os seus amores, sempre que se põe a dar às teclas. Seja. Admitamos que sim. Mas então porque é que o Valupi não prenda com idêntica tolerância o Costa, já que aquilo que o gajo disse é uma banalidade meridiana ? Ah, porque o Costa é PM e lider do PS. Pois! Como se nestes tempos de democracia mediada um jornalista de referencia tivesse menos poder na formação da opinião publica que um PM.

    Também achei deveras interessante o Valupi apenas ter transcrito parte do discurso do Costa. Ah, mas está lá o link para o resto. Pois está. Mas não é a mesma coisa. Esta é daquelas que merecia figurar na página dos “truques da imprensa portuguesa “, se os moços entretanto não tivessem perdido a pica. E para quem passa a vida a perorar “honestidade intelectual”, é mais um grande acidente, para dizer o minimo.

  27. quer me parecer que alinhar nesta fragmentação do PS é realmente fazer exactamente o que a oposição pretende… alinhar no julgamento fácil da tal emprensa de esgoto…
    O que Galamba e Costa disseram é a única coisa que poderiam dizer. “SE for verdade(…) ” … o resto é a tal utilização de frases descontextuadas, encomenda de quem as utiliza para destabilizar o governo!
    Alinhar nisto é assim um bocadinho como fez o PCP ao patrocinar o chumbo do PEC IV…penso que o que está em jogo se deve sobrepor a este tipo de” lavar de roupa suja” que só conseguirá levar mais rapidamente o PSD de volta ao governo.

  28. “galamba e Costa dizem que o PS tem vergonha de Socrates…” ou algo do gênero, tal como foi publicado nos diversos porta voz da oposição !

  29. Diz-se lá na minha terra alentejana: «Bacorinho manso, mama a sua e a alheia».

    E a puta da verdade é que, sem o bacorinho Costa, não haveria Geringonça, nem milagres do Centeno (cuja adulação tipo-Judas a Direita já nem disfarça), nem sequer as selfes do Tio Marcelo, que sem a Geringonça faria a mesmíssima figura triste que sempre fez toda a vida no PSD.

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