O jornalismo político tornou-se num antro de bimbalhada, fenómeno que acompanha simetricamente a decadência da direita portuguesa (a qual domina a comunicação social a toda a extensão). Os comentários ao debate entre Costa e Rio soam penosos de tão inanes – exemplo – e a obsessão com o resultado desportivo, dizer quem ganhou e quem perdeu e quem empatou, anuncia estarmos em presença de um adepto a espalhar a sua disfunção cognitiva preponderante e a aproveitar para falar de si próprio.
Entretanto, o espectáculo teve os seus momentos de interesse:
Rio - E se nós olharmos, por exemplo, àquela velha... velha, não, recente máxima das "contas certas"... o PS, conseguiu, finalmente!, na sua vida, uma vez, fazer as "contas certas"... Nós temos de ver o que é que são as "contas certas"...
Foi logo ao princípio. Um lapso freudiano. A máxima das contas certas é velha, sim senhor. É uma cassete que a direita tocou desde Cavaco, que Ferreira Leite agitou como bandeira, que Passos usou grotescamente para embrulhar um projecto de reengenharia social baseado no empobrecimento generalizado da população em Portugal. Só que “contas certas” era o que havia, juntamente com uma visão modernizadora e ambiciosa, no Governo de Sócrates até à Grande Recessão. Contas certas foi o que voltámos a ter com um Governo minoritário que estreou o apoio do PCP e do BE a políticas de centro-esquerda que efectivamente melhoraram a vida de milhões de portugueses. Contas certas não é um balanço de merceeiro pois a economia de um Estado é um bocadinho diferente do deve e haver de um negócio ou das despesas caseiras. Contas certas é o que acontece quando a maioria concorda com as opções dos Governos, mais nada.
Rui Rio disse umas banalidades irrelevantes sobre as contas do actual Governo, porque é um automatismo da mediocridade política dizer que algo falha nas contas dos Estados que não tenham ainda garantido a felicidade plena, sem ter de trabalhar nem pagar impostos, a todos os cidadãos. No seu subtexto, sem disso ter consciência, estava a apagar a cassete laranja.
Costa - Há uma coisa que é consensual, é que os números que há 9 anos se dizia que eram megalómanos, quanto ao crescimento do tráfego aéreo, foram todos ultrapassados... Portanto, sabemos que não são megalómanos..
Rio - Sim, sim, sim... [continuando a acenar afirmativamente ao longo da exposição do argumento de Costa]
Costa - Felizmente para o País, a procura aumentou muito mais. Agora, o que significa que, neste momento, nós estamos já a correr atrás do prejuízo. Todos os nossos aeroportos, designadamente aqui o de Lisboa, está neste momento com a sua capacidade para além do limite. E mesmo com todas as medidas de optimização do aeroporto, a realização do Montijo já vai chegar atrasada. Se tivermos de voltar tudo atrás, e agora a reconsiderar Alcochete, bom, não só teremos de dar uma indemnização muito significativa à ANA, como atrasaremos muito significativamente o desenvolvimento do País. E, de facto, não podemos comprometer mais o desenvolvimento do País.
Se recordarmos o que se dizia do novo aeroporto em 2009 e 2010, assim como do investimento do TGV, arrisca-se a considerar a democracia o instrumento favorito de uma conspiração dos estúpidos. Na sua fúria de conquistar o poder pelo poder, e de acordo com o instinto assassino que nos habita, a direita decadente preferiu a política da terra queimada ao interesse nacional. Também por aqui, Rui Rio passou ao lado de uma oportunidade histórica para refundar a direita.
Costa - No conceito "carga fiscal" estão os impostos mas estão também as contribuições para a Segurança Social...
Rio - Sim...
Costa - Portanto, nos números que tem para a carga fiscal estão também essas contribuições para a Segurança Social... Estão ou não estão?...
Rio - Estão...
Costa - Pronto, muito bem.
Cristas e Rio, e seus tenentes e arraia-miúda, andaram meses e meses a martelar no bordão do “maior aumento da carga fiscal de sempre”. A opção tinha algo de inacreditável pois o actual Governo baixou os impostos e, antes e acima de tudo, ficava com uma plataforma para destacar os seus triunfos: a carga fiscal é a receita fiscal + esta aumenta porque a economia melhora, porque há mais portugueses com mais dinheiro.
É encantador ver como a honestidade intelectual de Rio acaba por se sobrepor à hipocrisia e bronca demagogia dessa converseta.
Rio - Comecei na política, ainda antes do 25 de Abril, a lutar pela democracia. Tenho agora um país em que os julgamentos em vez de se fazerem no tribunal, muitos eles, fazem-se nas tabacarias e nos ecrãs de televisão. Isto é absolutamente inadmissível. [...] As pessoas não podem ser penduradas na praça pública da forma como têm sido. [...] Quase que volto a ter 17 anos ou 16 anos, quando entrei na política, justamente para combater isto.
A Justiça, por todas as razões e mais alguma, teria sido o território perfeito para Rio salvar a direita da decadência e realmente superar Costa em autoridade política. Lembre-se que a marca Rio, antes de se ter lançado à conquista da presidência do PSD, o posicionava como um “alemão”, alguém que viria salvar os portugueses de si próprios graças a uma vontade inflexível que nos daria ordem e disciplina como nunca se tinha visto nesta terra de madraços e estróinas. Rapidamente se viu que essa máscara parecia carnavalesca perante o crescimento da importância política de Centeno. Restava a Justiça para Rio exibir um fulgor visionário disruptivo e fundador. Infelizmente, não passava de uma exibição narcísica.
O homem que ontem deixou estas admiráveis e corajosas palavras acima citadas, que atingem em cheio a putrefacção moral e perversão do código deontológico do jornalista características da legião dos pulhas, é o mesmo que se entrega à mais básica calúnia mediático-judicial no tribalismo selvagem da disputa eleitoral, assim vaporizando a sua credibilidade e integridade:
Um jornalismo político que perante o debate entre dois candidatos a primeiro-ministro continua a bater punhetas a grilos num berreiro de vacuidades merece desaparecer. Venha aquele que se concentre em responder a esta pergunta: que ganhámos nós?