A direita vítima de congestão socrática

Perante o risco de desaparecimento do poder estruturante da direita no Parlamento – “Maioria — que percentagem?” -, principalmente pelo esperado aumento da abstenção, votos brancos e nulos à direita dada a desmobilização e confusão nesse eleitorado, fica mais claro um dos factores que contribui para esse fenómeno de consequências imprevisíveis; posto que, como refere Rui Oliveira e Costa, poderá ocorrer uma inaudita transformação no regime desde 1974. Esse factor chama-se Sócrates.

Apesar de já ter saído do PS, e de não ser verosímil que venha a ter capital político para funções de representação do voto popular após a “Operação Marquês” estar arquivada seja lá quando e qual for o seu desfecho, apesar de não existir ninguém que seja “socrático” no sentido de aparecer no espaço público como paladino, sequer teórico, de um qualquer projecto ou legado herdeiro dessa ex-liderança do PS e do Governo, os discursos da direita triunfante (aquela que, há décadas, ocupa PSD, CDS e impérios mediáticos engajados e congéneres, onde se inclui destacadamente a Cofina e a Impresa) são obsessiva e fanaticamente socráticos – no sentido em que a figura, a memória, a expectativa, o mero nome de Sócrates, criaram um vórtex que devorou a inteligência, sentido comunitário e talento político na direita decadente. Decadente não por causa de Sócrates mas decadente por Sócrates ser a sua principal (única?) causa.

Exemplo na berlinda onde acabo de tropeçar, o de João Marques de Almeida. Se sairmos à rua com a intenção de sabermos quem é a personagem através de perguntas ao bom povo que passa nada iremos descobrir. É um ilustre desconhecido com a sua fama circunscrita ao mundo da madraça e corredores alcatifados da oligarquia. E é um exemplo folclórico do direitolas ressabiado e rancoroso para quem Sócrates é o maná e o oxigénio dos seus neurónios a agonizar num deserto intelectual.

Desfrute-se:

«A propaganda benfiquista é o resultado de uma estratégia do clube desde que contratou o mesmo director de comunicação que trabalhou para o governo de Sócrates. Lembram-se da estratégia de comunicação dos governos socialistas de Sócrates para intimidar os seus adversários? O Benfica de Luís Filipe Vieira segue a mesma estratégia. A propaganda benfiquista tentou, ainda antes do início do campeonato, criar um facto consumado, “o Benfica será inevitavelmente campeão”, para intimidar os seus adversários. Tal como nos tempos de Sócrates, no caso com o PS, quem se mete com o Benfica leva.»

Fonte

A temática geral do texto remete para não sei quê do Porto e do Benfica, consta que há uns que não gramam os outros e vice-versa. Apesar da irracionalidade a pedir medicação, isso de se pretender enfiar Sócrates numa querela destas, o facto é que este Almeida ficou feliz da vida por vislumbrar a enésima oportunidade para se lambuzar no objecto que o fascina. Ora, fascinado fiquei igualmente eu com o grau zero de contacto com a realidade a que este fulano chegou publicamente. De que raio estará ele a falar quando invoca uma “estratégia de comunicação” para “intimidar adversários”? Quais eram os “órgãos de comunicação” que estavam ao serviço “dos governos socialistas de Sócrates” (para além do Corporações, esse temível blogue) e quem foram os adversários que se sentiram “intimidados” (queremos os nomes desses cagarolas)? Ele não explica, em vez disso recorre a uma maravilha retórica: “Lembram-se daquilo que não vos estou a dizer o que seja?” Silêncio em frente dos monitores… Claro que sim, pá, quem é que pode esquecer isso de que não faz ponta de um corno ideia do que seja?!… Eis uma técnica sofística genial. Infelizmente, para a qualidade do debate político ou outro em Portugal, estamos perante a escola retórica da Feira da Malveira.

A direita decadente, na verdade, não o podia ter evitado. É como uma cobra que engoliu um mamute congelado e agora não o consegue digerir nem se consegue mover. Está a agonizar, vendo o seu corpo a romper-se e desfazer-se em pedaços, mas até ao fim em êxtase hipnótico com o espectáculo da cabeça de Sócrates pousada numa bandeja.

21 thoughts on “A direita vítima de congestão socrática”

  1. Boa malha, Valupi!
    Mas olha que nem só a direita se sujeita a esse ridiculo. Viste o que se passou ontem no Martins-Cristas, quando a bloquista sacou do exemplo “sócrates” como um dos beneficiários liquidos da amnistia do Nuncio ?
    Ora aí tens !

  2. Não vi esse debate nem verei, certamente, muitos outros devido à banalidade que o mundo político absorveu do estilo “bola desportiva” com que diariamente as tv massacram qualquer parte, ainda sã, da nossa capacidade mental.
    Mas que a Catarina segue à risca o medíocre pensamento político do seu antigo fundador e actual ideólogo do Bloco, cada vez mais encostado à deontologia política da “sic”, (à parte alguma rectórica esquerdista pequeno-burguesa) isso é uma constatação quase evidente de que a dita Catarina do Bloco e a dita Cristas do CDS estão cada vez mais semelhantes no desespero, embora talvez por motivos diferentes, de extorquir votos aos ingénuos e ignorantes.

  3. Há, queiram ou não,um estilo,uma escola,um exemplo Sócrates que enche de pesadelos as noites da canalha.
    Coragem, é o nome da diferença. Sócrates é um homem corajoso e tal mata de raiva e inveja os medrosos e poltrões.
    Enfrentar o inimigo na ágora,de mãos nuas de tudo além da razão,é um espectáculo único, só admirado por quem lhe pressente a tremenda força que sustém o ex-primeiro ministro.
    Quantos, no seu lugar, não estariam já ao abrigo da matilha raivosa!

  4. Se Charles Manson pode ter fans e seguidoras, porque não Sócrates?

    Sócrates a causa da decadência da direita ehehehe. Quando muito da decadência das contas públicas.

    É claro que o PS será farol de Portugal por muitas décadas.

  5. O racha-sindicalismo costista no caso dos motoristas levou-me, como escrevi aqui, a decidir transferir o voto de Outubro do PS para o Bloco. A sacanice referida pelo MRocha no debate entre a Martins e a Cristas, que também vi e me provocou vómitos, fez-me mudar de novo a agulha. Mal por mal, e apenas porque a abstenção ou o voto útil iriam favorecer a direita, lá terei de voltar a fazer o que fiz quase toda a vida: meter a cruzinha na CDU do bailarino Jerónimo.

    Já agora, se o jornalismo não estivesse há muito a fazer companhia ao pássaro Dodô, poderia ter ocorrido ao moderador/entrevistador perguntar à coordenadora Martins: “Desculpe-me o oportunismo, mas isso é uma novidade absoluta, uma cacha que não posso deixar de aproveitar: que dinheiro foi esse, de Sócrates, que beneficiou de um perdão fiscal de compadrio? Em que banco(s) estava? Para que banco(s) foi transferido? Quando? Quanto? A quanto montou o perdão?”

  6. Os jornalistas estão avençados ou vendidos . Basta ver a atitude de “jornalista” de um tal B Ferrão na SIC, a entrevistar A Costa . Um nojo pegado que até levou A Costa , no final a dizer para fazer menos perguntas para as não encavalitar…

  7. E o que se disse aqui no Aspirina, de António Costa, acusando-o praticamente de difamação a Sócrates, por ele na entrevista se ter referido às “más memórias” dos portugueses. sobre as “maiorias absolutas”, não terá sido também algum tipo de congestão? Acabei de saber há pouco que o primeiro ministro afirmou que nem lhe passou pela cabeça estar a referir-se a Sócrates quando disse o que disse sobre as maiorias absolutas. Era o que faltava, rematou.

  8. “Era o que faltava”, subliminarmente bolçado e aprendido numa escola-que-se-não-é-seminarista-imita-muito-bem, deve traduzir-se assim:

    “Era o que faltava que eu desviasse por um segundo a atenção que dedico aos insignes problemas da nação para me lembrar da existência de criaturas tão irrelevantes como José Sócrates.”

    “Era o que faltava que eu desse a José Sócrates a importância de o introduzir como variável (ainda que secundária) nas complexas equações que o país me pede para resolver”.

    “Era o que faltava que eu, presente e futuro da nação, perdesse um microssegundo que fosse com um indivíduo que teima em não entender que pertence ao passado.”

    “Era o que faltava que eu tivesse agora que aturar um gajo que, por mais pazadas de terra que lhe atirem para cima, teima em continuar mal enterrado.”

    Vê quem quer, mas há quem prefira continuar ceguinho. Bom proveito.

  9. Nem ceguinho, nem faccioso. Nunca fui, nem sou, anti-Sócrates, pelo contrário, e é positivo o meu parecer sobre a sua acção governativa, já o disse e repito. Assim como tenho muita consideração pela acção governativa de António Costa, cada vez mais. Não são perfeitos, pois não, e eu também não sou. Quem é? Nem sempre actuaram ou actuam como eu gostaria? Pois não e, naturalmente, ainda bem. Pensamentos e pareceres perfeitos, justos, impecáveis, só dalguns comentadores que por cá andam que, vá lá, muitas vezes bem podiam estar calados.

  10. Pois, pois, é esse o grande problema: não conseguir manter os gajos calados. Chama-se liberdade de expressão.

  11. Cristas do CDS amandou esta boca para a Catarina do Bloco; “Façam gente, façam filhos”!

    A Catarina a esta nem piou.

    Que pariu!

  12. “Bem podiam estar calados”, mas não querem e, felizmente, ninguém os pode impedir. É que
    não sou só pela liberdade de expressão, ninguém diz não ser, respeito-a e sou-lhe fiel, pelo que digo e como o digo.

  13. Essa da Cristas parideira não ouvi, não sei o que a Martins respondeu ou deixou de responder, mas sei o que lhe respondia eu:

    “Fodam mais, rezem menos!”

  14. bom, teremos de agradecer à direita a sobrevivência do Aspirina , posto que a maioria das postas são reacções à faladura sobre o zézito, que teima em não querer ser enterrado apesar de já morto.

  15. ora, JP, se não fosse do zézito o Valupi postava sobre quê ? já não sabe falar de mais nada. o tema ocupa-lhe 90 % do coração. e o aspirina é o Valupi, o resto é decoração.

  16. A pobre da cota tem dois vibradores. A um chama Zezito, o outro é o Aspirina, um para a frente, outro para trás, as mais das vezes os dois ao mesmo tempo na vante e na popa, só vibradores de esquerda lhe acordam os engelhados entrefolhos de direita, coitada.

  17. o pobre da criança Cerbero ainda não saiu da fase de comer fezes, ora come pela boca ora enfia pelo nariz, ora as vomita todas, que é que se há-de fazer ? olha filho , espero que cresças depressa e a coprofagia te passe.

  18. Yo andas distraida, tantos posts do Val sem tocar no mafarrico, aliás em alguns vem sempre alguém que o consegue meter no meio, inclusive tu!

  19. Eu, Peter Pan, me confesso: quando for grande, em sex shops da Rua Direita consumirei nunca, vibradores de direita usarei jamais (urticária rules), meus eternamente jovens entrefolhos estimularei sempre com material da ‘sinistra’. Ámen.

  20. JP, há alguns , mas a maior parte, nos últimos tempos não.. mas posso começar a fazer a estatística- :)

    vá ,Cérebro , larga o rabo , vai dormir a bebedeira e deixa os vivos falar.

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