A solução à espanhola que nos teria salvado da destruição insana

«A Espanha não teve o chumbo do PEC 4, e, portanto, pôde evitar o resgate; e, por isso, nunca teve a sua credibilidade internacional tão afectada como Portugal teve.»


Primeiro-Ministro de Portugal, Setembro de 2019

*_*

Não é possível encontrar, em toda a Internet, uma referência que seja a esta declaração de Costa lançada para o éter mediático na sua última entrevista à SIC (se existe, rogo que me indiquem onde para corrigir). Suponho que também não existam referências indirectas no comentariado (mas sei lá). No entanto, contudo, todavia, esta é só a declaração política mais importante em Portugal desde [é favor preencher a gosto – ou seja, com desgosto].

O momento que leva ao atrasadíssimo reconhecimento público por parte de Costa do que foi a defesa do interesse nacional e do bem comum por parte de Sócrates e de quem com ele estava nesse Governo – até aos limites do imaginável e até mesmo uma beca para além – começa no minuto 16 da entrevista. Bernardo Ferrão, uma infeliz e incompetente escolha para o jornalismo político que só se justifica pela sua disponibilidade para o sectarismo rasteiro, achou que ia entalar o entrevistado com a comparação entre Portugal e Espanha. Costa agradeceu a benesse e limpou o rabinho ao entrevistador. Como o Ferrão não parava de escavar o buraco onde se enfiou voluntariamente, o actual secretário-geral do PS e primeiro-ministro em funções ia ficando saturado e, na procura de ainda mais argumentos na categoria do “isto é óbvio, pá”, cometeu o deslize de ir parar aos idos de Março de 2011. Rapidamente o assunto ibérico na berlinda deixou de estimular a perseguição canina do “jornalista”.

Aqueles que espatifarem o seu rico tempo a ouvir esse trecho da entrevista ficam autorizados a tirar umas ilações correspondentes sem o mínimo risco de errar. Por exemplo, passa a ser inevitável ver em António Costa um alto responsável político que teria tentado, com o máximo das suas forças, evitar que o PEC 4 fosse chumbado usando exactamente o mesmo racional dos governantes ao tempo. E, num outro exemplo, é fatal ver em António Costa um cidadão que consegue calcular o valor da pérfida e estupidamente colossal destruição em capital financeiro, estrutura económica, tecido social, qualidade e segurança da vida pessoal – a que se soma o número de vidas que se desgraçaram e perderam em doenças e suicídios em consequência das decisões tomadas pelos partidos que chumbaram o PEC e impuseram o resgate de uma Troika fanática da “austeridade salvífica” que encontrou em Passos o carrasco guloso para cumprir as ordens e embriagado de desprezo para aumentar a devastação – num fenómeno de anos que, como também referiu na entrevista, só agora começa a permitir a recuperação dos instrumentos internacionais e estatuto do País para conseguir ter acesso a capitais necessários à boa gestão das contas públicas e à promoção dos investimentos estruturais por fazer há uma década.

Houve quem, para além de Sócrates e do PS ao tempo, tivesse antecipado o que iria acontecer se o PEC 4 fosse chumbado. Eram umas raríssimas e rarefeitas vozes, inaudíveis no berreiro furioso que queria sangue numa estratégia de terra queimada, vingança rancorosa contra aquele perante o qual se sentiam e sabiam inferiores e a captura do poder pelo poder. Infelizmente, tragicamente, em 2011 não pudemos ter uma solução à espanhola; confirmou Costa e confirma o silêncio cúmplice que abafou a sua extraordinária e fundamental recordação.

20 thoughts on “A solução à espanhola que nos teria salvado da destruição insana”

  1. Marco Antônio Costa ou derrubas o governo ou derrubamos-te a ti,Cavaco o perseguidor incorregivel, vingativo,incompetente e faccioso PR.foram os causadores entre outros elementos do PSD a quem devemos esta parte negra da história e os sacrifícios incomensoraveis dos Portugueses.

  2. Valupi, onde escreveste “limpou o rabinho ao entrevistador”, não quererias antes escrever “limpou o rabinho COM O entrevistador”? Ou seja, usou o entrevistador como papel higiénico? Julgo que é esse o sentido da construção.

  3. Pensar que essa desgraça teria sido evitada se o PM na altura tivesse a capacidade de alterar o seu programa de forma a obter o apoio dos partidos à sua esquerda, abandonando o programa com que governava com o apoio do PSD.

  4. E como o PM não alterou o seu programa como queriam o PCP e o BE, estes, vingativos, juntaram-se ao PSD e ao CDS e com o beneplácito do Cavaco, chumbaram o PEC4, abrindo o caminho à Direita e à Troika.
    E ficámos todos avernavios., ou seja, tramados. Foi assim, não foi?

  5. Não, não foi assim. Como o programa continuou o mesmo eles continuaram a votar na mesma. Quem se lhes juntou e assim derrubou o governo minoritário foi o PSD que alterou o seu sentido de voto. Assim é que foi.

  6. Quaisquer que sejam as voltas que se lhes der, o PSD, o PCP e o BE, de comum acordo, e o aplauso do senhor Cavaco, votaram contra, sabendo bem, porque de inocentes pouco ou nada têm, quais as consequências. Sei que lhes custa engolir, mas foi assim.

  7. Tem toda a razão o Manojas. Por altura do chumbo do PEC iv havia na AR uma clara maioria de esquerda. Parece ainda haver quem prefira manter-se em negação quanto a esse facto histórico.
    Eu sei que o prórprio Sócrates prefere explicar esse cataclismo histórico pela acção da “mão atrás do arbusto”. Como também não serve a ambição do maquiavélico Louçã, que poderá ter sonhado vir a ser o Tsipras da Ibéria. Mas nada disso pode servir de desculpa para a traição da esquerda da esquerda ao seu eleitorado.

  8. avernavios,

    decerto devias andar a ver navios na altura. só isso explica que não te tenhas apercebido do discuros do Pedro Silva Pereira no encerramento do debate sobre o assunto. está lá tudo bem explicado, com desenho e tudo, para quem pudesse padecer de problemas de literacia. e como a história provou, de dramatização teve zero.

  9. “nte las críticas por dejar que fuese un ministro quien anunciase el rescate, el presidente improvisó una comparecencia ante los españoles a media mañana del día siguiente, domingo 10 de junio. Rajoy rechazó denominar al acuerdo un rescate, porque “no tiene nada que ver con las situaciones de otros países, no tiene condicionalidad macroeconómica, no afecta al déficit”, prometió. Pero, al final, la tuvo. En el Memorando de entendimiento entre la Comisión Europea y España posterior al rescate aparecía muy claro: “España deberá cumplir plenamente sus ..”

    https://www.eleconomista.es/economia/noticias/6776136/06/15/Se-cumplen-tres-anos-del-rescate-a-Espana-que-nunca-ocurrio.html

    nem o resgate que “nunca existiu, nem o estar 1 ano sem governo afectou a reputação do país porque a Espanha não liga a essas coisas de bons alunos e diz que disse e tal formalismos.

  10. Uns intransigentes, esses esquerdalhos, sem qualquer flexibilidade como esta à vista. Ja agora, peço aos nostalgicos desse periodo aureo da vida nacional que esclareçam uma coisa, porque raio é que o programa de salvação nacional que nos teria propulsado para o paraiso se chamava “PEC IV” ?

    Boas

  11. bem, a Espanha não teve o chumbo do pec iv porque nunca teve sequer um pec iv, não se pode chumbar o que nunca esteve a aprovação ; e teve um resgate

    deve ser por isso que ninguém fez ondas com o que o pm disse, não disse coisa com coisa.

    “España es uno de los países que más crece de la Eurozona, está cerca de salir del procedimiento de déficit excesivo y, según las previsiones del Gobierno, en 2020 habrá más de 20 millones de ocupados. Pero, aún así, en ese mismo año la Troika seguirá supervisando la evolución de la economía española. Y es más, lo seguirá haciendo hasta 2025, …”

    https://www.elmundo.es/economia/macroeconomia/2017/05/25/5925d3d1468aebf9098b4627.html

  12. A espúria aliança da esquerda revolucionária com a direita reaccionária no caso do PEC IV foi uma reprise, salvo a devida escala, do Pacto Hitler-Estaline na 2ª Grande Guerra; uma aliança para dividir o espólio do poder que, no fim, serviu para reforçar o poder nazi e tal como o outro não evitou o posterior ataque alemão à URSS também por cá reforçou o poder da direita e o subsequente terramoto passista aplicado como catarse dos hereges portugueses calaceiros.
    Do trotskista Louçã não era de esperar diferente que maquiavelismo oportunista e calculista tímbre dos políticos medíocres mas outra coisa esperar-se-ia do batido e sabido cunhalista Jerónimo que desta vez não teve a visão de Cunhal quando, num golpe de rins impensável, à última hora mandou votar Soares contra Amaral.
    A lição foi tão forte que lembraram-se dela ainda no rescaldo das últimas eleições legislativas face a Costa e originou a já universal célebre geringonça.
    Contudo, o pecado original dessa maléfica aliança foi um acto que deixou marcas indeléveis e irreversíveis para todos os intervenientes.
    Logo, para os principais instigadores e promotores do golpe lesa-povo; Cavaco, Passos e Durão e mais uns quantos figurões menores que incentivaram a golpada como o nosso Marco António e no conjunto e por tabela todo o PSD são, hoje em dia, gente detestada e até desprezível pelos portugueses.
    Depois para o PS que não soube ou não foi capaz de desmontar e apontar os autênticos autores golpistas salteadores do pote no momento certo e deixou correr a versão dos culpados o que obrigou Costa a refugiar-se no ” à justica o que é da justia” sem ter em conta o grave problema que é o anátema político que deixa em herança ao partido.
    E, do mesmo modo, os partidos revolucionários PCP e Bloco que ainda não entenderam a grandeza e profundidade da gigantesca bancarrota total que foi a decadência e apodrecimento de morte natural do “socialismo real”. Incompreensão e cegueira que os leva a actitudes como essa de levantarem o braço ao lado dos reaccionários contra o país na miserável visão da ideia política de que obteriam ganhos nas urnas e os deixou encurralados e obrigados de continuarem ao lado da direita imitando-a e citando-a na versão falsa por esta montada e narrada. E, de tal modo, que ainda recentemente levou a Catarina a soltar a desprezível ideia de que Sócrates beneficiara do “apagão” do Núncio CDS juntando-se aos crápulas acusadores sem provas na praça pública nem julgamento.
    Todos, políticos e não políticos mas, especialmente, os partidos do poder carregam essa cruz do PEC IV perante o desfilar do calvário da vida política portuguesa. Uns por serem promotores e participantes activos na golpada outros por consentirem que a golpada se consumasse como farsa.
    E seja qual for o desfecho do caso Sócrates isso já em nada alterará o caso PEC IV em si mesmo como remédio e cura da má consciência colectiva que tal caso semeou e disseminou como uma peste.

  13. Mas o pior é que o argumento para chumbar o PEC IV, tanto à esquerda como à direita do PS era a de que os portugueses não podiam suportar mais apertos e todos sabem/sabiam o que aí viria com o chumbo. Há várias palavra para definir isso e algumas já foram ditas mas o denominador comum é NOJO!
    O facto de ser o IV era precisamente porque gradualmente os apertos já vinham sendo implementados de forma moderada e não radical como vieram a ser, o que acabou por liquidar a enferma economia.
    Falam no remédio que era forte; aquilo não foi remédio, foi veneno e injectado nas veias para ser mais rápido, segundo o enfermeiro de serviço!
    Julgo que as pessoas em geral jamais se esquecerão quem na realidade foram os coveiros do país em 2011.
    A CS dita de referencia pode tentar vender o que lhes convém ou cantar a missa encomendada por quem lhes põe a sopa no prato apontando um conveniente Judas e até as moedas julgam ter encontrado como prova, bem têm cavado para as encontrar.
    Sócrates decerto teve responsabilidades, pois estava lá, no pior momento de crise internacional que este país enfrentou desde a II GG, felizmente, porque se lá estivesse Durão ou Santana… Tentem imaginar o filme de terror! E o pior coveiro de todos, ficou-se a rir, embora coitado, mesmo a rir é o estereotipo daquilo que representou.
    Há muita coisa por abordar, investigar, a vários níveis e espero que um dia se faça justiça, pois sinto que ainda não estou devidamente informado do que na realidade se passou, há muito ruído pelo meio, mas sem a visão orientada dos media para encontrar um bode expiatório que purgue a nossa consciência, como muito bem disse o José Neves no último parágrafo, lapidar!

  14. Quaisquer que sejam as voltas que se lhes der, não houve uma consertação política que permitisse o funcionamento da maioria de esquerda. E isso era uma coisa possível como depois de veio a provar. O que a inviabilizou foi a (trágica) inexistência de um político com postura de negociação, de entendimento. E isso foi uma coisa que depois existiu como se veio a verificar.

  15. Não nos deixe avernavios, diga-nos claramente o que é que o suposto político inexistente, deveria ter consertado e negociado com o PCP e o BE, para que estes não ajudassem a derrubar o governo.

  16. com o pcp eo be não sei, mas devia ter feito como don mariano e negociar com bruxelas e troika de forma mais competente e não ter arrastado o assunto até já não ter remédio , cheio de medo que metessem o nariz nas asneiras de corruptelas todas que fez e que gora vamos sabendo pouco a pouco

  17. Há de facto mais marés que marinheiros e a História (que talvez seja uma das facetas de Deus…), às vezes, escreve mesmo direito por linhas tortas.
    O histórico chumbo do PEC 4 , a 23 de Março de 2 011, teve consequências dramáticas para Portugal e para o Povo português, mas ao mesmo foi uma bênção para as “élites” reacionárias da Nação, acarinhadas e protegidas pelo asqueroso sociopata de Belém e oportunisticamente amalgamadas nos Partidos que se alcandoraram ao Poder e se lambuzaram, à pala da desgraça nacional, na sequência das viciosas eleições de 5 de Junho desse ano.
    Poderia esse chumbo ter sido evitado?
    Em minha opinião, sim, mesmo com a inabilidade de Sócrates para negociar à esquerda e a sua ingénua crença de que o ppd e o prezidento de então guardariam uma réstea de decência e de patriotismo, o que estava à vista de todos não ser o caso. Essa ingenuidade custou-lhe cara.
    Mas o BE e o PCP poderiam ter-se ao menos abstido e não ter deixado as suas indeléveis impressões digitais no punhal dos canalhas, também é verdade. E pagaram caro, em termos eleitorais, esse seu oportunismo.
    Mas, passado este tempo e já com as piores feridas saradas, ou quase, o chumbo do PEC 4 acabou por se revelar providencial, a prazo, para despoletar nos Portugueses uma firme e duradoura consciência de que os actuais Partidos da Direita perderam toda e qualquer credibilidade e respeitabilidade; para dar valor a uma governação esplêndida e como nunca houve em Portugal, pelo menos, desde a revisão constitucional de 1 982; e ainda para despoletar uma viragem de carácter histórico e ímpar, até a nível europeu, na Política nacional, impensável desde o 11 de Março de 1 975, com a bem sucedida aliança da Esquerda parlamentar!
    É caso para dizer: mal sabiam os obreiros da perfídia e da traição do 23 de Março o que o seu acto lhes reservava, como exemplar castigo…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.