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Foi fantástico ter afundado Portugal, recorda Relvas com saudade

«Se tudo falhar "nesta nova geração", o regresso ao passado é sempre uma hipótese a considerar. "Acho que Passos Coelho, não nesta fase, mas se esta nova geração não for capaz de agregar e de somar, eu não vejo que Passos Coelho e Paulo Portas estejam afastados da vida política", realça Relvas que, mais à frente nesta entrevista à TDM, nota que "há sempre gente que pode regressar" juntando aos nomes já citados o de Marques Mendes. "Em caso de emergência, aí estarão", sublinha.

No caso de Passos e Portas, a justificação é simples: "o governo em que ambos estiveram foi um governo que salvou Portugal".

"A história será muito mais simpática do que a realidade em relação àquilo que foi feito. Foi muito difícil, foi muito duro? Foi. Mas foi fantástico recuperar o país em quatro anos, parece que aquilo que vivemos a partir de 2016 foi algo que nasceu de geração espontânea. Não, não nasceu de geração espontânea. Nasceu de muito sacrifício, em primeiro lugar dos portugueses", destaca.»

Salvação do centro-direita? Relvas aponta Passos e Portas se nova geração falhar

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Cabalas do Bártolo e o azar dos Távoras

«Quase no final do interrogatório a Azeredo Lopes, em que o ex-ministro passou de testemunha a arguido no caso de Tancos, o juiz de instrução, João Bártolo, entra num diálogo mais aceso com o ex-ministro da Defesa. O magistrado pergunta se não acha estranho que a saída de cena da procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, tenha coincidido com as sucessivas pressões do coronel Luís Vieira, então número um da Polícia Judiciária Militar (PJM), junto do Presidente da República e do Governo no sentido de interceder junto da PGR para que a investigação voltasse para as mãos daquela polícia. “Logo por azar dos Távoras tinha de haver nesta altura a questão da recondução do mandado da senhora procuradora, que nunca ninguém percebeu politicamente. Porque sai ela? E logo por azar até bate certo”, diz João Bártolo.

A resposta de Azeredo é emotiva: “Num Estado de direito, o coronel Vieira consegue ter um impacto em dois órgãos de soberania no sentido de obter uma sanção de não renovação da senhora procuradora? Isso seria inconstitucional.” A troca de argumentos prolonga-se por vários minutos, com o ex-ministro a rematar: “A questão é tão absurda que me recuso a acreditar. Não tem a ver o alho com o bugalho.”»

Juiz quis saber se houve complô entre Belém e São Bento

A fazer fé no que a notícia relata, aqui temos um juiz – no exercício das suas funções – a lançar uma homérica teoria da conspiração em registo de minis e caracóis numa esplanada da Caparica. O troco veio na forma do método Manuel Soares, exposto centímetros abaixo nesta página, onde se aponta para a irracionalidade da cabala lançada por quem, supostamente, será um especialista em Estado de direito democrático.

A estultícia e desplante das suspeições “[…] que nunca ninguém percebeu politicamente. Porque sai ela? E logo por azar até bate certo.“, a serem verdadeiras, chegaria para abrir um processo disciplinar. É que se este juiz acha que pode fazer comícios políticos e espalhar merda da grossa contra os alvos da sua fantasia enquanto interroga testemunhas, e se o Conselho da Magistratura e a magnífica associação sindical do magnífico Manel acham idem e aspas, o azar dos Távoras é o nosso. É o da República.

A cabala do século na Justiça portuguesa

O presidente da Direcção da Associação Sindical dos Juízes Portugueses fez um pedagógico exercício desconstrutivo das teorias da conspiração contra a Justiça com o qual é facílimo concordar. Aqui vai alho:

«Quando algumas pessoas poderosas são incomodadas pela justiça, aparecem as teorias da cabala. Não é só em Portugal. Sarkozy queixou-se do mesmo, Berlusconi disse isso e pior, Lula não tem gritado outra coisa, e Trump está farto de amuar com esse argumento. Quem quiser escrever a história das nossas cabalas judiciais tem muito por onde escolher. Do caso “fax de Macau”, nos anos 1980, ao recente caso de Tancos, passando pelos processos Casa Pia, Universidade Moderna, Freeport, Face Oculta e Operação Marquês, não faltam teorias da conspiração. A mensagem subliminar repete-se sempre: uma guerra subversiva da justiça contra a política. O objectivo já toda a gente percebeu: desacreditar a justiça e controlar a “rebeldia” daqueles que se atrevem a ameaçar uma impunidade tão conveniente.

Antes de 25 de Abril de 1974, como a justiça não incomodava o poder, não havia cabalas judiciais. Isso viu-se em 1967, com o abafamento do escândalo de pedofilia Ballet Rose, que poupou os verdadeiros culpados e acabou na condenação de duas pobres prostitutas. Era isso que os teóricos das cabalas queriam, regressar ao tempo da justiça independente mas irrelevante.

Se quisermos ser sérios, facilmente percebemos que só uma análise superficial da realidade, que se demita das mais elementares regras do bom senso, é que permite acreditar em tamanho disparate. Proponho um exercício para demonstrar o que acabo de afirmar. Vamos imaginar que sim, que é verdade, que a justiça conspira contra os políticos. Para facilitar, serei eu o conspirador. A ver onde isso nos leva.

A primeira coisa a fazer seria definir o objectivo (por exemplo, prejudicar um partido), escolher o alvo (um político inocente) e estabelecer um plano de acção. A seguir, teria de ter na mão polícias para fabricarem provas, peritos para falsearem relatórios, procuradores do Ministério Público para construírem acusações mitológicas e juízes — das várias instâncias — para prenderem e condenarem. E não poderia esquecer-me de arregimentar a imprensa toda para a vigarice, senão era desmascarada quando o processo se tornasse público.

Aqui é preciso uma pausa para lembrar que não seria eu a escolher os cúmplices. Os polícias são designados pela sua cadeia hierárquica, os procuradores têm os inquéritos que os coordenadores lhes atribuem e os juízes são sorteados para os processos por um sistema informático. Portanto, para que a minha conspiração desse certo, ou confiava estupidamente na sorte, ou arranjava maneira de me infiltrar secretamente nas estruturas hierárquicas da Polícia Judiciária e do Ministério Público e no departamento do Ministério da Justiça que gere o sistema informático dos tribunais.

Depois, na execução do meu plano maquiavélico, teria de me reunir com os cúmplices todos em completo segredo, distribuir tarefas, dizer a cada um como actuar e contar com a sua obediência. Supondo que cumpriam todos à risca as minhas ordens e que nenhum jornalista era suficientemente esperto para me apanhar, consumava-se então a cabala.

Está-se mesmo a ver a inédita conjugação cósmica que tinha de acontecer para tamanha conspiração ter êxito e nunca ser desvendada. Pessoas de diversas proveniências, que não se conheciam umas às outras, escolhidas por critérios não domináveis, eram todas da mesma simpatia política, eram todas de confiança para não denunciarem a tramóia, eram todas loucas para correrem o risco de serem despedidas ou presas e eram todas capazes de guardar um segredo destes. E agora, se multiplicarmos um absurdo destes pelas dezenas de teorias de cabala judicial que já ouvimos, a única conclusão a que chegamos é que tinha de ser tudo doido para uma coisa destas ser real.

A credibilidade das teses de cabala é zero. Não passa de uma cortina de fumo para entorpecer a capacidade crítica das pessoas desatentas e cimentar o apoio dos correligionários políticos mais empedernidos. Não é preciso ser-se cientista da NASA para ver isto. As pessoas razoáveis são capazes de discernir que a justiça pode cometer erros — inevitáveis em qualquer sistema humano — e pode mesmo não ser sempre tão rápida como se exigiria, mas actua com objectividade, com isenção e de acordo com o princípio da legalidade. Quem diz o contrário sem a mínima evidência para nos impingir teorias absurdas é que está mal e quer esconder alguma coisa.»

Autópsia das cabalas judiciais

Realmente, não é preciso ser cientista da NASA, ou sequer vendedor de farturas na feira, para ver isto. Basta estar munido de módica honestidade intelectual. O digníssimo escriba esforçou-se no apelo ao senso comum, e ao bom senso, de modo a captar fatalmente a adesão do leitor para a tese colocada no frontispício: essa malandragem da política que se queixa da Justiça não quer é ser apanhada.

Ora, acontece que os magistrados do Ministério Público gozam de autonomia e os juízes gozam de independência. Estes estatutos correspondem a blindagens constitucionais que tornam qualquer intervenção de políticos na esfera da Justiça algo muitíssimo mais improvável de ter sucesso do que a intenção propalada nas “cabalas” contra a Justiça. Nestas, admite-se que o extraordinário poder dos magistrados (autonomia, independência, recurso a forças e instrumentos policiais) possa ser usado incorrectamente, imoralmente, ilegalmente. Não é irracional presumir que tal possa acontecer, por mais improvável que factualmente tal ocorra como nos garante o probo Manuel Soares, pois a lógica com que esses mesmos magistrados elaboram acusações e decidem condenações admite como factor decisivo o recurso a vantagens do poder e a existência de motivações de variegada ordem nos agentes da Justiça cruzadas com a multíplice oportunidade para a violação de deveres e leis – ou seja, a Justiça e os magistrados têm incomensuravelmente mais poder persecutório e coercivo do que os políticos.

Admitindo como boa, até excelente, a argumentação deste importante magistrado, decorre como evidência ainda mais fulgurante que é impossível um qualquer Governo dominar o Ministério Público em ordem a impedir, travar ou fechar investigações, impossível a um qualquer político coagir um juiz a decidir contra a Lei. E isso leva-nos directamente para a acusação da Operação Marquês onde, a ser aplicado o racional que o texto dá como válido, teríamos de inocentar já todos os acusados e, acto contínuo, acusar todos os acusadores por terem montado a cabala do século na Justiça portuguesa.

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A democracia é quântica

Em 28 de Junho de 1998, um domingo de muito calor, 51% de 31% do eleitorado votante respondeu “Não” à pergunta «Concorda com a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, se realizada por opção da mulher nas primeiras 10 semanas em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?». As sondagens previam uma confortável, ou segura, vitória do “Sim”. 48 624 eleitores decidiram o referendo e adiaram por nove anos a alteração da lei? Só numericamente. Abstractamente. No concreto, todos os eleitores, sem excepção, foram responsáveis na exacta mesma medida pelo resultado. Tanto os que votaram “Sim” como os que votaram “Não”, tanto os que votaram em branco ou nulo, os que foram votar como os que se abstiveram.

Em 8 de Novembro de 2016, uma terça-feira que entrou para história da Ciência Política, Hillary Clinton recebeu 2 868 691 de votos a mais do que Trump. Dela se disse ter ganhado os debates televisivos. E o seu opositor foi a votos envolto em escândalos financeiros, racistas, sexistas e de segurança nacional por ligações à Rússia, sendo odiado por parte do eleitorado Republicano. Entre os vários factores que se apontaram para a estupefactiva e vexante derrota de um dos candidatos mais bem preparados de sempre para o cargo, a inacreditável decisão de James Comey, director do FBI, de reabrir oficialmente o que já tinha fechado recentemente, voltando a espalhar suspeitas sobre a correspondência electrónica de Hillary a duas semanas das eleições, pode ter sido a causa principal da perda de alguns estados de constante maioria democrata. Uma decisão impossível não só de prever mas até de conceber. O caso seria definitivamente arquivado pouco depois da votação por não ter qualquer conteúdo criminal.

Todo o esperma é sagrado, canta-se num filme dos Monty Python, e o mesmo se poderia dizer de cada voto usado ou por usar onde o Estado de direito democrático seja sagrado. O conjunto de todas as decisões dos eleitores registados, se voto neste ou naquele por causa disto ou daquilo, se voto cedo ou arrisco chegar à assembleia no limite do horário, se desisto de lá ir porque estou alienado ou se vou lá estragar um boletim porque sou alienado, mais o conjunto de todas as circunstâncias, os impedimentos, as doenças e as mortes, e ainda os que vão votar pela primeira vez encharcados de adolescência, é deste totelimúndi onde reina o princípio da incerteza que nasce uma realidade determinada: o novo Parlamento, o palco primeiro e último da nossa liberdade.

E depois, continua. Os representantes do Soberano têm a obrigação de cumprirem promessas, programas, paleio. Mas a obrigação maior é continuarem livres, incertos, quânticos. Porque é assim a vida, né? A melhor das vidas, onde se espera o inesperado.

“Haveremos todos de saber, um dia, o que é que cada um sabia sobre Tancos”

Sou fã e fã serei pelos séculos fora – até indecência em contrário – do Pedro Marques Lopes e do Pedro Adão e Silva. Admiro o civismo, a civilidade e a sua integridade de carácter como figuras públicas (posto que não convivo com nenhum, apesar de já ter privado com ambos, só me refiro a essa dimensão moral no papel mediático; embora seja minha convicção de que a postura pública corresponde a uma manifestação transparente da sua ética privada). Desfruto da sua capacidade de análise política onde se complementam ao centro, o lugar da arquitectónica política onde a democracia é mais democrática. E aplaudo com vivas e urros o efeito de salubridade que espalham no espaço público ao praticarem a tolerância zero (ou quase…) com pulhas e pulhices. Por esta última característica, por terem a coragem de subir às muralhas da cidade e enfrentarem os invasores, são invariavelmente atacados por fanáticos e broncos que nada rebatem, nada cogitam, apenas os insultam com inanidades ad hominem a partir do esgoto onde rebolam derrotados. Também por isso, pelo efeito que causam na direita decadente e no lumpenpopulismo, lhes estou penhoradamente agradecido.

Entretanto, todavia, e foda-se, por causa do Azeredo Lopes borraram irracionalmente a pintura. Desde o princípio do caso que alinharam com a operação generalizada na imprensa de transformar o ex-ministro da Defesa no bode expiatório – ou melhor, vítima sacrificial – das responsabilidades de gatunos, militares, primeiro-ministro e Presidente da República. Isso mesmo podemos ouvir no primeiro Bloco Central após se conhecer o desaparecimento do material de guerra, a 7 de Julho de 2017. Um dos Pedros achincalha Azeredo sem argumentos, sendo penoso o esforço que faz para tentar verbalizar algum esboço de ideia minimamente objectiva e factual. Pista: não consegue. Trata-se de um puro exercício de zurzidela a partir de um preconceito de aversão. O outro Pedro apresenta um quadro alargado das falhas políticas que detectou, as quais afirma irem dos militares ao Presidente e ao Governo mas onde afunila em Azeredo o seu desgosto com a situação. Para tal, distorce as declarações do ministro da Defesa, proferidas numa entrevista à SIC, para lhe servirem o intento persecutório a que deu largas. Essa entrevista ficava, aliás, como o casus belli que unia o bombardeamento dos dois comentadores, não as imediatas e múltiplas decisões executivas do ministro a respeito da ocorrência em Tancos que não obtiveram sequer referência nesse programa (nem em qualquer outro).

[Está aqui a famigerada entrevista – qualquer um pode comprovar, caso esteja disponível para 15 minutos de honestidade intelectual, que Azeredo não desvaloriza o assalto nem faz graçolas, o que deixa são informações contextuais desdramatizadoras numa circunstância inaudita onde a exploração política, o sensacionalismo e o trauma colectivo das recentes mortes em Pedrógão estavam a criar alarme na população]

Saltemos dois anos e tal. Vamos reencontrar os meus dois comentadores políticos favoritos a discorrer pela enésima vez sobre Tancos. No Bloco Central de 27 de Setembro de 2019, graças ao calendário subversivo do Ministério Público e à decadência da direita portuguesa, os Pedros voltam à carga contra Azeredo por imposição da actualidade. Notável e sintomaticamente, o que se ouve é uma versão ainda mais verrinosa e emocionalmente hipertrofiada do que foi gravado logo após os primeiros acontecimentos do caso. O caudal de informação tornada pública e as peripécias do caso de então para agora, que chegaram a incluir uma Comissão de Inquérito Parlamentar e culminaram numa acusação a um ex-ministro e em assustadoras teorias conspirativas lançadas pela dita “imprensa de referência” que atingem o Presidente da República e a antiga PGR, não alteraram um nanómetro a lógica alucinada de fazer de Azeredo Lopes uma figura insular no regime, subitamente retardada e sofrendo de iliteracia jurídica, a qual, apesar da sua himalaica incompetência técnica e política, ainda tinha conseguido enganar António Costa, a equipa deste, mais Marcelo Rebelo de Sousa, e a equipa deste, porque se lembrou de alinhar com um grupo de militares desvairados que montaram uma chachada inenarrável e criminosa só para aparecerem no retrato como campeões na disputa com a Judiciária civil e o Ministério Público. Há um problemazinho nesta cena: não faz ponta de um corno de sentido. Chamem o Occam.

Vamos, sumariamente, aos factos essenciais para quem só dispõe de informação pública:

– Assim que o material foi dado como desaparecido, o então ministro da Defesa dá ordem para se fazerem investigações e levantamentos de informações em toda a rede dos arsenais militares. Nunca ninguém fez qualquer alusão às decisões que foram tomadas institucionalmente, pelo que é de presumir que foram exemplarmente correctas.

– A decisão de dar uma entrevista à SIC em vez de ter feito uma conferência de imprensa é da responsabilidade última do primeiro-ministro, não do ministro da Defesa. Se essa decisão foi errada, foi o Governo que errou, portanto, não um ministério da Defesa nefelibata. Mas talvez não tenha errado, posto que uma interpretação bondosa para essa opção pode ser facilmente encontrada na tentativa de conter o alarme público numa situação onde se ignorava até se o material tinha mesmo desaparecido.

– No dia 3 de Julho é decidido pela PGR que as autoridades policiais e judiciais civis se iam juntar às militares na investigação do caso, divulgando suspeitar de terrorismo internacional (leia-se, anunciando que iam entrar a matar nos quartéis, não fariam prisioneiros).

– No dia 4 de Julho há um encontro entre Marcelo Rebelo de Sousa, Azeredo Lopes e o coronel Luís Vieira, sobre o qual este veio a relatar no Parlamento ter ouvido do Presidente da República a promessa de ir falar com Joana Marques Vidal em ordem a permitir que fosse a PJM a liderar o esforço conjunto. Este episódio foi confirmado pelo próprio Marcelo e terceiros presentes na ocasião, embora as versões sejam as mais díspares. E teriam necessariamente de ser porque jamais tal promessa deveria ser feita, mesmo que estivesse em causa uma questão de honra militar e os poderes e boa-vontade, ou papel mediador, do Comandante Supremo das Forças Armadas. A verosimilhança do episódio está abundantemente espalhada por diversos testemunhos e, acima e antes de tudo, pelo próprio desfecho que constitui o caso – onde os militares policiais violaram a lei no afã de resgatarem a imagem da corporação militar caída em desgraça. Este episódio, seja lá qual for a versão em que se queira acreditar, sela a responsabilização soberana máxima da Presidência da República sobre o que se viria a passar. O Presidente da República tinha sido informado de que a direcção da PJM, provavelmente representando tacitamente um corpo significativo de altos oficiais no Exército e noutras armas, estava acossada e disposta a entrar em disputa subterrânea com os poderes civis. Ou seja, desta data em diante, pelo menos, o chefe da Casa Militar da Presidência – tenente-general João Vaz Antunes (do Exército…) – passou a seguir com prioridade máxima não só os desenvolvimentos explícitos na dupla investigação, como também, e ainda com mais cuidado se possível, os sinais e manobras implícitos.

– A 30 de Novembro de 2017, Marcelo aceitou o pedido de resignação do seu chefe da Casa Militar. Não se sabe se esta demissão decorre de alguma conduta do próprio, ou se é o próprio que se afasta por causa da conduta de terceiros na Presidência, eventualmente do próprio Presidente da República. O que não é possível é imitar a imprensa e o sistema político que apagaram toda e qualquer ligação desta saída com o caso do material desaparecido e respectivas peripécias militares e civis a nível policial e judicial. Os constantes reptos de Marcelo para que a investigação seja célere e implacável encontram neste contexto explosivo (no pun intended) a sua urgência pois os cenários de desastre potencial eram absolutamente realistas e previsíveis; como se veio a confirmar com a acusação do Ministério Público e o terramoto político que causou a duas semanas de umas eleições legislativas.

– João Gomes Cravinho, ao substituir Azeredo Lopes na pasta da Defesa, escolhe um civil para chefe de gabinete; o que acontece pela primeira vez na história do Ministério da Defesa. Obviamente, e também tendo sido apagado pelo comentariado, tal drástica decisão só se compreende como efeito do caso Tancos e revela que o cerne da questão ultrapassa à velocidade da luz a estrita ocorrência do furto e atinge em cheio a confiança institucional entre autoridades civis e militares ao mais alto nível hierárquico.

Isto chega. E isto sobra. E fica como um excesso nunca antes testemunhado em Portugal. A gravidade complexa da situação competia com a sua complexa originalidade, e as duas facetas reforçavam-se mutuamente. A própria relação de comunicação entre a Presidência e o Governo adentro de uma crise entre autoridades militares e civis, surgida em contexto eleitoral para as autárquicas, terá sofrido pressões que a tornaram muito mais frequente, extensa e profunda. Daí o “mistério”, a opacidade inerente à especificidade da estrutura do regime e suas culturas e dinâmicas corporativas, que continua por explicar dado não ser possível elaborar a solução política, ao nível do Conselho de Estado e da Assembleia da República, sem primeiro fechar a questão judicial. Não espanta que ninguém no País saiba como se irá resolver a ferida aberta na credibilidade e segurança da República, dado que a génese do desafio radica na própria crise estrutural das Forças Armadas nas suas dimensões económica, sociológica e antropológica. O mesmo alarme e incapacidade de decisão para o escândalo e perigo de um Ministério Público politizado por aqueles que alegam querer protegê-lo de certos políticos a quem perseguem e violam direitos.

Face a isto, a bimbalhada que faz jornalismo político anda desde finais de Junho de 2017 a rir à gargalhada com furos em cercas, material de guerra guardado no barracão da avó e um Azeredo Lopes que todos amam odiar e linchar. A miséria intelectual, e antes disso meramente cognitiva, desse maralhal é de maravilha. Daí a minha dor de alma ao ver Pedro Marques Lopes e Pedro Adão e Silva a ficarem presos de preconceitos, simplismos e puras aberrações de raciocínio inaceitáveis em quem se concebe como servidor do público. Dos dois, atribuo ao PAS ainda maior responsabilidade na disfunção analítica para onde arrastaram o “Bloco Central” por ser um cientista social. A política do futuro será daqueles que cultivarem a honestidade intelectual como se a nossa liberdade dela dependesse. E a honestidade intelectual consiste em estar apaixonado pela realidade, não pela opinião – ensinaram os Gregos faz tempo.

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Livro de Recitações

“Estranho povo este, que não olha para as eleições como se de um circo se tratasse”
Luís Aguiar-Conraria, in PÚBLICO, 24/09/2019

Com esta frase irónica, o professor de economia da Universidade do Minho e colunista deste jornal terminava um artigo onde mostrava que há sinais claros de que o modo como a campanha eleitoral e os debates entre os partido são tratados pelos jornalistas, em que o pressuposto é que o povo fútil e ignaro quer é espectáculo de diversão, não corresponde à verdade e é afinal esse jornalismo que oferece o espectáculo pindérico da sua ignorância e irresponsabilidade. Uma pesquisa mais funda e alargada talvez mostrasse que este equívoco está generalizado e as elites responsáveis por um “editorialismo” que tudo faz para satisfazer o cliente afinal satisfaz menos clientes do que supõe e aliena grande parte da clientela que, à partida, estaria segura. Quando as “elites” já nem sequer estão ao nível das massas porque estão abaixo, então algo está errado nisto tudo e precisa de ser repensado.

António Guerreiro

Um pide em campanha

A 24 de Setembro, Rui Rio fez afirmações confusas no reino dos Algarves, atabalhoadas pela emoção e falta de preparo. Foi uma juliana de alusões ao Governo, a camionistas e a professores à mistura com algo não identificado que iria acontecer nos próximos dias, servindo a rábula apenas para repetir enfaticamente as expressões “golpe de teatro” e “encenação”; um léxico codificado cuja cifra ele já possuía mas que ainda não queria partilhar com a malta. Algumas notícias interpretaram as suas palavras como sendo o anúncio de vir aí a caminho o tal “golpe de teatro”, mais uma “encenação” dos diabólicos socialistas, só restando saber relativamente a quê. Agora, sete dias depois e após a direita ter afundado a campanha na chicana e chiqueiro de Tancos, é possível interpretar claramente o que o homem estava a dizer. Rio não profetizava qualquer acção do Governo, antes fazia referência obscenamente implícita à divulgação iminente da acusação do caso Tancos, antecipada pela Rádio Renascença no dia anterior – numa violação ao segredo de justiça preparada para coincidir exactamente com o início da campanha eleitoral. Neste quadro judicial e político, sem sequer haver publicação da acusação, e logo ao 2º dia de campanha, Rio fez sua a tese dos procuradores responsáveis pelo processo e declarou que o Governo foi não só conhecedor como cúmplice activo e interessado no processo de recuperação das armas roubadas em Tancos e das variadas ilegalidades e mentiras que foram descobertas pelo Ministério Público. Era esta “encenação” que estava em vias de ser declarada oficialmente “verdadeira” com o selo da Procuradoria-Geral da República, festejou um candidato a primeiro-ministro incapaz de conter a pulsão assassina.

Vale a pena ver e ouvir os registos originais, à prova de estúpidos e pulhas: TVITSF

Faz sentido político registar como este comportamento de Rio é não só contraditório como antinómico com o que jurou ser a sua convicção mais profunda dias antes no debate com Costa, assim como noutras ocasiões logo desde a campanha para a presidência do PSD. Esta pessoa que prometeu ir fazer uma campanha sem berreiro e chungaria, antes com racionalidade e propostas melhores do que as dos restantes partidos, que garantiu ter uma vida inteira na defesa da democracia e de certas causas ligadas à Justiça, chegou ao ponto de proclamar com rugido homérico ter entrado na política aos 16 anos, antes do 25 de Abril, para combater os julgamentos na praça pública, “nas tabacarias e nos ecrãs de televisão“. O cidadão que colocou a actual Justiça de um regime democrático ao nível da do Estado Novo, contudo e já sem nada no alforge da decência, revelou-se um biltre ao ficar em êxtase por existir um SMS ambíguo captado pelas forças policiais a um político. Um SMS que ele Rio não faz ideia do que possa querer dizer posto que não é investigador do MP ou da Judiciária, posto que não foi testemunha dos factos na berlinda, mas o qual lhe iria permitir lançar acusações tóxicas, caluniosas e vexatórias das instituições da República e do bom nome e honra de terceiros.

Só que faz ainda mais sentido, agora cívico, registar como Rui Rio se expõe na sua absoluta incapacidade para assumir as responsabilidades inerentes à chefia de um Executivo. As acusações ao Ministério Público que se transformam de um dia para o outro em elogios assim que dá para aproveitar a munição colocada à sua frente por essa rapaziada mais dada à paixão da Ciência Política (escola da Católica) do que à leitura e respeito da Constituição, as acusações alucinadas às empresas de sondagens que desaparecem logo que mudam os números substituídas por inacreditáveis e primárias manifestações narcísicas, o despejo de teorias da conspiração canalhas contra o PS que são rebatidas pela TVI sem originarem do canalha em causa qualquer pedido de desculpas ou vagido de responsabilização. É este cata-vento, finalmente desmascarado como retinto e desprezível hipócrita, que queremos em São Bento a disparar atoardas e tonteiras deste calibre?

Rui Rio e Cristas querem fazer das eleições de 6 de Outubro um pelourinho onde o PS será castigado por Azeredo ter escrito numa mensagem pessoal “Eu sabia”. Saber a que é que ele se referia não interessa para o seu julgamento. O crime está provado, ele teclou “Eu sabia” no seu telemóvel e o Ministério Público já fez a hermenêutica autêntica, tornando-se irrelevante o que o próprio Azeredo tenha a dizer sobre os seus actos de fala. PSD e CDS não querem que se saiba mais nada, põem as brasas todas na acusação do caso Tancos e berram que o que ela contém já chega para irmos a votos e escolher como é que a Saúde, a Educação, o Ambiente, os Transportes, a Segurança, a Justiça, o Trabalho e a Economia, entre outras dimensões da nossa vida comunitária sem grande interesse, devem ser governadas. Podemos pois concluir que não é só a Justiça que lembra o salazarismo, também na direita há pides em campanha.

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