“Haveremos todos de saber, um dia, o que é que cada um sabia sobre Tancos”

Sou fã e fã serei pelos séculos fora – até indecência em contrário – do Pedro Marques Lopes e do Pedro Adão e Silva. Admiro o civismo, a civilidade e a sua integridade de carácter como figuras públicas (posto que não convivo com nenhum, apesar de já ter privado com ambos, só me refiro a essa dimensão moral no papel mediático; embora seja minha convicção de que a postura pública corresponde a uma manifestação transparente da sua ética privada). Desfruto da sua capacidade de análise política onde se complementam ao centro, o lugar da arquitectónica política onde a democracia é mais democrática. E aplaudo com vivas e urros o efeito de salubridade que espalham no espaço público ao praticarem a tolerância zero (ou quase…) com pulhas e pulhices. Por esta última característica, por terem a coragem de subir às muralhas da cidade e enfrentarem os invasores, são invariavelmente atacados por fanáticos e broncos que nada rebatem, nada cogitam, apenas os insultam com inanidades ad hominem a partir do esgoto onde rebolam derrotados. Também por isso, pelo efeito que causam na direita decadente e no lumpenpopulismo, lhes estou penhoradamente agradecido.

Entretanto, todavia, e foda-se, por causa do Azeredo Lopes borraram irracionalmente a pintura. Desde o princípio do caso que alinharam com a operação generalizada na imprensa de transformar o ex-ministro da Defesa no bode expiatório – ou melhor, vítima sacrificial – das responsabilidades de gatunos, militares, primeiro-ministro e Presidente da República. Isso mesmo podemos ouvir no primeiro Bloco Central após se conhecer o desaparecimento do material de guerra, a 7 de Julho de 2017. Um dos Pedros achincalha Azeredo sem argumentos, sendo penoso o esforço que faz para tentar verbalizar algum esboço de ideia minimamente objectiva e factual. Pista: não consegue. Trata-se de um puro exercício de zurzidela a partir de um preconceito de aversão. O outro Pedro apresenta um quadro alargado das falhas políticas que detectou, as quais afirma irem dos militares ao Presidente e ao Governo mas onde afunila em Azeredo o seu desgosto com a situação. Para tal, distorce as declarações do ministro da Defesa, proferidas numa entrevista à SIC, para lhe servirem o intento persecutório a que deu largas. Essa entrevista ficava, aliás, como o casus belli que unia o bombardeamento dos dois comentadores, não as imediatas e múltiplas decisões executivas do ministro a respeito da ocorrência em Tancos que não obtiveram sequer referência nesse programa (nem em qualquer outro).

[Está aqui a famigerada entrevista – qualquer um pode comprovar, caso esteja disponível para 15 minutos de honestidade intelectual, que Azeredo não desvaloriza o assalto nem faz graçolas, o que deixa são informações contextuais desdramatizadoras numa circunstância inaudita onde a exploração política, o sensacionalismo e o trauma colectivo das recentes mortes em Pedrógão estavam a criar alarme na população]

Saltemos dois anos e tal. Vamos reencontrar os meus dois comentadores políticos favoritos a discorrer pela enésima vez sobre Tancos. No Bloco Central de 27 de Setembro de 2019, graças ao calendário subversivo do Ministério Público e à decadência da direita portuguesa, os Pedros voltam à carga contra Azeredo por imposição da actualidade. Notável e sintomaticamente, o que se ouve é uma versão ainda mais verrinosa e emocionalmente hipertrofiada do que foi gravado logo após os primeiros acontecimentos do caso. O caudal de informação tornada pública e as peripécias do caso de então para agora, que chegaram a incluir uma Comissão de Inquérito Parlamentar e culminaram numa acusação a um ex-ministro e em assustadoras teorias conspirativas lançadas pela dita “imprensa de referência” que atingem o Presidente da República e a antiga PGR, não alteraram um nanómetro a lógica alucinada de fazer de Azeredo Lopes uma figura insular no regime, subitamente retardada e sofrendo de iliteracia jurídica, a qual, apesar da sua himalaica incompetência técnica e política, ainda tinha conseguido enganar António Costa, a equipa deste, mais Marcelo Rebelo de Sousa, e a equipa deste, porque se lembrou de alinhar com um grupo de militares desvairados que montaram uma chachada inenarrável e criminosa só para aparecerem no retrato como campeões na disputa com a Judiciária civil e o Ministério Público. Há um problemazinho nesta cena: não faz ponta de um corno de sentido. Chamem o Occam.

Vamos, sumariamente, aos factos essenciais para quem só dispõe de informação pública:

– Assim que o material foi dado como desaparecido, o então ministro da Defesa dá ordem para se fazerem investigações e levantamentos de informações em toda a rede dos arsenais militares. Nunca ninguém fez qualquer alusão às decisões que foram tomadas institucionalmente, pelo que é de presumir que foram exemplarmente correctas.

– A decisão de dar uma entrevista à SIC em vez de ter feito uma conferência de imprensa é da responsabilidade última do primeiro-ministro, não do ministro da Defesa. Se essa decisão foi errada, foi o Governo que errou, portanto, não um ministério da Defesa nefelibata. Mas talvez não tenha errado, posto que uma interpretação bondosa para essa opção pode ser facilmente encontrada na tentativa de conter o alarme público numa situação onde se ignorava até se o material tinha mesmo desaparecido.

– No dia 3 de Julho é decidido pela PGR que as autoridades policiais e judiciais civis se iam juntar às militares na investigação do caso, divulgando suspeitar de terrorismo internacional (leia-se, anunciando que iam entrar a matar nos quartéis, não fariam prisioneiros).

– No dia 4 de Julho há um encontro entre Marcelo Rebelo de Sousa, Azeredo Lopes e o coronel Luís Vieira, sobre o qual este veio a relatar no Parlamento ter ouvido do Presidente da República a promessa de ir falar com Joana Marques Vidal em ordem a permitir que fosse a PJM a liderar o esforço conjunto. Este episódio foi confirmado pelo próprio Marcelo e terceiros presentes na ocasião, embora as versões sejam as mais díspares. E teriam necessariamente de ser porque jamais tal promessa deveria ser feita, mesmo que estivesse em causa uma questão de honra militar e os poderes e boa-vontade, ou papel mediador, do Comandante Supremo das Forças Armadas. A verosimilhança do episódio está abundantemente espalhada por diversos testemunhos e, acima e antes de tudo, pelo próprio desfecho que constitui o caso – onde os militares policiais violaram a lei no afã de resgatarem a imagem da corporação militar caída em desgraça. Este episódio, seja lá qual for a versão em que se queira acreditar, sela a responsabilização soberana máxima da Presidência da República sobre o que se viria a passar. O Presidente da República tinha sido informado de que a direcção da PJM, provavelmente representando tacitamente um corpo significativo de altos oficiais no Exército e noutras armas, estava acossada e disposta a entrar em disputa subterrânea com os poderes civis. Ou seja, desta data em diante, pelo menos, o chefe da Casa Militar da Presidência – tenente-general João Vaz Antunes (do Exército…) – passou a seguir com prioridade máxima não só os desenvolvimentos explícitos na dupla investigação, como também, e ainda com mais cuidado se possível, os sinais e manobras implícitos.

– A 30 de Novembro de 2017, Marcelo aceitou o pedido de resignação do seu chefe da Casa Militar. Não se sabe se esta demissão decorre de alguma conduta do próprio, ou se é o próprio que se afasta por causa da conduta de terceiros na Presidência, eventualmente do próprio Presidente da República. O que não é possível é imitar a imprensa e o sistema político que apagaram toda e qualquer ligação desta saída com o caso do material desaparecido e respectivas peripécias militares e civis a nível policial e judicial. Os constantes reptos de Marcelo para que a investigação seja célere e implacável encontram neste contexto explosivo (no pun intended) a sua urgência pois os cenários de desastre potencial eram absolutamente realistas e previsíveis; como se veio a confirmar com a acusação do Ministério Público e o terramoto político que causou a duas semanas de umas eleições legislativas.

– João Gomes Cravinho, ao substituir Azeredo Lopes na pasta da Defesa, escolhe um civil para chefe de gabinete; o que acontece pela primeira vez na história do Ministério da Defesa. Obviamente, e também tendo sido apagado pelo comentariado, tal drástica decisão só se compreende como efeito do caso Tancos e revela que o cerne da questão ultrapassa à velocidade da luz a estrita ocorrência do furto e atinge em cheio a confiança institucional entre autoridades civis e militares ao mais alto nível hierárquico.

Isto chega. E isto sobra. E fica como um excesso nunca antes testemunhado em Portugal. A gravidade complexa da situação competia com a sua complexa originalidade, e as duas facetas reforçavam-se mutuamente. A própria relação de comunicação entre a Presidência e o Governo adentro de uma crise entre autoridades militares e civis, surgida em contexto eleitoral para as autárquicas, terá sofrido pressões que a tornaram muito mais frequente, extensa e profunda. Daí o “mistério”, a opacidade inerente à especificidade da estrutura do regime e suas culturas e dinâmicas corporativas, que continua por explicar dado não ser possível elaborar a solução política, ao nível do Conselho de Estado e da Assembleia da República, sem primeiro fechar a questão judicial. Não espanta que ninguém no País saiba como se irá resolver a ferida aberta na credibilidade e segurança da República, dado que a génese do desafio radica na própria crise estrutural das Forças Armadas nas suas dimensões económica, sociológica e antropológica. O mesmo alarme e incapacidade de decisão para o escândalo e perigo de um Ministério Público politizado por aqueles que alegam querer protegê-lo de certos políticos a quem perseguem e violam direitos.

Face a isto, a bimbalhada que faz jornalismo político anda desde finais de Junho de 2017 a rir à gargalhada com furos em cercas, material de guerra guardado no barracão da avó e um Azeredo Lopes que todos amam odiar e linchar. A miséria intelectual, e antes disso meramente cognitiva, desse maralhal é de maravilha. Daí a minha dor de alma ao ver Pedro Marques Lopes e Pedro Adão e Silva a ficarem presos de preconceitos, simplismos e puras aberrações de raciocínio inaceitáveis em quem se concebe como servidor do público. Dos dois, atribuo ao PAS ainda maior responsabilidade na disfunção analítica para onde arrastaram o “Bloco Central” por ser um cientista social. A política do futuro será daqueles que cultivarem a honestidade intelectual como se a nossa liberdade dela dependesse. E a honestidade intelectual consiste em estar apaixonado pela realidade, não pela opinião – ensinaram os Gregos faz tempo.

4 thoughts on ““Haveremos todos de saber, um dia, o que é que cada um sabia sobre Tancos””

  1. Muito bem, Valupi!
    Não referes nesta análise a questão primordial: como é que o desaparecimento do MGuerra foi parar aos jornais. Possivelmente não tens informação sobre isso. Tb não a tenho. E tenho pena, pois julgo que o conhecimento desse processo ajudaria a esclarecer muito do que se passou a seguir. O extravasar para fora dos quartéis de um episódio desta natureza e algo que não faz qualquer sentido a quem conhece a tropa por dentro.

  2. MRocha, ficou muita coisa sem referência. Por exemplo, a tese de que a corrupção militar é ainda mais grave do que a desvairada gravidade que resulta da leitura de uma simples notícia sobre um caso que não causou qualquer alarido político ou social: https://www.dn.pt/poder/capitao-fala-em-polvo-sobre-esquema-de-corrupcao-nas-messes-da-forca-aerea-10438161.html

    Outra dimensão fascinante do caso Tancos remete para as referências a denúncias prévias que o Ministério Público diz ter recebido sobre o assalto.

    Outra é a suspeita, pelos vistos lançada pelo PS de Costa, que coloca Joana Marques Vidal como um perigo público para o regime. Fascinante por todas as razões e mais algumas.

  3. Valupi,

    Exacto ! É que se o PML ou o PAS tivessem alguma tarimba militar, há material nesta estorieta que só não dispara os alarmes a quem não passou pelas paradas.

    Explico: dos items cuja carga é mais complicada de gerir no controlo do espólio de um paiol, estão precisamente as munições e os explosivos ( são “consumiveis” de alta rotação, digamos assim…). Então como é que a conferência de material conseguiu ser rápida e assertiva ao ponto de a ridicula lista ter sido publicada em espanha ( à revelia do exercito ?! ) mal o desfalque foi publicitado ?

    Mais: quem é que no seu perfeito juizo vai assaltar dois paiós do exército para roubar explosivos ( apesar de toda a gente falar de roubo de armamento não há uma única arma na relação de material…) quando o poderia conseguir em igual quantidade em qualquer pedreira ali de Borba e com um avo dos riscos ?

    Hoje mesmo o expesso oline até consegue esquecer a morte de FA para volta à carga com o valente major brazão. Porquê ? O que há de novo no que publica? Quem anda a mexer estes cordelinhos ?

  4. Bom levantamento sobre o “affaire” Tancos cuja, génese ainda permanece oculta!
    Os comentadores citados costumam ter dias mas, ultimamente estão, como se usa
    dizer a queimar algum óleo, o PML sendo de direita está a ver o “buraco” onde se
    meteu e tenta salvar a face, já o PAS era mais assertivo quando comentava a solo
    do que no actual painel na RTP3 daí, algumas imprecisões nas apreciações feitas!
    Quanto à acusação elaborada pelo M. Público no limite do prazo, para coincidir
    com a campanha eleitoral, pouco mais é do que uma aberração! Primeiro subverte
    as acções em torno do desvio/roubo de material de Tancos, não é aprofundada a
    origem e reais motivações para essa “audaz” operação, não basta apanhar o depo-
    sitário! É dada mais importância à forma como foi recuperado material e à guerra
    de competências (PJM e PJ), não basta atribuir a classificação de terrorismo para
    retirar do processo a PJM, por outro lado, é pouco verosímil a estória da ETA que,
    já havia deposto as armas!
    Absurda a ideia do envolvimento do Ministro da Defesa com intenção de desviar
    as atenções sobre os incêndios (muitos com origem criminosa) quando, já estava
    quase feita a folha à MAI na altura que, teve de assumir as custas para aplacar as
    iras, de forma injusta! Se os investigadores ou procuradores alargassem o horizon-
    te das sua ideias também, poderiam considerar que, houve um ataque para deitar
    abaixo o Ministro da Defesa pois, desde o caso do Colégio Militar que havia uma
    forte contestação visando Azeredo Lopes quem não se lembra das famosas tino-
    cadas, com entrega de espadas etc. e tal!
    Não é credível que o Ministro tenha sido informado dos detalhes da recuperação
    do material, designadamente o eventual perdão do “arrependido” ou seja o que,
    ficou com a “criança” nos braços! Quanto muito, o Ministro foi alvo de uma “embos-
    cada” para gáudio das oposições de direita onde primam muitos papagaios que,
    nunca passaram em serviço, por um quartel militar daí dizerem as maiores barbari-
    dades para não chamar outra coisa!
    Esta coisa das teorias de conspirações tem mais que se lhe diga, por isso me parece
    que o trabalho do M.Público é muito fraco e pouco sustentado … o SMS é treta !!!

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