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Ricardo Costa na casa de banho

João Miguel Tavares não é politicamente relevante pelo que diz em público ou fará em privado. Não tem qualquer mérito académico, artístico, científico, cívico, desportivo, intelectual, militar ou profissional que possamos identificar. Nem a sua perseguição ao PS e a exploração da judicialização da política e da politização da Justiça mereceriam atenção se ele fosse apenas mais um João Pereira Coutinho ou um Henrique Raposo, entre tantos outros exemplos de fanatismo folclórico no comentariado da direita decadente. Ele é politicamente importante, até crucial para se descobrir a seiva do regime, única e exclusivamente graças à importância política de quem lhe dá dinheiro e de quem o usa. Quando um jornal dito de referência lhe paga para difamar e caluniar, e ainda o tem como referência editorial, quando uma rádio e uma TV lhe pagam para promover crimes no Ministério Público e violentar as vítimas que viram os seus direitos violados por quem devia ter sido o seu invencível guardião, quando um primeiro-ministro monta uma inaudita e inacreditável operação de relações públicas que implicou levar três menores para as instalações do Governo, onde ficaram retidos durante horas com o entusiasmado consentimento dos pais, e quando um Presidente da República junta escandalosamente a uma lista de personalidades com obra ao serviço da comunidade ao longo de décadas o nome de um caluniador profissional à beira de ser internado por obsessão, ainda por cima justificando tal vexante escolha em nome da “defesa do jornalismo”, então o tópico João Miguel Tavares é de indiscutível dimensão política por razões que ultrapassam a sua arrivista figura pública.

Na série de entrevistas para o Observador, Artigo 38, encontramos um JMT regressado da 1ª Grande Guerra Socrática. Para prolongar a consagração divina recebida no templo republicano de Portalegre pelo sacerdote-mor, organizou um cortejo triunfal onde obrigou 12 marmanjões a irem ao beija-mão (consta que 5 se recusaram dos 17 inicialmente convidados). E eles foram, felizes da vida por receberem rapapés da vedeta guerreira. Um deles foi Ricardo Costa, escolhido por ser um dos rostos da resistência aos bárbaros socráticos e também por ser alguém que ainda poderá vir a dar dinheiro ao entrevistador (embora não necessariamente por esta ordem). De acordo com o objectivo pouco ou nada secreto destas entrevistas, JMT passou a maior parte do tempo a puxar pelas memórias e emoções dos convidados acerca do monstro Sócrates. É de esperar que o material recolhido venha a aparecer numa monografia que se roga, com ansiedade, esteja para breve.

No meio do falatório destes dois gigantes da luta contra a tirania e a corrupção, o mano Costa saiu-se com um retrato cristalino acerca dos bastidores do regime:

Ricardo Costa - [...] Eu fui chamado à ERC quando foi aquela coisa das "pressões do Sócrates". E eu achei aquele processo ridículo. Porque é que achei aquele processo ridículo? Eu tive imensos telefonemas do Sócrates. Eu conheço o Sócrates desde 1991, eu era um jornalista júnior do Expresso. Ele sentava-se na última fila. E eu, esses tipos da última fila, dessa altura, trato quase todos por tu. Ele é um deles. E trato por tu. Não o vejo há muitos anos; se calhar, felizmente, porque agora acho provavelmente que nem nos tratamos, de maneira nenhuma, nem por tu nem por outra coisa qualquer. Duvido que ele me fale e também não tenho interesse em lhe falar. Mas isso é outra questão. Mas eu, ao longo da vida, porque o conhecia, recebi imensos telefonemas do Sócrates pelos temas mais estapafúrdios. E, eu, entrava-me pelo ouvido e saía-me pelo outro. Ou então mandava-o passear quando ele não tinha razão (e não me lembro de alguma vez que tivesse, mas admito que houvesse alguma que tivesse razão). E, nesse processo, havia alguns colegas meus que se queixavam de coisas, pá, que eram completamente normais. O problema é que depois havia outras que provavelmente eram anormais. Comigo não se passou nenhuma anormal. Ele ligava, porque não sei quê. Telefonemas alguns que demoravam não sei quanto tempo. Ouve um que eu lembro, uma vez que estava-me a arranjar, tinha acabado de tomar banho. Tive tempo de me vestir, de fazer a barba, de tomar o pequeno-almoço, e o Sócrates continuava a falar. Já não me lembro porque era, provavelmente alguma coisa por causa da licenciatura, ou uma coisa qualquer. O tipo ia no carro, então ia com tempo, e ficou para ali a debitar não sei quantas coisas. E disse "'Tá bem, 'tá bem", desliguei o telefone e fui à minha vida, nunca mais me lembrei do Sócrates. It comes with the job. Quando uma pessoa é director de informação às vezes leva com telefonemas de um primeiro-ministro zangado, de um líder da oposição, de um empresário, do que seja, de um sindicalista. Pode haver telefonemas de várias pessoas. [...] Nem todos os telefonema são pressões, e nem todas as pressões são pressões violentas ou graves. Porque eu acho que, no caso, essas coisas na SIC ou no Expresso é muito difícil que tenham qualquer efeito, qualquer efeito.

Fonte

Antes de irmos às declarações do director-geral de informação do grupo Impresa, há que anotar o contexto em que foram proferidas. JMT tinha acabado de se babar para cima do Ricardo, reclamando ter sido o mais valente dos valentes na 1ª GGS e dizendo-lhe para se ajoelhar aos seus pés. Este número era um dos mais delirantemente desejados pelo autor do “Artigo 38”, aquela cena em que ele olharia nos olhos de alguns reputadíssimos passarões da indústria jornaleira e perguntaria mavioso “Como é que foi possível não teres visto o que eu vi?”. Obviamente, a única resposta permitida por essa lógica caluniadora fica logo dada ainda antes de se chegar ao ponto de interrogação – não era possível, eles viram o mesmo, mas calaram-se porque andaram a mamar, ou são cobardes, ou ambas as opções. O Costa mais pequeno não teve dificuldade em descodificar o subtexto, e para sua defesa barricou-se na casa de banho.

Ninguém se lembra de um texto do Ricardo Costa, ou sua declaração televisiva ou radiofónica, onde ele tenha desmontado a campanha negra relativa às “pressões do Sócrates” (se existe, aguardo penhorado que me digam onde) tal como faz nesta passagem citada. O que nela vemos descrito fica com perfume de verdade pois é conforme ao senso comum, ao bom senso e a qualquer outro critério que possamos ir buscar à psicologia, à sociologia, à antropologia, a qualquer domínio do saber e da experiência humana. Políticos e jornalistas não só comunicam constantemente como o fazem em situações privadas. Políticos e jornalistas convivem regularmente, frequentemente, intensamente. Políticos e jornalistas estabelecem laços de proximidade pessoal, afectiva, relacional pelas mais diversas e desvairadas razões, incluindo os benefícios mútuos ou a enigmática preferência subjectiva – como sempre, como acontece e acontecerá até ao fim dos tempos com todos nós. Os telefonemas de Sócrates não passavam disto, algo que o tonto do Henrique Monteiro ou o sonso do David Dinis poderiam confirmar se quisessem ser honestos. Conversas sem a menor capacidade para violarem o código deontológico, o estatuto e a consciência dos jornalistas que nelas participavam livremente. Malta que vivia do mesmo, a política, a interagir como parceiros e rivais num apaixonante e magnífico jogo de riscos e atracções imarcescíveis.

Acossado pelo borra-botas armado aos cágados, o mano Costa partiu para a exibição dos seus galões e superioridade de caserna. Pois era, afinal o JMT tinha ali à sua frente quem despachava pela matina primeiros-ministros desesperados para falar com ele, aos quais ele fazia o especial favor de fingir que os estava a ouvir enquanto desmanchava a barba e estava a cagar, literal e peristalticamente a cagar. No final, depois de encher o bandulho com um galão e olímpicas torradas mergulhadas em manteiga, dizia para o infeliz governante “‘Tá bem, ’tá bem” e ia sorridente e relaxado para o império do Balsemão dar ordens e continuar a curtir a sua dolce vita. Quer-se dizer, é um bocadinho diferente de ter de andar a ganhar a vida como palhaço para todo o serviço, devolveu o mano Costa num subtexto que nada garante ter sido descodificado pelos neurónios do entrevistador.

O melhor da entrevista, porém, estava guardado para uma singela afirmação:

João Miguel Tavares - Ficaste surpreendido quando ele [Sócrates] foi preso?

Ricardo Costa - Só não fiquei surpreendido porque uns dias antes já alguns colegas meus bem informados já estavam na pista disso [...]

Uns dias antes, o Ministério Público de Joana Marques Vidal tinha garantido que a comunicação social aliada estaria a postos para a cobertura mediática do século, estando no Governo Passos Coelho e em Belém Cavaco Silva, garante o irmão do actual primeiro-ministro. E se tal aconteceu foi porque para o Ministério Público seria completamente indiferente que a informação chegasse a Sócrates e demais visados no processo nesses dias que antecediam a cena no aeroporto – ou seja, os procuradores estavam-se a marimbar para a eventual destruição ou ocultação de supostas provas, para o eventual contacto entre futuros arguidos para combinarem supostas versões enganadoras. Surpresa? Nenhuma. Meses antes, a mesma PGR tinha lançado uma campanha de apoio a Seguro nas eleições no PS que implicou anunciar publicamente que se estava a fazer uma investigação contra Sócrates e apresentando-se os principais argumentos do que viria a ser invocado para a sua detenção e prisão. E tudo isto faz sentido porque, chegados a 2019, o quadro acusatório que justificou a prisão preventiva de 9 meses está completamente desactualizado. Prendeu-se para investigar, é uma das conclusões da “Operação Marquês” com implicações para a própria viabilidade do Estado de direito em Portugal. A anomia inerente a este quadro de fúria e adrenalina na caçada a Sócrates faz lembrar o caso da invasão do Iraque e o método do “Shock and Awe”. Também nesse processo se inventaram umas supostas armas químicas e biológicas que nunca ninguém veio a descobrir, nem depois de terem morrido milhares e milhares de iraquianos e de se ter destruído esse país à bomba – mas que se foram exibir em papel na ONU para justificar a espantosa violência que se iria seguir a uma celebérrima reunião nos Açores. O mesmo se fez na “Operação Marquês”, e já se tinha tentado no “Face Oculta” (aqui, tendo-se conseguido apanhar Vara sem provas): usar a Justiça, o aparelho do Estado, para vinganças e perfídias políticas.

Temos de concordar, dá muito jeito ter colegas “bem informados”. Viva o Artigo 38, viva a liberdade de expressão!

Conhecendo quem é o Dr. João Miguel Tavares

«Existem suspeitas fundamentadas que José Sócrates possa ter utilizado os serviços de informação durante o tempo em que ele lá esteve, e utilizar os serviços de informação para informação própria. Quer dizer que não é uma coisa, conhecendo quem é José Sócrates, seja propriamente uma coisa muito suspeita.»

Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de junho de 2019, 25 de Outubro

No último Governo Sombra, o Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019, deu uma abébia ao Nuno Artur Silva e conteve os revoltos ácidos que lhe invadiram o estômago ao topar com o caso da venda das Produções Fictícias a um sobrinho, uma típica manobra dos corruptos socialistas que o Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019, estuda com fervor 25 a 48 horas por dia. Contudo, o Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019, não chegou onde chegou a cometer erros de neófito, como sejam os de dizer sempre o que pensa em público ou os de ser coerente com os princípios que apregoa na feira. Acima e antes de tudo, o Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019, tem de fazer uma gestão exímia da pulhice com que enche os bolsos, o que implica ter uma sensibilidade apuradíssima para a escolha dos alvos da mesma, não vá a carteira ressentir-se com o entusiasmo torquemadiano. Pelo que era modicamente evidente ser o espectáculo onde actuavam Ricardo Araújo Pereira e Pedro Mexia uma situação incompatível com a exposição de mais um socialista arrastado pelo heróico Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019, até ao pelourinho onde o nosso defensor, salvador e libertador vende a caça, por atacado ou a retalho. Impossível tal acto ecológico e higiénico calhando esse socialista corrupto e socrático (passe a tripla tautologia) ser um independente de nome Nuno Artur Silva que acumula com o estatuto de figura com fulcral importância nas indústrias do audiovisual e dos conteúdos mediáticos cá da aldeia, assim como na carreira de muita e boa gente onde a estrela maior é precisamente o Sr. Araújo e parceiros. Calou-se bem calado, pois, o Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019, mas tendo recebido o bónus de testemunhar que os seus colegas de espectáculo não gastaram uma caloria na denúncia da campanha contra o Nuno. Já não foi mau, ao menos não fico associado a qualquer deselegância contra a Cofina, pensou misericordioso e resignado o Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019.

Usar a TVI, num programa com a popularidade e influência do Governo Sombra, para declarar que existiu um primeiro-ministro que conseguiu “utilizar” os “serviços de informação” para uma qualquer actividade ilícita desconhecida – descrita com a enigmática expressão “informação própria” – não está ao alcance de quase ninguém em Portugal. Tal afirmação implica assinar por baixo aquilo que se regista objectivamente, o facto de a acusação não conter um único dado que permita aferir da sua verosimilhança sequer ao nível dos indícios (daí se esgotar no intento e efeito calunioso), e implica deixar transparente o que se infere subjectivamente, a necessidade de se estar num estado cognitivo e moral “sui generis” para assumir a respeito de terceiros tais imputações num caso onde nada se testemunhou. Ora, o Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019, é essa entidade com poderes únicos na sociedade portuguesa. Ele, tal como Trump no outro lado do Atlântico, pode dar vazão no espaço público a qualquer bacorada que lhe atravesse o bestunto sem recear a mínima das consequências. Aliás, ele deseja ardentemente que alguém repita o que fez Sócrates quando este esgotou os recursos legais para tentar processar o Dr. João Miguel Tavares, então ainda não Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019. Daí nasceu esta gloriosa carreira de caluniador profissional que tanto conforto e segurança introduziu na vida profissional e pessoal do Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019.

Podemos ter poucas certezas na vida, duvidando de tudo e de todos se a sorte for madrasta, mas podíamos vender os móveis e os talheres para apostar com absoluta ausência de risco em como nunca, nunca e nunca o Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019, será confrontado no espaço mediático com um singelo pedido de explicações sobre o que ele imagina acerca do modo como “Sócrates utilizou os serviços de informação para informação própria” [sick]. Que diria o nosso genial “jornalista”? Por exemplo, será que admitiria ter ouvido essa teoria da boca do Zé Manel, o tal que se agarrou a ela assim que a “Inventona de Belém” foi desmascarada? Será que lhe colava a teoria do Cavaco sobre o espião socrático na Madeira, a tal que, precisamente, serviu de desculpa e droga psicadélica para lançar a partir da Casa Civil, e em conluio com a Sonae pela mão do Zé Manel, uma operação de perversão de dois actos eleitorais; no que fica como o mais grave atentado contra o Estado de direito ocorrido no regime democrático desde o 25 de Novembro e até à data? Não, pá. Foda-se, pá. O mundo mental do caluniador profissional de maior sucesso na Grei é regido pelo pensamento mágico. E não é por mal, é só porque é disso que as audiências papam e ele está ali para as entreter e deixar os seus patrões de bom humor. Assim, não importa para nada ao Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019, tentar perceber como é que um primeiro-ministro em funções consegue violar a lei com gravidade máxima logo com aqueles que têm tudo para se defenderem de tais riscos e tudo para os denunciar com provas. Na mesma lógica, ainda menos lhe importa que não exista – sequer na “Operação Marquês”, o mais exaustivo e dispendioso levantamento da vida de um cidadão que alguma vez se fez na República Portuguesa – qualquer sinal de ter existido a mais incipiente investigação a esse respeito. Finalmente, o Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019, caga d’alto em cima das instituições públicas e de quem as representa ao pintar os serviços de informação portugueses como um grupo de sabujos sem honra que se deixariam corromper por um político apenas por este lhes fazer cara de mau e falar aos berros, rodeados por trastes ainda mais miseráveis que, representando a Assembleia da República (portanto, eleitos por todos os partidos) para fiscalizar os serviços de informação, igualmente teriam alinhado e abafado a incursão criminosa do Engenheiro no feérico e fantástico universo dos espiões portugueses. Será verdade? Que teriam a dizer esses profissionais caso pudessem exprimir livremente a sua opinião sobre as acusações à sua honra e bom nome de que são alvo pelo Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019?

Compreende-se, sem esforço, que este retrato infantilóide e paranóide sirva a retórica primária com que diaboliza Sócrates, esse monstro com capacidades sobrenaturais para espalhar o mal e devorar as almas dos puros e inocentes, a vaca que ele mungirá até à última gota. E compreende-se, tristemente, o sucesso que o regime resolveu oferecer a um canalha sem qualquer préstimo para a resolução dos problemas que afligem a comunidade, o Dr. João Miguel Tavares, Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019 e tudo.

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Women CEOs Judged More Harshly Than Men for Corporate Ethical Failures
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Your healthcare provider’s expectations on whether a treatment works may impact its effectiveness
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Increase health benefits of exercise by working out before breakfast
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Class bias in hiring based on few seconds of speech
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High fiber, yogurt diet associated with lower lung cancer risk
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Prisoner’s Dilemma Game Reveals Cooperation Leads to Leadership
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5 Ways to Manage Political Stress With a Michigan Medicine Psychiatrist
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Lapidar

«Anos de atentados ao Estado de direito, de mentiras berradas em primeiras páginas, de difamações, de injúrias, de factos distorcidos à medida, de um absoluto desprezo pela privacidade das pessoas, de voyeurismo, de divulgação de peças em segredo de Justiça, da exibição de interrogatórios judiciais, de manipulações, resultaram.

São vitórias em cima de vitórias. Conseguem condicionar o poder judicial (sabendo-se que algum desse poder colabora ativamente na atividade desse grupo de media) através de julgamentos populares prévios num jornal e numa televisão, ter políticos a escrever numa página quando na seguinte aparece uma escuta sobre a vida privada de alguém, entrevistam um primeiro-ministro no mesmo estúdio onde exibem interrogatórios de ex-ministros, fazem e desfazem reputações, elegem um populista xenófobo e agora a vitória final: a compra de um canal em sinal aberto que foi líder de audiências durante 19 anos e que tem milhões de pessoas a vê-lo todos os dias.

No novo cenário da nossa comunicação social, o grupo Cofina pode aplicar o modelo de negócio do Correio da Manhã e da CMTV de uma forma muitíssimo mais amplificada. Destruir a reputação de um ódio de estimação do diretor-geral, passar um interrogatório de um criminoso de delito comum ou mesmo de uma testemunha qualquer que não goste da forma de atuar da Cofina, mostrar uma rapariga a ser violentada, dar voz a um comentador preocupadíssimo com a invasão de imigrantes e com os assaltos por todo o lado.

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Uma empresa com uma licença de canal generalista no cabo (CMTV) compra outra com um canal de informação (TVI24) e outro também generalista (TVI) transformando um mercado - por circunstâncias de mercado e legais - de pequeno em minúsculo, não merece uma linhazinha dos nossos especialistas em media e dos inúmeros colunistas (sei de um artigo) e comentadores?

Um mercado publicitário a níveis de há 30 anos é ainda mais esmagado e não há um analista económico que diga o óbvio? Todos os dias vemos gente a chamar a atenção para a brutal crise dos media, algo está para acontecer que vai aumentá-la ainda mais e assobia-se para o lado? Já está tudo esquecido do brutal perigo para a democracia que é a morte lenta dos media tradicionais?

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O silêncio sepulcral sobre este negócio diz tudo sobre o poder da Cofina e a cobardia e a apatia de uma comunidade inteira. Nem sequer aspetos evidentes de regulação de mercado, que obstariam a que este negócio fosse sequer tentado, são referidos.

Não há, porém, maior cobardia e cinismo do que os dos nossos políticos, aquela gente que deve velar pelo bem comum e o interesse público.

Será que o medo de uma primeira página do Correio da Manhã ou de um alerta CM os faz esquecer dos seus deveres para a comunidade? A perspetiva de ter a equipa da Cofina a gerir um canal de televisão com a dimensão da TVI é um evidente assunto político.»

Pedro Marques Lopes

És tão bronco, Monteiro

É irresistível reagir com enfado e desprezo perante uma qualquer opinião acerca do Henrique Monteiro. Que importa essa figura seja para o que for, pensam os que assim pensam e têm o trabalho de comentar opiniões como a que vou despachar abaixo. Porém, contudo e todavia, chamo a atenção dos malucos que percam o seu rico tempo neste pardieiro para a realidade. Na realidade, o ser foi director do “Expresso”, um semanário de altíssimo alcance e influência desde a sua fundação, 1973, tendo sido este canal mediático o esteio de um poderosíssimo grupo de comunicação social liderado por um dos mais políticos duques da oligarquia portuguesa, Pinto Balsemão. Para além dessa elevação na carreira, o Monteiro estava ao leme quando se deu a “Inventona de Belém”, tendo sacrificado a vergonha na cara para defender e levar avante a mais grave golpada montada no regime desde o 25 de Novembro. Hoje, escrevinha textos ridículos, pindéricos, tontos, no jornal que serviu com zelo exemplar, desconhecendo se tem mais alguma actividade dentro do grupo Impresa.

Pois este crânio acaba de lançar no espaço público a mais descarada celebração do crime de violação do segredo de justiça e da indústria da calúnia que me foi dado ler até ao dia de hoje – Por falar em ‘justiça de tabacaria’. A tese está aqui sintetizada:

"As indignações dos visados, dos políticos e de outros acusados podem ser compreensíveis, mas não têm o mínimo fundamento. Na verdade, numa sociedade aberta e global é natural que se saiba que fulano é arguido, que é (ou não) acusado e que é (ou não) culpado. As pessoas bem informadas e bem formadas sabem que todos são inocentes até ao trânsito em julgado. Mas, de igual modo, sabe-se que o julgamento na praça pública, que é sobretudo um julgamento moral, provocando danos de reputação, não é o julgamento em si. Muitas vezes é um julgamento político. E por isso se diz que na política se tem de ser como a ‘mulher de César” (o Imperador Romano): não basta ser sério, é preciso parecê-lo.

Certos atos políticos, podendo não ter condenação em tribunal, por inconsistência, falta de provas ou insuficiências da acusação, são, em si mesmo, pouco recomendáveis."

Quem ganha a vidinha através da desonestidade intelectual especializa-se na técnica de mentir recorrendo a pedaços do que é consensualmente considerado verdadeiro, ou só pelo público a quem se dirige. Tal exercício gera inevitavelmente contradições no discurso, tal como uma falsificação de dinheiro ou pintura gera inevitáveis discrepâncias face ao original. Um artista da desonestidade intelectual conseguirá simular para o maior número na sua audiência uma ausência de contradições, um iniciante ou amador gerará um muito maior número de falhas lógicas. No caso do Monteiro, estamos perante um tosco que se permite ser pândego. Ele, tal como anuncia, já só quer que reparem no que diz, mesmo que seja apenas para o insultar. Pois bem, bute lá.

As indignações dos visados, dos políticos e de outros acusados podem ser compreensíveis, mas não têm o mínimo fundamento.

Que será compreensível numa indignação que não tem o mínimo fundamento? Esta frase não quer dizer nada de nadinha de nada. Mas mesmo que quisesse dizer alguma coisa, teríamos de esperar que o Inferno arrefecesse para o Monteiro descobrir no que estava a pensar quando a teclava.

Na verdade, numa sociedade aberta e global é natural que se saiba que fulano é arguido, que é (ou não) acusado e que é (ou não) culpado.

Nada disto tem relação com a violação do segredo de justiça. Resta só saber se o Monteiro convive com alguém capaz de lhe explicar a evidência.

As pessoas bem informadas e bem formadas sabem que todos são inocentes até ao trânsito em julgado.

Momento de confissão. O Monteiro assume não pertencer ao grupo enunciado.

Mas, de igual modo, sabe-se que o julgamento na praça pública, que é sobretudo um julgamento moral, provocando danos de reputação, não é o julgamento em si.

Cá está. Como o julgamento na praça pública não é o “julgamento em si”, explica ele aos borregos, então, puta que pariu com essa tanga dos inocentes não sei quê do trânsito. Tragam as forquilhas, os cães e o cordame para o maravilhoso espectáculo do “julgamento moral”. É tão fixe! E só provoca insignificantes “danos de reputação”, umas merdices a que ninguém dá valor e que deviam ser apagados do conjunto de direitos que constituem o melhor que a civilização alcançou ao longo de centenas de milhares de anos de miraculosa criação do Estado de direito, especialmente quando estamos a assistir ao auto-de-fé com as pipocas ou o copo de tinto na mão. Curiosamente, isto dos julgamentos morais calha sempre a malta que o Monteiro não grama, abençoada coincidência.

Muitas vezes é um julgamento político.

Boa, Monteiro. Que perspicácia. Que frontalidade. Que capacidade espantosa para surpreender o leitor. E que gostinho, pá, né?

E por isso se diz que na política se tem de ser como a ‘mulher de César” (o Imperador Romano): não basta ser sério, é preciso parecê-lo.

Ora, nada melhor do que a Judiciária, a mando do Ministério Público e com publicação garantida na indústria da calúnia, para se fazer esse levantamento sobre as mulheres do César. Vamos querer saber tudo, dos telefonemas às manchas nos lençóis, do preço do sapato ao histórico clínico, do que disseram aos amigos ao que estão a pensar fazer aos adversários políticos. O Monteiro descobriu a cura para os vícios da malandragem que anda na política a fazer política. Sérios ou com falta de seriedade, o argumento estipula que vão passar a ter de “parecer sérios” após o devido tratamento dado pelos esgotos a céu aberto. Faz isto algum sentido? Não tem de fazer.

Certos atos políticos, podendo não ter condenação em tribunal, por inconsistência, falta de provas ou insuficiências da acusação, são, em si mesmo, pouco recomendáveis.

Eis o supino corolário. Existem “atos políticos” (os quais não se identificam, para que o conjunto tenha dimensão ilimitada) que nenhum tribunal poderia considerar ilegais e que, por isso mesmo, devem passar para a comarca dos pasquins onde se fará o “julgamento moral” respectivo. O critério para a entrada dos processos ficou transparente e brilhantemente definido: basta que sejam “pouco recomendáveis” a montante, Procuradoria-Geral da República, para que o sejam igualmente a jusante, as tabacarias, nas quais se vende sensacionalmente o material recolhido à privacidade dos alvos e se dá munição às agendas políticas de quem controla a produção de “moralidade”. Resta só esclarecer quem é que define o que seja ou não recomendável, muito ou pouco ou assim-assim. O texto responde com eloquência – é o Monteiro e os seus amigos que têm dado andamento aos copiosos exemplos que enchem o espaço público.

Daí a importância estratégica para a direita de poder controlar o editorialismo a toda a linha da fileira da comunicação social, salvo raras excepções. O Monteiro fala-nos disto com a cândida descontracção dos inimputáveis. Ele sabe que os crimes cometidos sistematicamente no Ministério Público e na imprensa obedecem a um padrão, o mesmo padrão onde tem ido buscar aquilo com que se compram os melões e que ele adivinha que não irá mudar tão cedo. É um espertalhão, afinal, este bronco.

Campanha contra Ivo Rosa – Ponto de situação

«Desde que um sorteio entre apenas dois candidatos con­fiou a parte final da instrução da Operação Marquês a Ivo Rosa, retirando-a das mãos do eterno juiz Carlos Alexandre, que, imediatamente e vinda de dentro da corporação, começou uma guerra surda de desacreditação de Ivo Rosa. A primeira das acusações era a de que perdia sistematicamente os recursos para a Relação, pois tinha o mau hábito de levar à letra a sua função de “juiz das garantias” (da acusação e da defesa), não se contentando com “provas” acusatórias assentes em suposições, mas antes exigindo “provas directas” — confissões, testemunhos, documentos, enfim, o trivial nos tempos anteriores aos tempos vigiados em que vivemos.

Esta campanha, iniciada nos jornais do costume, foi aos poucos resvalando para a chamada imprensa de referência, também ela mais disposta à ociosidade de tomar como verdades indiscutíveis o que recebia, já formatado, do que em deter-se a meditar sobre o fundamento dos ataques ao juiz. E passou a outro tipo de acusações: o juiz não gostava de assinar de cruz os pedidos da polícia ou do Ministério Público para pôr sob escuta telefones de quem eles, bem ou mal, suspeitavam. E, supremo desplante, exigia, por norma, que tais suspeitas se alicerçassem em qualquer coisa mais do que a simples menção de suspeitas. Esta segunda-feira, o “Público” trazia uma notícia de primeira página cujo título era nada menos do que este: “Objecções do juiz Ivo Rosa provocaram meses de atraso na investigação a Tancos.” E, em subtítulo, depois reproduzido como título numa página interior: “Magistrado tentou proteger militares no inquérito ao achamento das armas”. Leram bem, não leram? Preto no branco, o jornal acusou o juiz de ter deliberadamente atrasado a investigação e protegido os criminosos. Agora, eis o que se passou, de acordo com o relato do mesmo jornal: o atraso, alegadamente provocado pelo juiz, foi o decurso de tempo passado até o Tribunal da Relação se pronunciar sobre um recurso interposto pelo Ministério Público de uma decisão do juiz; e essa decisão — a tal que visaria proteger os criminosos militares — consistiu em o juiz recusar um pedido do Ministério Público para poder vasculhar todo o tráfego telefónico registado durante determinado período nas áreas do Montijo, Golegã, Entroncamento e Torres Novas, fundamentando a sua recusa na violação da intimidade de um vasto universo de pessoas que, na sua absolutamente esmagadora maio­ria, nada tinham que ver com o caso.

Talvez o hábito de vida em sociedades crescentemente policiadas nos esteja aos poucos a fazer perder o sentido daquilo que é essencial — mesmo numa imprensa que deveria estar na linha da frente do alerta. Como há dias escreveu, chumbando a lei que conferia poderes extra aos serviços secretos, o juiz do Tribunal Constitucional (e meu distinto colega de curso) João Caupers, é preferível viver com insegurança do que com a segurança de saber que os nossos direitos podem ser violados por consentimento da própria lei. Talvez a jornalista que escreveu aquele artigo não tenha memória nem conhecimento do que eram e para que serviam (incluindo chantagens de natureza pessoal) as escutas da PIDE. Mas eu tenho e vi com os meus olhos o resultado disso nos dossiês da já distante Comissão de Extinção da PIDE-DGS. Não tenho nenhumas saudades de voltar a esses tempos de libertinagem das autoridades (se é que não voltámos já...). Por isso, e pela parte que me toca, fico mais descansado por saber que há um juiz de instrução criminal que tem o mau hábito de exigir justificações suficientes e ponderar os danos a terceiros antes de autorizar uma escuta.

PS — E, para que dúvidas não fiquem, esclareço que não conheço o juiz Ivo Rosa de lado algum, nunca falei com ele e desconheço toda a sua vida além da actividade profissio­nal, que é pública. Mas também não vou, como jornalista convidado, aos congressos ou reuniões do Ministério Público.»


Miguel Sousa Tavares

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No centro está a virtude

Que aconteceria se a CDU ou o BE tivessem maioria absoluta no Parlamento? Os próprios entrariam em pânico, ou aguda confusão, nas horas e dias a seguir às eleições. E o mundo voltaria os olhos esbugalhados para o rectângulo como se uma embaixada de marcianos, com naves espaciais alugadas em Neptuno, tivesse chegado ao Terreiro do Paço. Mas seria ilegítimo? O Presidente da República, mesmo que fosse um clone do Cavaco, poderia recusar-se a dar posse a um primeiro-ministro comunista ou bloquista cuja coligação ou partido tivesse vencido as eleições com maioria de deputados? Este é um impensável na política portuguesa porque ninguém, a começar pelos comunistas e bloquistas, considera remotamente possível tal cenário.

O mesmo vale para qualquer partido do passado, do presente e do futuro num Estado de direito democrático. É a gloria da democracia e da liberdade, da democracia em liberdade e da liberdade democrática. Pode acontecer ao Chega. Pode acontecer ao PAN. Pode acontecer ao Livre. Pode acontecer ao MRPP e ao PPM. Pode, mas não vai acontecer. Em cada um destes exemplos, o sectarismo comanda a vida. Daí a necessidade de encontrarem “inimigos” para, a partir da sua diabolização e exclusão, construírem e reforçarem a identidade própria. O pensamento de facção policia os desvios. Os puros temem a contaminação. Os fanáticos assustam-se com a inteligência.

A fragmentação partidária e o extremismo ideológico, inclusive dessa ideologia que se alega não-ideológica por gostar tanto dos animais coitadinhos, do novo Parlamento permitirá ao PS algo nunca visto na história da governação: assumir sem vergonha ou empecilho o centro como o lugar onde se geram as melhores soluções políticas para a comunidade. O centro é o espaço ideológico onde se reúnem todas as diferenças (ou o maior número delas, o que vai dar exactamente ao mesmo). É uma cultura da negociação por excelência por ser alérgica ao boicote executivo. O centro é mais forte do que os extremos por não ser umbiguista, por não estar obsessivamente a lutar por uma identidade. É ao centro que os problemas encontram a sua formulação mais abrangente e profunda.

Cada força política tem direito ao seu enviesamento, vai sem discussão e nenhum protesto. Terão 4 anos para despejar as cassetes, berrar em frente às câmaras, contarem parangonas e notícias. O PS pode ignorar a algazarra. Não há nada para ganhar nesse tropel, só para perder quando a responsabilidade de governar é uma honra que convoca a humildade e a coragem. Que se fale do que importa ao Soberano.

O perfeito morcão

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Rui Rio esperou que o partido tivesse batido no fundo para avançar com uma candidatura à presidência do PSD. Fez campanha com declarações que prometiam uma refundação a partir da matriz de Sá Carneiro e que surpreenderam pela coragem ao criticar os crimes e disfunções no Ministério Público. Na declaração de vitória, 13 de Janeiro de 2018, garantiu solenemente o seguinte:

«A partir de Fevereiro, começaremos a construção de uma alternativa de Governo à actual frente de esquerda que se formou no Parlamento. Uma alternativa capaz de dar a Portugal uma governação mais firme e mais corajosa, capaz de enfrentar os grandes problemas estruturais com que há muito o país se confronta. Uma alternativa capaz de reforçar a nossa aposta em Portugal e de nos restituir a vontade, a alma e a esperança.

O actual Governo terá na nova liderança do PSD uma oposição firme e atenta, mas nunca demagógica ou populista, porque nunca contra o interesse nacional.

Os portugueses terão em nós um partido com a vontade inabalável de servir Portugal e de procurar contribuir para dar a todos a oportunidade de um futuro melhor. Um futuro melhor, só o conseguiremos se formos capazes de construir uma sociedade mais justa, mais solidária e mais capaz de ajudar na construção na felicidade de todos e de cada um de nós.»

Tratou-se de um juramento que se pintava com aparato histórico. E durante alguns meses parecia que ia ser cumprido. A escória passista estava furibunda com a ameaça de limpeza no partido e o fogo de barragem sobre Rio não teve um dia de descanso. Contudo, no primeiro teste a valer para se conhecer o quilate do seu carácter guerreiro – o tumulto e campanha decadente à volta da substituição de Joana Marques Vidal, episódio onde um ex-primeiro-ministro e um ex-Presidente da República sugeriram com as letras todas que os actuais representantes eleitos nos órgãos de soberania são cúmplices de criminosos e agem com dolo criminoso em representação do Estado – vimos o presidente do PSD a meter os pés pelas mãos e a exibir-se como o líder paupérrimo que é. Tal desoladora e vexante descoberta confirmou-se e agravou-se ao alimentar suspeições caluniosas na campanha para as Europeias e a propósito da CGD.

A comunicação política na campanha do PSD para as legislativas foi confrangedora, com erros estratégicos, descontrolo da marca do líder e amadorismo inacreditável nas peças tácticas. Quem disse que Rio venceu os debates com Costa teve sempre o cuidado de não fazer referência a qualquer mensagem objectiva saída da boca do líder da oposição que tivesse interesse fosse para o que fosse ou para quem fosse. Porque não existiu nada citável, óbvio, sendo que ainda se viu obrigado a concordar com Costa nos pontos mais importantes em discussão. O argumento da claque foi por outro caminho, o da subjectividade de quem proclamava derrotados e vitoriosos. Rio vencia porque alguém optava por dizer que ele era o vencedor. Vencia porque não tinha saído do debate numa ambulância. A subida nas sondagens dava razão a esta retórica feirante. E depois veio Tancos.

Após saírem os resultados das eleições legislativas de 2019, no seu discurso de derrota, apareceu-nos à frente um Rui Rio eufórico. Estava muito satisfeito consigo mesmo porque o PSD não tinha desaparecido do mapa. E chegava-lhe. Pelo que, anunciava soberbo de auto-estima, tinha valido a pena transformar as duas semanas de campanha eleitoral num chiqueiro demagógico onde usou a Justiça para boicotar qualquer tentativa de oferecer ao eleitorado um mapa, uma pista, um sinal esotérico que fosse, sobre a sua capacidade para “restituir a vontade, a alma e esperança” às gerações, sobre o modo como um Governo do PSD iria “construir uma sociedade mais justa, mais solidária e mais capaz de ajudar na construção na felicidade de todos e de cada um de nós“. Essas questões menores, em boa hora, foram substituídas pela dilacerante dúvida que deixava a comunidade em transe: “Afinal, aquilo do Azeredo, que raio é que o homem, hã?” Era esta a mais fiel exemplificação do que Rio considerava uma temática de superior “interesse nacional” para ir a votos montado na ajudinha dum Ministério Público subitamente digno dos seus elogios.

Talvez a mais importante revelação acerca desta personagem circense, que o próprio se encarregou de publicitar na noite eleitoral, seja a sua crença de ter graça quando faz gracinhas. E, de facto, o seu canal no Twitter exibe múltiplos exemplos hilariantes. Temos todos de concordar, o prometido “futuro melhor” será muito mais fácil de alcançar para o País quando Rio abandonar a política e se dedicar à comédia.

Aqui fica um cheirinho do seu potencial:
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Serviço público

João Miguel Tavares e o estado do tempo

NOTA

Liga-se o artigo suso ao de João Júlio Cerqueira aplaudido abaixo, este tendo como principal mérito ser uma possível e brevíssima, e levíssima, introdução à conceptualização do que seja a “honestidade intelectual”. Território com pouca literatura (no Mundo, em Portugal nenhuma), e ainda menos notoriedade na comunicação social, mas que se confunde com a origem e desenvolvimento da Filosofia e da Ciência – num certo sentido, também as suas raízes estão na Mitologia e na Religião como veículos narrativos para o nascimento antropológico e pré-histórico da noção de “lei” e de “universal”. Convocando uma entidade com respiros imanentes e transcendentais, estamos a falar da natureza, ou essência, do “Logos”; entendido como a linguagem humana que é génese, estrutura e ordenação de conceitos relacionados por juízos. Ou seja, a honestidade intelectual é uma atitude e um comportamento onde a inteligência verbal é levada ao extremo actualizado das suas capacidades cognitivas e intelectuais. Para tal, é necessário ostracizar os preconceitos e assassinar o egocentrismo de forma a ascender, ou descender, até à alteridade onde se contempla a sombra do Real. No texto, o autor chama-lhe, a esse destino, “verdade” – assim nos fazendo o favor de rematar o exercício com uma traição à sua honestidade intelectual (mas pela melhor das intenções, como sempre). Na Ciência, tal como na Filosofia sua mãe e sua namorada, a “verdade” é o ópio do ignaro ou a máscara do tirano.

Vasco M. Barreto igualmente se filia na augusta tradição da honestidade intelectual quando resolve dar uma lição de epistemologia ao caluniador profissional de maior sucesso na Grei. Tem a sua inevitável ironia, pois o nosso amigo da Planície não é exactamente o mais imaculado paladino da dita (contas de outro rosário), mas no caso tudo lhe seja perdoado dado o serviço público em causa. De acordo com a lógica do passado, que o Público já antecipou ao ter excluído o artigo do Vasco da zona de visibilidade principal na edição digital, João Miguel Tavares irá ignorar o desafio. Foi o que fez em matérias, e com autores, com maior probabilidade de abrir uma “polémica”; como António Guerreiro, Pacheco Pereira e Ricardo Paes Mamede (recordo ao correr da pena, faltam outros) que o chamaram com gritos de forcado só para vermos o nosso herói refugiado em tábuas. E não há qualquer mistério na sua omissão. Ele, coitado, tem por estes dias de ser muito criterioso com o seu tempo porque despacha três textos por semana no Público, avia dois programas semanais na rádio do Observador, prepara e actua no Governo Sombra e, nas raras horas vagas em que não está a procriar, ainda tem de fechar-se no escritório a escrever um calhamaço sobre Sócrates que servirá de base para uma futura cadeira semestral no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Vai chamar-se “Os socráticos – A Peste Rosa” e consiste na análise e comentário dos textos de JMT de acordo com o próprio e pelo próprio. Notícias que dão conta de existir um projecto secreto onde este Tavares, o Rui Ramos e o Zé Manel Fernandes vão financiar a construção de um monumental arco do triunfo a ser colocado na Rua Luciana Stegagno Picchio não puderam ser confirmadas pela redacção do Aspirina B antes de se ter fechado a edição mas são verosímeis e poderão contribuir para ajudar a explicar porque não pode dar atenção a todos os cães que lhe ladram enquanto passa em direcção a mais uma praga de socratismo que irá exterminar implacavelmente.

Acreditar que será possível ler ou ouvir JMT a discorrer sobre Popper e Kuhn implica padecer do mesmo desarranjo de alma de quem espera que algures neste milénio Octávio Ribeiro e Eduardo Dâmaso venham a citar em público uma linha do Código Deontológico do Jornalista. Não é que eles ignorem o que lá está escarrapachado, é só porque quando lhes falam nisso desatam à gargalhada. Um riso que nada tem de nervoso, antes brota caudaloso do espanto invariavelmente renovado de bastar ter um olho para ser rei numa terra de ceguetas. A Cofina é imune ao Estado de direito democrático, estabeleceu uma santa aliança com agentes da Justiça criminosos e faz negócio com a judicialização da política e com a politização da Justiça. E não existe em Portugal entidade alguma que impeça a violação constante, sistemática, da Lei quando tratam como criminosos cidadãos que nem sequer acusados ainda foram nem se pode garantir que o venham a ser ou do quê exactamente – portanto, ainda a anos, ou eternidades, de estarem perante um tribunal de 1ª instância que decida da sua inocência ou culpabilidade de acordo com critérios inevitavelmente questionáveis. O que a Cofina faz, imitada e citada pela indústria da calúnia, não é jornalismo, não é informação, não é servir o público. É terrorismo mediático.

JMT preferiria tornar-se militante do PS a ter de teclar sobre o lugar da enunciação e o paradigma junto da turba de chavascos que comanda na batalha diária contra a corrupção. Não por ser matéria que ele não dominasse o suficiente para expor uma lata vazia na montra como se tivesse alguma ideia aproveitável no armazém, afinal são conteúdos dados no 11º ano de escolaridade a crianças e o homem possui uma ligação à Internet a funcionar bem, antes por se arriscar a passar por jornaleiro interessado em pensar. Ora, pensar é irreconciliável com a actividade de mastigar preconceitos, vacuidades, calúnias e servir a papinha aos borregos. O seu estatuto de maior vedeta do nacional-tanguismo permite-lhe deixar a pedinchar o Guerreiro, o Mamede e o Barreto, tralha intelectualóide. O seu gosto está apurado, refinadíssimo, ele já só aceita andar a largar facécias gasosas de braço dado com um primeiro-ministro, com um ministro das Finanças, com um Presidente da República. Mas há um ano, precisamente, o seu destino parecia marcado para um final jokeriano. Em 2018, JMT foi manifestando estar cada vez mais dominado pela sua obsessão com Sócrates e figuras que ele conseguisse colar ao seu fetiche. As provas de corrupção nunca encontrada pelas “investigações” do esgoto a céu aberto que permitissem assinar a condenação em manchetes, o crescimento da suspeita de que a acusação era muito mais política do que quase nada judicial, a demora no desfecho do processo e a não recondução da Santa Joana, tudo isto eram presságios negros e esvoaçantes que deixaram à beira do pânico o caluniador profissional. Então, começou a alargar a sua indecência paranóide, acusando este mundo e o outro de serem cúmplices de Sócrates. Só escapavam o CM, Rui Ramos, José Manuel Fernandes e o próprio, minúsculo grupo de sobrenaturais resistentes e generais vitoriosos da Grande Guerra Socrática. O resto da população ficava marcado a ferro e fogo como cúmplice do Diabo por actos e omissões. Um dos que chegou a insultar na alucinação onde mergulhou foi o David Dinis (o David Dinis, senhores ouvintes, um serviçal do laranjal… minha Nossa Senhora do Caravaggio), o que permitiu registar a sua relevante resposta:

«P.S. O João Miguel Tavares quer saber onde é que eu estava no tempo do Sócrates. Eu satisfaço-lhe a curiosidade: a ouvir os gritos dele ao telefone, porque nunca abdiquei de o escrutinar – nem saí do jornalismo para fazer piadas.»

2 – Novembro – 2018

És um palhaço, disparou o Dinis na direcção do dito. De jornalista apenas te resta a cagança, continuou o Dinis. És um hipócrita de merda que só não achincalho mais porque és útil para quem nos paga, estúpido do caralho, concluiu o Dinis com um coerente ponto final na conversa. Este era o estado do JMT para os seus amigos direitolas à época, a imagem de um ser doente, insuportável até para os seus colegas caluniadores no caluniador Governo Sombra que gozavam com misericórdia da miséria bolçada. Tinha dado jeito mas a psicose não favorecia a causa. E nisto, deus ex machina, Marcelo pega neste farrapo encardido de tanta indecência e diz-nos que temos ali um exemplo a seguir, um cidadão que por mérito próprio fica como símbolo do melhor que somos e podemos ser. O Professor de Direito, o Presidente da República que jurou – por sua honra – cumprir a Constituição ofereceu o Dia de Portugal a um profissional da indústria da calúnia que anda a ganhar dinheiro com crimes, violações e perseguições. Um “jornalista” que diz mediaticamente que os políticos usam a Assembleia da República para fazer leis intencionalmente defeituosas que servem para se protegerem uns aos outros e roubarem o Estado e os contribuintes impunemente. Um pulha que, acabado de chegar de Portalegre onde nos falou de si próprio com entusiasmo e detalhe, usou o nazismo, o Holocausto, a pessoa de Adolf Eichmann e a reflexão de Hannah Arendt para insultar, ofender e caluniar Vítor Constâncio.

O triunfo da “decência de baixíssima intensidade” desta pícara figura que se especializou na bacorada e na canalhice fica como metonímia de um tempo e do regime. Permite ver à transparência como a problemática da honestidade intelectual é em si um projecto político transversal às novas ideologias a caminho. Não é que esquerda e direita estejam em vias de extinção; ao contrário, vamos precisar de igualmente distinguir entre a direita baixa e alta, a esquerda alta e baixa. Há uma epistemologia da política a germinar no Planeta onde o Direito e a Economia vão abrir espaço no palco para os novos papéis decisores das Ciências Naturais e para o possível papel mediador da Filosofia.

Foi fantástico ter afundado Portugal, recorda Relvas com saudade

«Se tudo falhar "nesta nova geração", o regresso ao passado é sempre uma hipótese a considerar. "Acho que Passos Coelho, não nesta fase, mas se esta nova geração não for capaz de agregar e de somar, eu não vejo que Passos Coelho e Paulo Portas estejam afastados da vida política", realça Relvas que, mais à frente nesta entrevista à TDM, nota que "há sempre gente que pode regressar" juntando aos nomes já citados o de Marques Mendes. "Em caso de emergência, aí estarão", sublinha.

No caso de Passos e Portas, a justificação é simples: "o governo em que ambos estiveram foi um governo que salvou Portugal".

"A história será muito mais simpática do que a realidade em relação àquilo que foi feito. Foi muito difícil, foi muito duro? Foi. Mas foi fantástico recuperar o país em quatro anos, parece que aquilo que vivemos a partir de 2016 foi algo que nasceu de geração espontânea. Não, não nasceu de geração espontânea. Nasceu de muito sacrifício, em primeiro lugar dos portugueses", destaca.»

Salvação do centro-direita? Relvas aponta Passos e Portas se nova geração falhar