Ricardo Costa na casa de banho

João Miguel Tavares não é politicamente relevante pelo que diz em público ou fará em privado. Não tem qualquer mérito académico, artístico, científico, cívico, desportivo, intelectual, militar ou profissional que possamos identificar. Nem a sua perseguição ao PS e a exploração da judicialização da política e da politização da Justiça mereceriam atenção se ele fosse apenas mais um João Pereira Coutinho ou um Henrique Raposo, entre tantos outros exemplos de fanatismo folclórico no comentariado da direita decadente. Ele é politicamente importante, até crucial para se descobrir a seiva do regime, única e exclusivamente graças à importância política de quem lhe dá dinheiro e de quem o usa. Quando um jornal dito de referência lhe paga para difamar e caluniar, e ainda o tem como referência editorial, quando uma rádio e uma TV lhe pagam para promover crimes no Ministério Público e violentar as vítimas que viram os seus direitos violados por quem devia ter sido o seu invencível guardião, quando um primeiro-ministro monta uma inaudita e inacreditável operação de relações públicas que implicou levar três menores para as instalações do Governo, onde ficaram retidos durante horas com o entusiasmado consentimento dos pais, e quando um Presidente da República junta escandalosamente a uma lista de personalidades com obra ao serviço da comunidade ao longo de décadas o nome de um caluniador profissional à beira de ser internado por obsessão, ainda por cima justificando tal vexante escolha em nome da “defesa do jornalismo”, então o tópico João Miguel Tavares é de indiscutível dimensão política por razões que ultrapassam a sua arrivista figura pública.

Na série de entrevistas para o Observador, Artigo 38, encontramos um JMT regressado da 1ª Grande Guerra Socrática. Para prolongar a consagração divina recebida no templo republicano de Portalegre pelo sacerdote-mor, organizou um cortejo triunfal onde obrigou 12 marmanjões a irem ao beija-mão (consta que 5 se recusaram dos 17 inicialmente convidados). E eles foram, felizes da vida por receberem rapapés da vedeta guerreira. Um deles foi Ricardo Costa, escolhido por ser um dos rostos da resistência aos bárbaros socráticos e também por ser alguém que ainda poderá vir a dar dinheiro ao entrevistador (embora não necessariamente por esta ordem). De acordo com o objectivo pouco ou nada secreto destas entrevistas, JMT passou a maior parte do tempo a puxar pelas memórias e emoções dos convidados acerca do monstro Sócrates. É de esperar que o material recolhido venha a aparecer numa monografia que se roga, com ansiedade, esteja para breve.

No meio do falatório destes dois gigantes da luta contra a tirania e a corrupção, o mano Costa saiu-se com um retrato cristalino acerca dos bastidores do regime:

Ricardo Costa - [...] Eu fui chamado à ERC quando foi aquela coisa das "pressões do Sócrates". E eu achei aquele processo ridículo. Porque é que achei aquele processo ridículo? Eu tive imensos telefonemas do Sócrates. Eu conheço o Sócrates desde 1991, eu era um jornalista júnior do Expresso. Ele sentava-se na última fila. E eu, esses tipos da última fila, dessa altura, trato quase todos por tu. Ele é um deles. E trato por tu. Não o vejo há muitos anos; se calhar, felizmente, porque agora acho provavelmente que nem nos tratamos, de maneira nenhuma, nem por tu nem por outra coisa qualquer. Duvido que ele me fale e também não tenho interesse em lhe falar. Mas isso é outra questão. Mas eu, ao longo da vida, porque o conhecia, recebi imensos telefonemas do Sócrates pelos temas mais estapafúrdios. E, eu, entrava-me pelo ouvido e saía-me pelo outro. Ou então mandava-o passear quando ele não tinha razão (e não me lembro de alguma vez que tivesse, mas admito que houvesse alguma que tivesse razão). E, nesse processo, havia alguns colegas meus que se queixavam de coisas, pá, que eram completamente normais. O problema é que depois havia outras que provavelmente eram anormais. Comigo não se passou nenhuma anormal. Ele ligava, porque não sei quê. Telefonemas alguns que demoravam não sei quanto tempo. Ouve um que eu lembro, uma vez que estava-me a arranjar, tinha acabado de tomar banho. Tive tempo de me vestir, de fazer a barba, de tomar o pequeno-almoço, e o Sócrates continuava a falar. Já não me lembro porque era, provavelmente alguma coisa por causa da licenciatura, ou uma coisa qualquer. O tipo ia no carro, então ia com tempo, e ficou para ali a debitar não sei quantas coisas. E disse "'Tá bem, 'tá bem", desliguei o telefone e fui à minha vida, nunca mais me lembrei do Sócrates. It comes with the job. Quando uma pessoa é director de informação às vezes leva com telefonemas de um primeiro-ministro zangado, de um líder da oposição, de um empresário, do que seja, de um sindicalista. Pode haver telefonemas de várias pessoas. [...] Nem todos os telefonema são pressões, e nem todas as pressões são pressões violentas ou graves. Porque eu acho que, no caso, essas coisas na SIC ou no Expresso é muito difícil que tenham qualquer efeito, qualquer efeito.

Fonte

Antes de irmos às declarações do director-geral de informação do grupo Impresa, há que anotar o contexto em que foram proferidas. JMT tinha acabado de se babar para cima do Ricardo, reclamando ter sido o mais valente dos valentes na 1ª GGS e dizendo-lhe para se ajoelhar aos seus pés. Este número era um dos mais delirantemente desejados pelo autor do “Artigo 38”, aquela cena em que ele olharia nos olhos de alguns reputadíssimos passarões da indústria jornaleira e perguntaria mavioso “Como é que foi possível não teres visto o que eu vi?”. Obviamente, a única resposta permitida por essa lógica caluniadora fica logo dada ainda antes de se chegar ao ponto de interrogação – não era possível, eles viram o mesmo, mas calaram-se porque andaram a mamar, ou são cobardes, ou ambas as opções. O Costa mais pequeno não teve dificuldade em descodificar o subtexto, e para sua defesa barricou-se na casa de banho.

Ninguém se lembra de um texto do Ricardo Costa, ou sua declaração televisiva ou radiofónica, onde ele tenha desmontado a campanha negra relativa às “pressões do Sócrates” (se existe, aguardo penhorado que me digam onde) tal como faz nesta passagem citada. O que nela vemos descrito fica com perfume de verdade pois é conforme ao senso comum, ao bom senso e a qualquer outro critério que possamos ir buscar à psicologia, à sociologia, à antropologia, a qualquer domínio do saber e da experiência humana. Políticos e jornalistas não só comunicam constantemente como o fazem em situações privadas. Políticos e jornalistas convivem regularmente, frequentemente, intensamente. Políticos e jornalistas estabelecem laços de proximidade pessoal, afectiva, relacional pelas mais diversas e desvairadas razões, incluindo os benefícios mútuos ou a enigmática preferência subjectiva – como sempre, como acontece e acontecerá até ao fim dos tempos com todos nós. Os telefonemas de Sócrates não passavam disto, algo que o tonto do Henrique Monteiro ou o sonso do David Dinis poderiam confirmar se quisessem ser honestos. Conversas sem a menor capacidade para violarem o código deontológico, o estatuto e a consciência dos jornalistas que nelas participavam livremente. Malta que vivia do mesmo, a política, a interagir como parceiros e rivais num apaixonante e magnífico jogo de riscos e atracções imarcescíveis.

Acossado pelo borra-botas armado aos cágados, o mano Costa partiu para a exibição dos seus galões e superioridade de caserna. Pois era, afinal o JMT tinha ali à sua frente quem despachava pela matina primeiros-ministros desesperados para falar com ele, aos quais ele fazia o especial favor de fingir que os estava a ouvir enquanto desmanchava a barba e estava a cagar, literal e peristalticamente a cagar. No final, depois de encher o bandulho com um galão e olímpicas torradas mergulhadas em manteiga, dizia para o infeliz governante “‘Tá bem, ’tá bem” e ia sorridente e relaxado para o império do Balsemão dar ordens e continuar a curtir a sua dolce vita. Quer-se dizer, é um bocadinho diferente de ter de andar a ganhar a vida como palhaço para todo o serviço, devolveu o mano Costa num subtexto que nada garante ter sido descodificado pelos neurónios do entrevistador.

O melhor da entrevista, porém, estava guardado para uma singela afirmação:

João Miguel Tavares - Ficaste surpreendido quando ele [Sócrates] foi preso?

Ricardo Costa - Só não fiquei surpreendido porque uns dias antes já alguns colegas meus bem informados já estavam na pista disso [...]

Uns dias antes, o Ministério Público de Joana Marques Vidal tinha garantido que a comunicação social aliada estaria a postos para a cobertura mediática do século, estando no Governo Passos Coelho e em Belém Cavaco Silva, garante o irmão do actual primeiro-ministro. E se tal aconteceu foi porque para o Ministério Público seria completamente indiferente que a informação chegasse a Sócrates e demais visados no processo nesses dias que antecediam a cena no aeroporto – ou seja, os procuradores estavam-se a marimbar para a eventual destruição ou ocultação de supostas provas, para o eventual contacto entre futuros arguidos para combinarem supostas versões enganadoras. Surpresa? Nenhuma. Meses antes, a mesma PGR tinha lançado uma campanha de apoio a Seguro nas eleições no PS que implicou anunciar publicamente que se estava a fazer uma investigação contra Sócrates e apresentando-se os principais argumentos do que viria a ser invocado para a sua detenção e prisão. E tudo isto faz sentido porque, chegados a 2019, o quadro acusatório que justificou a prisão preventiva de 9 meses está completamente desactualizado. Prendeu-se para investigar, é uma das conclusões da “Operação Marquês” com implicações para a própria viabilidade do Estado de direito em Portugal. A anomia inerente a este quadro de fúria e adrenalina na caçada a Sócrates faz lembrar o caso da invasão do Iraque e o método do “Shock and Awe”. Também nesse processo se inventaram umas supostas armas químicas e biológicas que nunca ninguém veio a descobrir, nem depois de terem morrido milhares e milhares de iraquianos e de se ter destruído esse país à bomba – mas que se foram exibir em papel na ONU para justificar a espantosa violência que se iria seguir a uma celebérrima reunião nos Açores. O mesmo se fez na “Operação Marquês”, e já se tinha tentado no “Face Oculta” (aqui, tendo-se conseguido apanhar Vara sem provas): usar a Justiça, o aparelho do Estado, para vinganças e perfídias políticas.

Temos de concordar, dá muito jeito ter colegas “bem informados”. Viva o Artigo 38, viva a liberdade de expressão!

4 thoughts on “Ricardo Costa na casa de banho”

  1. O Costa, mano pomposo auto-convencido que é rei num mundo de cegos costuma ser menos directo que o jmt, contudo é tão parvo como aquele enquanto pensa que Maquiavel não passaria de um menino de coro ao pé de si.
    O excerto acima revela o seu egocentrismo maníaco de armar-se em grandeza acima do maquiavélico original. Lembro que já fora este jornalista especialista no espertismo que tramara a candidatura do filósofo ex-ministro da cultura do PS na sua corrida para a Câmara de Lisboa filmando, quando se pensavam as câmaras desligadas, a recusa do aperto de mão final dos candidatos debatentes e depois explorando o caso moralmente até à náusea.
    Matou ali a carreira política do ex-ministro Carrilho. O mesmo tenta a todo momento e oportunidade fazer com o mano PM. A inveja, o ressentimento face à maior grandeza conseguida pelo irmão ofusca-lhe a mente e, certamente, só será feliz e terá o seu grande orgasmo quando vir cair na lama o mano que o ensombra.
    Segundo o extrato transcrito parece que resolveu bajular com criações próprias o outro expert criativo empreendedor de maquiavelimo à la carte.
    Talvez andem numa disputa oculta e fingida para determinar o vencedor para ser rei no trono dos infernos na terra. Porque na realidade do nosso dia a dia político estas personagens estão para a discussão política séria e honesta como o ddt químico está para o solo e os insectos da terra.

  2. Que estas cenas se passem em ambientes cuja frequência não requer a demonstração ( prévia ou no exercício ) de qualquer prurido ético, não me espanta. O que me espanta é que nada de relevante suceda na sociedade para as contrariar. Pelo contrário: cultiva-se a imbecilidade, cria-se um mercado de imbecis, factura-se o serviço, e lucra-se com isso. E onde se lê “lucro”, isso tanto pode significar €, notoriedade, votos, como tudo junto.

  3. O de Ourique diz não haver dúvidas que o Sócrates é um consumado e reiterado aldrabão. Deve ser um avençado do esgoto a céu aberto, só pode!

  4. Duvido que haja um jornalista português que não desse a peida e 5 tostões para ter um primeiro ministro ao telefone, um que seja e este mano Costa, a ser verdade o que disse, “peida-se mais alto que o cu” em boa linguagem tolstoiana.
    Não me surpreende de todo que talvez reagisse assim, nota-se pela maneira como o disse, mas acontece que tendo Sócrates o feitio que tem, duvido que alguma vez desse esse prazer a um pedante deste calibre.

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