És tão bronco, Monteiro

É irresistível reagir com enfado e desprezo perante uma qualquer opinião acerca do Henrique Monteiro. Que importa essa figura seja para o que for, pensam os que assim pensam e têm o trabalho de comentar opiniões como a que vou despachar abaixo. Porém, contudo e todavia, chamo a atenção dos malucos que percam o seu rico tempo neste pardieiro para a realidade. Na realidade, o ser foi director do “Expresso”, um semanário de altíssimo alcance e influência desde a sua fundação, 1973, tendo sido este canal mediático o esteio de um poderosíssimo grupo de comunicação social liderado por um dos mais políticos duques da oligarquia portuguesa, Pinto Balsemão. Para além dessa elevação na carreira, o Monteiro estava ao leme quando se deu a “Inventona de Belém”, tendo sacrificado a vergonha na cara para defender e levar avante a mais grave golpada montada no regime desde o 25 de Novembro. Hoje, escrevinha textos ridículos, pindéricos, tontos, no jornal que serviu com zelo exemplar, desconhecendo se tem mais alguma actividade dentro do grupo Impresa.

Pois este crânio acaba de lançar no espaço público a mais descarada celebração do crime de violação do segredo de justiça e da indústria da calúnia que me foi dado ler até ao dia de hoje – Por falar em ‘justiça de tabacaria’. A tese está aqui sintetizada:

"As indignações dos visados, dos políticos e de outros acusados podem ser compreensíveis, mas não têm o mínimo fundamento. Na verdade, numa sociedade aberta e global é natural que se saiba que fulano é arguido, que é (ou não) acusado e que é (ou não) culpado. As pessoas bem informadas e bem formadas sabem que todos são inocentes até ao trânsito em julgado. Mas, de igual modo, sabe-se que o julgamento na praça pública, que é sobretudo um julgamento moral, provocando danos de reputação, não é o julgamento em si. Muitas vezes é um julgamento político. E por isso se diz que na política se tem de ser como a ‘mulher de César” (o Imperador Romano): não basta ser sério, é preciso parecê-lo.

Certos atos políticos, podendo não ter condenação em tribunal, por inconsistência, falta de provas ou insuficiências da acusação, são, em si mesmo, pouco recomendáveis."

Quem ganha a vidinha através da desonestidade intelectual especializa-se na técnica de mentir recorrendo a pedaços do que é consensualmente considerado verdadeiro, ou só pelo público a quem se dirige. Tal exercício gera inevitavelmente contradições no discurso, tal como uma falsificação de dinheiro ou pintura gera inevitáveis discrepâncias face ao original. Um artista da desonestidade intelectual conseguirá simular para o maior número na sua audiência uma ausência de contradições, um iniciante ou amador gerará um muito maior número de falhas lógicas. No caso do Monteiro, estamos perante um tosco que se permite ser pândego. Ele, tal como anuncia, já só quer que reparem no que diz, mesmo que seja apenas para o insultar. Pois bem, bute lá.

As indignações dos visados, dos políticos e de outros acusados podem ser compreensíveis, mas não têm o mínimo fundamento.

Que será compreensível numa indignação que não tem o mínimo fundamento? Esta frase não quer dizer nada de nadinha de nada. Mas mesmo que quisesse dizer alguma coisa, teríamos de esperar que o Inferno arrefecesse para o Monteiro descobrir no que estava a pensar quando a teclava.

Na verdade, numa sociedade aberta e global é natural que se saiba que fulano é arguido, que é (ou não) acusado e que é (ou não) culpado.

Nada disto tem relação com a violação do segredo de justiça. Resta só saber se o Monteiro convive com alguém capaz de lhe explicar a evidência.

As pessoas bem informadas e bem formadas sabem que todos são inocentes até ao trânsito em julgado.

Momento de confissão. O Monteiro assume não pertencer ao grupo enunciado.

Mas, de igual modo, sabe-se que o julgamento na praça pública, que é sobretudo um julgamento moral, provocando danos de reputação, não é o julgamento em si.

Cá está. Como o julgamento na praça pública não é o “julgamento em si”, explica ele aos borregos, então, puta que pariu com essa tanga dos inocentes não sei quê do trânsito. Tragam as forquilhas, os cães e o cordame para o maravilhoso espectáculo do “julgamento moral”. É tão fixe! E só provoca insignificantes “danos de reputação”, umas merdices a que ninguém dá valor e que deviam ser apagados do conjunto de direitos que constituem o melhor que a civilização alcançou ao longo de centenas de milhares de anos de miraculosa criação do Estado de direito, especialmente quando estamos a assistir ao auto-de-fé com as pipocas ou o copo de tinto na mão. Curiosamente, isto dos julgamentos morais calha sempre a malta que o Monteiro não grama, abençoada coincidência.

Muitas vezes é um julgamento político.

Boa, Monteiro. Que perspicácia. Que frontalidade. Que capacidade espantosa para surpreender o leitor. E que gostinho, pá, né?

E por isso se diz que na política se tem de ser como a ‘mulher de César” (o Imperador Romano): não basta ser sério, é preciso parecê-lo.

Ora, nada melhor do que a Judiciária, a mando do Ministério Público e com publicação garantida na indústria da calúnia, para se fazer esse levantamento sobre as mulheres do César. Vamos querer saber tudo, dos telefonemas às manchas nos lençóis, do preço do sapato ao histórico clínico, do que disseram aos amigos ao que estão a pensar fazer aos adversários políticos. O Monteiro descobriu a cura para os vícios da malandragem que anda na política a fazer política. Sérios ou com falta de seriedade, o argumento estipula que vão passar a ter de “parecer sérios” após o devido tratamento dado pelos esgotos a céu aberto. Faz isto algum sentido? Não tem de fazer.

Certos atos políticos, podendo não ter condenação em tribunal, por inconsistência, falta de provas ou insuficiências da acusação, são, em si mesmo, pouco recomendáveis.

Eis o supino corolário. Existem “atos políticos” (os quais não se identificam, para que o conjunto tenha dimensão ilimitada) que nenhum tribunal poderia considerar ilegais e que, por isso mesmo, devem passar para a comarca dos pasquins onde se fará o “julgamento moral” respectivo. O critério para a entrada dos processos ficou transparente e brilhantemente definido: basta que sejam “pouco recomendáveis” a montante, Procuradoria-Geral da República, para que o sejam igualmente a jusante, as tabacarias, nas quais se vende sensacionalmente o material recolhido à privacidade dos alvos e se dá munição às agendas políticas de quem controla a produção de “moralidade”. Resta só esclarecer quem é que define o que seja ou não recomendável, muito ou pouco ou assim-assim. O texto responde com eloquência – é o Monteiro e os seus amigos que têm dado andamento aos copiosos exemplos que enchem o espaço público.

Daí a importância estratégica para a direita de poder controlar o editorialismo a toda a linha da fileira da comunicação social, salvo raras excepções. O Monteiro fala-nos disto com a cândida descontracção dos inimputáveis. Ele sabe que os crimes cometidos sistematicamente no Ministério Público e na imprensa obedecem a um padrão, o mesmo padrão onde tem ido buscar aquilo com que se compram os melões e que ele adivinha que não irá mudar tão cedo. É um espertalhão, afinal, este bronco.

5 thoughts on “És tão bronco, Monteiro”

  1. “Bronco” o tanas ! Sabe muito bem como defender os interesses de quem lhe paga, isso sim. E se dúvidas restarem, pergunte-se em qualquer café quem discorda das premissas da prosa. Como dizia em tempos a celebérrima Teresa Guilherme, nos meios mediáticos, “quem tem ética não come”.

  2. O sonso do Monteiro, preocupa-se pouco com as minudências dos “julgamentos na praça pública”, a barriga está primeiro. O corretivo é excelente, mas de pouco vai valer, o Monteiro não tem um mínimo de ética e respeito pela profissão que diz ter. Diz, e dizem alguns que é jornalista. Será????????????

  3. Este Monteiro até teve bons princípios. De facto iniciou-se num dos melhores semanários que por aí andaram no pós 25 de Abril, mas que infelizmente desapareceu: “O Jornal”.
    Só que entretanto tudo mudou e JORNALISMO em Portugal foi coisa que deixou de existir. Actualmente só existe por aí a pseudo-imprensa dos pasquins que, obviamente, deixei de comprar e ler, onde proliferam uns tantos invertebrados que precisam de pão para a boca e que, vendendo-se, se disponibilizaram a fazer uns pescates a quem lhes paga, despindo-se de toda e qualquer decência ética.

  4. Comprar jornais? Antes pagar a profissionais que fazem o mesmo serviço dos jornais de agora ,mas com mais perfumes,mais luzes vermelhas,enfim,com outra limpeza!

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