Serviço público

João Miguel Tavares e o estado do tempo

NOTA

Liga-se o artigo suso ao de João Júlio Cerqueira aplaudido abaixo, este tendo como principal mérito ser uma possível e brevíssima, e levíssima, introdução à conceptualização do que seja a “honestidade intelectual”. Território com pouca literatura (no Mundo, em Portugal nenhuma), e ainda menos notoriedade na comunicação social, mas que se confunde com a origem e desenvolvimento da Filosofia e da Ciência – num certo sentido, também as suas raízes estão na Mitologia e na Religião como veículos narrativos para o nascimento antropológico e pré-histórico da noção de “lei” e de “universal”. Convocando uma entidade com respiros imanentes e transcendentais, estamos a falar da natureza, ou essência, do “Logos”; entendido como a linguagem humana que é génese, estrutura e ordenação de conceitos relacionados por juízos. Ou seja, a honestidade intelectual é uma atitude e um comportamento onde a inteligência verbal é levada ao extremo actualizado das suas capacidades cognitivas e intelectuais. Para tal, é necessário ostracizar os preconceitos e assassinar o egocentrismo de forma a ascender, ou descender, até à alteridade onde se contempla a sombra do Real. No texto, o autor chama-lhe, a esse destino, “verdade” – assim nos fazendo o favor de rematar o exercício com uma traição à sua honestidade intelectual (mas pela melhor das intenções, como sempre). Na Ciência, tal como na Filosofia sua mãe e sua namorada, a “verdade” é o ópio do ignaro ou a máscara do tirano.

Vasco M. Barreto igualmente se filia na augusta tradição da honestidade intelectual quando resolve dar uma lição de epistemologia ao caluniador profissional de maior sucesso na Grei. Tem a sua inevitável ironia, pois o nosso amigo da Planície não é exactamente o mais imaculado paladino da dita (contas de outro rosário), mas no caso tudo lhe seja perdoado dado o serviço público em causa. De acordo com a lógica do passado, que o Público já antecipou ao ter excluído o artigo do Vasco da zona de visibilidade principal na edição digital, João Miguel Tavares irá ignorar o desafio. Foi o que fez em matérias, e com autores, com maior probabilidade de abrir uma “polémica”; como António Guerreiro, Pacheco Pereira e Ricardo Paes Mamede (recordo ao correr da pena, faltam outros) que o chamaram com gritos de forcado só para vermos o nosso herói refugiado em tábuas. E não há qualquer mistério na sua omissão. Ele, coitado, tem por estes dias de ser muito criterioso com o seu tempo porque despacha três textos por semana no Público, avia dois programas semanais na rádio do Observador, prepara e actua no Governo Sombra e, nas raras horas vagas em que não está a procriar, ainda tem de fechar-se no escritório a escrever um calhamaço sobre Sócrates que servirá de base para uma futura cadeira semestral no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Vai chamar-se “Os socráticos – A Peste Rosa” e consiste na análise e comentário dos textos de JMT de acordo com o próprio e pelo próprio. Notícias que dão conta de existir um projecto secreto onde este Tavares, o Rui Ramos e o Zé Manel Fernandes vão financiar a construção de um monumental arco do triunfo a ser colocado na Rua Luciana Stegagno Picchio não puderam ser confirmadas pela redacção do Aspirina B antes de se ter fechado a edição mas são verosímeis e poderão contribuir para ajudar a explicar porque não pode dar atenção a todos os cães que lhe ladram enquanto passa em direcção a mais uma praga de socratismo que irá exterminar implacavelmente.

Acreditar que será possível ler ou ouvir JMT a discorrer sobre Popper e Kuhn implica padecer do mesmo desarranjo de alma de quem espera que algures neste milénio Octávio Ribeiro e Eduardo Dâmaso venham a citar em público uma linha do Código Deontológico do Jornalista. Não é que eles ignorem o que lá está escarrapachado, é só porque quando lhes falam nisso desatam à gargalhada. Um riso que nada tem de nervoso, antes brota caudaloso do espanto invariavelmente renovado de bastar ter um olho para ser rei numa terra de ceguetas. A Cofina é imune ao Estado de direito democrático, estabeleceu uma santa aliança com agentes da Justiça criminosos e faz negócio com a judicialização da política e com a politização da Justiça. E não existe em Portugal entidade alguma que impeça a violação constante, sistemática, da Lei quando tratam como criminosos cidadãos que nem sequer acusados ainda foram nem se pode garantir que o venham a ser ou do quê exactamente – portanto, ainda a anos, ou eternidades, de estarem perante um tribunal de 1ª instância que decida da sua inocência ou culpabilidade de acordo com critérios inevitavelmente questionáveis. O que a Cofina faz, imitada e citada pela indústria da calúnia, não é jornalismo, não é informação, não é servir o público. É terrorismo mediático.

JMT preferiria tornar-se militante do PS a ter de teclar sobre o lugar da enunciação e o paradigma junto da turba de chavascos que comanda na batalha diária contra a corrupção. Não por ser matéria que ele não dominasse o suficiente para expor uma lata vazia na montra como se tivesse alguma ideia aproveitável no armazém, afinal são conteúdos dados no 11º ano de escolaridade a crianças e o homem possui uma ligação à Internet a funcionar bem, antes por se arriscar a passar por jornaleiro interessado em pensar. Ora, pensar é irreconciliável com a actividade de mastigar preconceitos, vacuidades, calúnias e servir a papinha aos borregos. O seu estatuto de maior vedeta do nacional-tanguismo permite-lhe deixar a pedinchar o Guerreiro, o Mamede e o Barreto, tralha intelectualóide. O seu gosto está apurado, refinadíssimo, ele já só aceita andar a largar facécias gasosas de braço dado com um primeiro-ministro, com um ministro das Finanças, com um Presidente da República. Mas há um ano, precisamente, o seu destino parecia marcado para um final jokeriano. Em 2018, JMT foi manifestando estar cada vez mais dominado pela sua obsessão com Sócrates e figuras que ele conseguisse colar ao seu fetiche. As provas de corrupção nunca encontrada pelas “investigações” do esgoto a céu aberto que permitissem assinar a condenação em manchetes, o crescimento da suspeita de que a acusação era muito mais política do que quase nada judicial, a demora no desfecho do processo e a não recondução da Santa Joana, tudo isto eram presságios negros e esvoaçantes que deixaram à beira do pânico o caluniador profissional. Então, começou a alargar a sua indecência paranóide, acusando este mundo e o outro de serem cúmplices de Sócrates. Só escapavam o CM, Rui Ramos, José Manuel Fernandes e o próprio, minúsculo grupo de sobrenaturais resistentes e generais vitoriosos da Grande Guerra Socrática. O resto da população ficava marcado a ferro e fogo como cúmplice do Diabo por actos e omissões. Um dos que chegou a insultar na alucinação onde mergulhou foi o David Dinis (o David Dinis, senhores ouvintes, um serviçal do laranjal… minha Nossa Senhora do Caravaggio), o que permitiu registar a sua relevante resposta:

«P.S. O João Miguel Tavares quer saber onde é que eu estava no tempo do Sócrates. Eu satisfaço-lhe a curiosidade: a ouvir os gritos dele ao telefone, porque nunca abdiquei de o escrutinar – nem saí do jornalismo para fazer piadas.»

2 – Novembro – 2018

És um palhaço, disparou o Dinis na direcção do dito. De jornalista apenas te resta a cagança, continuou o Dinis. És um hipócrita de merda que só não achincalho mais porque és útil para quem nos paga, estúpido do caralho, concluiu o Dinis com um coerente ponto final na conversa. Este era o estado do JMT para os seus amigos direitolas à época, a imagem de um ser doente, insuportável até para os seus colegas caluniadores no caluniador Governo Sombra que gozavam com misericórdia da miséria bolçada. Tinha dado jeito mas a psicose não favorecia a causa. E nisto, deus ex machina, Marcelo pega neste farrapo encardido de tanta indecência e diz-nos que temos ali um exemplo a seguir, um cidadão que por mérito próprio fica como símbolo do melhor que somos e podemos ser. O Professor de Direito, o Presidente da República que jurou – por sua honra – cumprir a Constituição ofereceu o Dia de Portugal a um profissional da indústria da calúnia que anda a ganhar dinheiro com crimes, violações e perseguições. Um “jornalista” que diz mediaticamente que os políticos usam a Assembleia da República para fazer leis intencionalmente defeituosas que servem para se protegerem uns aos outros e roubarem o Estado e os contribuintes impunemente. Um pulha que, acabado de chegar de Portalegre onde nos falou de si próprio com entusiasmo e detalhe, usou o nazismo, o Holocausto, a pessoa de Adolf Eichmann e a reflexão de Hannah Arendt para insultar, ofender e caluniar Vítor Constâncio.

O triunfo da “decência de baixíssima intensidade” desta pícara figura que se especializou na bacorada e na canalhice fica como metonímia de um tempo e do regime. Permite ver à transparência como a problemática da honestidade intelectual é em si um projecto político transversal às novas ideologias a caminho. Não é que esquerda e direita estejam em vias de extinção; ao contrário, vamos precisar de igualmente distinguir entre a direita baixa e alta, a esquerda alta e baixa. Há uma epistemologia da política a germinar no Planeta onde o Direito e a Economia vão abrir espaço no palco para os novos papéis decisores das Ciências Naturais e para o possível papel mediador da Filosofia.

13 thoughts on “Serviço público”

  1. Admiro, com genuína contrição, todos quantos perdem o seu precioso tempo com este pobre palhaço.

  2. não se percebe pevide do que diz o post. suponho que se chamará, o estilo, rebuscamento barroco intelectual, técnica usada , e bem estudada , de fingir que se diz qualquer coisa de transcendente e só acessível a iniciados quando, afinal, é só para enfeitar e impressionar os espíritos mais fraquinhos.

  3. ora, tendo em conta os princípios enunciados sobre honestidade intelectual , venho cá dizer, que superada a 1ª fase espinhosa e labirínticoa minotaura do inicio do post , achei a saída e pronto, o jmt é mau.

    La observancia de la honestidad intelectual exige por lo tanto:
    – La independencia de juicio: el hábito de convencerse por sí mismo con pruebas, y de no someterse a la autoridad.
    – Coraje intelectual: decisión para defender la verdad y criticar el error cualquiera que sea su fuente y, muy particularmente, cuando el error es propio.
    – Amor por la libertad intelectual y, por extensión, amor por las libertades individuales y sociales que las posibilitan.
    – Sentido de la justicia: disposición a tomar en cuenta los derechos y opiniones del prójimo, evaluando sus fundamentos respectivos.

  4. a vaca não percebe porque é burra. depois rumina umas cenas em espanhol para dar a entender que é viajada e vai regularmente a badajoz comprar caramelos da viúva solano para segurar a placa.

  5. Ver este patarata do David Dinis a tentar surfar a onda da dura realidade numa tábua tosca feita da narrativa pafiosa, para não perder o publicozinho do seu púlpito carunchoso, é outro delicioso espectáculo…

  6. Adorei ler este texto. Muito bem elaborado. A escola de JMT é a mesma dos bolsominions no Brasil. Não olham a meios para atingir os fins. Gente medíocre e extremamente frustrada, criminosa, sociopáta, que vive obcecada por destruir quem faz sombra à ideologia neoliberal e aos chefões mafiosos que lhes pagam para caluniar. Mas, um dia a casa cai e em Portugal, apesar das calúnias e assassinatos de carácter feitas por esses bulldogs, não conseguiram trazer de novo os neoliberais do PSD/CDS para o Governo. Levaram uma derrota estrondosa e isso doí-lhes muito.

    Ontem vi na RTP a óptima entrevista que o Jornalista (este é mesmo Jornalista, não é pseudo jornalistazeco como o JMT) fez ao ex Presidente do Brasil, Lula da Silva. Admiro-me como a administração da RTP deixou ir para o ar. Mas, excelente, porque mostra que a verdade está a vir à tona e os caluniadores brasileiros estão a ser desmascarados. E com eles procuradores, juízes, políticos e cofineiros lá do sítio, que montaram uma cabala para afastar Lula e Dilma da política, já que de forma honesta e democrática não conseguiram. Aqui usaram o mesmo método, mas também deixou de lhes correr bem. Quando é que abrem os olhos e desistem da maldade onde vivem imersos? Cada vez resulta menos, o povo está a abrir os olhos, a conjuntura mudou…

  7. Urso corega, então ? continuas com comportamento de boi impotente, filho ? estamos mal se continuas assim, vaquista e taxista , não tarda tens o pan à perna.

  8. O JMT é aquele que escreve no jornaleco da SONAE? O do governo sombra? Mas que importância lhe dão. No tempo do Eça, já tinha levado umas boas bengaladas no lombo, dadas a preceito por um daqueles que tem denegrido. Mas a liberdade, liberdade, permite todas as bacoradas até um dia…

  9. Mas que grande malha, Val! Parabéns.

    Startup, também gostei da entrevista a Lula na RTP. Os processos Lula e Sócrates são muito parecidos. Os dois são exemplos magníficos de instrumentalização da justiça para obtenção de objectivos políticos e para realização comercial da indústria de maledicência e calúnia travestida de jornalismo.

  10. Boas…Valupi! Obrigado por estes textos, verdadeiro Serviço Público!…É que também me tinha “escapado” o texto do Vasco M. Barreto…. Que bela bofetada de honestidade intelectual (à mistura com deliciosa ironia sarcástica!) dada ao pantomineiro mediático JMT!

  11. ora o tavares precisa tanto do socas como vós precisais do tavares, sois como os peixes que vos comeis uns aos outros, como diria o imperador da língua portuguesa. não é tudo isto verdade? ainda mal.

  12. Quando não se sabe do que se fala mais valia estar calado, contudo, este Miguel Tavares assoberbado a tratar da vidinha a falar ininterruptamente nos media já não tem tempo para pensar o que sabe e não sabe e, vai daí, fala de tudo como aquele “sábio” que fala de tudo um nadinha e tudo de um nadinha.
    Trata-se de um pobre intelectual a pensar que já sabe tudo e a imaginar-se capaz de rebater toda a ciência ou filosofia com os seus argumentos do “politicamente incorrecto” expertemente usado como método de por-se em bicos de pé no palco perante o comum leitor crente ingénuo e criar controvérsia para se manter ao alto em bicos de pé fazendo-se parecer com os que verdadeiramente são sábios.
    Foi assim que, com tal método escalador, subiu ao pequeno céu português onde já é pensador estrela para iluminar o que é e deve ser ser português com patrocínio da mais alta figura do Estado.
    Portanto este Miguel Tavares é já uma figura tão elevada, tão alta, que já só anda de cabeça pelos ares onde não se avista o mundo real.
    O “eremita” da planície alentejana deu-lhe troco. Terá sido por bons motivos de tentar esclarecer ou, igualmente, uma tentativa de servir-se do mesmo método manhoso!

  13. Subscrevo inteiramente o que escreve, Lucas Galuxo. Sim, ambos os processos têm a mesma “escolinha direitola” das mentiras e das acusações de corrupção, sem fundamento concreto, para destruir o adversário político. Fizeram o mesmo golpe na Argentina, por exemplo. Há vários livros que mostram isso, por exemplo o “Estou Mentindo”, de Ryan Holliday que explica como essa gente age, servindo-se da internet para manipular a população. Os jovens de direita já estão a beber ideias nele. Começa tudo com ideólogos nos “States” que depois a direita copia e aplica a seu bel-prazer nos seus países. Mas, cada vez mais gente começa a ter noção dos golpes, das charlatanices que aplicam e a contrariar as suas maldades.

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