A democracia é quântica

Em 28 de Junho de 1998, um domingo de muito calor, 51% de 31% do eleitorado votante respondeu “Não” à pergunta «Concorda com a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, se realizada por opção da mulher nas primeiras 10 semanas em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?». As sondagens previam uma confortável, ou segura, vitória do “Sim”. 48 624 eleitores decidiram o referendo e adiaram por nove anos a alteração da lei? Só numericamente. Abstractamente. No concreto, todos os eleitores, sem excepção, foram responsáveis na exacta mesma medida pelo resultado. Tanto os que votaram “Sim” como os que votaram “Não”, tanto os que votaram em branco ou nulo, os que foram votar como os que se abstiveram.

Em 8 de Novembro de 2016, uma terça-feira que entrou para história da Ciência Política, Hillary Clinton recebeu 2 868 691 de votos a mais do que Trump. Dela se disse ter ganhado os debates televisivos. E o seu opositor foi a votos envolto em escândalos financeiros, racistas, sexistas e de segurança nacional por ligações à Rússia, sendo odiado por parte do eleitorado Republicano. Entre os vários factores que se apontaram para a estupefactiva e vexante derrota de um dos candidatos mais bem preparados de sempre para o cargo, a inacreditável decisão de James Comey, director do FBI, de reabrir oficialmente o que já tinha fechado recentemente, voltando a espalhar suspeitas sobre a correspondência electrónica de Hillary a duas semanas das eleições, pode ter sido a causa principal da perda de alguns estados de constante maioria democrata. Uma decisão impossível não só de prever mas até de conceber. O caso seria definitivamente arquivado pouco depois da votação por não ter qualquer conteúdo criminal.

Todo o esperma é sagrado, canta-se num filme dos Monty Python, e o mesmo se poderia dizer de cada voto usado ou por usar onde o Estado de direito democrático seja sagrado. O conjunto de todas as decisões dos eleitores registados, se voto neste ou naquele por causa disto ou daquilo, se voto cedo ou arrisco chegar à assembleia no limite do horário, se desisto de lá ir porque estou alienado ou se vou lá estragar um boletim porque sou alienado, mais o conjunto de todas as circunstâncias, os impedimentos, as doenças e as mortes, e ainda os que vão votar pela primeira vez encharcados de adolescência, é deste totelimúndi onde reina o princípio da incerteza que nasce uma realidade determinada: o novo Parlamento, o palco primeiro e último da nossa liberdade.

E depois, continua. Os representantes do Soberano têm a obrigação de cumprirem promessas, programas, paleio. Mas a obrigação maior é continuarem livres, incertos, quânticos. Porque é assim a vida, né? A melhor das vidas, onde se espera o inesperado.

3 thoughts on “A democracia é quântica”

  1. “Mas a obrigação maior é continuarem livres, incertos, quânticos. ”

    e é exactamente por isto que mais de 50 % os eleitores habitualmente não vota ou vota branco / nulo : se nos dizem que se irão portar como onda , que a malta gosta, e depois se comportam como partículas , chatas de aspirar, para quê votar?

  2. «é deste totelimúndi onde reina o princípio da incerteza que nasce uma realidade determinada»

    Realmente tudo indica sermos originários do indeterminado e circunstancial.
    O mundo, segundo a ciência, nasceu indeterminado do caos. A vida nasceu de causas indeterminadas e circunstanciais da natureza.
    E nós, humanos, nascemos de outra indeterminação que é o facto de entre milhões de espermatozóides um único, circunstancialmente, ter chegado primeiro e fecundado o óvulo.
    Que mistério organiza esta indeterminação? E o mistério continua!

  3. 20.15. Para os surfistas de ondas de merda: ora toma que já almoçaste! E aproveitem a matéria-prima da onda para prato principal e sobremesa. Sempre a poupar. Beijinhos!

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