O transe e o cisma: aquém e além de Sócrates

O Público, um jornal que assumiu o estatuto de pasquim como destino e a pulhice como modelo de negócio, voltou a fazer uma manchete com uma notícia falsa:

A notícia é falsa quanto à matéria de facto, o processo em causa não é da “Operação Marquês”, e é falsíssima no seu sensacionalismo, pois Rangel não tem permissão superior para ajuizar em matérias ligadas à “Operação Marquês”; o que faz do sorteio que lhe deu um processo lateral isso mesmo, uma aleatoriedade a ser eventualmente corrigida pela repetição e sem qualquer consequência prática no campo do “risco” e do “escândalo”. A indústria da calúnia, porém, agarrou-se ao osso com raiva, e aí temos os cães de fila do costume felizes da vida por terem mais uma oportunidade para mostrarem as favolas e despacharem serviço. Como escreveu o mais célebre dos caluniadores profissionais, é de muito mau gosto encher os bolsos à conta do Salazar, coitado do dedicado e bondoso senhor que merece descansar em paz – já ter uma carreira milionária e receber honras de Estado graças à perseguição maníaca a Sócrates e ao achincalhamento do Estado de direito é a prova provada da esperteza que o assiste.

Entretanto, o nosso amigo Eremita voltou a disparar (e disparatar) nesta direcção por causa de Sócrates, são assim as paixões, e vou aproveitar a deixa para recomendar a leitura do seu O transe e o cisma: aquém e além de sanitas e urinóis. Trata-se de um ensaio que terá muito poucos leitores, dada a sua extensão e complexidade da temática. Porém, o seu campeonato não é o da quantidade, antes o da qualidade. Quem mergulhar no exercício vai sair de lá com a consciência de ter aumentado a sua inteligência sobre variados assuntos ligados às polémicas do género e da construção da identidade sexual, mesmo que não concorde com tudo ou com quase nada.

Realço um aspecto que me fascina antropologicamente, o das diferenças biológicas nos cérebros das mulheres e dos homens. O meu fascínio não está na constatação científica de que elas existem, está na sua negação por parte de quem considera que tal reconhecimento é contrário à defesa dos direitos da mulher ou de qualquer outra causa que se considere feminista. Até agora, apenas registei mulheres a insurgirem-se contra essas diferenças no plano biológico, e para mim está aí o fascínio. É que consigo perceber, entender e compreender como é que uma mulher se sente ameaçada por esse discurso biológico que aparenta legitimar os preconceitos e as discriminações. Afinal, as mulheres são exactamente iguais aos homens no plano mental: são seres egocêntricos. Logo, imaginam que os homens pensam como as mulheres, que desejam como as mulheres, que amam como as mulheres, apenas não foram dotados de personalidades agradáveis, interessantes e sensatas como as delas. Não ironizo, acho que o egocentrismo é uma característica inerente a todos os sistemas de consciência, animais incluídos (é evidente) e futuras consciências criadas artificialmente (daí o seu potencial perigo que muitos antecipam). Talvez haja uma cósmica e quântica analogia entre a consciência e a força da gravidade.

É o egocentrismo, e sua Torre de Babel de disfunções e vieses cognitivos, que explica a hipocrisia, o fanatismo, a canalhice. Veja-se como os hipócritas, os fanáticos e os canalhas rejubilam com um juiz que foi para a televisão declarar que um cidadão à sua guarda judicial era criminoso quando ainda nem sequer tinha sido acusado. São esses hipócritas, fanáticos e canalhas que nos vão salvar do perigosíssimo Rangel e resgatar o Estado de direito? Eis aqui, pois então, o meu egocentrismo a colar num non sequitur à pressão a tonteira e a sapiência do nosso amigo Eremita.

3 thoughts on “O transe e o cisma: aquém e além de Sócrates”

  1. «Não sei que fruta usar para qualificar a nossa República. Caro Valupi, alinhas três parágrafos em defesa do teu querido Estado de Direito?»

    Afinal o que é que, para o “Ouriq”, põe em causa o Estado de Direito? Ou o que é que põe mais em causa o nosso Estado de Direito? Foi a escolha integralmente de forma legal segundo as regras estabelecidas pelo MP ou a plantação de uma notícia falsa, acusatória e alarmista no pressuposto de que Rangel é culpado e é já um condenado em tribunal?
    Porque, afinal, como se viu o MP tratou o caso desde o início e no final usando sempre os meios legais à sua disposição como devia não obstante, na decisão final tenha agido sob pressão, precisamente, da falsa notícia plantada pelo “publico” e replicada por toda a imprensa “sheriffe” justiceira, incluindo o próprio “Ouriq”.
    E, dado que o Estado de Direito implica que um arguido é inocente até ser julgado e condenado, o juiz Rangel é mais um de entre muitos em Portugal condenados pelo MP na praça pública por pressão moral dos mass-media. Isto é pôr a moral e o moralismo, ainda no Séc. XXI, à frente da Lei.

    Muito mais haverá para notar acerca da posição do “Ouriq” no caso Sócrates pois as sua condenações ao ex-PM são sempre fundamentadas, como agora, nos argumentos persecutórios inventados pelo mass-media e especialmente pelo “cm”.
    Senão vejamos, em um dos post anti-Sócrates, o Ouriq emprenhado pelo “cm” acerca do “viver à grande e à francesa” quer ironizar com o caso e dá como conselho à defesa do Ex-PM este argumento carregado de pura maldade:
    “Sócrates terá sido tão egoísta que o dinheiro não podia estar manchado pelo crime, pois até os malandros têm escrúpulos ao gastar o que roubam.”
    Ou seja este sábio, mui cheio de adivinho e esperteza, afinal trata todos além de si como idiotas, ao querer impingir aos outros como argumento de defesa o que implicitamente acuda de ladrão e criminoso.
    Com defensores como este do Estado de Direito bem devemos estar alerta.

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