Lapidar

«Uma coisa que agradeço é que não me contem historietas. Pois em relação à proposta do autarca de Santa Comba Dão para a criação de um “centro interpretativo” dedicado a Salazar, na terra natal do ditador, sintomaticamente a situar na cantina-escola Salazar, convenientemente sediada na avenida dr. António de Oliveira Salazar, não só nos querem contar uma historieta como, enquanto o fazem, tomam-nos por parvos.

Não faltam bons motivos para promover exercícios interpretativos do Estado Novo. Na transição para a democracia, descurou-se esta vertente, perpetuando uma certa invisibilidade da natureza ditatorial do regime, explicável pela ausência de um movimento social fascista e por uma passividade bucólica, traço marcante da sociedade. Até com uma rutura política seguida de revolução social, o país preferiu não interpretar o passado, remetendo-o para o mesmo lugar silencioso.

De certa forma, o museu Salazar, proposta que afinal nunca existiu, representa o regresso desta invisibilidade crónica do salazarismo enquanto regime repressivo e autocrático. Sintomaticamente, num artigo trôpego, o historiador Luís Reis Torgal – a quem é atribuída alguma responsabilidade científica na proposta autárquica – tentou promover uma “reflexão séria e calma” sobre o tema. E o que nos propõe (enquanto referenciava um rol de dissertações que orientou sobre os mais diversos assuntos)? Que ajudemos a autarquia a resolver o problema que é “manter em ruínas” a casa do ditador, garantindo que o que está em causa é a criação de um centro interpretativo, a partir do “espólio” de Salazar, articulando-o com outros projetos de musealização a criar na região (António José de Almeida em Penacova; Tomás da Fonseca em Mortágua; Afonso Costa em Seia e, cereja no topo do bolo, Aristides de Sousa Mendes em Carregal do Sal).

Quanto mais se sabe, pior se torna o cenário. Só uma exorbitante neutralidade axiológica e uma fúria normalizadora podem levar a que se pondere juntar, na mesma rede, republicanos insignes, figuras de cultura, democratas corajosos e referências morais absolutas com um ditador abjeto e de baixa estirpe.

Fica demonstrado que temos, como comunidade, um problema com o legado do Estado Novo. O que torna imperioso que se multipliquem centros interpretativos: nos tribunais plenários, nas antigas prisões políticas, nas fábricas, nas faculdades onde a PIDE entrou ou nas escolas onde professores foram expulsos. Em todos os lugares menos na aldeia natal do ditador.

A ideia é uma afronta à memória e, pior, adensa um espetro que paira sobre o futuro. Não sei se os historiadores de Coimbra têm dado conta, mas o regresso do fascismo não se fará de botas cardadas, com marchas militares e mecanismos repressivos como os do passado. É precisamente pela forma sonambúlica como se deixa entrever que o fascismo de hoje é assustador. Não ajudemos, por isso, a promover um voyeurismo mórbido em torno do “espólio” de um tirano.»


O museu Salazar nunca existiu

12 thoughts on “Lapidar”

  1. Pois não, o fascismo apareceu sob o nome de máquina fiscal.

    O “ditador abjeto e de baixa estirpe” ainda causa sombra ao Sr Pedro, 40+ anos de educação com uma história da Disney sobre o 25 de abril não foram suficientes para educar o povo, esses pastores passivos e ignorantes.

  2. Nem mais: “um ditador abjeto e de baixa estirpe”! Enquanto houver memória desse tempo sombrio e infeliz da nossa história, não deveria haver condescendência nem lugar para revivalismos salazarentos. Porém, é necessário manter a memória viva por várias gerações. Mas, como fazê-lo se historiadores de direita estão a reescrever a história?

  3. Engraçado que os que apoiam/apoiaram José Sócrates são os mesmos que tem receio de um museu dedicado a uma figura histórica de Portugal, não vá os ignorantes e passivos pastores começarem a fazer associações. Quanto a mim, quando o Sócrates bater as botas, sou todo a favor de fazer um museu dedicado a ele nos moldes que quiserem.

  4. Bem visto, os que apoiam/apoiaram José Sócrates são os mesmos que repudiam um museu dedicado a essa sinistra figura que envergonhou Portugal

  5. O texto não esta mal de todo. Agora desculpem la, mas o “de baixa estirpe” é perfeitamente escusado e estupido. So pode soar bem para quem não souber o que significa a expressão, o que aparenta ser o caso do autor do texto. Borrou a pintura e é uma pena. Não tem dicionario em casa, nem ninguém que lhe releia os textos ?

    Boas

  6. «De certa forma, o museu Salazar, proposta que afinal nunca existiu, representa o regresso desta invisibilidade crónica do salazarismo enquanto regime repressivo e autocrático.»

    A opinião de Adão e Silva tem todo o sentido na condenação de um “Museu Salazar” ou coisa parecida com a intenção, deliberada ou disfarçada, de trazer á ribalta um revisionismo histórico de Salazar para tentar a sua reabilitação como “homem de estado” ou “homem de visão” ou “homem estratega” ou “hábil nacionalista” ou mesmo “homem político” ou sob qualquer epíteto que lhe queiram dar e muito menos como “salvador da pátria” pois nunca foi nada disso e basta a prova de que, ao não ver e opor-se pateticamente aos ventos da história sem perceber patavina dos jogos de poder dos novos impérios em macha acelerada deitou tudo a perder sem glória nem memória que valha um museu dedicado à persona que tombou e fez tombar o regime patética e orgulhosamente só.
    Uma vez que também não se podem apagar acontecimentos históricos da nossa História o que faria sentido era erguer um “Museu do Salazarismo”, não regional mas nacional que evidenciasse o regime salazarista devidamente enquadrado nas filosofias políticas e regimes do tempo, suas leis e acções de ditadura e opressão face ao modo democrático e ganhos e perdas dessa acção em prol e contra o povo e a sociedade portuguesa.
    Se foi negro o tempo da ditadura salazarista tal Museu dedicado a esse período deve ser contado com o negro todo e não branquear o que quer que seja; deve dar-se-lhe toda a visibilidade para não alimentar consciências de más memórias nem saudosismos

  7. Não entendo o motivo da demora. Do que está António Costa à espera? Já tarda a requisição civil dos pilotos em greve da British Airways, caraças! Não aguento mais a excitação da espera, já estou todo molhadinho!

  8. A ideia a concretizar, que vou transcrever, está bem explícita no texto e deixemo-nos de museus disto e daquilo: “o que torna imperioso que se multipliquem centros interpretativos: nos tribunais plenários, nas antigas prisões politicas, nas fábricas, nas faculdades onde a Pide entrou ou nas escolas onde professores foram expulsos, Em todos os lugares menos na aldeia natal do ditador”. Era isto que já devia ter sido feito há muito, com insistência e persistência, mas que, lamentavelmente, não foi, e sei lá se alguma vez o será.

  9. Totalmente de acordo (mas também não usaria o manifesto exagero do “de baixa estirpe”…).

    O maior problema não é haver um Museu dedicado a Salazar, a coberto duma suposta interpretação da «História Pátria».

    O maior problema mesmo é não se ter ainda conseguido mostrar Salazar, logo desde os bancos da Escola, como ele efectivamente ficará na nossa História: o férreo impulsionador de uma Ditadura, dita “mole” e alegadamente de inspiração Cristã, mas ainda assim criminosa e interminável, qual doença crónica e muito grave, mas não mortal, continuando sempre apenas a ser realçados os únicos aspectos em que o nosso “brando” Ditador terá tido um papel globalmente positivo na História de Portugal, em especial no reequilíbrio das contas públicas, logo nos inícios do Estado Novo, e na opção pela neutralidade, durante a 2ª Guerra Mundial – feitos sem dúvida relevantes, mas limitados a determinados períodos muito concretos e que não poderão nunca ofuscar o seu papel essencial no Séc. XX português, nomeadamente:
    1) na interrupção da modernização geral do País levada a cabo, com grande sucesso, pela 1ª República, apesar da constante sabotagem violenta por parte da contra-revolução monárquica – outra das verdades históricas que infelizmente ainda não se ensinam nos bancos da Escola;
    2) no apoio declarado – e praticado – ao insurrecto Franco e no consequente seguidismo acrítico em relação ao Fascismo e ao Nazismo, em especial na estreita colaboração com a Alemanha em alguns dos aspectos mais vergonhosos do Holocausto dos Judeus europeus;
    3) na incapacidade de encetar uma Descolonização tempestiva na Índia, na África e em Timor, a par das que foram conduzidas pelas outras Potências coloniais europeias, que tivesse podido evitar a tragédia das guerras de libertação;
    4) no bloqueio económico duradouro que originou em Portugal, ao rejeitar o Plano Marshall, forçando a população de menores recursos a uma Emigração maciça, durante décadas consecutivas; e
    5) no prolongamento “ad nauseam” de um Regime político anacrónico, que se poderia ainda considerar, com alguma benevolência, minimamente actualizado e compreensível até 1945, mas que ficou “fora do Tempo” pelo menos a partir da adesão de Portugal à OTAN, na qual o nosso País teve a “honra” de ser, durante décadas a fio, o único com um Regime não-democrático.

    Ora se o tal Museu de Santa Comba tiver cinco módulos que desenvolvam historicamente e com seriedade estes cinco temas, então, sim, eu quero ir visitá-lo. E de preferência com os meus Netos, os quais gostaria contudo que já lá tivessem ido antes de mim, com todas as Turmas da sua Escola. Isso, sim…

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