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Sermão da Guarda

Há um discurso do 10 de Junho que arrisca ser considerado definitivo, o de Jorge de Sena em 1977. Provavelmente, já só académicos, intelectuais da velha guarda e eruditos, à mistura com curiosos como aqui o pilas, estão em condições de perfilhar essa valoração. Jorge de Sena não é propriamente um nome que apareça com frequência no Facebook, desconfio, e o Twitter só se alvoroça com discursos do 10 de Junho quando eles são encomendados a caluniadores profissionais, aposto.

Para se conseguir compreender essas palavras lidas na Guarda há 43 anos é necessário ter diferentes e complementares conhecimentos acerca da História de Portugal, dos Lusíadas e do próprio Jorge de Sena. Tendo-os, não se concebe quem melhor pudesse comemorar numa reflexão de síntese oratória o programa completo do feriado em causa: nove séculos de perene pobreza, fugazes ilusões de grandeza e continuada diáspora; excepcionalidade de uma obra histórico-poética que ficou como bastião e fonte da identidade pátria para gerações de exilados em corpo ou alma; trajecto de resistência política e culto da liberdade vividos existencialmente por um especialista camoniano em vésperas de morrer – 12 meses depois, os seus pedaços repartiram-se no mundo pela última vez.

O texto oferece espelhos onde nos continuamos a rever. E há passagens de uma actualidade política e cívica fulgurante, inquietante, deslumbrante. Aqui ficam uns exemplos:

«Há quem diga e quem pense que celebrações como esta – de Camões ou das comunidades – são uma compensação para a perda ou derrocada do Império oferecida ao sentimento popular, e que isso das comunidades é mesmo ainda pior: uma ideia do fascismo. Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas ou os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral.»

«Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos os que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu. Isto é, condenamos a vera ideia de “Resistência” que, modernamente, fomos dos primeiros povos da Europa a tristemente conhecer e corajosamente praticar. E sejam quais forem as nossas ideias e as nossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos. Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido e abatido.»

«Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para bem e para mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África. Momento decisivo dessa história do mundo, como eminentes historiadores insuspeitos de simpatias portuguesas ou imperialistas o têm proclamado e reconhecido. E, na verdade, esse encontro (e esse Império que, no tempo de Camões, com todos os erros e crimes, não era os impérios coloniais inventados pela Europa do século XIX, nem socio-moralmente inferior à desordem política existente então, como hoje, em toda a parte) simboliza aquilo mesmo que, mais tarde, nos nossos dias, veio a verificar-se. Porque as ideias de independência política e de justiça social pelas quais lutaram e ainda lutam os povos da Ásia e da África, e às quais se renderam os povos das Américas ao separar-se da velha Europa, não são as tradições tribais originárias por respeitáveis que sejam: são aquelas mesmas ideias que, geradas na Europa, da Europa se difundiram, tal como as naus do Gama partiram de Lisboa para uma das mais gloriosas viagens de todos os tempos.»

«Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa – um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas – deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião.»

Revolution through evolution

Study of 62 countries finds people react similarly to everyday situations
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Repetitive negative thinking linked to dementia risk
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Unexpected uncertainty can breed paranoia
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NUS and Stanford Researchers Uncover a New Mindset That Predicts Success
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COVID-19 Triage Decisions Should ‘Ignore Life-Years Saved,’ Writes Bioethicist in Medical Care
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URI Anthropology Professor Challenges Evolutionary Narratives of Big, Competitive Men and Broad, Birthing Women
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Political ‘Oil Spill’: Polarization Is Growing Stronger — and Getting Stickier
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Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep8)

Os deputados têm direito ao uso e porte de arma, entre outros direitos especiais considerados adequados à função. Porém, não me lembro de ter ouvido ou lido justificação para esta permissão estabelecida no Estatuto dos Deputados. Será assunto tabu? Virá, ao contrário, do mais evidente senso comum? Será uma herança de tempos quentes e perigosos há décadas desaparecidos que permanece por inércia? Que se espera que um deputado defenda ao tiro ou à facada, quiçá sachada? Apenas o corpinho ou mais algum valor inerente ao seu estatuto? Enquanto a dúvida não se resolve, o outro espectáculo de vermos deputados armados em parvos é, infelizmente, de uma banalidade vexante.

Também não me lembro de algum político dos partidos da direita, ou que fosse um independente nesse território ideológico, que seja identificável pela paixão com que defende sonhos, ideias ou projectos políticos. Sonhos colectivos, ideias desenvolvidas com honestidade intelectual e projectos concretos para o País, para a comunidade, para os portugueses enquanto cidadãos e pessoas, defendidos por quem possamos apontar como representante da direita portuguesa, para onde olhar? Podemos esquecer aquele fulano que mentiu a estudantes menores, com a ironia sórdida de tê-lo feito no 1 de Abril de 2011, garantindo não ir subir impostos nem cortar pensões e que tinha o fetiche do “ir além da troika”. Impossível lembrar-me de um singelo exemplo construtivo e honroso pois não se encontra nem a sombra disso. A direita portuguesa, depois da fuga de Barroso – que anunciou ao povo laranja ir imitar o estilo de Cavaco, e que jurou querer ser primeiro-ministro como realização suprema de vida, e que rapidamente trocou o voto dos portugueses pela carreira privada – afundou-se na decadência. Primeiro com Santana Lopes, depois com a luta de vida ou morte face ao duplo pânico causado pelo poder político de Sócrates e sua equipa governativa, por um lado, e pelo terramoto financeiro que destruiu baluartes bancários da oligarquia, pelo outro. De lá para cá, as paixões políticas e cívicas desta direita decadente apenas se canalizam no ressentimento, no ódio, na caçada. Não lhes interessa qualquer tipo de actividade intelectual onde aceitem dialogar com os adversários e expor perante os eleitores algo racionalmente analisável e comparável, estão reduzidos à barricada do desgaste e do boicote. São perdedores assanhados, feridos. Rio prometeu, na campanha para presidente do PSD, conseguir fugir desse círculo vicioso e recuperar a decência, a inteligência e a coragem para a direita portuguesa mas a campanha que fez nas legislativas de 2019 foi mais do mesmo que temos visto aos pulhas. Ao lado, o CDS desapareceu e Ventura é neste momento o activo mais valioso da direita parlamentar porque em crescimento. Marcelo? Anda a apanhar bonés na Marginal.

Ignoro se João Paulo Correia alguma vez na sua vida disparou uma arma de fogo, talvez até nem nunca tenha posto a existência de uma mosca em risco. Todavia, no preenchimento da segunda ronda de perguntas a Vara (Ep7) constata-se como o vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS usou os seus privilégios de deputado para deixar uma imitação da direita decadente. Não fez uma única pergunta para a qual tivesse interesse na resposta, pois ele já tinha as conclusões que lhe interessavam, e a solitária finalidade do seu questionamento foi a de deixar registado que o zangado e bem nutrido João Paulo apertou com o Vara e disse-lhe das boas. O teor difamatório dos seus comentários, o tom sobranceiro e arrogante e – antes e acima de tudo – o seu silêncio perante o relato cru e ofuscante da golpada que foi o “Face Oculta” pelas martirizadas palavras da sua mais importante vítima, eis o retrato de um deputado traidor. Não seguramente traidor para o seu grupo parlamentar que combinou a estratégia hipócrita e vil para se protegerem da contaminação, a prova de que o PS de Costa é cobarde em matérias de Justiça, mas traidor em pleno face à missão e glória de ser um representante do Soberano.

Obviamente, tratar como traidor uma personagem tão séria e profissional, tão dedicada e rigorosa, é um estupendo exagero que só diz de mim e deste pardieiro para onde teclo. Seja como for, o cidadão que sou, apaixonado pela Assembleia da República como sede primeira da liberdade e da democracia, teria preferido que este deputado socialista e valentão tivesse optado por ter levado uma pistola para a comissão e gastasse o seu tempo a fazer pontaria a Vara em silêncio. Seria preferível à cena torpe de vê-lo armado em parvo por cagufa da pulharia.

Dia do Caluniador Profissional

Graças à inventividade gaiata de Marcelo Rebelo de Sousa, o 10 de Junho acrescentou ao seu frontispício simbólico de Dia de Portugal, de Camões, das Comunidades Portuguesas e do Anjo Custódio de Portugal o ficar também pelos pátrios séculos afora como Dia do Caluniador Profissional. Atento ao que foi o perfil dos anteriores presidentes da comissão organizadora das comemorações, sem excepção figuras de extensa e consagrada dedicação a trabalho com relevância cultural e comunitária, o actual Presidente da República pensou, idealizou, maturou, ouviu o sábio conselho dos sábios que o aconselham e numa iluminação súbita telefonou ao João Miguel Tavares. Foi ali algures no começo de 2019, ainda havia restos da consoada de Natal nas arcas frigoríficas da sua casa em Cascais, Marcelo despachou meia travessa de arroz-doce enquanto combinou com o fabuloso portalegrense a Operação Plebeu.

2019, ano eleitoral e de “Operação Marquês” numa das suas fases judiciais decisivas, como resistir? Tendo repetido amiúde que o seu papel é de nadador-salvador e veterinário da direita decadente, Marcelo decidiu transformar o 10 de Junho num comício. Para tal, foi buscar um fulano que estava num momento difícil da sua carreira pois já se estava a tornar insuportável até para os colegas de calúnias dado só ter um reportório: a obsessão consigo próprio e a disponibilidade mercenária para ser pulha. Ora, não há dinheiro para pulhas à esquerda, por falta de capital e vocação. O mercado da pulhice só tem uma cor e um cheiro, e são poucas as vagas para os operacionais estrelas. JMT dava provas de ser um homem para todo o serviço desde que lhe garantissem que ia continuar a ter os bolsos cheios a perseguir a sinistra esquerda e a poder aparecer na TV ao lado do Ricardo Araújo Pereira. Era o perfil ideal, repetia entre colheradas na travessa o ilustre cascalense. Agora, restava só pôr a cereja na coisa para o gozo ser completo, isso de mandar o Expresso, o Público e o Observador começar a espalhar que a surpreendente escolha presidencial tinha como finalidade defender o jornalismo. Gargalhadas homéricas atravessaram as redacções da nossa “imprensa de referência” enquanto alinhavam na marcelice.

Como estamos bem lembrados, o presidente da comissão do 10 de Junho de 2019 fez o melhor discurso de sempre e para sempre na ocasião. Segundos depois de ter terminado, as redes sociais explodiram de entusiasmo, os mais sérios políticos e as mais airosas vedetas juntaram-se à festa, e os restantes jornalistas celebraram o sucesso do seu admirado e invejado companheiro de tantas investigações e triunfos para a causa da verdade e da justiça para os mais fracos. Tomar conhecimento dos nomes de terras e pessoas relacionadas com o orador, e ficar com uma grande antipatia contra as malvadas das elites, foi teluricamente comovente para uma audiência saturada dos enfadonhos paleios dos intelectuais de esquerda e explica o fenómeno popular só comparável à reacção de transe espírita nas prédicas do saudoso Dr. Sousa Martins. Confronte-se com o que acabamos de ver ao longo do dia de hoje, uma apagada e vil tristeza como resposta ao discurso de Tolentino de Mendonça. Marcelo estará naturalmente arrependido de ter convidado alguém que não foi capaz de listar os nomes dos seus filhos ou de revelar por onde andou a passear em calções de banho. Uma desilusão armada em poeta, a citar pessoas esquisitas com frases que ninguém percebe, e que nem sequer deu um calduço aos porcos dos políticos para alegria do bom povo.

João Miguel Tavares é um cidadão com uma ideia clara, simples, já cristalizada na sua cachimónia, para Portugal. Consiste em afastar a esquerda da governação para que finalmente se consiga diminuir a presença do Estado tirânico e instituir-se um modelo meritocrático que passará a ser o critério para as esferas públicas e privadas. Como é que se aplicaria o conceito na economia, na saúde, na educação e etc., e com que efeitos imediatos e de longo prazo, isso é algo que ainda não foi publicitado pelo senhor Tavares; talvez por falta de tempo pois tem andado a tentar vender a edição impressa do tal discurso do 10 de Junho. Esta ideia do mérito, sem qualquer dúvida, é simples. Não espanta que muita gente sinta de imediato uma completa identificação pois não oferece a mínima dificuldade cognitiva; e, sejamos francos, se há quem mereça tudo e mais alguma coisa é cada um de nós, não falha. Só esquerdalhos e socráticos é que não a aceitam porque têm um pacto com o Diabo. Por aqui, Marcelo fez muito bem em ter oferecido o 10 de Junho a este visionário.

Acontece que João Miguel Tavares é igualmente um cidadão com outra ideia clara, simples, já cristalizada na sua mioleira, sobre Portugal. Consiste em acusar publicamente todos os políticos com representação parlamentar no regime democrático de fazerem leis cuja finalidade suprema, ou paralela, é a de permitirem que outros políticos, governantes e administradores públicos cometam sistémicos crimes de corrupção que ficarão impunes. Em que provas se fundamenta o senhor Tavares para fazer essas denúncias não sabemos nem sabemos quando as irá revelar, mas talvez a demora se deva apenas à falta de tempo pois vender várias edições do seu magnífico discurso do 10 de Junho não é pêra doce num país infestado de marxismo cultural. O que sabemos é que Marcelo Rebelo de Sousa – assim como todos os ex-Presidentes da República, todo os actuais e ex-deputados, todos os actuais e ex-governantes, todos os actuais e ex-magistrados que tenham exercido desde o 25 de Abril – é um dos tais ladrões arrastados para o pelourinho da indústria da calúnia pelo meritocrático Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em 2019.

Quod erat demonstrandum.

À série


The Wire_David Simon_2002-03-04-06-08

«I think it’s one of the greatest not just television shows, but pieces of art, in the last couple of decades.»

Obama

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Premissa: a ficção televisiva não pode superar o cinema mas pode igualá-lo se conseguir o milagre de se transformar em cinema televisivo. Esse milagre aconteceu, tem nome e data. Quando, a 10 de Janeiro de 1999, David Chase apresentou Tony Soprano e sua famiglia aos telespectadores, estes descobriram que a vida atribulada, sofrida, do Tony era genuinamente cosa nostra. Cada episódio foi pensado como um filme, não fazendo qualquer concessão ao modelo publicitário das televisões nem à psicologia imatura e fragmentada dos seus públicos típicos. O realismo pretendido, e alcançado, não era o dos efeitos especiais e sua fanfarra irrelevante, antes o da profundidade e verdade das personagens à procura de si mesmas. Como nós, se estivermos lúcidos.

Salto para 2008. Chase passa a tocha a Vince Gilligan. Este trouxe-nos Walter White e o seu mundo. Um mundo onde só dá para entrar, de onde nunca mais se pode sair. E a prova chama-se “Better Call Saul”, a genial prequela que é também uma sequela. Há muitas aparentes tragédias nas salas de cinema e nos ecrãs de televisão que não passam de involuntárias, desmioladas ou reles comédias. Gilligan serve-nos altíssima comédia como entrada para o seu prato principal, nacos de tragédia clássica com molho narrativo e especiarias estéticas apurados à perfeição.

No entretanto, “The Wire”. O meu panteão do cinema televisivo tem estas 3 (que são 4) séries como objectos supremos de adoração. E o feito de David Simon – que não teria sido possível sem a sua tarimba jornalística e peculiar equipa; em especial, Ed Burns – acaba de atingir o zénite da actualidade com a execução pública e filmada de George Floyd. Quem ainda não viu pode correr para a HBO ou para um DVD perto de si e passar a abrir a boca de espanto várias vezes por episódio. Não há bons nem maus, não há caricaturas, não há simplismos. Há estruturas, sistemas, economia, natureza humana, geografia. E daí ser corrente considerar-se estarmos perante um olhar documental dada a detalhada e rigorosa verosimilhança dos enredos em “The Wire”, mas o segredo é outro. Sem o poder artístico da escrita, ao mais alto nível da tradição cinematográfica, não poderíamos desfrutar da companhia daquelas personagens e aprender com o tanto que têm para nos ensinar.

Ouvir o autor a falar da América é uma eulogia do que mais importa para o momento que a civilização atravessa, e que a eleição de Trump e de Bolsonaro, mais a vitória do Brexit, tornaram crítico. Esses fenómenos políticos foram e são acompanhados por disfunções e perversões sociais como o racismo e a xenofobia, o pasto dos instigadores e manipuladores dos medos e dos ódios correspondentes – enquanto à volta a crise climática e a catástrofe ecológica nos levam para consequências absolutamente desconhecidas na história da Humanidade.

Simon resiste a celebrar e promover o seu trabalho como artista, preferindo a interpelação cultural e cívica, e isso só nos faz amar ainda mais a sua arte. Aqui ficam exemplos do favor que nos está a fazer ao discursar na cidade para o bem da cidade:

2019 – Imperdível relato do que levou à sua expulsão do Twitter

2014 – Apaixonada, urgente, visão política

2016 – Presciência e frontalidade crítica preciosas

Começa a semana com isto

6 de Outubro de 1884, segunda-feira

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É difícil recomendar leituras, porque é tudo delicioso, mas aqui vai uma selecção mínima:

– Primeira página, do lado esquerdo, a notícia intitulada “Desordeiro”. Para ficarmos a saber do que aconteceu ao polícia 121 num certo sábado, já madrugada, ali ao Bairro Alto.

– Segunda página, ao fundo do lado direito, peço ajuda para decifrar o “Cancioneiro popular”.

– Terceira página, ao cimo no lado direito, um dos mais surpreendentes textos que já me foi dado ler em língua portuguesa: “As pernas verdes”. Porquê? Por causa disto, daquilo e do que se descobre sobre a tonteira do autor quando surge a expressão “dupla haste”.

– Quarta página, lado esquerdo, o anúncio “A almofada de Holman”. Em abono do publicitário de antanho que gizou a peça, confirma-se ser cada vez mais válida para a ciência, em 2020, a seguinte afirmação: “Quasi todos os males que afligem a humanidade têm a sua origem no estômago”.

Revolution through evolution

Luxury Handbag Wearers Likely to Behave Selfishly, Study Shows
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Behaviors and traits that influence social status, according to evolutionary psychologists
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Monitoring environmental exposures in dogs could be early warning system for human health
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‘Poisoned arrow’ defeats antibiotic-resistant bacteria
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New model predicts the peaks of the COVID-19 pandemic
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Policing and Law Enforcement: Further Considerations from Psychological Science
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Democracy’s Shapeshifting Past — and Its Uncertain Future
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Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep7)

Acaba-se o 12º ano – portanto, após 12 anos contínuos no sistema de educação em Portugal – já a poder exercer o direito de voto, ou na iminência disso, mas, para a enormíssima maioria dos que chegam a completar a escolaridade obrigatória, sai-se da escola sem qualquer noção do que seja o Estado de direito democrático e os pilares civilizacionais onde se sustém: história e evolução do conceito de Estado, história e evolução do conceito de democracia, história e evolução do conceito de monarquia, história e evolução do conceito de república, história e evolução do conceito de liberdade, história e evolução da Constituição da República Portuguesa de 1976. Se saltarmos para a também enormíssima maioria dos que completam licenciaturas, mestrados e doutoramentos, o panorama não será diferente; exceptuando as áreas académicas que versam disciplinarmente sobre essas matérias e os percursos individuais que tenham civilizado ou politizado mais uns poucos em práticas e epistemologias díspares.

A Cofina domina o espaço mediático por causa do tanto que devemos a Eduardo Dâmaso no combate à corrupção e do tanto mais que devemos a Octávio Ribeiro no respeito e defesa da deontologia jornalística? Outra é a explicação. O sensacionalismo não alimenta a inteligência e a indústria da calúnia não trabalha para a edificação moral da Grei. Perante uma população que entrou no século XXI com baixa literacia política, baixa cidadania, baixa produtividade e alta desigualdade económica, o pão e o circo funcionam tão melhor quão mais graves sejam as inevitavelmente cíclicas crises económicas. No caso da Cofina, como nas forças fácticas que moldam a estrutura dominante na comunicação social nacional, para além do projecto económico existe um projecto político assumido com desplante e provocação. Talvez não tenha existido um único número do Correio da Manhã, desde a sua fundação, onde o PS se tenha livrado de ser apontado como o inimigo a abater. Não custa perceber porquê nem para quê. Custa é ver uma sociedade inteira envenenada pela cultura da calúnia, custa é ver um regime conivente e adaptado aos profissionais da violação do Estado de direito da República Portuguesa.

A prestação de Inês Domingos na sessão em que interrogou Armando Vara (Ep6) arrisca-se a estar já esquecida até da própria. Os raros que a irão observar do princípio ao fim vão deparar, no entanto, com 20 minutos luminosos. A deputada do PSD limita-se a ler, com evidentes dificuldades, perguntas escritas por terceiros – enquanto ao seu lado o folclórico Virgílio Macedo vigia o desempenho da fêmea e o assombroso Duarte Marques serve de ponto e complemento. As perguntas feitas, notável e até escandalosamente tendo em conta a exploração que o PSD fez da ida de Vara para administrador da Caixa e para o BCP, são inanes. Não há vestígio nelas de ligação tangível com matérias objectivas e concretas de potencial interesse judicial. A intenção das mesmas é única e exclusivamente a de insultar e ofender Vara, tratando-o como um reles criminoso a quem não se reconhece o direito à honra e à palavra própria. Isso fica patente, logo de início e ao longo da inquirição, pela linguagem corporal da deputada, pelas suas interjeições enfáticas e teatralmente enfastiadas e desdenhosas, e ainda pela postura de arruaceiro de Duarte Marques ao mandar bocas chulas por cima das declarações de Vara.

Recapitulemos. O “dream team” enviado pelo PSD para uma comissão de inquérito dedicada a voltar a emporcalhar o espaço público com difamações e calúnias contra Sócrates, contra Vara e contra o PS, no seu segundo momento de ataque directo e presencial ao gigante do crime chamado Vara, dedica-se à boataria acéfala e ao holiganismo. Tal só é possível porque não existe qualquer penalidade para tamanha decadência. Os jornalistas nem sequer o denunciam, e o público jamais o conseguiria criticar mesmo que fosse forçado a tal. Vemos, assim, como o círculo se fecha: a ignorância civilizacional da população é usada na redução da política ao poder pelo poder. O poder de quem tiver mais meios de assassinato de carácter e menos escrúpulos, ao ponto de se transformar a Assembleia da República numa capa do esgoto a céu aberto.

Revolution through evolution

Babies know when you imitate them – and like it
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New approach to some mental disorders
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Beware of false negatives in diagnostic testing of COVID-19
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Public Disclosure of COVID-19 Cases Is More Effective than Lockdowns
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Leading Mindfully: COVID-19 and the Big Human Pivot, Part 3
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Hitting the Books: Do we really want our robots to have consciousness?
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Yes, your dog wants to rescue you
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Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep6)

A corrupção, entendida penalmente como crime cometido no exercício de funções públicas, parece ter tudo para ser uma das mais populares causas da esquerda. Neste entendimento abstracto, o PCP, muito mais do que o PS posto que muito mais estatista, dispôs desde o 25 de Abril dos quadros técnicos e recursos operacionais para montar um observatório da corrupção em Portugal que contribuísse para o combate a este tipo de crime e para a sua profilaxia social. A lógica é cristalina: roubar ao Estado é roubar aos trabalhadores, roubar ao povo, e não há quem defenda tanto o povo e os trabalhadores como o pessoal fixe que frequenta a Soeiro Pereira Gomes. Assim pensava eu quando era um bocadinho mais ingénuo do que sou actualmente.

Não só o PCP não criou essa entidade especializada em matéria tão patriótica e tão de esquerda como nunca fez da exploração dos casos de corrupção bandeiras legislativas ou retóricas, sequer comicieiras. Na verdade, não temos qualquer órgão de comunicação social que se possa identificar como tendo uma linha editorial de esquerda e, em simultâneo, onde se faça tabloidismo e sensacionalismo com conteúdos relativos à corrupção. Sejamos ainda mais exactos: em Portugal as suspeitas de corrupção, fundadas ou infundadas, legítimas ou ilegítimas, são uma arma de arremesso da direita – e há várias razões para tal ao dispor dos curiosos em ciência política. Basta recordar o Cavaquistão, uma época onde os meios na letra da Lei e nas tecnologias de detecção e punição eram um milionésimo dos que no presente são aplicados, e constatar que foi a direita a usar a corrupção para atacar a direita. Foi no tempo em que um certo jovem e brilhante jornalista jurava jamais vir a ceder à tentação de entrar na política, essa porqueira de corruptos. Ele era e seria sempre “independente”.

Como sabe quem tenha lido um editorial do Avante! (basta um), o PCP não gasta calorias com a suposta negociata que deu milhares ao secretário de Estado nem com os parangonados envelopes castanhos que encheram de milhões o ministro. E por duas principais razões. A primeira, por já haver quem esteja a fazer esse trabalho sujo, podendo os comunistas recostar-se e rir folgadamente ao ver os socialistas a serem assados no quotidiano parlamentar e nas perseguições dos impérios de comunicação da direita. A segunda, e fundamental, porque para o PCP é o próprio regime que é corrupto logo a partir da Constituição – leia-se: o 25 de Novembro assinala a data em que o processo contra-revolucionário começou a enterrar o Abril vermelho. Donde, todas as alterações ao texto constitucional que entretanto foram aprovadas no parlamento estão feridas de morte por serem contrárias ao projecto comunista tal como ele existia na mente de Álvaro Cunhal e respectivo Comité Central em 1974. Isto significa, senhores ouvintes, que no íntimo de cada vero comunista há a convicção de ser a Assembleia da República mais um instrumento do imperialismo capitalista. Naturalmente, quem quiser encontrar um defensor do Estado de direito democrático perderá o seu rico tempo a procurá-lo num qualquer recanto da Festa do Avante. Se os ideais liberais fossem coisa boa, Marx teria escrito isso ou parecido nem que fosse numa folha de couve, né?

A primeira intervenção do afável Paulo Sá (Ep5) é um espectáculo caricatural deste atrofio ideológico. O homem consegue gastar os dez minutos iniciais com uma pergunta sobre a legitimidade da CGD, um banco comercial, para fazer empréstimos a quem pretende investir em acções. A exorbitância da questão é tal que Vara começa por não perceber patavina do que realmente estava em causa no bestunto do interrogador, tendo optado por responder como se a intenção tivesse alguma coisa a ver com ele, o prisioneiro em Évora chamado ao Parlamento para, constava, prestar declarações no âmbito das suas passadas responsabilidades de administrador bancário. Seria de esperar que dedicar um terço do tempo disponível a problemática tão abstrusa naquele contexto obrigasse o deputado a justificar ao Zé Povinho donde vinha e para onde queria ir a sua linha de inquérito, só que não. Paulo Sá limita-se a ficar impaciente e amuado, nem sequer aceitando que os lucros assim obtidos pela Caixa nos empréstimos comerciais pudessem ser moralmente resgatados com a política institucional de ter um balcão da CGD em cada concelho do País, mesmo quando tal correspondia a operações com prejuízo local.

Enquanto Vara aproveitava as oportunidades para continuar a introduzir factos e argumentos nos registos da comissão, tentando relevar o óbvio e o implícito na defesa da sua honra e bom nome, o valente Sá reconhecia que as suas restantes, e agora convencionais, perguntas eram imitação de outras já feitas. Como se ele sentisse a obrigação de copiar um conjunto de perguntas que provassem estar o grupo parlamentar do PCP a “combater a corrupção”, tanto e tão bem que as suas interrogações foram também aquelas que os outros grupos faziam à vez – indiferentes às respostas iguais que iam obtendo. Estranho? Estúpido? Humilhante para quem assiste e é repúblicano e democrata? Sim, claro, mas não para quem se concebe como fazendo parte de uma tribo exilada no Egipto dos burgueses adoradores de falsos deuses e ídolos com pés de barro. Uma tribo com o Mar Vermelho ali ao lado, prontinho para o Moisés que o irá rasgar e permitir a passagem para a terra prometida onde a banca pública tem horror aos investimentos bolsistas.

Pensar na Ana Gomes

"Não tenho pressa. As eleições são daqui a 8 meses, estou a pensar."

Ana Gomes

*_*

Ana Gomes está a pensar nas presidenciais. Em que pensará Ana Gomes quando pensa nas próximas presidenciais? Pensa que poderá ganhá-las? Pensa que não as poderá ganhar mas que isso não é importante, o importante é fingir que sim e saltar para o palco? Ou o seu pensamento limita-se ao gozo de nos deixar a pensar no que pensa? Enigmas de arrebimbomalho.

Onde não há enigma é no que se pode pensar de Ana Gomes candidata presidencial. Ver esse acto eleitoral transformado num circo com 4 cavaleiros do Apocalipse populista a disputarem os 4 primeiros lugares é desolador para os apaixonados pela cidade. Esta figura socialista que justifica aplausos incondicionais pela procura incessante de justiça, seja onde for e doa a quem doer, pelos mesmíssimos critérios justifica crítica e até repulsa.

Não conheço caso algum onde uma denúncia de corrupção vocalizada por Ana Gomes tenha dado origem a factual descoberta criminal conforme ao teor do seu alarmismo, sequer terá acertado num qualquer processo judicial transitado em julgado. Se existe, agradeço penhorado que me tragam essa informação para minha ilustração e eventual correcção. Se não existe, então as suas boas intenções podem – e devem – ir para o diabo que a carregue.

Ver um pulha, ou um bronco, a caluniar é triste. Ver quem se concebe como decente a usar a sua publicitada integridade para fazer o mesmo a cidadãos avulsos, inclusive a camaradas de partido que lhe deram poder político no passado quando ela o pediu e até rogou, é pior que triste, é vexante. Ana Gomes, no tanto que é e poderá ser, não honra nem defende o Estado de direito democrático. Isso, pelo menos, é certo a respeito do seu valor como candidata presidencial.

Não vale tudo contra aqueles para quem vale tudo.