Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep5)

«Um homem que não se lembra de ter assumido tão solenes e graves decisões não pode suscitar-nos compreensão e complacência, antes a penalização e o desprezo.

Enquanto jornal empenhado na defesa do interesse público, o que sabemos permite-nos desde já estabelecer a sua responsabilidade e a sua culpa profissional e ética. Mas não basta: exigimos também que a Justiça se envolva para que, como cidadãos, nos seja possível viver de cabeça levantada por termos sido capazes de ajustar as contas com esse passado trágico e vergonhoso.»


Manuel Carvalho_7_Junho_2019

*_*

Em 86 palavras, o actual director do Público conseguiu sintetizar 13 anos de violência e decadência política onde a Justiça foi usada como arma de perseguição para a devassa, usada como técnica de devassa para a perseguição. A novidade do método no Portugal democrático exigiu circunstâncias igualmente inauditas, uma conjugação do cataclismo financeiro nos bastiões bancários da oligarquia pelas crises no BCP, BPN e BPP à mistura com a perspectiva de afastamento do poder político durante muitos anos dada a popularidade da primeira maioria do PS e a perspectiva de Sócrates repetir a longevidade governativa de Cavaco, ou até superá-la. A resposta levou ao bombardeamento diário de campanhas negras a partir da indústria da calúnia, à espionagem de um primeiro-ministro em funções, ao lançamento de uma golpada mediática a partir da Presidência da República para corromper actos eleitorais, à escolha de uma comissária política para deixar o Ministério Público violar a Lei e o seu espírito, e ao uso de tribunais para linchar socialmente e castigar politicamente quem pudesse “servir de exemplo” na caça aos bruxos. Na citação acima, temos um “jornalista de referência” a declarar que já tratou de apurar com os seus colegas de pasquinagem, ou talvez sozinho a boiar no esgoto a céu aberto, que um certo ex-governador do Banco de Portugal tem “culpa profissional e ética”. Mas não só, nem principalmente, pois o objectivo supremo do editorial – portanto, do acto discursivo em nome do proprietário do título – foi o de publicitar uma sentença transitada em julgado na comarca da Sonae: Vítor Constâncio pertence à quadrilha que roubou centenas de milhões de euros ao Estado para assaltar o BCP e deixar que Vara lá entrasse a mando de Sócrates.

Por mais estrambólica que esta teoria da conspiração à volta da CGD e do Banco de Portugal pareça, e tal ficou demonstrado dias depois da pulhice do Carvalho nas exaustivas e factuais explicações de Constâncio à prova de estúpidos, ela é apenas parte da conspiração maior, aquela onde ouvimos políticos e jornalistas vedetas a espalharem febris e babados no espaço público a imagem de ter sido Portugal sob a governação de Sócrates uma república das bananas à beira-mar plantada onde um tiranete corrupto e corruptor, simultaneamente muito canhestro e muito diabólico, tentou controlar sozinho a finança, a comunicação social, a Justiça e o Estado e, apesar da sua impulsividade e megalomania criminosa, conseguia passar impune por entre deputados, procuradores, juízes, polícias e um Presidente da República que, coitado, dependia da ameaçada e rarefeita “imprensa livre” para ir descobrindo do que era capaz o mal-encarado e mefistofélico inquilino de S. Bento. Como é que esta aberração lógica se espalhou e conserva em 2020, prevendo-se que persista entre nós para além do coronavírus? Como é que é possível olhar para a CGD, o Banco de Portugal, a Assembleia da República, a Presidência da República, a Procuradoria-Geral da República, o Ministério Público, o Conselho Superior do Ministério Público e o Conselho da Magistratura, instituições onde existiam e coexistem decisores e executantes das principais forças políticas em representação estatística da enorme maioria da população, e vender o peixe de que não importa para nada ninguém nesses órgãos ter sido capaz de arranjar uma singular prova que dê para ser embrulhada na bandeira do “passado trágico e vergonhoso” que os fanáticos, os broncos e os canalhas agitam, importa é odiar o fabuloso inimigo? Na verdade, o mecanismo usado é simples.

Como se vê ao longo dos 35 minutos da primeira inquirição de Cecília Meireles (Ep4), reina a boa disposição no face a face com bandido tão gigante como o Vara. A deputada do CDS parece gozar com indisfarçável satisfação o poder de brincar aos interrogatórios policiais com um desgraçado. Iria finalmente confrontar o monstro com a gravidade dos seus actos? Exactamente ao contrário, a sua opção foi a de simular uma pesquisa. No caso, escolheu a cagada chamada “Comissão de Risco”, uma entidade criada pela própria equipa do Vara para… fazer avaliações ao risco. Algo que ao tempo foi vanguardista na banca portuguesa. Naturalmente, este grupo de pessoas tinha como mandato levar ao extremo a percepção de risco nas decisões de empréstimo e investimento da CGD. Donde, haver pareceres negativos ou condicionados da comissão de risco era o mais provável, e até inevitável, calhando haver a possibilidade de a CGD obter lucros significativos ou acima da média da concorrência – pois esse crescimento só seria obtido correndo riscos, os quais teriam de ser assumidos numa trindade que também implicava o departamento jurídico e uma decisão final do colégio administrativo onde o presidente era quem mandava. Este modelo tem algo de errado? Se tiver, não existe nenhum banco na galáxia que se salve. Pois foi apontando à mais básica normalidade da actividade na Caixa que as perguntas da deputada tentaram inscrever a percepção de haver processos irregulares – leia-se, criminosos, posto que o subtexto é o das calúnias espalhadas no espaço público. Devido à presença de Celeste Cardona na equipa administrativa de Vara, e tendo em conta que Cardona ilibou Vara de qualquer ilícito naquela mesma comissão de inquérito, o CDS teve de fazer o trabalho sujo sem meter muito as mãos na merda que queria espalhar pela sala. Bastou servir palha aos borregos. A realidade a ser ocultada, as suspeições a serem ateadas. Simples.

12 thoughts on “Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep5)”

  1. Não sei quem tramou Armando Vara. Pelo que aqui vou lendo, a ter sido eu, foi por omissão. Recordo vagamente uma caixa de robalos e um sucateiro qualquer. Penso que Vara terá sido tramado porque terá dado jeito a alguém tramá-lo. Também me parece que se fosse feita justiça a valer para tramar Vara teria sido preciso prender também Cavaco, o pulha impoluto das acções do BPN vendidas no dia anterior e da permuta da Quinta da Coelha por um apartamento de merda. Também teria que ser tramado o facilitador Relvas, com todas as suas negociatas, o minorca Mendes com o seu insede trading no BES e o Passos, mais o aeródromo da Tecnoforma que nunca existiu. E, depois ou acima, há um tipo que deveria ser preso, que deveria cumprir um longa sentença, perpétua, um tal de saloio de Mação, um alegado agente de justiça que não passa de um corruptor da mesma, um reles aspirante a moro lusitano, ao qual nunca nada passará, que não seja o seu enobrecimento e o do seu amigo impoluto, um não sei das quantas do caso e-toupeira, que nunca lhe emprestou dinheiro, dizem. E, claro, tinha de se prender o grupo cofina, o dâmaso e o otávio à cabeça, que, esses sim, já deveriam estar na choldra há muito, muito tempo. Não sei se houve caixa de robalos para o Vara. Diz que sim e que será por isso que cumpre cana. Mas não fui eu que o tramei, nem sequer conheço a personagem. Mas, a ser verdade que ele sempre comeu os robalos, muitos outros, que mamam caviar, caluniadores profissionais, como aquele bandalho que o ano passado foi promovido a mestre do 10 de Junho, bem como os que operam na sombra, deveriam fazer-lhe companhia na cela.

  2. Continuo a insistir que é impressão minha, que o mau karma de Vara começou quando Guterres o convidou para integrar o elenco governativo .
    O resto, isto é, a maioria do que consta do seu texto, são elucubrações .

    Já agora, a mesma crença de Guterres, de que “é fundamental que Portugal integre o pelotão da frente”, a propósito, entre outros, dos acordos Schengen e da adesão ao Euro, que foi depois perfilhada, prosseguida e amplificada por Sócrates, com relação a muitos temas, exemplos mais gritantes, o desastroso para nós, Acordo de Lisboa, o TGV, dispensável para um país com a nossa dimensão, e que, essencialmente, é tecnologia francesa e espanhola, logo, os que mais seriam os principais beneficiários do empreendimento, sem descurar os consórcios bancários had hoc para o efeito e os tradicionais fornecedores da Casa Real Socialista, os Soares da Encosta, Engil/Monta Enguias e Motta pelos Ares, essa crença, dizia eu, deu no que deu : a Europa entendeu que o nosso lugar é mas é na cauda da Europa, e aí fomos colocados .
    Big Deal !
    Sonhar não custa . O problema é que os sonhos, em política, têm um preço .
    E a treta de Sócrates, a propósito das energias renováveis, de que Portugal é agora energeticamente auto-suficiente e independente, deu no que deu : energia eléctrica vendida ao preço da platina .
    Pagamos um altíssimo preço pelo feito .
    Trocou-se a pegada ecológica pela patada empresarial .
    Ecologia como forma e oporunidade de negócio …
    Com matéria prima grátis ( sol e vento ) e equipamentos com custos de produção crescentemente mais baixos, temos tarifas, num sector alegadamente, concorrencial, dos mais altos da Europa, se não do Mundo .
    E electricidade produzida a mais, comprada pelo Estado, e deitada fora, porque França não deixa exportar .
    Mais valia ter continuado só com a hídrica ( que também tem matéria prima de borla, a água ) e a importar de França, que mesmo, assim seria mais barata .
    A única coisa de muito louvável, assim de momento, que me ocorra, que Sócrates fez, foi a nomeação para a ASAE, de uma pessoa determinada, firme, e não pressionável . Aquelas medidas, de princípios, até pareciam exageradas, refiro-me a agentes armados e com balaclavas, que acompanhavam os inspectores . Mas no final, deu o seu fruto .
    Donde antes existiam torneiras a pingar, e toda a sorte de coisas a necessitar de conserto, falta de papel, seja higiénico, seja para limpar as mãos, imundas toalhas de pano, passaram a ver-se sanitários impecavelmente limpos, e devidamente apetrechados .
    E isso deu um grande contributo para o turismo, porque os estrangeiros apreciam isso .
    Mas disso ninguém aqui fala . Não sei porquê .
    Falam ( o Neves ) das operadoras e mais nao sei quê, esquecendo que o regabofe das operadoras é fruto da demissão do Estado em pôr o sector na ordem, ao invés de lavar as mãos como Pilatos, e delegar numa Alta-Autoridade, com a isenção exemplar de o Alto-Autoritário ser nomeado e pago pelas operadoras, da “estorinha” da imposição comunitária de acabar com a TV analógica porque nao prestava, não tinha qualidade e fazia mal aos olhos, quando, na realidade, tratava-se de vagar a frequência, para a entregar de bandeja aos operadores da rede móvel da 4.a geração de telemóveis, berdamerda para a TV digital, parecem cores pastel, a atribuição da implementação da Televisão Digital Terrestre à PT, que era uma operadora e que, como tal, com as restantes operadoras, beneficiou com o asilo político aos excluídos e escorraçados da analógica . Do Magalhães nem vale a pena perder tempo, não conheço nenhuma criança, pequena ou adolescente, que não queira mas é o i-phone, o samsung, o lap-top ou o pc do pai, e é para jogar, não é para estudar .

  3. E os crimes, meu? Adonde estão eles, porra? Futebolistas de terceira, passam a vida a chutar (e ejacular) para canto! E a baliza, meu? Népias? Nicles pròs pikles?

  4. De crimes não falo .
    Não tenho acesso ao(s) processo(s) nem entendo de direito penal .
    Portanto não faço acusações, nem, ou mas também, não faço “inocentações”, que é precisamente o fazem muitos aqui, quando afirmam peremptoriamente neste forum, que fulano ou beltrano, “é inocente”.
    Note que, não dizem, “é presumível inocente” que é o correcto, e o que deve ser dito, com relação a quem aguarde eventual ida a julgamento .
    Com relação ao visado, que eu saiba, pelos meios de comunicação social, como todos os demais, – a não ser que alguém aqui tenha acesso privado à sentença-, foi a julgamento e foi condenado . Percorreu todo o circuito possivel de apelo, para tribunais de instância superior, e a sentença manteve-se . Transitou em julgado, e cumpre pena de prisão .
    O resto, e que manifestei, são opiniões, a que todos temos direito, sobre boa ou má governação, que não é passível de sanção penal .
    Esqueci-me de referir no meu comentário anterior, a questão das auto-estradas, com acordos desastrosos que preveeem que o Estado pague aos concessionários, em função dos veículos que por lá circulem, ou não.
    E aproveito para fazer uma rectificação sobre a ambição do “pelotão da frente”, em que afinal, concedo, acabamos: o da dívida .
    Quanto ao demais, parafrasendo o saudoso e certeiro Pina, “vamos ao fundo mas vamos em banda larga “, e “calma, nem tudo está perdido; apenas é demasiadamente tarde “. E isso foi escrito ainda antes de Sócrates ter abandonado o poder, se não me engano .
    Como referí acima, não me pronuncio sobre direito penal nem sobre processos .
    Apenas entendo, talvez ingenuamente, admito, que um advogado decente, deve ser uma pessoa que ajude o(s) seus(s) clientes, a cumprir a lei, e não, a violá-la .

  5. De crimes não fala, o fala-que-se-farta, e não entende que é disso que se fala aqui, pois foi isso que serviu para tramar Armando Vara, de crimes pintando aquilo de que só politicamente podem falar, com razão ou sem ela, geralmente sem, penso eu de que. E quanto a processos, deles não pesca nada, nem quer pescar, mas, pelo sim pelo não, in dubio que se foda o réu.

  6. O faustino não fala, porque aqui não funciona em vídeo-circunferência, escreve, mas lá que escreve bastante, é verdade, mas depois abate no IRS, os direitos de autor, só entram 50 %.

    O juiz não foi na valsa do Danubio azul, e o Faustino diz que não pesca no Danúbio porque é um rio muito poluído.

    De processos, só conhece o de Caim e Abel, Caim matou Abel e quem se phodeu foi o Manel.

    Explico : Na altura, se calhar nem havia lei que proibisse o homicídio, terá vindo depois porque primeiro é preciso existir lei, mas funcionou mais ou menos assim, não há lei, não há problema, terá dito Caim . Mas se não há problema, arranja-se, ter-lhe-ão respondido – Aquele que tu sabes, e que insultas aqui javardamente .
    E o Caim terá sido punido sem lei previa, e daí em diante, – porque entretanto fez-se legislação, -todos os Maneis .
    É mais ou menos como o paradoxo do ovo e do galináceo, qual terá vindo primeiro .
    Parece que no teu caso, no teu entender, o direito penal, é o direito a ter pena do infractor .
    Preparem-se que vem aí um chorrilhos de impropérios ! :^)

  7. Camacho:
    Estás a falar com sacristas!
    Esses gajos nunca tiram a roupa,apesar de serem feitos à imagem e semelhança de Deus,dizem…
    Na praça,livres de peias e cortinados,ao Sol,temos que resolver a questão com essa tropa. Diz-me onde e quando e estou contigo !

  8. Sabedoria popular, Duas Braças.

    Sabedoria 1: “Deixá-los falá-los que eles calarão-se-ão.”

    Sabedoria 2: “Deixa-os poisar.”

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