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A Operação Marquês acaba hoje

Hoje acaba a Operação Marquês porque, seja lá qual for a decisão de Ivo Rosa, é a primeira vez que um magistrado apenas interessado em respeitar os princípios do Estado de direito democrático se vai pronunciar sobre a informação recolhida a respeito das suspeitas levantadas contra Sócrates. Os que o antecederam, de Rosário Teixeira a Carlos Alexandre e passando por Joana Marques Vidal, politizaram o processo e não merecem a menor confiança.

Este processo começou por excelentes razões. Havia, realmente, matéria que justificava uma investigação do Ministério Público aos trânsitos de dinheiro para Sócrates. Por aqui, não só não há qualquer dúvida acerca da legitimidade da abertura do caso no Ministério Público como todos os cidadãos esperam que tal aconteça sempre nas mesmas circunstâncias com terceiros. Infelizmente, esta bondade judicial esgotou-se na sua própria abstração pois os actos que iniciam a investigação estão feridos de ilicitude: investigou-se irregularmente e abusivamente. Porquê? Política.

Não sei se Sócrates cometeu alguma ilegalidade. Espero que, caso a tenha cometido, ela venha a ser julgada e tenha uma condenação justa. Por mínima que seja. Sei outra coisa, que a Operação Marquês não foi em momento algum o exercício de querer estabelecer factos para chegar a conclusões que eles fundamentassem. Passou-se ao contrário, andaram à procura de factos para as únicas conclusões que concebiam manter no final do prazo. Daí estarmos hoje, finalmente, em condições de conhecer uma visão isenta desses factos e da sua justa, constitucional, interpretação.

Luís Rosa, uma viscosa e fanática figura que tem em Sérgio Moro o seu herói, escreveu há dias um artigo onde festeja a eventualidade de a Operação Marquês só terminar em 2036. Para ele, tal consolo faz todo o sentido pois esse prazo corresponde ao tempo disponível para continuar a explorar o tema e o ódio que ele anima nas audiências da direita decadente, da indústria da calúnia, do populismo e do tachismo. Para o cidadão assustado com a possibilidade de ter existido um primeiro-ministro que se justifica julgar por acusação de corrupção, e apavorado com a possibilidade de existir uma Justiça que comete intencionalmente injustiças, hoje é o dia em que esta questão de regime vai obter decisiva sentença.

Lições de História no Expresso

O Expresso da semana passada tinha as seguintes peças “jornalísticas” sobre Sócrates:

Sócrates, o grande abalo

É o editorial. Descreve sumariamente pontos tratados nos artigos publicados nesta edição sobre a Operação Marquês. E embrulha-os em platitudes a respeito do “abalo” que a decisão irá provocar. Ou seja, editorialmente, o Expresso não se preocupa com a qualidade da acusação nem com a legitimidade, relevância e tipologia das provas. É uma forma institucional de o Expresso declarar inexistente o cidadão José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, devorado pela presunção de culpabilidade que será impossível de alterar, argumente e decida Ivo Rosa o que lhe der na gana. Já só existe o “abalo”, diz esta claque.

‘Bomba’ na política… ou na justiça? “Ele não ficará quieto”

Vítor Matos, magnífico antisocrático, e antixuxas, faz o exercício de simular elencar diferentes pontos de vista só para ter o gosto de pontapear o que ele declara ser um cadáver político. Ao mesmo tempo, mostra-se alvoraçado com a possibilidade de uma ressurreição. Pelo meio, promove uma série de TV com argumento de João Miguel Tavares, a estrear num canal da SIC, a qual é uma sátira debochada e canalha que visa ferir e humilhar a família de Sócrates.

“Isto pode voltar a acontecer…”

De novo Vítor Matos, agora para pôr a carne toda no assador: exigência de assunção de culpa e vergonha ao PS por contaminação moral, PS “sinónimo de bancarrota”, Passos Coelho recusou salvar o BES, e sindicalistas das magistraturas a dispararem grosso sobre os políticos. A cassete, pois.

E se…?

Micael Pereira dedica-se à busca do que se poderá salvar mesmo no pior cenário de ver cair o crime de corrupção. Parece satisfeito com o resultado. Consegue atacar Ivo Rosa, en passant, o que só confirma o seu exuberante sectarismo.

Crime no poder

“Prisão Domiciliária” é a série sobre Sócrates que o Observador gostaria de ter feito, e que na prática fez, e que a SIC comprou e vai estrear num dos seus canais. João Miguel Tavares vai-se exibir em todo o seu esplendor de sonsice fétida (ele alega que não se trata de um retrato de Sócrates, ao mesmo tempo que admite estarem lá todos os traços necessários para ninguém ter dúvidas de que é de Sócrates, e só de Sócrates, que se trata), obsessão erótico-escatológica pelo homem que lhe deu a actual carreira de caluniador profissional e luminosa ausência de decência. Para o Grupo Impresa, é o dois em um: tentativa de sacar dinheiro à conta da Operação Marquês, como fizeram quando passaram gravações dos interrogatórios a Sócrates e outros envolvidos, e achincalho dos socialistas em geral em registo de bacanal e assassinato de carácter.

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Fiz esta resenha porque o Expresso representa a sociedade que somos. Quando este jornal aparece reduzido ao fanatismo persecutório num caso com a complexidade da Operação Marquês, caso com gravíssimas violações do Estado de direito logo desde a primeira fuga ao segredo de Justiça meses antes da detenção de Sócrates, e também na própria detenção no aeroporto numa operação preparada pelo Ministério Público com jornalistas, passando por termos um juiz que se assume como justiceiro e que acusou publicamente um arguido à sua guarda constitucional, fica cristalina a completa politização do processo logo desde o seu início, em todas as suas peripécias, e no seu desfecho ou desfechos.

A sociedade que somos aceitou a condenação de Sócrates por ouvir dizer. Mas isso não é o pior. A sociedade que somos aceita que a Justiça se exiba dominada por uma politização crassa onde se cometem crimes e se envenena o espaço público num apelo aos instintos mais sórdidos. Isto é o pior do pior, ensina a História.

Joana Marques Vidal, a corruptora

Quem é a individualidade, ou a entidade, que sabe mais (isto é, que tem a mais extensa, precisa e actualizada informação) acerca da corrupção em Portugal? Será quem exerça, à vez, o cargo de procurador-geral da República? Será quem exerça, enquanto durar, o cargo de ministro da Justiça? Será algum académico, ou punhado de académicos, que se dedique à matéria? Será a Cofina como grupo ou alguém a solo no Observador? Será o Ventura? Será o João Miguel Tavares?

Tentar responder à questão levanta acto contínuo outras questões conexas e paralelas, pois ao Ministério Público falta o tratamento epistémico (multi e interdisciplinar) dos casos tratados, às universidades falta o detalhe concreto e sigiloso recolhido na experiência directa com corruptores e corrompidos num presente sempre em mutação, e aos jornalistas falta o acesso a conjuntos largos de dados e ainda o aparato teórico e metodológico para os tratar de forma a que se transformem em conhecimento. Assim, se perguntarmos seja a quem for, à maior celebridade política ou da Justiça, ao mais apagado anónimo, é certo que ninguém será capaz de ultrapassar o nível de uma banalidade isenta de inteligência e honestidade intelectual se resolver nomear um sabichão-mor do estado da corrupção em Portugal.

Porém, contudo, todavia, mergulharemos num oceano de unanimidade caso perguntemos se Joana Marques Vidal é uma das pessoas que mais e melhor sabe a respeito do fenómeno da corrupção na Grei. Sim, claro que sim, foda-se oh se sim, é a imediata resposta em coro. Esta figura não só conhece como investigadora judicial centenas ou milhares de casos de corrupção, não só tem formação jurídica de especialista para conceptualizar, identificar e avaliar o que seja isso da corrupção, como ainda acumula com uma intervenção pública onde espalha um certo ponto de vista político acerca da corrupção. Para adensar esta última dimensão política, ela não repudia, bem pelo contrário, ver-se usada como heroína de uma cruzada contra um tipo de corrupção sui generis – um tipo específico e especialíssimo: aquele que terá sido cometido, e que estará neste momento a ser cometido, e que será cometido sem parar a toda a extensão do futuro, por pessoas pertencentes ao Partido Socialista e seus cúmplices. Estas pessoas corruptas porque pertencentes ao Partido Socialista, assim corre a tese, têm o mau hábito de ganharem mais eleições do que a gente séria e a gente de bem. Resulta deste desvario cósmico que as tais pessoas do Partido Socialista passam mais tempo no Governo e ocupam a presidência de mais e maiores autarquias. E é por isso, e só por isso, que a corrupção é um flagelo, uma calamidade, a desgraça da Pátria, a qual tem de ser combatida pelos raríssimos exemplares da raça lusitana que conseguem resistir à sedução diabólica das pessoas do Partido Socialista; como é o milagroso caso de Joana Marques Vidal.

Esta senhora teve um ex-presidente da República, um ex-primeiro-ministro, inúmeros barões e tenentes da direita e todos os impérios de comunicação social a fazerem campanha por si aquando do fim do seu mandato. O Chega, o mais recente partido português a entrar no Parlamento e que aparece como terceira força política nas sondagens, fez-lhe um altar. Que se passa, portanto? Donde vem a sua importância para a arena política? Como é que ela se tornou tão valiosa para uma direita ressabiada, rancorosa e que trata como inimigos, que sonha em ver na prisão ou com o nome na lama, os tais fulanos do Partido Socialista? Assistir a este programa – Quem Trava a Corrupção? – dá-nos uma diáfana visão do que está em causa.

Podemos saltar logo para o minuto 28 em ordem a encontrarmos uma matriz que condiciona o espaço público, e, em simultâneo, oculta as agendas estritamente políticas (mas também financeiras, em variado grau) de múltiplos agentes sociais. É a altura em que Tiago Fernandes interrompe Joana Marques Vidal. A ex-PGR estava a dizer que o povinho, quando fala de corrupção, mistura um sem-número de outras ilegalidades no conceito, as quais não são técnica e penalmente corrupção, daí vindo a alta “percepção da corrupção” que aparece em sondagens e estudos. O professor de Ciência Política sentiu então uma pulsão indomável para lhe dizer o seguinte: “Não é só a população. Muitas vezes, responsáveis políticos institucionais, não só do mundo político mas também do mundo cívico, que têm responsabilidades, misturam tudo isso num mesmo fenómeno. Não é só a população. Queria só dizer isso.

De um lado, um cientista social que vinha de fazer uma intervenção onde argumentou ser muito importante distinguir a corrupção de outros crimes com ela associados, seja realmente na estatística ou na percepção comum que os cola por ignorância. Do outro, uma figura que transcende a sua função profissional como magistrada do Ministério Público com um carreira brilhante, incensada como parte do sagrado trio de almas (com Rosário Teixeira e Carlos Alexandre) sem medo dos “poderosos”, desde 2012 captada e/ou cooptada para a luta política, que sentiu o remoque do cientista social e lhe responde expondo a lógica que ela promove, que ali em estúdio de imediato promoveu, isso de lhe interessar que haja essa misturada conceptual, um vero nevoeiro de guerra, quando se fala da corrupção ao mais alto nível judicial e político. E chegados aqui, o nosso papel passa a ser o de nos armarmos em curiosos. Quem é que ganha, e o que ganha, quando se alimenta intencionalmente a falsa imagem de estarmos infestados de corruptos, cercados por corruptos, ameaçados diária e horariamente por corruptos que metem no bolso milhões e milhões sem ninguém os conseguir parar?

Se eu criar uma associação anticorrupção, e quiser manter-me com financiamento e na ribalta, dá-me jeito haver corruptos em barda para denunciar. Se eu quiser viver de despachar textos para jornais e ir à televisão dizer coisas, o maná não se irá esgotar se me posicionar como caçador dos “corruptos” que os meus patrões não gramem (mas só desses). Se eu perceber que os otários que lêem o Correio da Manhã estão no ponto de rebuçado para festejarem a chegada ao Parlamento de um racista-xenófobo que persegue os pedófilos, os corruptos, os pedófilos-corruptos e os corruptos-pedófilos, é óbvio que serei o primeiro a agradecer estar num país tão propício ao nascimento desses cretinos. Quem espalha o alarme agitando a corrupção, o qual nos intoxica cognitivamente dado despertar automatismos de protecção, está a repetir o ancestral mecanismo da diabolização, da caça às bruxas, da estigmatização motivada – o qual foi, invariavelmente ao longo da História, a execução de projectos políticos com vista a poder exercer as mais eficazes violências contra certos adversários (ou para adquirir bens) à margem da moral, da decência, do Estado de direito.

Joana Marques Vidal sabe o mesmo que Tiago Fernandes, quando este apresenta o que é possível dizer-se a respeito da corrupção caso o plano seja respeitar os factos e, a partir deles, tirar ilações (minuto 56 em diante). Só que prefere deslocar o foco para a intangibilidade de uma “cultura de integridade”, reservando-se o direito de ser ela a definir o que devemos aceitar sob essa designação. Se a integridade de que fala for a mesma que exibe risonha ao falar da “estratégia” holística que foi usada na Operação Marquês para construir um megaprocesso, compreende-se na perfeição como esses monumentos à integridade que dão pelos nomes Cavaco Silva e Passos Coelho a escolheram e queriam que ela continuasse o excelente trabalho vitaliciamente. Quem consegue corromper a própria corrupção tem um valor precioso para quem faz da política a luta do poder pelo poder.

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Drinking Wine May Help Protect Against Cataracts
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Changes in mouth bacteria after drinking beetroot juice may promote healthy ageing
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Can drinking cocoa protect your heart when you’re stressed?
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Multilingual people have an advantage over those fluent in only two languages
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Kumon or Montessori? It may depend on your politics, according to new study of 8,500 parents
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Not Prosecuting Misdemeanors Reduces Likelihood of Re-arrest, New Study Finds
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Este partido não é para mulheres

Ter João Ferreira a concorrer em Lisboa é uma espectacular manifestação do estertor do PCP. O candidato monopolista vem de uma agridoce prestação nas presidenciais, onde chegou a prometer um muito melhor resultado dada a simpatia mediática gerada no início da campanha. Não o conseguiu, deixando a dúvida sobre o seu potencial para substituir Jerónimo de Sousa no futuro próximo.

Para além da sua eficácia eleitoral estar em causa, o maior problema com este projecto de líder está no marketing. Ele é uma escolha estética, tanto no plano físico (recolhe entusiasmados elogios a respeito do seu visual masculino) como no plano discursivo (traz um renovo ao evitar usar o jargão e o folclore comunistas, finge não ser sectário). Não é, portanto, uma aposta que nasça da dimensão histórica, intelectual ou militante do partido, antes exibe a lógica capitalista que levou o Comité Central para a repetição da mesma figura em dois actos eleitorais tão díspares e tão próximos. Para piorar o prognóstico, não ultrapassou o nível da mediania competente nos debates das presidenciais, tendo ficado preso a uma estratégia adequada mas que servida sem acompanhamento e molho era intragável, a da defesa da Constituição. Não revelou ter carisma nem intuição política, sendo altamente provável que repita o estilo com os mesmos resultados para as autárquicas na ausência de uma reinvenção copernicana na war room da Soeiro Pereira Gomes.

Onde estão as mulheres do PCP? Quem vai substituir João Ferreira no Parlamento Europeu é de novo um homem. Os cargos mais importantes do partido estão todos nas mãos de homens. Tirando Rita Rato, não associamos nenhum nome feminino ao PCP nos últimos muitos anos. Nenhum? Espera, há outro: Zita Seabra. Vinda da clandestinidade, apresentava uma imagem tipicamente ortodoxa de militante comunista exemplar. Ter saído do partido na altura da convulsão existencial da Perestroika não é o que de mais impressionante o seu percurso regista. Vê-la no PSD, a lutar contra a legalização do aborto de que tinha sido uma defensora pioneira e relevante no Parlamento no início dos anos 80, e finalmente a converter-se em prosélita de Fátima, isso, sim, foi veramente revolucionário.

Do ponto de vista do fanatismo da personalidade de Zita Seabra, entende-se a mudança na continuidade. Do ponto de vista ideológico e histórico, compreende-se que o PCP tenha ficado traumatizado. Resta perceber se João Ferreira se quer deixar ser mais um prego no caixão ou se se reinventa e consegue puxar o partido para a riqueza da heterologia. Pode, e deve, começar por se rodear de mulheres comunistas na sua equipa e dar-lhes o palco. O PCP está a precisar, urgentemente, de dialéctica sexual.

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PS – Esqueci-me da castiça e criativa Odete Santos, aqui lembrada pelo Vieira e pelo Júlio

O juiz perigoso

Rui Pedro Castro, o juiz que se filmou a desafiar o director nacional da PSP para uma luta corpo a corpo, é vítima de alguma disfunção do foro psiquiátrico. Este diagnóstico pode ser feito por leigos, dada a evidência de que se prejudicou irremediavelmente ao ter perdido a capacidade de prever as consequências dos seus actos. Não é crível que volte a ser juiz, portanto, e mesmo como eventual advogado não oferece confiança e tem a credibilidade destruída. Precisa de se ir tratar e depois, caso recupere toda ou parte suficiente da sanidade mental, descobrir um novo modo de vida.

Mas se, no plano clínico, estamos perante um indivíduo que merece compaixão e protecção, no plano político a sua exibição patológica em público permite chamar a atenção para um dos tabus que dão forma ao quotidiano da República: a problemática da saúde mental dos magistrados. Não se fala disso na “imprensa de referência”, ocupada como está em garantir que certos magistrados continuem a produzir certo tipo de manchetes e certo tipo de alarme persecutório. Talvez só lá muito de vez em quando apareça alguma coisa nas revistas e colóquios das ciências jurídicas (embora não apostasse nisso os 10 euros que tenho no bolso). Ora, trata-se de uma inevitabilidade estatística, alguma percentagem dos procuradores e dos juízes exerce com doença mental não detectada pelo próprio, sua família e/ou entidades responsáveis por essa aferição no sistema de Justiça.

Outro aspecto relevantemente político no episódio deste juiz está no discurso de extrema-direita que usou. Não se trata de um acaso, porque não é um acaso estar na actual extrema-direita populista uma reacção de negacionismo da racionalidade científica, democrática e liberal. Esse fenómeno tem longínquas causas, desvairados factores influenciadores e inscreveu-se na história da civilização de uma forma espantosa com a vitória de Trump e a violência irracionalizante que espalhou e acirrou numa escala considerada impossível antes de a termos visto acontecer. Figuras como Trump, e como Ventura que lhe imita o feitiço, atraem quem esteja cognitivamente depauperado; seja por carência de literacias e formação intelectual, seja por estados doentios em desenvolvimento ou em actividade, seja por tudo isto ao mesmo tempo. Para dizer que alguém é “maçom”, e que é por isso que chegou a director da PSP para ser um “pau mandado do Governo”, não é preciso ter grandes estudos nem ter ao dispor uma grande inteligência. Será precisamente ao contrário. Onde está “maçom” ponha-se “corrupto” ou “socialista” e depois conte-se quantos no espaço público, muitos desses com papéis de representação política e social, repetem o bordão.

Não, este juiz não é perigoso agora que está exposto. Perigoso é estoutro, chamado Manuel Soares. Do muito que revela nesta entrevista – “Há pessoas que entraram pobres na política, saíram ricas e riem-se de nós” – o título escolhido pela TSF e JN c’est tout un programme do justicialismo populista que invade a cachimónia de figuras gradas no Estado e na sociedade. Infelizmente, dado não existir imprensa em Portugal, nenhum dos dois jornalistas presentes teve tempo para lhe pedir os nomes desses ex-pobretanas que andam agora por aí a rir e a gargalhar à nossa custa. Era giro saber de quem fala este juiz tão decente e honrado que até lidera o órgão que representa sindicalmente os juízes portugueses, né? Azar do caralho, perguntassem.

O melhor da entrevista, para mim, está neste naco:

Revê-se mais na justiça de Carlos Alexandre ou na de Ivo Rosa?

Revejo-me nas duas. Revejo-me na justiça que absolve quando não se provou que uma pessoa cometeu o crime ou que nega uma escuta telefónica quando não há indícios suficientes, como me revejo numa outra em que, se há uma investigação importante e se a Polícia ou o Ministério Público trazem indícios suficientes para pedir uma busca, uma prisão preventiva, o tribunal deve deferir.

Pois bem, bute lá traduzir:

«Eu, Manuel Soares, em nome de 2 300 associados que representam 95% dos juízes, penso que o Carlos Alexandre condena mesmo quando não se provou que uma pessoa cometeu o crime e que despacha escutas telefónicas mesmo sem indícios suficientes, e mais penso que o Ivo Rosa não acolhe os pedidos de busca e de prisão preventiva do Ministério Público, nem mesmo quando existem indícios suficientes.»

Aqui entre nós, Manel, aconselho-te a pensares um bocadinho melhor no assunto caso te voltem a fazer a mesma pergunta. Cuidado com esses excessos de transparência.

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Vindo de quem tem autoridade e saber na matéria é outra loiça:

Os nós do populismo judiciário

A braçadeira do C e do R

Ao ter começado a sair de campo com o jogo ainda a decorrer, Cristiano Ronaldo sabia que poderia ser expulso. Por acaso, o árbitro do Sérvia-Portugal, sem se ter apercebido da situação, terminou o jogo com ele ainda em campo. Esta é a mais grave falha da sua carreira na Selecção Nacional porque poderia ter prejudicado a equipa para os próximos jogos de apuramento por sua intencional e estouvada iniciativa.

Ter mandado a braçadeira ao chão, num gesto de frustração e descontrolo emocional, não prejudica os interesses da Selecção Nacional. Apenas insulta a malta e mostra que o herói passou a acreditar no mito. O “C” da braçadeira já não é de Capitão para ele, é de Cristiano. Pelo que pode fazer dela o que quiser. Mandá-la ao chão. E deixá-la aí ficar para quem a quiser apanhar. Como vedeta mimada e adolescente.

Que não espante, então, a cena maravilhosa que vimos no Luxemburgo-Portugal. CR7 sozinho frente a um guarda-redes que joga na 2ª Divisão da Bélgica. E sem conseguir marcar golo com um remate e uma recarga. Não é para qualquer um – e concorre com o também miraculoso feito de Bernardo Silva no jogo anterior, quando este craque que vale mais de 100 milhões de euros conseguiu acertar no pé de um defesa tendo uma baliza sem guarda-redes à sua frente. O episódio Golias-Moris deveria levar a que no próximo jogo dessem ao melhor do Mundo em quase tudo do pontapé na bola uma nova braçadeira, com um “R”. É que o histórico Capitão despromoveu-se a si próprio a soldado raso, devíamos oficializar a situação.

Moedas, trocos e patacos

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Carlos Moedas confirmou, logo em 2014, que Ricardo Salgado lhe telefonou para tentar obter a sua ajuda por causa da investigação das autoridades do Luxemburgo a três empresas do GES e para interceder junto da CGD de forma a obter crédito de emergência para o GES. Por sua vez, o PSD validou a escuta onde José Manuel Espírito Santo lançou para a posteridade a expressão “Eu punha já o Moedas a funcionar“, a qual não carece de grande hermenêutica quanto ao seu sentido conotativo, e onde Ricardo Salgado relata que Moedas se comprometeu a ajudar, prometendo fazer o que família Espírito Santo lhe estava a pedir. Isto, por si mesmo, é um mundo que está por explorar do ponto de vista da história do BES, do GES, do Governo de Passos, da relação de Ricardo Salgado com a oligarquia e as elites nacionais (políticos, empresários, juristas, jornalistas), e finalmente do republicano e comunitário interesse público. Algum dia será explorado? Tal não é provável pois não existe imprensa em Portugal nem se vê qualquer partido com interesse em fazê-lo.

Moedas defende que nesse telefonema optou por mentir a Salgado, simulando alinhar mas não mexendo uma palha. E porquê? Porque é uma pessoa educada e simpática, como se pode ouvir acima. Aparentemente, o nosso educadíssimo e simpatiquíssimo Carlos não está preocupado com a antinomia de valores que a sua justificação comporta (pun intended). Esta versão do “fumei mas não inalei” é patética e insulta a nossa inteligência pois ninguém está preocupado com aquilo que Moedas disse e não fez na ocasião, o que releva é a certeza de Moedas já ter funcionado noutras ocasiões ao serviço da mesma engrenagem – como é normalíssimo que assim seja, como é inevitável que o tenha sido, dada a evidência. E quanto a não ter ajudado o GES em Junho de 2014, tal tem como contexto a decisão de afundar esse Grupo, arrastando o BES com ele, que Passos tomou em tandem com Carlos Costa. Obviamente, Moedas foi-se informar com o chefe e recebeu ordens para ficar quieto e calado. Uma cena de arrebimbomalho, análoga à decisão de chumbar o PEC IV, ia acontecer. Com o mesmo protagonista principal e consequências igualmente devastadoras para a economia. Numa jogada que misturou a farsa da “saída limpa” com vinganças pessoais, e que foi contra o interesse nacional pois teria sido preferível decapitar a hierarquia e salvar o que tivesse salvação em vez do napalm e da terra queimada. Agitar a bandeirinha de que Passos foi o único a dizer “não” a Salgado é o mesmo que admitir terem Durão Barroso, Santana Lopes e Cavaco Silva dito “sim” muitas e muitas vezes. Acontece que a nega de Passos correspondeu à preferência irresponsável pelo mal maior, o oposto da escolha de um estadista.

O culto messiânico a Passos nasce, fundamentalmente, de ser considerado o principal responsável pela prisão de Sócrates – por via da escolha de Joana Marques Vidal e do que ela deixou Rosário Teixeira fazer em conluio com Carlos Alexandre. Acessoriamente, ter afundado Portugal para derrubar o PS da governação, e depois ter optado pela destruição das cadeias de valor do BES/GES, blindam Passos num posicionamento de líder disposto a tudo para chegar ao poleiro e manter o poder. Para sectários e fanáticos, trata-se da única forma de fazer política que concebem. Uma atitude e comportamento face à democracia que implica levar ao extremo as tendências paranóides e dar vazão incontinente às teorias da conspiração e ao ódio político. Só assim conseguem manter a coerência identitária e cognitiva, diabolizando os adversários em ordem a legitimar as maiores violências que estão dispostos a fazer-lhes para os afastar do poder. Este caldo deu origem ao fenómeno Ventura, primeiro no PSD e depois no Chega. Ventura esse que se reclama discípulo e súbdito de Passos, ao mesmo tempo que repete a retórica do antisocratismo militante, obsessivo, doentio (ou seja, apavorado).

Que tem Moedas a ver com Passos e com Ventura? Nada, para quem papar a anedota de que José Manuel Espírito Santo se lembrou do Moedas por estar bêbado na tal reunião de crise, sugestão logo acolhida pelo seu primo por este estar ainda mais bêbado do que aquele. Tudo, para quem abomina uma direita decadente que trocou o patriotismo e o pensamento pela falta de escrúpulos e pelo golpismo. O que Moedas fez ao lado de Passos – portanto, o que continua disposto a fazer de acordo com as circunstâncias – só são trocos para patacos.

Revolution through evolution

Does ‘harsh parenting’ lead to smaller brains?
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Narcissism driven by insecurity, not grandiose sense of self
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Don’t let the small stuff get you down – your well-being may depend on it
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Maintaining Emotional Health and Wellbeing During COVID-19
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Study shows stronger brain activity after writing on paper than on tablet or smartphone
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Study Indicates Deliberate Hiring of Unethical Management Accountants
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Union-friendly states enjoy higher economic growth, individual earnings
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Da série “Pôr o Moedas a funcionar”

«"Sem dados novos, com base no depoimento, que já tinha acontecido na primeira comissão de inquérito, de administradores propostos por Ricardo Salgado, o PS vem abraçar a narrativa de Ricardo Salgado sobre a viabilidade do BES. Algo incompreensível. Esta aliança entre o PS e a narrativa de Ricardo Salgado é inaceitável, inesperada, execrável", nota Duarte Pacheco.»
Fonte

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Esta reacção – com Duarte Pacheco a recorrer à “falácia do espantalho” e com Rui Rio a fazer mais uma “piada” no Twitter – mostra-nos aquilo que o PSD é actualmente e desde a fuga de Barroso: uma real bosta.

As comissões de inquérito parlamentar têm sido um festim de chicana desenfreada, obscena, soberba para os direitolas. Lembro só uma mão cheia de exemplos. Desde a que em 2008, à nacionalização do BPN, serviu para colocar todo o odioso em cima de Vítor Constâncio, o polícia sem arma nem lupa, e para limpar o Cavaquistão, o qual criou a partir da sua elite um banco especializado em gamar e alimentou até ao topo do topo os seus porco-ricaços laranjas com sacadas de dinheiro vivo e acções em família. Passando pela que em 2010 ridicularizou a Assembleia da República ao ter como motivo o “exercício da liberdade de expressão em Portugal” (leia-se “claustrofobia democrática”, a invenção patético-canalha do Paulo Rangel), e que apenas serviu para o Henrique Monteiro se ir chorar por ter estado duas horas ao telefone com Sócrates, para o Mário Crespo ir mostrar aos deputados uma camisola de algodão (100%) sobre o mesmo Sócrates, para o deputado Branquinho pedir emprego à Ongoing, e para ficarmos a saber que no primeiro e único Governo de maioria socialista o órgão de comunicação social que tinha maior compra de espaço publicitário pelo Estado era… o “Correio da Manhã”. Chegando às três comissões de inquérito sobre a CGD, as quais tiveram como único propósito martelar até ao vómito a teoria da conspiração preferida dos pulhas e dos broncos: a de que Sócrates, a partir do seu telefone ou talvez por telepatia, controlou a CGD e o Banco de Portugal para conseguir meter Vara no BCP e assim iniciar 1000 anos de tirania absoluta e diabólica em Portugal.

Duarte Pacheco sabe do que fala, pois a projecção a que se entrega não pode ser mais transparente a seu respeito e dos seus colegas. E Rui Rio está mesmo convencido de que tem graça e que o Twitter do líder da oposição e, por inerência, mais forte candidato a primeiro-ministro deve servir para se exibir como irresponsável e acéfalo. Ambos revelam conceber as comissões de inquérito parlamentar apenas como instrumentos de baixa política para fins de demagogia e assassinatos de carácter. É por isso que surgem ressabiados e rancorosos quando se vêem no papel de alvos. É por isso que ficam em pânico com o regresso aos tempos em que o Pedro e o Aníbal punham e dispunham. Apurar factos, saber quem fez o quê e porquê num assunto com a gravidade e consequências da resolução do BES e dissolução do GES, servir o interesse nacional e a missão do Parlamento, isso não existe nem sequer como sombra de um sonho nestas duas figurinhas de merda.