
in O século do BES e do Marquês
*_*
Mesmo entre aqueles que ficaram radiantes com o aparecimento da Operação Marquês, e com a sucessão de castigos e humilhações para Sócrates e terceiros a ele ligados, há um limite de consciência caso não tenham entrado já num buraco negro de fanatismo e de ódio sem regresso possível. Surge quando reconhecem que a transformação da acusação num megaprocesso colado ao universo BES e à PT, e ainda com a CGD à mistura, só pode vir a gerar um oceano de cocó ao bater na cachimónia de juízes que não tenham medo da pulharia – pois, após se ter amontoado 13.500.000 ficheiros informáticos (sim, treze milhões e quinhentos mil ficheiros informáticos), 53 mil páginas de papel, 35.000 escutas, recolhidos dados bancários sobre 500 contas, ouvidas mais de duas centenas de testemunhas, e vamos deixar de fora a papelada dos anexos, não se encontrou uma singela prova de corrupção. Toda a acusação está sustentada numa única e pícara testemunha chamada Hélder Bataglia, a qual relaciona Ricardo Salgado com Carlos Santos Silva contra a palavra de ambos, e a qual é considerada comprada de forma ilícita pelo Ministério Público com um análogo da delação premiada.
Ricardo Costa é um desses que se vai reposicionando caso a decisão de Ivo Rosa deixe cair a corrupção (o que, por inerência, fará cair o branqueamento) e se limite à valoração da acusação no domínio fiscal. Não é preciso ser bruxo nem especialmente dotado de sinapses para antecipar esse desfecho como o mais provável dada a demora do juiz alvo de campanhas negras incessantes na Cofina e no Observador. Se fosse com o Calex, os 10 dias previstos teriam sobrado pois ele, muito antes da acusação ter sido formulada, já tinha condenado o arguido à sua guarda constitucional através desse instituto jurídico chamado “entrevista na TV”, tendo de seguida acusado todo o sistema judicial de conspirar contra si por causa de um sorteio; assim voltando a mostrar com exuberância os predicados que lhe dão o estatuto de herói na indústria da calúnia. Pelo que, muito provavelmente, Ivo Rosa não tem parado de teclar ao longo destes longos meses do seu silêncio, tamanha a logística de engenharia reversa em causa para desmontar a montanha de nada. Se, no entanto, e contra as expectativas, a acusação de corrupção se mantiver, então, e à mesma, a demora para decidir terá ficado absolutamente justificada e terá sido feita boa Justiça. É esperar, qualquer resultado será legítimo e valioso posto que Ivo Rosa ainda não deu qualquer motivo para se duvidar da sua integridade, tem sido exactamente ao contrário.
Aqueles que montaram a Operação Marquês enganaram-se, cometeram algum tipo de erro que os levou, por descuido, para este megaprocesso considerado um monstro impossível de julgar? Nem as pedras da calçada papam essa carambolice. Rosário Teixeira e Joana Marques Vidal, algures no tempo, tiveram de tomar a seguinte decisão: continuavam a investigar na sombra com o que já tinham recolhido, na esperança de encontrar provas de corrupção que blindassem a acusação, ou avançavam para a prisão de Sócrates e consequente terramoto político e social sem elas, na fezada de que iriam aparecer quando abarbatassem os telefones e computadores dos bandidos ou quando apertassem mauzões com a escumalha nos interrogatórios? Repare-se que o calendário da Operação Marquês não foi justificado por ninguém com autoridade no mesmo. Isto é, não sabemos por que razão Sócrates foi detido no final de Novembro de 2014 e não em Outubro ou Dezembro, por exemplo. Todavia, sabemos outras coisas, factuais. Sabemos que alguém no Ministério Público – em Julho do mesmo ano – resolveu publicitar que existia uma investigação em curso a Sócrates. Qual terá sido a lógica dessa violação ao segredo de justiça? Foi para ajudar o suspeito, permitindo-lhe apagar ficheiros, destruir telemóveis e combinar versões com os seus cúmplices durante 4 meses? Ou a única explicação terá de ser encontrada num outro calendário a correr paralelo ao da investigação, o da política? À Procuradoria-Geral da República, desconfio, chegam notícias do exterior. Dava para ver que Seguro precisava de uma ajuda, tal como deu para ver que Costa, na véspera de ser entronizado secretário-geral do PS, tal coincidindo com a entrada num ano eleitoral de legislativas, precisava de uma bomba debaixo do palco donde iria começar o ataque ao passismo. Essa bomba chamou-se Operação Marquês.
A acusação que saiu em 2017 é a concretização das campanhas negras que decorriam desde 2008, altura em que ao rancor de Jardim Gonçalves e Belmiro de Azevedo, entre outros oligarcas, se juntou o de Pacheco Pereira conselheiro de Ferreira Leite e o da Casa Civil de Cavaco Silva, para onde toda a direita corria exigindo que o Presidente derrubasse o monstro, salvasse os anéis. E foi o que ele tentou fazer. Falar da Operação Marquês sem falar do Face Oculta e da Inventona de Belém não se deve à amnésia ou estupidez, é necessário para ocultar os protagonistas e suas ligações, o modus operandi e o modus faciendi, os contextos, os pretextos e os subtextos. Resumindo, como já foi dito por tantos, na Operação Marquês quis-se julgar o “regime” – ou o “sistema”, para adaptar à retórica mais recente. Mas trata-se de um “regime” e de um “sistema” reduzidos ao período entre 2005 e 2011, e que, milagre dos milagres, deve a sua corrupção à sobre-humana capacidade de um solitário gigante: José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.
Altura de perguntar ao Ricardo Costa: se em Novembro de 2014, sendo ainda muito mais gritante do que agora, não havia prova directa e era preciso dar saltos lógicos para construir uma acusação com as consequências políticas, sociais, financeiras e humanas que esta tem, uma acusação que irá provocar abalos na democracia caia para que lado cair, valeu a pena? Estás a curtir, mano?