Bute dar dinheiro à Netflix

Chama-se Ethos, ou então Bir Baskadir.

Passa-se em Instambul, ou então no mundo.

Descreve o choque cultural e social na Turquia contemporânea, ou então descreve o conflito universal entre sociedades rurais e indivíduos urbanos.

Permite-nos descobrir o quotidiano de um país do Médio Oriente, ou então do mais exótico país europeu.

Revela dimensões da religiosidade muçulmana com as quais até ateus se podem identificar, ou então ao contrário.

Tem actores muito bons, ou então tem uma excelente direcção de actores.

Para lá destas suficientes razões para descobrir uma bela obra de ficção, talvez as histórias contadas sejam mais próximas da vivência e valores portugueses, do nosso “ethos”, do que se fosse uma série televisiva criada na Finlândia, na Alemanha ou na Inglaterra. Tem ainda dois bónus para a audiência lusitana: uma referência directa a Portugal, num dos episódios, e dá a ver em palco um autêntico sósia do Tony Carreira, tanto no fácies, como no visual, como na musiqueta.

À atenção dos forretas: a Netflix não se importa de ser gamada, pelo que é possível ver tudo à borla; basta aproveitar o mês de oferta e desistir a seguir.

16 thoughts on “Bute dar dinheiro à Netflix”

  1. Turquia, “exótico país europeu”? Europeu, só se for pela parcela de 3% de território sob a sua soberania na margem esquerda do Bósforo, verdadeira sobrevivência exótica do imperialismo otomano.
    Naquele pais com memória histórica mal resolvida, vemos, de tempos a tempos, pela boca dos seus dirigentes, serem lançadas contra a Europa as mais ásperas recriminações, denotando a susceptibilidade de quem procura compensar com o nacionalismo do presente a grandeza perdida do passado.

  2. Valupi.

    Uma eventual entrada da Turquia na UE significaria validar a pretensão europeia de um país que nos propõe, quanto à sua memória e identidade, a prática contemporânea de negação do facto nacional curdo e, sob a forma de verdade oficial de Estado, a negação compulsiva do genocídio dos arménios. Acolher um pretendente desta índole seria o mesmo que aceitar as pretensões de sanidade mental formuladas por um esquizofrénico, que, além do mais, declara que os sintomas da sua doença são atributos de sanidade.

  3. Francisco Ribeiro, isso não altera em nada a realidade, que a série exibe, de existirem turcos que são culturalmente europeus mesmo que não o sejam geográfica e politicamente.

  4. Valupi:

    Não tenho a imodéstia de pretender alterar a realidade alheia e , muito menos, de dar solução aos paradoxos identitários de cidadãos de um país do Médio Oriente, que se vêem ao espelho como europeus.
    Essa mesma modéstia impõe-me que reconheça ao Estado turco, numa prática reiterada de Ataturk a Erdogan, competências de definição da sua realidade histórica e identitária, que o habilitam a dar lições de como alterar a realidade, o que fazem com um topete inalcançável para muitos, entre os quais, humildemente me incluo .

  5. Francisco Ribeiro,

    Sem ocultar que a questão é polémica, note por favor que a Europa não é a UE. Ora a Turquia é, por exemplo, membro do Conselho da Europa. E’ certo que se trata de um membro problematico e regularmente criticado (tal como a Russia) por violações de liberdades e garantias que gostamos de ver como valores centrais na Europa, mas não deixa de ser um membro. O que eu percebo é que ha uma parte significativa da população do pais que se pensa, e que gostaria de se ver reconhecida, como parte da Europa.

    Boas

  6. João Viegas:

    Conheço bem as relações que ligam a Turquia à Europa, as quais são testemunho de que os vínculos de pertença político-institucional nem sempre coincidem com os que presumiríamos decorrentes da área geográfica e cultural do país em causa. Entre outros, Israel é exemplo disso.
    Sem prejuízo do óbvio direito de cada povo se percecionar como bem entenda, não deixo de apontar as contradições e equívocos latentes nas construções identitárias, em particular, as construídas sobre silenciamentos da memória e negações de culpa, coisas de que, nós, europeus, nos devemos dispensar de acolher, para não termos de acrescentar ao que já temos.
    Já basta o que sucede, próximo de nós, no nosso país vizinho. Ali, excetuada a parte de quem se reconhece no grau máximo do seu particularismo identitário, vive-se a quotidiana habituação a uma identidade de pertença vinculada a um projeto falhado de Estado-Nação. E tudo isto, numa Democracia, note-se.

  7. não há relações entre a Turquia a e a Europa , há relações entre a Turquia e a Alemanha.

  8. Francisco Ribeiro, a Europa não parece interessada em acolher os turcos, pelo que os teus incómodos não deverão sofrer qualquer agravamento nas próximas décadas.
    __

    Penélope, foi para mim uma enorme surpresa. Estava a muitas léguas de imaginar que na Turquia havia esta qualidade televisiva e ficcional. Acima e antes de tudo, o que mais me impressionou foi a modernidade e cosmopolitismo do tratamento dado às problemáticas culturais e religiosas abordadas.

    Fica a dúvida de saber se foi em parte por causa da Netflix, assim indo ao encontro das audiências seculares, cristãs e ocidentais, ou se é expressão fiel da visão do autor.

  9. Não, Valupi. Eu já tenho visto filmes turcos de grande qualidade, mas esta série está especialmente bem realizada, com bons diálogos, bom ritmo e bons actores. Agora, a problemática das duas Turquias é recorrente, nomeadamente porque o país foi laico e liberal durante muitos anos em que pareceu ocidentalizar-se e depois regrediu.

  10. as mulheres. as que não estão ‘ocidentializadas’, as que estão.
    portugal = laranjas.
    o tempo de reflexão que permite a realização.

    sim, podemos ver um pouco de cá lá.

    obrigado, venham outras sugestões.

  11. Valupi:

    Agradeço o seu apaziguamento dos meus incómodos. Incómodos certamente partilhados por quem não aceita acolher num espaço político de democracia e liberdade um país que faz da negação da sua responsabilidade histórica no genocídio do povo arménio política oficial de Estado, exercendo controlo da investigação académica, chantagem diplomática explícita ou dissimulada ou consagração museológica da adulteração da memória histórica (museu de Iğdır). Imagine-se o que seria dito sobre a Alemanha, se esta decidisse, sob o alto patrocínio do Estado, presentear-nos com um museu evocativo dos alemães mortos no genocídio perpetrado pelos judeus durante o nazismo e caucionasse a fraude historiográfica de personagens como Robert Faurisson ou Jûrgen Graf, que, entre outros, compõem a nebulosa multiforme do anti-semitismo contemporâneo…
    Registe-se o facto de que Portugal seguiu o exemplo dado por outros países, a propósito do genocídio arménio, dando cumprimento a um dever de memória justamente invocado em nome do valor intemporal e universal da dignidade humana. Refiro-me, em concreto, ao Voto de Pesar n.º 819/XIII, aprovado na Assembleia da República no dia 24 de abril de 2019.
    Relativamente à mencionada série exibida na Netflix – que nunca vi -, tenho a dizer que dou inteiro crédito à pertinência dos seus elogios, os quais atestam uma evidência do atual panorama cinematográfico e televisivo: a grande qualidade de muita da ficção produzida em latitudes geográficas distintas do espaço anglo-saxónico.
    https://www.hollywoodreporter.com/news/promise-ottoman-lieutenant-two-movies-battle-armenian-genocide-996196

  12. Vou ver se encontro, porque já os vi há uns bons anos, em Bruxelas, e não faço ideia de como se chamavam. No entanto, há um, talvez o primeiro que vi, de cujo título nunca me esqueci, porque apontaria para outro conteúdo: “Mercedes, mon amour”. Trata-se mesmo de um automóvel e é divertido. Claro que estávamos ainda numa fase pouco sofisticada do cinema turco, a temática não tem que ver com a desta série, antes com o regresso de um emigrante à terra natal, mas tem piada. Realizador: Tunç Okan.

  13. Francisco Ribeiro, talvez sejam essas mesmas razões que justificam um pedido já a caminho dos 30 anos continuar sem qualquer prognóstico positivo.
    __

    Penélope, thanks!

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