Lições de História no Expresso

O Expresso da semana passada tinha as seguintes peças “jornalísticas” sobre Sócrates:

Sócrates, o grande abalo

É o editorial. Descreve sumariamente pontos tratados nos artigos publicados nesta edição sobre a Operação Marquês. E embrulha-os em platitudes a respeito do “abalo” que a decisão irá provocar. Ou seja, editorialmente, o Expresso não se preocupa com a qualidade da acusação nem com a legitimidade, relevância e tipologia das provas. É uma forma institucional de o Expresso declarar inexistente o cidadão José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, devorado pela presunção de culpabilidade que será impossível de alterar, argumente e decida Ivo Rosa o que lhe der na gana. Já só existe o “abalo”, diz esta claque.

‘Bomba’ na política… ou na justiça? “Ele não ficará quieto”

Vítor Matos, magnífico antisocrático, e antixuxas, faz o exercício de simular elencar diferentes pontos de vista só para ter o gosto de pontapear o que ele declara ser um cadáver político. Ao mesmo tempo, mostra-se alvoraçado com a possibilidade de uma ressurreição. Pelo meio, promove uma série de TV com argumento de João Miguel Tavares, a estrear num canal da SIC, a qual é uma sátira debochada e canalha que visa ferir e humilhar a família de Sócrates.

“Isto pode voltar a acontecer…”

De novo Vítor Matos, agora para pôr a carne toda no assador: exigência de assunção de culpa e vergonha ao PS por contaminação moral, PS “sinónimo de bancarrota”, Passos Coelho recusou salvar o BES, e sindicalistas das magistraturas a dispararem grosso sobre os políticos. A cassete, pois.

E se…?

Micael Pereira dedica-se à busca do que se poderá salvar mesmo no pior cenário de ver cair o crime de corrupção. Parece satisfeito com o resultado. Consegue atacar Ivo Rosa, en passant, o que só confirma o seu exuberante sectarismo.

Crime no poder

“Prisão Domiciliária” é a série sobre Sócrates que o Observador gostaria de ter feito, e que na prática fez, e que a SIC comprou e vai estrear num dos seus canais. João Miguel Tavares vai-se exibir em todo o seu esplendor de sonsice fétida (ele alega que não se trata de um retrato de Sócrates, ao mesmo tempo que admite estarem lá todos os traços necessários para ninguém ter dúvidas de que é de Sócrates, e só de Sócrates, que se trata), obsessão erótico-escatológica pelo homem que lhe deu a actual carreira de caluniador profissional e luminosa ausência de decência. Para o Grupo Impresa, é o dois em um: tentativa de sacar dinheiro à conta da Operação Marquês, como fizeram quando passaram gravações dos interrogatórios a Sócrates e outros envolvidos, e achincalho dos socialistas em geral em registo de bacanal e assassinato de carácter.

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Fiz esta resenha porque o Expresso representa a sociedade que somos. Quando este jornal aparece reduzido ao fanatismo persecutório num caso com a complexidade da Operação Marquês, caso com gravíssimas violações do Estado de direito logo desde a primeira fuga ao segredo de Justiça meses antes da detenção de Sócrates, e também na própria detenção no aeroporto numa operação preparada pelo Ministério Público com jornalistas, passando por termos um juiz que se assume como justiceiro e que acusou publicamente um arguido à sua guarda constitucional, fica cristalina a completa politização do processo logo desde o seu início, em todas as suas peripécias, e no seu desfecho ou desfechos.

A sociedade que somos aceitou a condenação de Sócrates por ouvir dizer. Mas isso não é o pior. A sociedade que somos aceita que a Justiça se exiba dominada por uma politização crassa onde se cometem crimes e se envenena o espaço público num apelo aos instintos mais sórdidos. Isto é o pior do pior, ensina a História.

16 thoughts on “Lições de História no Expresso”

  1. coitadinho do rei midas , um injustiçado. que culpa terá de ter nascido com o dom de transformar ar em milhões para gastar ?

  2. Os 18.000.000.000 de contos que o ministro
    PPD Tavares Moreira estourou, num negócio de junk bonds “over night” é um pormenor em relação ao processo Marquês ?
    Antes isso, porque,ao que se disse, o dinheiro era maioritariamente da Segurança Social.
    Tudo o que atrás digo carece de prova, que eu não tenho. Outras processos há que ,na minha situacao,
    a justica já sonha em usar as “indiretas”….
    E quando as indiretas cansarem usam-se as que nem ao diabo lembram !
    Haja estômago e vontade de comer

  3. Em vez de se perderem nas vãs conjeturas que a vossa ignorância tece sobre a Operação Marquês, abram os olhos, se querem ver a realidade!
    Comecem por ler Os Protocolos dos Sábios de Sião.
    Hão-de começar a perceber que o que acontece nas altas instâncias da Política, da Finança, da Justiça e da Imprensa serve os fins ocultos da Grande Sinagoga de Satã, soberana absoluta das lojas maçónicas.

  4. já abri a pestana ó tempo , Barruel , é super fácil descobrir o padrão de acção. nem é preciso ver o que os meus antepassados avisaram , é só analisar os últimos 60 anos.

  5. Samuel, 18.000.000.000 são 18 MIL MILHÕES.
    O prejuízo causado pela “desatenção” do Tavares Moreira em relação ao ouro português guardado na Drexel foi, segundo noticiado na altura, 18 MILHÔES de contos. É muito dinheiro, convenhamos, mas é MIL vezes menos do que o número que aí puseste.
    (“Desatenção” foi o que o Rui Machete chamou então à incúria do Moreira, por não ter recuperado a tempo o ouro, antes de a Drexel rebentar).

  6. yo, a tua pestana deve estar obstruída há muito, se pertences à seita dos que acreditam nas aldrabices anti-semitas fabricadas pelos autores dos Protocolos, livro de cabeceira do Hitler.

  7. Val, que me dizes a este manhoso exercício de pseudo-isenção?

    Daniel Oliveira, “Sócrates foi condenado no País. E se não for em tribunal?”
    https://www.tsf.pt/programa/a-opiniao-de-daniel-oliveira.html

    O fulano confessa estar “injustamente” convencido, como a maioria (?) dos portugueses, da culpabilidade de Sócrates (chega a dizer que “entra pelos olhos adentro”), confessa igualmente que gostaria que o juiz enviasse Sócrates para julgamento, etc., etc., para depois declarar, como bom menino, que as suas convicções e as da “maioria” (?) não importam, que Sócrates é inocente até ser condenado e que o juiz deve julgar com base apenas em provas puras e duras e não nas convicções maioritárias (?) do público.
    Pelo meio vai alertando que Ivo Rosa tem uma interpretação “restritiva” da admissibilidade das provas, numa evidente tentativa de descredibilizar o juiz. O ponto culminante da crónica é quando agita o papão de que “só uma acusação plena seguida de condenação clara pode não criar problemas ao sistema democrático” (sic), dado ser “de tal modo firme a convicção que se enraizou em quase todos, que muitos não deixarão de pensar que o sistema falhou, se não for esse o desfecho”. Apresenta isto como a opinião de “muitos” ou da “maioria”, para não dizer que é a sua própria opinião. Raramente tenho lido um texto tão propositadamente ambíguo e perverso.

  8. Júlio, concordo contigo. O que se passa com ele é o que se passa com a enorme maioria: preferem o tribalismo, e a paixão da captura de um feroz chefe guerreiro, à defesa dos princípios civilizacionais que, ao longo de milénios e de incontável sofrimento atroz, foram construindo o Estado de direito democrático.

  9. Julio : comecei afirmando, no comentário anterior, que o que lá afirmo carecia de prova !
    E contihua a carecer !
    Se os bichos caretas, altos responsáveis, tivessem o cuidado elementar que eu ,prudentemente, tive, não se veriam tantos zurros histéricos, tanta parelha na atmosfera e os telhados continuariam sem os dois coices da canção.
    Que os simplesmente sérios olhem em redor e sonhem como ficaria o Mundo sem tal gente.

  10. Apreciador da liberalidade de direito de admissão praticada nas caixas de comentários do Aspirina e insuspeito que sou de simpatias sionistas, considero no entanto que há linhas vermelhas cuja ultrapassagem não deve ser tolerada, como acontece na benevolência com que se permite a entrada do porcalhão das 14:20, ressuscitando sem vergonha a vacalhice dos chamados Protocolos. O que virá a seguir? Citações do Mein Kampf?

  11. please… protocolos? quais protocolos , qual carapuça. é só olhar para o que se passou nestas últimas décadas , não alinhar em calimerices ,pesquisar e perceber de quem são os meios de comunicação , a indústria cinematográfica , a big pharma , os traficantes de carne branca que se suicidam na prisão , os alugadores de barrigas (com escritórios investigados em Lisboa , por exemplo ,) os intelectuais que rezam à santa ciência e promovem a esquizofrenia em que vivemos de só pensar em dinheiro e crescimento económico e a confiança com que se dedicam já a “eucaliptar” a economia . e já agora , as empresas financeiras que provocaram a crise do sub prime. não tremo de medo porque , lá isso é verdade , acredito sociológicamente na profecia que se auto realiza e não tardará estarão em Marte. finalmente.

  12. O D. Oliveira em tudo que escreve acerca de Sócrates é do mais repugnante, em termos democráticos, que outro qualquer anti-socrático profere; estes não pretendem fundamentar racionalmente qualquer juízo de culpa pois vão directos à acusação pura e dura de “corrupto” porque o “cm” forneceu todas as provas de corrupções e ligações corruptas com, praticamente, todos os corruptos do país; o D.Oliveira, que ataca o estilo informativo “cm”, tenta argumentar racionalmente a culpa de Sócrates sem o conseguir pelo que construíu uma “convicção” singular, unipessoal e falaciosa que o conduziu à sua ideia expressa há já mais de um ou dois anos de que “caso Sócrates não seja condenado há uma revolução (ou revolta?) dos portugueses”.
    Esta maneira capciosa de culpar Sócrtates á priori tem sentido equivalente ao “entra pelos olhos a dentro” dele e da “maioria dos portugueses”.
    O oportunismo é tanto como o seu calculismo ao precaver-se para uma eventual parição de um ratinho no interior de uma montanha de papel.
    Os outros, “observadores” tipo JMT, são o que são como o lacrau e não enganam ninguém que saiba ler, ao contrário da yo, uma narrativa errática, feita de saltos ilógicos, provocatória da racionalidade, ligada pura e simplesmente por suposições e insinuações e, sobretudo, carregada doentemente de desejos vingativos de quem se sentiu atacado nos seus privilégios salazaristas.
    E, hoje em dia, após o descalabro de verdade de Moro no Brasil, tal como o descalabro da opinião publica portuguesa relativa a Cavaco e também na justiça de Alexantre e afins, as certezas dos portugueses está abalada; o medo de um não julgamento ou não condenação põe nervosos os justiceiros desfrutadores de corrupção mesmo pois, se Sócrates não for o “diabo” corrupto quem foi, afinal, o pai ou pais da corrupção por por cá?

  13. Agora que está iminente o conhecimento da decisão instrutória do processo Operação Marquês, recordo as palavras fortes a que José Sócrates lançou mão para adjetivar a acusação do Ministério Público, apelidando-a de “monstruosa, injusta e completamente absurda”.
    Caso se verifique a produção duma decisão favorável ao ex-primeiro-ministro, fundada no entendimento da inexistência de indícios suficientes para levá-lo a julgamento, ocorre-me colocar a seguinte questão: ou na melhor das hipóteses, o Ministério Público laborou num erro que, apesar de bem-intencionado, revela a sua inadmissível incompetência, ou, na pior das hipóteses, agiu com dolo e má-fé, denunciando uma perversidade moral insuportável.
    Para o bem do Estado de Direito, será preferível a primeira hipótese, ainda que péssima.

  14. Tenho para mim que a segunda é a verdadeira, mas esperanças tenho nenhumas que os responsáveis paguem pelos crimes (esses, sim, verdadeiros crimes) que cometeram.

  15. E acrescento que, na eventualidade de não ser dada razão ao Ministério Público, boa parte dos nossos concidadãos não sentirá o menor estremecimento na alma nem o mais ligeiro sobressalto cívico.
    Para essas pessoas, um facto que objetivamente feriria o prestígio do Ministério Público, órgão constitucional a que a nossa Constituição atribuí poderes de exercício da ação penal, de representação do Estado e de defesa da legalidade democrática, parece acolhível com um desprendimento similar ao desprendimento que nos merecem as coisas efémeras, desinteressantes ou acessórias.
    Resulte isso de um ceticismo sistemático para com os poderes instituídos, de um défice de participação cívica ou da imperativa necessidade de desenrascanço que no atual contexto de crise social e económica prevalece sobre o resto, o certo é que em muitos de nós um dos maiores casos jurídico-mediáticos da história contemporânea parece pouca coisa se comparada ao desejo de ir a banhos no próximo Verão, de preferência já vacinado.

  16. Já que se fala do grande Satã, aqui está um post sério do Jorge Bateira no “Ladrões de bicicletas” que explica a famosa “bancarrota” que ainda alimenta a tusa das comentadeiras de serviço nos mérdia:
    https://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2021/04/dez-anos-de-resgate-resgate-de-quem.html

    Viram o merdas do Vitor Gonçalves a entrevistar o convencido da associação sindical dos corruptos?
    Estão arrasca. Por isso não se cansavam de dizer que o caso não vai acabar aqui.

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