Moedas, trocos e patacos

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Carlos Moedas confirmou, logo em 2014, que Ricardo Salgado lhe telefonou para tentar obter a sua ajuda por causa da investigação das autoridades do Luxemburgo a três empresas do GES e para interceder junto da CGD de forma a obter crédito de emergência para o GES. Por sua vez, o PSD validou a escuta onde José Manuel Espírito Santo lançou para a posteridade a expressão “Eu punha já o Moedas a funcionar“, a qual não carece de grande hermenêutica quanto ao seu sentido conotativo, e onde Ricardo Salgado relata que Moedas se comprometeu a ajudar, prometendo fazer o que família Espírito Santo lhe estava a pedir. Isto, por si mesmo, é um mundo que está por explorar do ponto de vista da história do BES, do GES, do Governo de Passos, da relação de Ricardo Salgado com a oligarquia e as elites nacionais (políticos, empresários, juristas, jornalistas), e finalmente do republicano e comunitário interesse público. Algum dia será explorado? Tal não é provável pois não existe imprensa em Portugal nem se vê qualquer partido com interesse em fazê-lo.

Moedas defende que nesse telefonema optou por mentir a Salgado, simulando alinhar mas não mexendo uma palha. E porquê? Porque é uma pessoa educada e simpática, como se pode ouvir acima. Aparentemente, o nosso educadíssimo e simpatiquíssimo Carlos não está preocupado com a antinomia de valores que a sua justificação comporta (pun intended). Esta versão do “fumei mas não inalei” é patética e insulta a nossa inteligência pois ninguém está preocupado com aquilo que Moedas disse e não fez na ocasião, o que releva é a certeza de Moedas já ter funcionado noutras ocasiões ao serviço da mesma engrenagem – como é normalíssimo que assim seja, como é inevitável que o tenha sido, dada a evidência. E quanto a não ter ajudado o GES em Junho de 2014, tal tem como contexto a decisão de afundar esse Grupo, arrastando o BES com ele, que Passos tomou em tandem com Carlos Costa. Obviamente, Moedas foi-se informar com o chefe e recebeu ordens para ficar quieto e calado. Uma cena de arrebimbomalho, análoga à decisão de chumbar o PEC IV, ia acontecer. Com o mesmo protagonista principal e consequências igualmente devastadoras para a economia. Numa jogada que misturou a farsa da “saída limpa” com vinganças pessoais, e que foi contra o interesse nacional pois teria sido preferível decapitar a hierarquia e salvar o que tivesse salvação em vez do napalm e da terra queimada. Agitar a bandeirinha de que Passos foi o único a dizer “não” a Salgado é o mesmo que admitir terem Durão Barroso, Santana Lopes e Cavaco Silva dito “sim” muitas e muitas vezes. Acontece que a nega de Passos correspondeu à preferência irresponsável pelo mal maior, o oposto da escolha de um estadista.

O culto messiânico a Passos nasce, fundamentalmente, de ser considerado o principal responsável pela prisão de Sócrates – por via da escolha de Joana Marques Vidal e do que ela deixou Rosário Teixeira fazer em conluio com Carlos Alexandre. Acessoriamente, ter afundado Portugal para derrubar o PS da governação, e depois ter optado pela destruição das cadeias de valor do BES/GES, blindam Passos num posicionamento de líder disposto a tudo para chegar ao poleiro e manter o poder. Para sectários e fanáticos, trata-se da única forma de fazer política que concebem. Uma atitude e comportamento face à democracia que implica levar ao extremo as tendências paranóides e dar vazão incontinente às teorias da conspiração e ao ódio político. Só assim conseguem manter a coerência identitária e cognitiva, diabolizando os adversários em ordem a legitimar as maiores violências que estão dispostos a fazer-lhes para os afastar do poder. Este caldo deu origem ao fenómeno Ventura, primeiro no PSD e depois no Chega. Ventura esse que se reclama discípulo e súbdito de Passos, ao mesmo tempo que repete a retórica do antisocratismo militante, obsessivo, doentio (ou seja, apavorado).

Que tem Moedas a ver com Passos e com Ventura? Nada, para quem papar a anedota de que José Manuel Espírito Santo se lembrou do Moedas por estar bêbado na tal reunião de crise, sugestão logo acolhida pelo seu primo por este estar ainda mais bêbado do que aquele. Tudo, para quem abomina uma direita decadente que trocou o patriotismo e o pensamento pela falta de escrúpulos e pelo golpismo. O que Moedas fez ao lado de Passos – portanto, o que continua disposto a fazer de acordo com as circunstâncias – só são trocos para patacos.

8 thoughts on “Moedas, trocos e patacos”

  1. Oh ! Quem deu ordens foi o BCE, Mário Draghi . Constâncio estava lá como vice-governador .
    Quanto à engrenagem, é o cancro do regime, que in voiluiu e degenerou à medida que o 25 de Abril ia ficando para trás. Estão todos metidos no lodo, exceto talvez a maioria dos do PC e um e outro por aqui e por alí nos restantes partidos .

  2. A Lavandaria do Araújo lava cada vez mais branco e a minha metade alentejana tem vergonha de que o Moedas tenha nascido no Alentejo.

  3. O Governo PSD/CDS salvou Portugal da miséria da fome da desgraça a que chegamos por causa dos Governos PS. A “narrativa” foi essa e foi aceite não só pela elite política mas pelo Zé Povo. O pessoal só começou a sacudir o jugo desta teoria quando sentiu na pele que estavam a inventar que tinha gasto desmesuradamente e quando ouviu um idiota holandês dizer que isto era uma bacanal. O triste veio cá uma vez viu tanto sol, praia e gente colorida e cheia de vitamina D que pensou que isso era comprado. Falando sério ainda hoje não sei se na altura se teria conseguido aguentar o abalo da situação financeira a nível mundial na altura. Mas diabolizar Sócrates, prende-lo, arquitectar uma estrutura para provar crimes que teria cometido é um bocado demais. Se arredar convicções políticas sei que durante 20 anos os bancos em Portugal foram multiplicações do BES sendo este o pai de todos no sentido em que descoberta uma galinha de ovos de ouro vamos replica-la. Foi ma gestão, roubo e muita corrupção pelo meio. Quem permitiu foram “as elites políticas” seja lá o que isso fôr.

  4. O Carlinhos das moedas declarou noutra parte dessa entrevista que o Passos Coelho foi o único governante, durante décadas, que disse “não” ao Salgado. O mais engraçado não é a mentira, porque era o que se esperava do Carlinhos. Cómico mesmo é o facto de ele, Carlinhos, segundos antes, ter revelado que tinha respondido ao Salgado pelo telefone “Sim senhor, sim senhor, sim senhor”. Três vezes sim senhor, na interpretação do Carlinhos, era uma maneira “educada” (porque ele é confessadamente muito educadinho) de dizer que não. O palhaço Ricardo deixou passar a coisa. Parece que nem sequer se apercebeu.

  5. Eu não vi, nem vejo, o programa do palhaço mal cheiroso.
    Mas dá para perceber o tom cordato em que a entrevista é feita e o “à vontade” do candidato à CML.
    Portanto, o triste palhaço sabe que tem que miar fininho com certos personagens. Senão, não estava a fazer programas.

    A propósito:
    Vamos ver o que acontece ao Bruno Nogueira.
    Até agora, tem sido mais imparcial no humor, malhando à esquerda e à direita.
    Peço especial atenção quando ele fala das aparições da múmia de Boliqueime. É um consolo ouví-lo falar daquele miserável personagem.
    No entanto, creio começar a notar um certo esmorecer deste equilíbrio com deriva crescente para o “mainstream” merdiático. Basta comparar a abordagem do “Tubo de ensaio” com os saudosos “Contemporâneos”:

    https://youtu.be/zJ4WXL2HAiA

    Será que o seu futuro programa na SIC tem algo que ver com essa subtil guinada?
    Todos têm um preço e há que sustentar a família. Certo?

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