Era giro saber quantas pessoas leram Os erros políticos de Ivo Rosa, e depois fazer uma qualquer segmentação desse grupo (de milhares, centenas, dezenas?) para descobrir se concordam ou discordam do seu propósito, ou se em parte, ou se no quê.
O exercício é categorizado como “análise” e vem do teclado de Vítor Matos, um banal jornalista direitolas e sectário que serve o seu patrão com zelo na caçada aos socialistas que puder apanhar. Este amigo não é muito sofisticado, nem precisa para o gasto que fazem dele, pelo que o texto publicado tem partes inanes e, no seu todo, é involuntariamente hilariante. Nasce da estratégia de se fazer campanha contra Ivo Rosa, e assim tentar influenciar quem na Relação de Lisboa vá julgar os recursos da Operação Marquês, pintando-o como um totó; isto é, como incompetente para tomar decisões sobre matérias políticas. Disso ele não sabe nada, quem sabe são certos jornalistas. Esta é, literalmente, a lógica que Vítor Matos desenvolve, indicando quais os textos, as entrevistas e os livros que a Relação deve consultar para desfazer as decisões de Ivo Rosa.
Portantos, bá la ber e para início de conversa, que caralho será uma “análise” no Expresso? Não será uma notícia, parece seguro. Mas igualmente não se apresenta como “opinião”, coisa que a ter acontecido me evitaria esta prosa canhestra. Carimbar como “análise” o que ali se publicou sugere que o director do jornal (vou acreditar ser dele a última palavra sobre as cenas que lhe pagam para dirigir) considera que os seus leitores devem presumir não se estar perante uma qualquer subjectividade à solta (o reino da opinião) mas antes no da disciplina, austeridade e virtude do labor intelectual. Quem analisa, como a sua etimologia consagra, vai ao encontro de um dado objecto e aumenta o seu conhecimento acerca dele separando as suas partes, descobrindo as relações entre elas, dando a ver o que estava ocluso antes da análise, pois. E esta noção pode corresponder à “verdade” dos atenienses académicos e peripatéticos, para quem o desvelamento (“tirar o véu” – ἀλήθεια) correspondia ao conhecer. Eis o que se pode ler num manual de Filosofia do 10º ano de escolaridade. Concedo, no entanto, que no Grupo Impresa uma análise seja um bicharoco completamente diferente do que se ensina às crianças. Afinal, é gente tão inteligente aquela capitaneada pelo aquilino mano Costa, não merecem ficar presos às concepções vulgares.
A “análise” do valente Matos ignora olimpicamente os quase 30 anos de actividade como juiz do seu alvo, período em que teve acesso a milhares de processos, cada um deles com caudalosa informação a respeito da vida real de todos os envolvidos nos casos respectivos. Esse acesso ao mundo privado e detalhado de indivíduos, organizações e instituições ao longo de três décadas como substrato para a aquisição de competências para avaliar políticos é pó quando comparado com o magnum opus dos seus coleguinhas de ideologia, sustento e facciosismo, os quais usaram e usam as suas carteiras de jornalista para o combate político tribal e agendado, lê-se nas entrelinhas sem lupa. Daí apelar, alheio ao decoro e à deontologia, a que no Tribunal da Relação se esqueçam os princípios do Estado de direito democrático e a Constituição, abraçando sem medo as teorias da conspiração e calúnias que os adversários políticos de Sócrates e do PS foram espalhando ao longo de anos e anos.
Eis uns nacos do seu poder de “análise”:
- «O juiz devia ter lido três livros de jornalistas ou ouvido os autores de “A Implosão da PT”, “Quem Meteu a Mão na Caixa” e “Caixa Negra”.»
- «O primeiro-ministro português fazia-se ouvir do outro lado do Atlântico por ter construído uma “grande amizade” com Lula da Silva, e admitia apoiá-lo numa candidatura a secretário-geral da ONU. Mais do que isso: prometia “discutir o futuro de Lula” com o então presidente do Governo espanhol, José Luis Zapatero, e com George Papandreou, primeiro-ministro grego. O que tem isto a ver com a Operação Marquês? Tudo. Porque as relações pessoais são essenciais na política, algo que o juiz Ivo Rosa desvalorizou, e porque a relação com Lula era confessadamente assim.»
- «Acontecem coisas na política possíveis de intuir mas difíceis de provar, sobretudo porque os políticos astuciosos não movem influências com a clareza que os investigadores do Ministério Público desejavam nem com o formalismo que o juiz esperava ver nas provas. Mas não se pense que isto é novo: “A política é a arte da simulação e da dissimulação”, deixou escrito na pedra o cardeal Jules Mazarin em 1642, depois de suceder a Richelieu como primeiro-ministro do rei Luís XIV. Passados 400 anos, mesmo numa época em que é possível mapear a rota de €34 milhões para alegado usufruto de um ex-primeiro-ministro, continua a ser necessário interpretar a forma dissimulada de como os políticos se movem — mesmo que isso não sirva de prova em tribunal.»
- «“Ingenuidade.” Foi assim que António Lobo Xavier se referiu às interpretações de Ivo Rosa no programa “Circulatura do Quadrado”, na TVI. Mais violento a sublinhar a iliteracia política do juiz, Luís Marques Mendes, um veterano em núcleos duros de Governos — e profundo conhecedor dos meandros políticos — disse na SIC: “Deve estar a brincar connosco. Alguma vez no Governo Sócrates alguma questão importante era decidida sem ouvir o primeiro-ministro? Este juiz ou é ingénuo, ou faz-se de ingénuo ou vive num mundo à parte.”»
- «No livro “Quem Meteu a Mão na Caixa”, a jornalista Helena Garrido escreve que nas reuniões da administração da PT, onde Armando Vara — hoje preso por corrupção — representava a CGD, as suas intervenções “eram sempre ouvidas como se estivesse a falar José Sócrates”.»
- «Agora, avançamos para 2010, quando a espanhola Telefónica ameaçou lançar uma OPA sobre a PT se os portugueses não lhes vendessem a operadora brasileira Vivo. A oferta acabou por ser considerada quando os espanhóis puseram €7,1 mil milhões em cima da mesa, poucos dias depois de Ricardo Salgado ter dito aos jornalistas que, “como em tudo na vida, a Vivo tem um preço”. Quando soube, Sócrates teve um dos seus ataques de fúria, segundo o livro “A Implosão da PT” — das jornalistas Alexandra Machado e Alda Martins —, por as partes terem chegado a acordo sem o consultarem: para ele, “a PT não podia vender a Vivo sem ter uma alternativa no Brasil”. Mas “o plano B estava a ser cozinhado” e Sócrates era um dos intervenientes...»
- «Mas agora, a não ser que o Tribunal da Relação reverta a decisão instrutória — e os desembargadores leiam os livros dos jornalistas que Ivo Rosa parece não ter lido —, os factos relacionados com o Brasil não serão apreciados em julgamento.»
- «Ivo Rosa parece não ter ideia de que, em política, as relações pessoais são o adubo das decisões que chegam fechadas às reuniões formais. Não é por acaso que passou a ser regra os chefes de Governo tratarem-se por tu e pelo primeiro nome. Se houver amizade ou informalidade, tudo se torna mais fácil.»
Nota final
Armando Vara não está preso por corrupção. Mas como é que o brilhante Vítor Matos poderia saber disso se o coitado do homem passa o dia a “analisar” o que ouve na redacção do Expresso? Uma redacção onde todos sabem tudo sobre corrupção e corruptos, ou não almoçassem e bebessem copos com eles. Porém, como há tanta corrupção e tanto corrupto, os jornalistas do Expresso têm de ser selectivos pois não há tempo para dar conta desse mar de gente. Optaram por começar pelos corruptos socialistas. Quando os conseguirem meter em Évora num número considerado suficiente, jeitoso, então aí talvez tratem dos outros. Há que ter prioridades, são as deles – os craques que descobriram ser o tratamento por tu um dos mais exuberantes sinais de estarmos perante corruptos de altíssimo calibre. É pura e simplesmente genial esta ideia e ficamos com fundadas esperanças de ver o Tribunal da Relação a acolher o contributo do Expresso para acabar com o flagelo da corrupção socrática e a produzir jurisprudência à altura da descoberta.