Estado da direita: a decência é agora a excepção

O discurso do Presidente da República na Sessão Solene Comemorativa do 47.º aniversário do 25 de Abril foi um eficaz exercício de comunicação. No conteúdo, corresponde a uma aula de História ao nível do ensino secundário onde os objectivos didácticos sejam a ilustração dos conceitos de “relativismo moral” e de “comunidade”. O texto leva a sua audiência a contemplar a complexidade, a mistura, dos tempos dentro do tempo. A cada tempo, a cada espaço no tempo, os seus valores. Dos valores vem o comportamento, conforme ou opositor. Se nos focarmos no último século (estamos quase a chegar a uma data axial da contemporaneidade, o centenário do 28 de Maio de 1926), o discurso lido na Assembleia da República para comemorar uma mudança de regime apela a que se aceite a bondade de todas as partes. Eram bons os que fizeram maldades, pois não sabiam fazer melhor ao tempo. São bons os que querem fazer maldades por causa das maldades dos antigos, pois no seu espaço e no seu tempo sentem a pulsão da vingança e da revolta. Mas todos se devem perdoar e tolerar, sendo a esse desfecho que colhe chamar “comunidade”. Prova de que tal é possível? Aqui o discurso salta para o metadiscurso, num clássico aparato retórico, e o autor faz das suas palavras – e do momento da fala, desse καιρός – a evidência que reclama: ele tinha sido um dos maus e tornou-se bom. Portanto, sejam amigos, vá lá.

Este é um conteúdo simples, que não chega a cair no simplismo só porque a direita portuguesa há muitos anos que se barricou no grau zero da inteligência política. Desistiram de pensar a cidade, de ter projectos que sejam competitivos em eleições, e reduziram-se à chicana, ao golpismo e ao ódio. Nesse nível, a transmissão de mensagens apenas utiliza o berreiro como canal. E que se pode dizer a berrar? Tão-só que os adversários são o inimigo, o Diabo. É esse o papel do editorialismo e da indústria da calúnia, que em Portugal é um monopólio da direita. Ora, perante esta decadência, um discurso repleto de bem-intencionadas vulgaridades, como o que Marcelo engendrou com arte, está a gerar uma comoção ditirâmbica. Como se fosse espantoso ouvir um tipo de direita a reconhecer um terreno comum, a apelar à união na diversidade, a ser decente. E a promover a empatia, inclusive para seu próprio benefício. Empatia que é antinómica, mesmo cognitivamente paradoxal e insuportável, com a exploração da frustração e do rancor a que a direita se entrega desde 2007.

Há dois subtextos, porém, no espectáculo oferecido por este actor tarimbado. O primeiro é o de na sua tese se sobrevalorizar aqueles com quem mais Marcelo se identifica, a rapaziada do seu tempo, apelando a que os outros, vítimas próximas ou distantes dos seus, acolham essa diferença. A esta pretensão se deve contrapor a daqueles que reclamam por não terem a sua diferença reconhecida de forma plena, ou suficiente, ou mínima. O segundo é o de Marcelo também ter na sua equipa a Cofina, o João Miguel Tavares e o Marques Mendes, para dar três exemplos que dispensam explicações. Esse Portugal onde a política é uma praxis da violência, do poder pelo poder através da tentativa de destruição de quem se lhes oponha, não é aquele nascido do 25 de Abril. Ao contrário, é contra ele que o 25 de Abril doa sentido à História.

19 thoughts on “Estado da direita: a decência é agora a excepção”

  1. prontos , a esquerda não grama a direita : fuzile-se a direita !!!
    e funde-se um estado novo todinho de esquerda , com ópera de manhã e teatro à tarde.

  2. Ainda bem que o Marcelo veio dar uma aula de História ao nível do secundário, pois boa parte dos circunstantes a mais não chegariam. É sempre bom ter um presidente que consiga falar ao nível do secundário, é um progresso; o anterior, só uma aula para a terceira classe, habilitações máximas de muito boa gente.

    O que ele terá querido, e fê-lo muito bem, foi dizer a uns e a outros, talvez mais a uns que a outros, que a História não é para metoos, estudos de género e outras parvoíces; nem tapete para hóstias cardadas ou missas. Tudo o mais é converseta.

  3. fui ler e aquilo parece missa do cardeal cerejeira, perdão, compaixão e confusão dum aldrabão que pede tréguas para ganhar tempo para o novo assalto. fala do eanes que recusou ao macharelato mas fundou um partido, para dividir os portugueses, enquanto presidente de todos e esquece o soares que nos meteu na europa, o grande obstáculo a uma futura ditadura.
    não houve fascismo e nem repressão, só houve uma ditadura que restringia umas liberaldices e quem não gostava emigrava. a revolução foi feita pelo sindicato dos capitães de abril que lutavam por melhores condições laborais, incluíndo aumento de salários. tudo o que se passou nos 47 anos seguintes foi a evolução a evolução natural da sociedade a reboque do avanço tecnológico. só faltou citar o joão miguel tavares, nomeado por ele para presidir a umas comemorações do 10jun, a benção que deu ao chunga nos açores, a quantidade de cabeças de ministros que já pediu e as intrigas políticas que faz para diminuir o governo e ter share de audiências.

  4. vou atirar a segunda asneira: quando é que a decência foi a regra na direita? antes do reinado de josé socrates ? bem me parecia.

  5. È um discurso fraco, junta a dialética histórica hegeliana com um toque de apaziguamento cristão. Conservador, não tem nada dentro,, nem diz nada, ê simplesmente formal, seria necessária uma análise mais materialista para se verificar que desde o 25 Abril não houve uma verdadeira democratização do acesso ao poder: mantém-se as mesmas lógicas de renovação de elites baseadas no apelido expandidas agora aos media, o novo motor de promoção e validação, o mesmo tipo de poderes não escrutinados, acrescendo o crescente populismo politico-mediatico que sofreu um impulso com a sua eleição (vivemos uma ditadura do entretenimento) e infelizmente, o mais importante, persiste uma percentagem de pobres chocante. O que mudou no modelo de negócio foi a origem do financiamento: de África para a Europa.
    O melhor discurso do 25 de Abril foi o de Rui Rio.

  6. Valupi oferece-nos um magnífico exercício de espanto perante o discurso presidencial.
    Tardio na constatação, o raciocínio valupiano força a nota de uma novidade inexistente, esforçando-se, na ambivalência do elogio, por desfazer a laboriosa filigrana de que é tecido o texto de Marcelo, quando é certo que este lhe sobreviverá , não apenas devido a precedência de estatuto hierárquico, mas também por força da desigual visibilidade mediática.
    Até ao último suspiro, o Presidente Marcelo será pedagogo e apóstolo das sínteses agregadoras e das verdades consensuais. É isto que ele sempre teve para nos dar. A pessoa que, no mesmo dia, assume o património de filho de um governador do Império e depois canta o “Grândola Vila Morena”.

  7. “quando é que a decência foi a regra na direita? antes do reinado de josé socrates ? bem me parecia.”
    Atão não se está a ver yoyozinha(o)?
    BPN, SLN, Oliveira e Costa, Dias Loureiro, Arlindo de Carvalho e restante rapaziada cavaquista e respectivas negociatas e enriquecimento à custa das massas que na altura vieram da Europa, mais as ações do Cavaco e da filha, mais as trafulhices com a negociata da celebérrima Gaivota Azul e etc. etc. etc., tudo antes do reinado do aleivoso, malandro e coisa e tal.
    Como decência não está mal, poisnão?
    Se fosses mas é apanhar chícharos…..

  8. desculpa lá , isso já sei , o que não sei é quando a decência era regra na direita : no Estado Novo ? no paleolítico? no 26 de abril de 1974 ?

    de qualquer maneira , quem ganhou o concurso , com distinção , pondo todos os outros num canto da mitologia abrilista, foi o Joe Strummer.

  9. Não vale a pena desfazer no discurso. Marcelo deu-me a razão óbvia para ter nele votado. Não voto na área política a que pertence por isso questionei-me se lhe ia dar o meu voto. Para mim aquele discurso é apaziguador mas não evita falar de política do princípio ao fim. É um discurso inovador e não é uma prédica a moda do Cerejeira como alguém aqui diz. Quem está a tentar dividir o país com objectivos bem definidos e é seguido por um exército de papagaios de repetição que lhes ampliam os berros ficou em pânico o homem nem sequer uma vez escorregou para o seu lado. Sim a estrutura é a utilizada pelos grandes pregadores o Padre Antônio Vieira andou por ali. Obrigada Marcelo .

  10. Ops!

    Estado do socratismo: a indecência é agora a excepção
    27 ABRIL 2021 ÀS 9:02 POR VALUPI/estatuadesal/Um Jeito Manso

    […]

    Nota. Ora nem mais, :-)!

  11. “Não vale a pena desfazer no discurso.”

    não tem ponta por onde se pegue, distorções muitas e lavandaria bués.

    “Marcelo deu-me a razão óbvia para ter nele votado.”

    sim, continua a enganar alguns papalvos e este discurso tinha essa finalidade.

    “Não voto na área política a que pertence por isso questionei-me se lhe ia dar o meu voto.”

    ele tamém não está preocupado com isso, só queria o voto.

    “Para mim aquele discurso é apaziguador mas não evita falar de política do princípio ao fim.”

    é para manter acesa a chama fachó-democrática

    “É um discurso inovador e não é uma prédica a moda do Cerejeira como alguém aqui diz.”

    inovador de 47 anos, uma homília cerejeira em homenagem ao padrinho das conversas em família.

    “Quem está a tentar dividir o país com objectivos bem definidos e é seguido por um exército de papagaios de repetição que lhes ampliam os berros ficou em pânico o homem nem sequer uma vez escorregou para o seu lado.”

    claro que quer unir o país e os políticos em torno de uma nova e reforçada união nacional, “um governo, uma maioria, um presidente” do sá carneiro reforçados com as corporações da justiça, segurança e sindicatos.

    “Sim a estrutura é a utilizada pelos grandes pregadores* o Padre Antônio Vieira andou por ali. Obrigada Marcelo.”

    com pregos garcia, o cristo não fugia

  12. Para “regadores tem um p a mais” ou a menos digo eu. Então olhe fiquei de queixo caído dar-se ao trabalho de demolir o meu comentário frase a frase é obra. Se aquilo que escrevi tem um peso que merece a sua atenção detalhada frase a frase superei os meus objectivos.

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