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A direita portuguesa não tem programa mas tem “pogrom”

«E o medo que eles têm é muito grande. Porque, podemos sempre pensar assim: se com Passos Coelho houve um primeiro-ministro socialista preso, talvez com André Ventura houvesse vários dirigentes de esquerda presos em Portugal pela simples razão que roubaram este país, e roubaram-no até ao tutano!»


Futuro ministro de um Governo PSD

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Que tenha apanhado, é a segunda vez que André Ventura ameaça prender cidadãos de esquerda por serem de esquerda. No primeiro registo, relacionou-os com o 25 de Abril e com o castigo que se devia abater sobre eles em nome das vítimas da instauração do regime democrático, os apoiantes do Estado Novo. Agora, justifica o sonho de futuras prisões políticas com a acusação de os “dirigentes de esquerda” terem cometido crimes contra o património. Em comum, a farronca feirante e a segurança de poder fazer estas peixeiradas contra a Constituição e a sanidade mental sem que receba qualquer resposta, qualquer censura, qualquer reacção.

De acordo com o Google, apenas o Jornal Económico transcreveu a mesma passagem que coloquei acima. O silêncio reinante é bem português, só que em versão salazarista. Revela a dimensão cobarde do teatro social, com a direita a rir-se de mão na boca com a pulhice do seu palhaço tonto e a esquerda indiferente e armada em fina achando que apenas está em causa um truque imbecil para manter os holofotes na alimária. Acontece que nada há de arbitrário nem de irrelevante na convocação de Passos Coelho para o número, pois a sua fama messiânica deve-se, sem segredo, a esse mesmo feito assim celebrado e normalizado pela anomia da sociedade: Passos falhou todos os objectivos com que se candidatou em 2011 mas acertou no que mais importava para os fanáticos, os impotentes e quem os explora – prendeu Sócrates, o fabuloso e horrendo inimigo fonte dos mais humilhantes pavores; no que fica no imaginário cúmplice de toda a direita decadente como o supino troféu de sangue político antes de um real assassinato.

A Quarta República apregoada pelo Ventura carrasco da esquerda não difere substancialmente do que já conhecemos com o lançamento do “fim da impunidade” pela boca de Paula Teixeira da Cruz e mão de Joana Marques Vidal. Também com esse grito de guerra se anunciou o projecto de prender políticos e governantes de esquerda, no caso todos do PS et pour cause – algo que Passos declarou desejar logo em 2010. Se assim o disseram, melhor o fizeram. Não há registo na história de Portugal, sequer longinquamente aproximado, da quantidade inesgotável de recursos estatais e particulares gastos a investigar governantes como se fez para tentar incriminar, ou de alguma forma comprometer judicialmente, quem participou nos XVII e XVIII Governos Constitucionais. Até os cartões de crédito de ministros e secretários de Estado foram exaustivamente vasculhados, para acabar em tribunal com duas chachadas envolvendo livros e revistas. Alguém que faça a lista do que ainda está a marinar no Ministério Público para ser usado nos períodos eleitorais e enquanto certos alvos socialistas tiverem potencial político.

Sem surpresa, ontem Ventura foi entrevistado e o jornalista não tocou no assunto do seu programa para meter esquerdalhos nos calabouços. Não foi capaz de tentar saber como é que Ventura iria prender os tais “dirigentes de esquerda”, como e quanto é que eles roubaram ou sequer os seus nomes. Azar o nosso, não existe imprensa em Portugal. Daí esta infestação de pulhas que empesta a nossa sórdida direita e alicia os rapaces, os infelizes e os desgraçados.

Mitologias melífluas

«É o vazio programático que alimenta a nostalgia por Passos, que emerge por exclusão de partes. Passos tinha uma vantagem: dizia ao que ia e os eleitores concordavam ou discordavam, o seu programa era claro.»


Pedro Santos Guerreiro

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Passos mentiu na campanha eleitoral para as legislativas de 2011 como não há registo de logro igual, vindo de um candidato a primeiro-ministro, em toda a história da democracia portuguesa. Mentiu na cara de crianças. Quem perder o seu rico tempo a comparar o que disse no discurso da tomada de posse e o que estava a dizer e a mandar dizer seis meses depois, mentiras e mais mentiras é o que vai encontrar. O modo como o resgate de emergência foi provocado (com Passos a mentir sobre o encontro que teve com Sócrates na véspera de decidir afundar o País chumbando o PEC IV) e a forma como a Troika foi utilizada, em ambos os casos recorrendo a um discurso dúplice que chegou ao ponto de mostrar Passos a defender objectivos diametralmente opostos com uma diferença de horas e de geografia, deixam uma colossal montanha de mentiras. Lençol de mentiras é o que igualmente se encontra na campanha para as legislativas de 2015, desde a insistência na austeridade salvífica à patranha da devolução da sobretaxa, tendo-se até criado nas Finanças uma calculadora para tourear o pagode.

Pedro Santos Guerreiro trabalha para Balsemão, o militante nº 1 do PSD que revelou estar agradado com a ideia de o Chega chegar ao Governo. Com Rio não vai dar, porque enfim e coitado. Com Passos, tal vai ser tentado. O mito de existir no especialista em aeródromos da Região Centro um Napoleão capaz de voltar a esmagar a esquerdalha precisa de cromos como este Guerreiro, um abelhudo na colmeia.

Perguntas simples

Se a direita passou os últimos 15 anos reduzida à obsessão de meter socialistas na prisão, como é que agora vão ter cabeça para pensar em políticas que melhorem a segurança, o desenvolvimento e o bem-estar dos portugueses?

Revolution through evolution

Study finds evidence emotional support animals benefit those with chronic mental illness
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Stair climbing offers significant cardiovascular and muscular benefits for heart patients, researchers find
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How imperfect memory causes poor choices
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Taking photos can impair your memory of events
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Research suggests fly brains make predictions — possibly by using universal design principles
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Innovative free course empowers citizens to advocate for ethical AI
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Taking more steps daily may lead to a longer life
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Exactissimamente

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Não há nada de distintivo nos mecanismos através dos quais a polarização se insinua em Portugal: parte-se sempre da identificação de um conjunto de ameaças, assentes em perceções avulsas. Afinal, o combate cultural precisa de forjar inimigos para que a batalha se inicie. Se levarmos a sério o que é sugerido, viveríamos num país com liberdade ameaçada, criminalidade galopante, universidades dominadas por heterodoxias pós-modernas e interesse comum capturado por uma minoria. Pouco importa que tenhamos imprensa plural, que sejamos um dos países mais seguros do mundo, que as universidades continuem a ser centros de excelência e que os nossos problemas económicos resultem de défices estruturais. Nada como um bom combate contra moinhos de vento para alimentar uma ilusão e, assim, fomentar a polarização.

E o nosso ecossistema polarizado não é distinto do que se desenvolveu noutras paragens. Começa logo na forma como alguns opinadores fazem carreira com uma retórica em que a proclamação do distanciamento das ideias extremistas convive, de facto, com uma naturalização dos argumentos extremistas, que são, assim, trazidos para os media mainstream (“a comunicação social que é socialista”, “o racismo que não existe”, “as feministas que exageram” ou “os políticos que são todos corruptos”).

Esta legitimação coexiste com a sugestão de que, finalmente, nos é oferecida uma argumentação racional, assente em verdades factuais que nos foram ocultadas por elites que condicionaram o acesso à informação e ao conhecimento. Por isso mesmo é tão importante que os mesmos opinadores invistam na revisão da história recente ou distante, de forma a revelar uma interpretação alternativa e mirabolante.

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A erosão do centro vital

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Notas

– Embora esteja tudo certo e certíssimo, o texto do Pedro é fraco. Fraco no sentido de não ter a força suficiente para ser um acto político. Fraco porque não consuma, não ascende (ou desce) à parrésia.

– Ao referir esses “alguns opinadores”, não os nomeia. Isso é uma fraqueza, diluindo num oceano de indiferença a gota de veneno do remoque. Depois, não os cita. Isso é fraqueza, sugerindo que não se pretende polemizar com os alvos. Por fim, não vai ao âmago do que está em causa: o problema não são os opinadores, é quem lhes paga. Aqueles que detêm os meios de difusão, os tais que escolhem certos directores para que estes escolham certas linhas editoriais, sigam (ou deixem de seguir) certos critérios mediáticos. Esse capital, portanto – e por tanto, e para tanto. A fraqueza da sua denúncia revela-se uma antinomia marxista: também o Pedro está a doar a mais-valia do seu trabalho intelectual (escrever o texto em causa resultou do trabalho de o conceber e produzir) aos mesmos que promovem e alimentam a polarização causticada pelas suas palavras.

– A polarização não é apenas essa geometria que destrói o centro, nem essa estética do sensacionalismo e catastrofismo, nem essa cultura do medo e do ódio. A polarização é também um processo de combate ao pensamento crítico, à complexidade, à análise, à objectividade, à lógica, à empatia, à alteridade. A polarização estupidifica e depende da existência de estúpidos em número suficiente para ter relevância sociológica. Que alguns ganhem muito dinheiro com isso não é um pormenor no fenómeno.

Rio e o seu comparsa Ventura, uma agenda cheia

Ferro rejeitou: Chega queria suspender trabalhos do Parlamento a 28 de maio

Sondagens: Ventura quer reunir-se com Rui Rio para “perceber se a ideia é continuar a permitir este estado de coisas”

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Desde ameaças sórdidas e canalhas a uma jornalista, por esta fazer jornalismo, até ao sistemático trabalho de desgaste e achincalhamento do actual presidente do PSD, passando pelo deboche de tentar usar a Assembleia da República para encher a pança de gozo aos saudosistas e neófitos do Estado Novo, não faltarão assuntos para uma animada sessão de trabalho entre esses dois magníficos líderes da direita portuguesa: o Ventura do lumpempopulismo e o Rio do populismo com sabor a laranja.

Exactissimamente

Revolution through evolution

What does your voice say about you?
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Parks not only safe, but essential during the pandemic
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Eating more fruit and vegetables linked to less stress – study
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Pink drinks can help you run faster and further, study finds
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Meaningful movies help people cope with life’s difficulties
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Head to toe: study reveals brain activity behind missed penalty kicks
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Politically polarized brains share an intolerance of uncertainty
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Estrume é adubo

Quando o Ministério Público, depois de investigar, arquiva um inquérito, e quando um tribunal, depois de julgar, absolve um arguido, está a fazer-se justiça na Justiça. Simetricamente, nem todas as acusações e condenações são justas. A história dos erros judiciais – com ou sem intencionalidade – é muito antiga, muito extensa e não pára de aumentar pois os erros são probabilisticamente inevitáveis. Só despreza esta problemática quem nunca foi vítima de tal, nem viu alguém a quem queira bem ser vítima desta violência de Estado. Ou seja imbecil.

De igual modo, se um órgão de comunicação social elogiar o Governo (um qualquer), ou realçar os méritos de uma dada decisão partidária (uma qualquer), ou recusar-se a alinhar no sensacionalismo e demagogia contra um certo político (qualquer um), essas decisões podem corresponder ao mais escrupuloso cumprimento de um ideal de independência política, serviço público e liberdade de imprensa. Simetricamente, não é por se atacar com fúria e obsessão o Governo, o partido e o político que se está necessariamente a contribuir para o benefício da comunidade e dos seus valores de cidadania. Poderá ser exactamente ao contrário, usando-se a capa de “imprensa” para servir uma agenda política e/ou económica sectária.

Isto a propósito do João Galamba. Um talento socialista, de temperamento sanguíneo, que reagiu no Twitter a um ataque pessoal. Nessa reacção, manifestou o seu desapreço para com o programa “Sexta às 9”. A exploração que se seguiu, a que se deve juntar a declaração de Costa a respeito, foi da mais aborrecida banalidade. Os direitolas aproveitaram para bolçar a sua chicana e os caluniadores profissionais agradeceram terem matéria fresquinha para despacharem serviço. O assunto ficou de imediato enterrado na sua própria inanidade.

Mas interrogo-me: em qual das sociedades a democracia é de melhor qualidade, uma onde os governantes têm de ser hipócritas ou cobardes, calando a sua opinião a respeito do que é feito em nome do jornalismo, ou a outra onde os governantes assumem a sua opinião em público a respeito do trabalho dos jornalistas precisamente para que assim se cumpra plenamente a democracia e a liberdade?

Rui Rio, de ideólogo do centro a centralina do populismo

Rui Rio, o fulano que concorreu para presidente do PSD a prometer rigor alemão no mealheiro e coragem política para enfrentar fanáticos e criminosos, desfez-se em merda. E merda é só o que se regista saído da sua boca após o sonho lindo nem sequer ter conseguido bolinar numa pandemia.

Por exemplo: Rio critica estratégia de “ostracizar” extrema-direita e prefere traçar “linhas vermelhas”

Quem ler encontrará a mais completa defesa do Chega até agora feita em Portugal. Porque vem do presidente de um partido que continua a reclamar-se social-democrata e que lidera a oposição. Presidente que anuncia, urbi et orbi, que para ele vale tudo desde que resulte do voto. Ele depois lá se arranja com os compinchas e despachará comunicados cheios de “linhas vermelhas” para jornalista amplificar e papalvo mastigar.

Donde, duas imediatas consequências desta “estratégia” do outrora centrista Rio: (i) escusas de voltar, Passos, pois para levar o Chega para o Governo também Rio é homem para essa façanha; (ii) qualquer maluco com assento no Parlamento poderá ver-se convidado pelo PSD de Rio para fazer um acordo, mesmo que seja eleito deputado defendendo o trabalho infantil a partir dos 5 anos e/ou a execução de deficientes e reformados. Como Rio explica, é indiferente o que leva o “povo” a dar o voto a um partido ou candidato, pois o “povo” tem uma “vontade” e essa vontade é sagrada. Desconfio que até o Ventura ficou surpreendido face a este vanguardismo populista com a chancela do partido fundado por Sá Carneiro.

Do muito que haveria para comentar na notícia, vou só realçar o que me parece mais inovador na solução criada por Rio para federar e fazer crescer os populistas. Eis como ele despacha o caso da Susana Garcia, assim mostrando o método para mais candidatos congéneres:

«Quanto à candidata apoiada pelo PSD à Câmara da Amadora, Rio salientou que Suzana Garcia tinha sido convidada anteriormente pelo Chega e recusara. "Como podemos dizer que é do Chega ou que tem simpatias pelo chega, quando ao Chega disse não e ao PSD disse que sim?", afirmou.

Rio admitiu que "algum excesso verbal" da advogada nos seus comentários televisivos "pode não ser coincidente com a forma clássica de um militante do PSD se exprimir", mas considerou que, em artigos escritos no Observador, nada viu que "fira os princípios do PSD".»

Percebido? Na TV, dá para soltar a demagogia, alimentar os preconceitos, instigar ao ódio, puxar pelos instintos mais primários, boçais, animalescos, dementes. Tudo isto e muito mais é permitido aos candidatos autárquicos do PSD, ou a futuros parceiros de governação, na condição de os visados entregarem no Observador umas linhas onde não conste nada “que fira os princípios do PSD”. Princípios esses que Rui Rio, em mais uma inovação para o seu legado político às futuras gerações, defende galhardamente com a preciosa ajuda do José Manuel Fernandes e do Rui Ramos, protótipos ambulantes dos “princípios do PSD”.

Assim se consumou o arco desta personagem ridícula que se limita a aquecer o lugar até ao regresso da personagem messiânica, o tal ex-primeiro-ministro que conseguiu prender um ex-primeiro-ministro.