50 anos de Abril com o Pedro

Pedro Adão e Silva vai presidir à comissão organizadora dos 50 anos do 25 de Abril. As comemorações terão início a “24 de Março de 2022, quando a democracia superar em um dia a duração da ditadura.”

Será o Pedro a melhor escolha? Faço a pergunta com genuína curiosidade porque reconheço a minha impossibilidade para lhe dar resposta. Se o Governo me tivesse consultado durante o processo de escolha (se o houve) não levaria nada daqui. O que fica como absolutamente natural dado que não sou político nem governante. Não possuo sequer conhecimentos suficientes para ter a mínima ideia do que está em causa organizar para esta comemoração.

Dito isto, a escolha parece-me perfeita. Dentro do que conheço dele como figura pública, e remetendo para a dimensão da feliz coincidência o ter nascido em Maio de 1974, garante-se à partida que o ciclo de eventos comemorativos terá uma fundamental componente informativa e formativa. Irá não só recordar-se o trajecto de cinco décadas da nossa democracia como, para duas gerações, estará em causa permitir-se a descoberta do valor daquilo que alcançámos como comunidade desde “o dia inicial inteiro e limpo”. As suas competências como académico, especificamente como cientista social, e o seu carácter são nele um antídoto exemplar contra demagogias e sectarismos, narcisismos e oportunismos. O melhor da esquerda e da direita no campo da produção intelectual e da intervenção cívica terá com o Pedro um lugar no palco, é certo. E a essência do 25 de Abril como nascente intemporal da nossa liberdade, a qual é concreta e tangível a cada dia e hora nisto de convivermos sob uma mesma Constituição, poderá ser uma festa de alegria abraçadamente política.

Sou fã do Pedro como comentador por causa destas características. E convido qualquer um ao exercício de prestar atenção à qualidade da inteligência que os comentadores espalham nas audiências – portanto, no espaço público. Uma analogia ajuda-nos a descobrir o que mais importa: pensemos na diferença entre um médico altamente competente e um curandeiro charlatão. Os pólos nesta experiência mental são radicalmente antagónicos, contudo é concebível que ambos poderão reclamar um mesmo resultado, o de terem tratado com sucesso alguém. O médico recorrendo à medicina, à ciência e à tecnologia, e o curandeiro charlatão recorrendo aos fenómenos psicossomáticos que geram efeitos placebo e/ou à aleatoriedade dos processos corporais do doente ou de algum ingrediente por ele ingerido. O médico altamente competente consegue explicar ao ínfimo pormenor de objectividade o que se passa com o doente e o que pretende com o tratamento indicado. O curandeiro charlatão reclama um poder mágico, pessoal, inescrutável com o qual obriga aqueles que se lhe sujeitam ignorantes e desesperados a aceitar acriticamente explicações básicas e delirantes acerca do que os aflige e de como se livrarão desse sofrimento.

Poderia agora concluir nomeando quem no comentariado se comporta como médico altamente competente e como curandeiro charlatão, mas não vale o gasto nas teclas do meu querido teclado.

21 thoughts on “50 anos de Abril com o Pedro”

  1. Subscrevo.

    E faço sinceros votos de que as comemorações do cinquentenário do 25 de Abril não caiam no mesmo erro da “Expo’98” de se centrarem demasiado no Passado e no tal trajecto das últimas cinco décadas, por oposição à história da Ditadura que a antecedeu, e se voltem muito mais decididamente para a ideia de Futuro, cuja festiva devolução ao nosso Povo, logo na madrugada do “dia inicial”, é talvez o bem mais precioso, logo a seguir à Liberdade, à Paz e à Democracia, que nos legou o 25 de Abril de 74.

    Sim. Mais ainda do que enumerar os inesquecíveis males duma tão prolongada Ditadura e os inestimáveis bens do nosso percurso democrático de meio Século, mais do que vitoriar a iminente ultrapassagem temporal da primeira pelo segundo, devemos reafirmar, alto e bom som, a fortuna que constitui vivermos num Estado de Direito, livre e democrático, e salientar devidamente, para além de todos os nossos direitos, aquilo que devem ser os nossos deveres para com a defesa deste valor comum e os nossos compromissos para com a manutenção e o permanente aperfeiçoamento do contrato social que sustenta a justiça e a igualdade no funcionamento da nossa Sociedade. E concordar na forma como devemos, em conjunto, projectar tudo isso para os tempos que virão.

    Porque estou convencido de que é no modo como consciencializarmos as novas gerações para os imorredoiros valores de Abril que se poderão ganhar os desafios do Futuro, mais do que na celebração do muito que já se conquistou em Democracia, em Paz e em Liberdade.

    Tudo isto, como é óbvio, sem prejuízo da glória e da gratidão que nos merecem os Heróis de Abril, SEMPRE.

  2. se analisar a cena com objectividade , o que não vai acontecer posto que a analise já tem um objectivo pré definido , glorificar e aumentar a carga mitológica da data , verá que debaixo do sol nada mudou , a não ser a divida ( upps, nem os trinetos a pagam ) e as reservas de ouro ( ui,tanto ouro , jasusi) . de resto , quase todas as obras importantes, barragens , hospitais , aeroportos , universidades e tal , são do senhor botas. quanto a liberdade : ai que saudades de fumar um cigarrito a jantar no restaurante com um prato cheio de sal .
    ( o nome do médico competente é que era , são raridade no meio dos sapateiros monetaristas)

  3. A escolha não tem nada de extraordinário , o surfista é uma das putas do regime. Numa sociedade desportiva e recreativa como se tornou o espaço público, o entretenimento é rei e os media pundits as suas estrelas.
    Falhada a eleição do Benfica na lista do rei dos hambúrgueres esperemos que no meio das suas inúmeras participações mediáticas e do extenuante trabalho no Instituto de Sondagens do ISCTE ( que vende sondagens ao grupo Impresa onde colabora e onde trabalho o irmão) tenha algum tempo para tão importante tarefa UFF!
    As escolhas são todas datadas, o falhanço do 25 de Abril foi a incapacidade de gerar novas elites e abrir o espaço e a validação publica a tantos e tantos jovens de valor. Marcelo presidente, Balsemão e a Igreja com canais de informação, um MP com métodos pidescos, ordenado mínimo de miséria e até o Costa não seria estranho num arejamento lusotropicalista de um governo do antigo regime.
    Daqui a uns anos o filho do Costa será ministro e os filhos e afilhados de outras tantas figuras terão lugar reservado para a adoração das massas com cravo na lapela.

    A redução do país ao espaço mediático é uma menorizacao da democracia em que só um ex-comentador do regime e um ex-cronista do Correio da Manhã podem estar de acordo.

    Já agora devias desenvolver as razões porque não o escolhias, ou só o dirias aos ministros?

  4. “Já agora devias desenvolver as razões porque não o escolhias,”

    e tu quem escolherias, ou nem aos ministros dirias?

  5. Joe Strummer, concordo com essa denúncia da desigualdade e do privilégio pois é a realidade. Na realidade, a realidade é feita de desigualdades e privilégios que a uns dão muito ou tudo e a outros deixam-nos com o mínimo ou sem nada.

    Tens solução que possas divulgar entre a malta? Como é que teria sido o teu 25 de Abril se tivesses sido o imperador da cena? Como é que terias criado as “novas elites”? Deixarias os filhos-família da direita e da esquerda, os únicos com as raras licenciaturas ao tempo, na prateleira e ias ter com os analfabetos do Alentejo e de Trás-os-Montes para que fossem eles a governar até que os seus filhos se licenciassem? Explica lá, ‘migo..

    Quanto ao Pedro Adão e Silva, não disse que não o escolheria. Disse que não conseguiria escolher ninguém dado ser apenas um burro a olhar para o palácio. Para escolher, precisaria de conseguir entrar no palácio, primeiro, e depois garantir um lugar na mesa dos senhores, onde esses assuntos são discutidos com descontracção e bom vinho.

  6. O “escolhido” pode e será, certamente, o mais indicado para mediar inteligentemente entre um lado e outro ou Marcelo e Costa e também, certamente, ao gosto do povo maioritário; contudo PAeS foi escolhido porque faz parte daquele grupo de “inteligentes” que se acomodou, já se habituou e integrou, tal qual os do “eixo” e da “sombra”, ao facilitismo rentável de viver e sobre-viver rentavelmente de mecenato sob alçada dos patrões de mídia e TV.
    Do comentário político-social, saltou para o comentário e candidato nas listas da bola e tornou-se, hoje em dia, figura assídua dos mídia como “analítico” tudólogo. E finalmente(?), está desembocando no pequeno concílio dos escolhidos como comissário das festas para as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974.
    Será o Pedro a melhor escolha? Se foi escolhido pelas mais altas entidades da democracia é, segundo o ponto de vistas destas, a escolha apropriada; aquela que pode fazer algumas ondas mas sempre politicamente adequadas e mansas; aquela que perante uma crítica contundente da direita ou da esquerda não recusará inclinar a balança para o lado dos mecenas que o nomearam.
    Existir é uma necessidade permanente!

  7. ò neves, convidavas alguém para dar cabo da festa do teu aniversário?
    eu não e não era por mim, só respeito pelos outros convidados.
    tamém não vou à bola com o gajo, próquié serve e não antevejo qualquer miguelização do acto.

  8. Comparada com a escolha do ano passado para a presidência das comemorações do 10 de junho, António Costa mostra ao bipolar belenense que há vida fora do esgoto.

  9. “ Poderia agora concluir nomeando quem no comentariado se comporta como médico altamente competente e como curandeiro charlatão “

    coisa outra não tem V. feito ao longo do tempo .

    “mas não vale o gasto nas teclas do meu querido teclado. “

    claro . dá menos trabalho criticar outrém, do que fazer .

    para além disso,
    é preciso “possuir conhecimentos suficientes”, e,
    também não consta que quer o comentariado quer a informação jornalística tenham alguma vez sido erigidas à categoria de “ciência” .
    a não ser pelos “actores e protagonistas”, quase todos do Isqueté, que – agora – se reclamam da “cientificidade” da “arte” . ou do “ofício”, para os que se reclamam da “modéstia” .

  10. funcionamento interno “elitista” ( os critérios que usam para escolher os eternos na vida politica não sei quais são , mas imagino) dos partidos explica perfeitamente a Corte inamovível do condes barões e lacaios do parlamento e governos.

  11. Valupi, a tua resposta é estapafúrdia, queres dizer que para fazer uma critica ou uma denúncia tenho que ter um programa de governo. E está impregnada do neo determinismo “as coisas são o que são” ou o “é o que é” que no fundo veio substituir “a ordem natural das coisas”. Mas o programa vai já, está quase pronto…pera aí.

    Aqui então basta pensar para que foi feito o 25 de Abril e sendo os 50 anos uma data icónica para que a decisão tenha que ser alargada à AR e não decidida por um partido ou governo, colectiva. Ou mesmo uma qualquer comissão (mais uma) desde que seja representativa, multidisciplinar, diversa (analfabetos de trás os montes e Alentejo incluído a) e democrática.Fazer um balanço e não uma cena narcisica e masturbatoria a reforçar os mitos do regime. Também posso aproveitar o simplismo do racional da escolha 50/50, e fazer uma contraproposta: cada português receba uma garrafa de vinho à escolha com 50 anos, ou um relógio com a mesma idade ou 50 destinos de férias às escolha, etc…acho que ficariam mais satisfeitos. Merchandising real, não ideológico.

    Pedro Adão e Silva, Sina de Adão, pior se fosse o Bryan Wilson.

  12. Vai para aqui uma confusão tremenda: cinquenta anos não são cinquenta meses, são já duas gerações.

    O 25 de Abril gerou novas elites, sim, que aliás já vinham da forja do Marcellismo, desde a Reforma educativa de Veiga Simão: António Guterres, Lucas Pires, Ramalho Eanes, Durão Barroso, António Costa, Mário Centeno e até Rui Rio, goste-se ou não deles, são apenas alguns exemplos dessa nova elite, na sua componente mais conhecida, mas temos logo a seu lado uma multidão de novos Cientistas, Investigadores, Médicos, Artistas, Filósofos, Autarcas e até Empresários e Sindicalistas que são um produto da democratização do Ensino, continuada e muito ampliada por efeito directo do 25 de Abril.

    Os problemas actuais mais sérios da Sociedade portuguesa, quanto a mim, não resultam em nada do legado do 25 de Abril, antes muito pelo contrário. Radicam, outrossim, das profundas marcas culturais cimentadas por 48 anos de obscurantismo, autoritarismo e preconceitos vários (de classe, de género, raciais e outros), ainda muito influentes no funcionamento estrutural da nossa Sociedade, e para além disso resultam também, como País pobre que somos e mal habituado a usar muito dinheiro, da incapacidade de lidar, duma forma equilibrada, honesta e sensata, com os fluxos dos avultadíssimos fundos europeus que invadiram o nosso País a partir de meados dos anos noventa e que desnortearam certas mentalidades, deformando bastante a produção das novíssimas elites a partir desse estrondoso impacte, que um dia ainda será bem estudado, a sério, mas por Historiadores capazes, não pelos Sociólogos de ocasião, ou outros auto-proclamados “cientistas sociais”…

  13. vá lá deixa-te de merdas e diz mazé quem é que propunhas para presidir à comissão das festas.
    o problema era o adão, agora é a escolha duma comissão organizativa, não tarda temos campanha eleitoral e votação de listas de candidatos para organizar a festa.
    a vaca aplaude com bosta.

  14. eu escolhia o zézito , boi manso, para representar o 25 de abril , e estou a falar a sério , mansinho : o ícone máximo do grande falhanço. ficas contente , ó incontinente verbal , com a minha escolha ? um ano inteiro com o teu cobridor no palco , bem bom.

  15. Joe Strummer, não tens de ter um programa de governo para fazer uma crítica nem estás imune à crítica por não teres um programa de governo. Convinha, pois, atenderes ao facto de estares a fazer comentários num pardieiro refundido no cu da Internet.

    Gostei das tuas ideias para distribuição de vinho à população, embora não arriscasse com vinho de 50 anos. Nem sempre corre bem com essas antiguidades vinícolas.

  16. “ Radicam, outrossim, das profundas marcas culturais cimentadas por 48 anos de obscurantismo, autoritarismo e preconceitos vários (de classe, de género, raciais e outros), ainda muito influentes no funcionamento estrutural da nossa Sociedade, e para além disso resultam também, como País pobre que somos e mal habituado a usar muito dinheiro (…)”

    Nada que o ensino ( escolaridade ) em 46 de democracia não pudesse ter modificado .
    Radica, isso sim, na idiossincrasia do povo português, um povo extremamente covarde, trafulha até à medula, e por aí adentro.

    O elitismo, esse sim, foi herdado, e foi muito amplificado ( pelo Cavavo ) e tolerado ( não combatido nem pelos socialistas nem por ninguém à esquerda ) . Foi deprimente assistir ao regabofe dos fundos comunitários para a formação profissional, o FSI, com licenciados de todos os quadrantes ( incluindo comunistas ) a assinarem alegremente recibos de 40.000 escudos por hora, 8 horas por dia, em cursos de 15 ou mesmo 30 dias, – a remuneração real era de 8.000 escudos por hora mas eram 8 horas por dia, estávamos em fins dos anos oitenta, era muito dinheiro, prestavam-se ao frete de assinarem 30.000 para justificarem a contabilidade fraudulenta das “empresas de formação” e todos eles não tiveram o mínimo pejo em o fazer, alguns até se demitiram para se dedicarem em exclusividade , pensando que o maná era para sempre, os da função pública acumulavam com o vencicmento .

  17. Meus Irmãos,
    46 anos lectivos quase completos em Democracia poderiam ter modificado alguma coisa, sim, e de facto, se virmos bem, modificaram.

    Se não modificaram mais — e note-se que 48 anos de obscurantismo, autoritarismo e preconceitos vários não é nenhuma brincadeira, basta pensar no que seria feito hoje de muito Paíszinho europeu desenvolvido, modernaço e progressista se acaso tivesse sofrido um abalo desta magnitude, em pleno e maduro Século XX (as únicas situações comparáveis aconteceram em Espanha e no bloco soviético, onde ainda foi pior, e os resultados estão à vista…)! — é talvez porque nestes últimos 46 anos, sobretudo nas primeiras décadas, quem esteve no “cockpit” da nave do Ensino foram ainda muitas mentes forjadas nesses ditosos 48 anos…

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