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Aprender a ser humilde com o “Bloco Central”

Imaginemos que os cientistas que estudam o corpo humano – portanto, que estudam as doenças e de cujas investigações se forma o conhecimento da medicina – estavam sujeitos a serem criticados, atacados e caluniados por outros cientistas apenas por trabalharem em universidades ou centros de investigação diferentes. Ilustrando com um exemplo, seria como se um investigador do CINTESIS publicasse um artigo sobre a sua pesquisa em imunologia e recebesse opiniões violentamente negativas de cientistas da Fundação Champalimaud apenas e só porque o cientista em causa pertencia a outra instituição, e vice-versa. O carácter absurdo e demente deste exemplo não precisa de ser explicado a ninguém, grupo onde incluo os organismos unicelulares. É suposto os cientistas criticarem os trabalhos dos seus colegas recorrendo às práticas inerentes ao método científico e aos conhecimentos especializados na área em causa que possuírem. Dessa forma, o conhecimento científico melhora, seja por se descobrirem erros, seja por se validarem resultados, seja por se fazerem descobertas. Para além disso, a tradição científica, nascida da tradição filosófica, funda-se no pensamento crítico, o qual tem como essência a curiosidade, a lógica e a honestidade intelectual. Donde, quando vamos à farmácia comprar o xarope estamos a usufruir de décadas, séculos e até milénios de construção do edifício científico onde se inventam soluções para os nossos problemas. Se isto se faz assim na medicina, por que caralho não se faz o mesmo na política? Acaso a governação dos Estados, onde se inclui não só a dimensão da saúde mas todas as restantes que compõem a experiência humana, é menos importante do que a investigação científica?

Este paleio a respeito da edição do “Bloco Central” de 2 de Julho. Nela, o filme do “Assalto ao BCP” é dado como factual pelo Pedro Marques Lopes, com a anuência e apoio do Pedro Adão e Silva. O meu desgosto não nasce de eles terem essa convicção. Há muitas e boas razões pelas quais tal percepção se pode formar e cristalizar. Ele vem, o desgosto, mesmo a repugnância, do modo como expõem essa convicção. No que dizem, não é possível identificar um singular átomo de informação que justifique ser essa versão dos acontecimentos preferível à versão dos visados na calúnia. Porque é de uma calúnia que se trata, em Julho de 2021 (poderá deixar de o ser no futuro, calhando tal se provar), quando se diz que Armando Vara decidiu, a mando de Sócrates, dar dinheiro a Berardo para este ser um factor decisivo na luta de poder no BCP. É uma calúnia dizer que Santos Ferreira foi escolhido pelos accionistas do BCP para ser presidente por ter emprestado dinheiro a não sei quem. E são calúnias que causam vergonha alheia quando comparadas com a realidade pública desses episódios.

Aceitamos como fatal que ser oposição a qualquer Governo consista em estar sistematicamente contra esse Governo, contra os seus membros, contra o partido ou partidos que o apoiam. Fatalmente aceitamos que o palco parlamentar, a esfera mediática e o espaço público estejam saturados de discursos políticos sectários, enviesados, maniqueístas. Por isso sou fã destes dois Pedros, pois admiro a capacidade de ambos para acolherem a complexidade do mundo e respeitarem os limites humanos. É desta filiação ao espanto de existir que lhes brota um cuidado com a decência que corresponde a uma substantiva nobreza de carácter. Significa que podemos discordar deles sem que tal macule a estima que lhes tenhamos ou diminua o valor que lhes reconhecemos como membros da nossa comunidade. Se essas características de magnanimidade (em sentido aristotélico) fossem comuns entre aqueles que fazem e comentam a política, acaso não estaríamos a viver muito melhor dado o contributo de todos, ou de muitos mais, na descoberta e realização de soluções para os principais problemas sociais e económicos? Daí ser dilacerante, para mim, vê-los a deixarem-se afundar nas teorias da conspiração, nas calúnias, no irracionalismo. E pouco me importa o quadro psicológico que os leva para tal, essa socratopatia, pura e simplesmente exijo que sejam superiores à pulsão que os arrasta para a antinomia nos princípios.

Mas têm eles de corresponder a qualquer expectativa minha? Mais depressa o Inferno gelaria, óbvio. Então, aceito como lição de humildade ver dois dos meus ídolos no comentariado a mostrarem-se cofinados.

O super-juiz a chapinhar no super-lodaçal

«A conduta de Azeredo Lopes é extremamente grave, uma vez que o mesmo violou a fidelidade reclamada pela sua qualidade de ministro da Defesa Nacional.»

«Foi o aval de Azeredo Lopes, que tudo podia ter denunciado e impedido, que transmitiu confiança a todos os demais arguidos que, também em seu nome, atuaram. A participação de Azeredo Lopes foi essencial a toda a engrenagem.»

«A PJM desenvolveu uma atividade investigatória paralela, clandestina, à margem do processo-crime ocultando a atuação ao MP. Luís Vieira deu instruções para que essa investigação ficasse na esfera da PJM e que não fosse dado conhecimento ao MP. E de tudo isto Azeredo Lopes tinha conhecimento, tendo escutado o desagrado de Luís Vieira e os seus desabafos pela retirada de competência de investigação à Polícia Judiciária Militar e recebido documentos de Luís Vieira com esse desagrado.»

«A atuação extraprocessual que a PJM desenvolveu contou com a cobertura política, o apoio e a concordância do ministro numa investigação paralela e clandestina que implicou a celebração de um acordo de impunidade com os assaltantes para que as armas fossem devolvidas.»

«Não havia outra peça, neste tabuleiro de Tancos, melhor colocada que Azeredo Lopes para denunciar ao MP que Luís Vieira estava a extravasar as suas competências e que a sua conduta estava a afrontar e a desrespeitar uma decisão da PGR. Entre ambos havia uma relação de confiança, o ex-ministro era uma espécie de confidente, um muro de lamentações de Luís Vieira.»

«Bizarro é fazer-se de coitadinho e de irresponsável e escudar-se na confiança institucional ou na ausência de menção a Tancos para branquear aquela que foi a sua atuação e que consistiu em honrar elementos da PJM e da NIC/GNR de Loulé por feitos que Azeredo Lopes sabia que não eram verdadeiros.»

«Todo este lodaçal tem de ser julgado.»

Carlos Alexandre – Despacho de Pronúncia do caso de Tancos

Depois de uma imparável campanha de ódio contra Azeredo Lopes logo a partir do conhecimento do furto, Junho de 2017, campanha essa que contou com a anuência de Marcelo até ao momento em que descobriu que estava em vias de se queimar, o Ministério Público lançou a acusação do caso de Tancos em cima das eleições legislativas de 2019. Nela, os procuradores garantiam que Azeredo Lopes sabia do plano para ilibar os ladrões desde a primeira hora, e que alinhou nele para obter vantagens para a imagem do Governo. Ou seja, a acusação atribuía a motivações estritamente políticas os alegados actos ilegais de Azeredo Lopes, assim envolvendo directa e profundamente na acusação o Governo socialista. Este episódio, pelo conteúdo e calendário, fica como (mais) um monumento à judicialização da política em Portugal.

Rui Rio, em campanha eleitoral, de imediato explorou a oferta do Ministério Público e apontou directamente a Costa, dando como provado o teor da acusação. Costa seria culpado caso soubesse o mesmo que Azeredo, ficando como cúmplice, ou não o sabendo, ficando como incompetente para chefiar Governos, afirmou Rio. Na sua miserável postura, chegou a atacar uma comissão parlamentar de inquérito, colando PCP e BE às calúnias que lançava. Sim, este é o mesmo Rui Rio que tinha jurado jamais vir a fazer tal pulhice, o tal do “banho de ética”.

Azeredo Lopes, na instrução do processo, defendeu não existirem provas jurídicas que sustentassem a acusação. Carlos Alexandre, como se pode ler nos excertos acima, não só considerou o contrário, não só aceitou toda a acusação do MP como válida, foi mais longe. Foi muito mais longe. A linguagem usada destina-se a provocar um espectáculo de humilhação política, cívica e moral de quem exerceu as funções de ministro da Defesa. Mandando Azeredo para julgamento, com acusações de teor político maximalista, e linchando o seu bom-nome num tribunal graças à prepotência com que exerce a soberania que lhe foi confiada pela República, o super-juiz consumava aquele que foi um processo político desde o início, tendo gerado crimes de violação do segredo de justiça em barda e servido como obscena munição eleitoral à descarada.

Agora, porque seria uma bomba institucional estar a condenar a prisão efectiva os militares da PJM, os quais agiram com excesso de espírito de corpo mas cheios de boas intenções castrenses, não se poderia continuar o linchamento de Azeredo. Se a ideia era a de resolver o berbicacho com penas suspensas para os militares que perderam a cabeça, nessa equação penal não dava para uma solução “à Vara” e inventar provas indirectas para prolongar o calvário de mais um alvo socialista. Eis que o procurador do julgamento reconheceu ter Azeredo Lopes razão quando afirmou ser inocente – só que deixando uma gargalhada dirigida lateralmente ao ex-ministro ao justificar o pedido de penas suspensas declarando que a vinda dos militares a julgamento já era castigo suficiente.

Rescaldo: o caso de Tancos produziu provas, confirma-se, mas contra parte do Ministério Público e contra o juiz Carlos Alexandre – useiros e vezeiros na captura de poderes constitucionais exclusivos com que se permitem violar o Estado de direito sem que alguém os consiga punir, sequer controlar. Abria-se, portanto, uma janela para analisar e questionar todo o processo à luz do seu desfecho. Porque, tal como com Ivo Rosa na Operação Marquês, Carlos Alexandre vê decisões suas que são retintas perseguições políticas a serem revertidas por outros decisores judiciais. Só que não vai acontecer. E por duas razões: (i) porque não existe imprensa em Portugal (leia-se o quase nada que os impérios mediáticos da direita disseram, e só para continuar a disparar sobre Azeredo, apagando tudo o resto); (ii) porque existe uma parte do Ministério Público fora-da-lei que tem um calendário de acção pleno de oportunismo, tendo avançado ontem com um trunfo farfalhudo a que tiveram de recorrer para soterrarem Tancos na lixeira da cidade. É o dois em um, está esgotada a sua utilidade e abafa-se a imundície.

“Não desista!”, suplicou Cavaco

«O SOL fora o primeiro jornal a denunciar os factos que haviam dado origem ao processo Face Oculta, como já fora o primeiro a noticiar o caso Freeport.

Nós éramos, portanto, homens a abater.

As tentativas para fechar o jornal tinham-se sucedido de várias maneiras e envolvendo diversos protagonistas.

Vivemos momentos de angústia e desespero.

O Presidente da República, Cavaco Silva – mais de dez anos depois já o poderei revelar –, chamou-me a Belém para se informar sobre o que estava a suceder e à saída disse-me, enquanto me apertava demoradamente a mão: «Não desista!»».

José António Saraiva

O “Assalto ao BCP” é uma teoria da conspiração que inevitavelmente teria de nascer na direita. E a qual contaria sempre com a cumplicidade da esquerda, por ir ao encontro de uma predisposição simétrica (aqui, vinda pela matriz marxista) para caluniar o inimigo em comum. Entretanto, o delírio atingiu o centro e invadiu o próprio PS, graças à pressão do monopólio mediático da direita, ao trauma da Operação Marquês e sua lancinante e dilemática dimensão moral entre os socialistas, e ainda à universalidade de diversos processos cognitivos automáticos que favorecem e promovem narrativas simplistas, parcelares, enviesadas e caricaturais.

O meu propósito (que profetizo antecipadamente inglório) neste texto é expor o grau de irracionalidade que o “Assalto ao BCP” exige aos que acreditam mesmo nele, e também as consequências dessa irracionalidade nos órgãos de soberania, na sociedade e na comunidade. E pretendo fazê-lo com uma economia de caracteres que irá deixar este mundo e o outro banzos de espanto. Para tal, comecemos com um outro assalto, o “Assalto ao Arquitecto”.

Como se pode ler na citação acima, José António Saraiva foi mais um dos que foi buscar os galardões de caçador de socráticos ao ver Joe Berardo a levar o tratamento alexandrino e a encher de gozo os tais procuradores que vão limpar esta merda toda. No artigo jubilosamente intitulado “O 2º julgamento de José Sócrates”, vangloria-se por causa de uma capa do Sol, de 2009, onde tratava o Governo de Sócrates e o PS como um bando de mafiosos. E no trecho que fui buscar está uma lápide comemorativa por igualmente o mesmo semanário ter sido instrumental no lançamento do caso Freeport. São dois factos, os quais oferecem uma base sólida para o primeiro balão de ar quente, isso de o arquitecto Saraiva alegar que os visados pelas peças do seu jornal reagiram tentando “fechar o jornal“. Parece lógico, né? Estamos disponíveis para acreditar que os políticos, em geral, são potenciais ou activos criminosos – especial e fatalmente quando se trata dos políticos de quem não gostamos ou que tememos. E não nos custa nada a engolir que esses tais políticos, uma vez apanhados pela indomável e corajosa imprensa livre, pretendam silenciar os heróicos órgãos de comunicação social para assim escaparem à Justiça e continuarem a roubar o Estado e os contribuintes de mil milhões de maneiras todo o santo dia. Quem chegar ao fim deste trajecto narrativo vai, acto contínuo, ser dominado por uma inércia cognitiva que cristaliza o sentido da história. Mas que história é essa?

Voltemos ao princípio. Eis que um jornal nos diz que um candidato a primeiro-ministro é corrupto (2004), e depois volta a dizer que o mesmo fulano, agora já primeiro-ministro, não só é corrupto como é o maior corrupto de que há memória, e não só em Portugal (2009). Pensemos. O tal jornal está isolado na denúncia? É uma voz a clamar no deserto? Pois não, pelo contrário. A própria Justiça investigou e tomou decisões acerca dos acontecimentos que serviram a esse jornal e restante coro mediático para as acusações. No primeiro caso, a Justiça provou que o Freeport foi uma cabala política lançada por indivíduos ligados ao PSD, CDS e Judiciária, e nada mais. No segundo caso, a Justiça impediu que elementos da própria Justiça conseguissem abrir um processo infundado e ilegítimo contra um primeiro-ministro nas vésperas de eleições legislativas. E como é que nós podemos ter a certeza de que estas são as mais verosímeis versões dos acontecimentos? Pensemos. Se não o fossem, se o Freeport tivesse sido abafado pelo Pinto Monteiro e o Face Oculta pelo Noronha do Nascimento, como a direita decadente continua a martelar, então algo de inaudito teria acontecido, algo de arrebimbomalho teria de acontecer. Que seria isto: o Conselho Superior do Ministério Público, o Conselho Superior da Magistratura, a Assembleia da República e o Presidente da República, cada um destes órgãos por si dentro da sua esfera soberana de autoridade, e em conjunto como representantes primeiros e supremos da República, teriam exposto e anulado o que equivale a um golpe de Estado. É disso que estamos a falar: se tivesse existido um procurador-geral da República e um presidente do Supremo Tribunal de Justiça que, no Verão de 2009, decidissem ilibar um primeiro-ministro mafioso apesar das provas contra ele recolhidas pela própria Justiça, a consequência imediata seria a abertura de investigações aos seus actos e hoje esses cúmplices do diabólico Sócrates já estariam presos há anos e anos. Parem as rotativas: não só os tais magistrados continuaram então em funções, como Noronha veio a ser reeleito Presidente do Supremo e Pinto Monteiro saiu no final do mandato condecorado por Cavaco.

A história que o arquitecto Saraiva nos está a contar, então, é do domínio da fantasia. Precisa de convocar a nossa imaginação e apagar qualquer vestígio de realismo. Leva-nos para um cenário onírico onde existe um super-vilão que, por artes mágicas, consegue dominar aqueles cuja missão é defender o Bem (e os “portugueses de bem”, bem entendido e bem esgalhado) e lutar contra o Mal (leia-se, “PS”). É assim que o monstro consegue escapar das situações mais incríveis. Como essa cena de ser apanhado a planear um “atentado contra o Estado de direito” com o seu comparsa no crime Armando Vara, e depois, apesar de existir na Grei tantos procuradores, juízes, deputados, guardas-florestais, polícias sinaleiros, a que se junta um Presidente da República, que adorariam apanhá-lo, vai-se a ver e nem sequer conseguiram que fosse arguido para animar a malta. O desespero abate-se como se fosse um dilúvio de chumbo sobre tanta gente séria e decentíssima, o sentimento de impotência é vexante e atroz, letal. Mas nisto, qual pomba branca regressando com o ramo de oliveira à nau, eis que surge no horizonte o arquitecto Saraiva radiante e caloroso, um vero Sol, ofertando ao professor Cavaco o sacrifício último pela Pátria. “Não desista!”, soltou num vagido de súplica o tal homem cuja honestidade é tão elevada que obriga a nascer duas vezes para ser igualada. “Não desista!”, repetia essa estátua viva das mais incensadas virtudes do que é um estadista a um arquitecto Saraiva de peito inchado, com uma cativante lágrima a marejar na vista direita, e já a arquitectar o plano de combate contra o anticristo à conta dos seus eméticos textos e de capas com recurso a outros animais para além do polvo.

O “Assalto ao BCP” é um filme que recorre à mesma fórmula de sucesso. Nele encontramos o mesmo Presidente da República, assistindo aos acontecimentos com vigilância aquilina. E encontramos o mesmo arquitecto e o mesmo jornal, só que estes sem terem feito o TPC. Acontece que nem o Presidente nem o arquitecto rasgaram as vestes aquando do assalto ao banco sagrado, num imobilismo que desperta a curiosidade. Sendo tudo evidente, como há dias o caluniador pago pelo Público lembrou, como explicar o silêncio, o atrofio, deles e das autoridades, dos deputados, dos homens-bons? É que se tratava, como a direita decadente repete há anos, de uma operação comandada pelo primeiro-ministro de então para conseguir controlar a banca e, a partir daí, perpetuar-se mil anos no poder. Que levou Cavaco Silva e o arquitecto Saraiva a deixar os socialistas abaterem Jardim Gonçalves e seus anjos? Porquê esta demora de 14 anos em investigar e julgar crimes tão óbvios e tão graves? Depois de, pelo menos, três comissões parlamentares de inquérito dedicadas ao assunto, depois das centenas de horas de depoimentos lá registadas, depois dos milhares de documentos já analisados, depois de Ivo Rosa ter carimbado como ficção a possibilidade de um primeiro-ministro obrigar o conselho de administração da CGD a fazer fosse o que fosse, a curiosidade a respeito do fenómeno só se satisfaz se nos transportarmos de regresso ao cenário onírico onde existe um super-vilão que, por arte mágicas, consegue dominar os desamparados humanos.

Este irracionalismo, como vimos no espaço mediático “de referência” aquando da detenção de Joe Berardo, não encontra oposição. Isso significa que impregna agora livremente a sociedade levando a que, a jusante, as pulsões populistas tenham ainda mais alimento, e que, a montante, o risco de os órgãos de soberania diminuírem a racionalidade das suas decisões é crescente.

Luís Delgado e a força G

«É preciso acabar com esta farsa: a que velocidade ia o carro, e quem mandou, ou não se importou que fosse excessiva? Não há ninguém, em carro nenhum, que não se aperceba quando circula a alta velocidade. Não há como. A força G sente-se no corpo. O ministro não pode fingir que não viu, e o motorista não poderia carregar no acelerador, de livre iniciativa, sem que o seu passageiro não desse conta. O motorista sabe tudo, e vai apanhar com tudo. Mesmo que diga que recebeu instruções, para chegar a Lisboa em 5 minutos. Onde está o motorista?»

Luís Delgado

Luís Delgado, moldado no cavaquismo, e sem ter ainda atinado com a correcta colocação das vírgulas, foi um dos mais activos jornalistas ao serviço do laranjal até à chegada de Passos. Para além deste currículo de sectarismo e chicana, é actualmente dono da Visão. Ora, como comecei a dar-lhe dinheiro, fui ler o que tinha para dizer aos cidadãos. E deparei com a javardice acima citada.

O senhor usa o meio de comunicação de que é proprietário para apelar à condenação moral (pelo menos) de Eduardo Cabrita apostando que a investigação vai provar que a viatura ia a “alta velocidade”. Sem tempo para esperar pelos resultados oficiais, sem definir o que entende por “alta velocidade”, salta já para a calúnia assassina: o ministro disse ao motorista para “chegar a Lisboa em 5 minutos”, primeiro, e depois esse facínora do PS foi o tempo todo a desfrutar ávida e perfidamente da tal “força G” que lhe percorria o corpo com atrevida lubricidade. Melífluo prazer subitamente interrompido pela maçada que amolgou o potente BMW (não por acaso, comprado por um traficante de droga).

Portanto, o caso está resolvido. O ministro é o responsável pela velocidade que o seu motorista decida atingir, sempre e a qualquer momento. O ministro é que levou o motorista a atingir a “alta velocidade” na origem do acidente, pelo motorista teriam vindo para Lisboa a 60 km à hora apreciando a paisagem. O ministro não tem defesa porque a força G não mente nem o deixa mentir, trata-se de uma cena que se sente no corpo. Fica-se à espera que as autoridades aproveitem o contributo desta decentíssima cabeça cuja vocação, como se pode ler, é a física da pulhice: usar a trágica morte de uma pessoa como carne para canhão de um ataque político canalha.

Aqui chegados, colhe dizer que há normais, naturais, frequentes, bondosas, até excelentes razões, para se conduzir na faixa da esquerda sem ser para ultrapassar. Sempre que há algo a ocupar a berma da estrada (sinalização, viaturas, pessoas, especialmente viaturas com pessoas) qualquer condutor responsável tem o automatismo de se deslocar para a faixa da esquerda (ou, pelo menos, para a faixa central, havendo três) precisamente para evitar o risco de passar junto dessas presenças que acarretam perigo para si e terceiros só por estarem na berma e/ou a ocupar parte da via. Igualmente, havendo sinalização ou trabalhos de manutenção com trabalhadores e eventualmente viaturas e/ou maquinaria na berma, a atenção dos condutores foca-se na faixa da direita, assim criando uma cegueira momentânea para qualquer coisa imprevista no lado esquerdo da via.

Terá o acidente resultado da fatal associação desses dois factores a conjugar-se com as decisões e movimentos do trabalhador, sendo a velocidade do carro um elemento secundário para a tipologia da ocorrência? Será escusado perguntar ao Luís Delgado pois está sob o efeito de uma outra força G – a força da sua grunhice.

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Semiótica da pulhice

Berardo tem 439 milhões em dívida à Caixa Geral de Depósitos, mais cerca de 330 milhões ao Novo Banco e ainda cerca de 230 milhões ao BCP. Sendo esta totalidade que está em causa no processo onde é arguido, dou 10 euros para a melhor explicação a respeito da seguinte passagem do comunicado do DCIAP:

«No inquérito investigam-se matérias relacionadas com financiamentos concedidos pela CGD e outros factos conexos, suscetíveis de configurar, no seu conjunto e entre outros, a prática de crimes de administração danosa, burla qualificada, fraude fiscal qualificada, branqueamento e, eventualmente, crimes cometidos no exercício de funções públicas.»

Sim, exactamente, acertaste. A curiosidade diz respeito a apenas se fazer referência à CGD – o que tem vindo a ser replicado e martelado pelos impérios mediáticos da direita com furor de caçada. Venha daí essa hermenêutica especializada em judicialização da política.

Os informadores do Ministério Público

Alguns dos nossos melhores jornalistas (o seu currículo, o seu trajecto, os seus salários, a sua farronca assim o prova e comprova) já só querem é ser informadores do Ministério Público. Não para todos os casos, calma! Nem eles teriam tempo para tanto, embora não lhes falte a gana. Só para aqueles em que, mistérios da profissão, calha terem informação preciosa para entregar ao Ministério Público e assim conseguir-se meter em Évora uma certa bandidagem do pior. Um desses casos é o famoso “assalto ao BCP”, em que um primeiro-ministro mandou o conselho de administração da CGD dar dinheiro a Joe Berardo para ir fazer maldades à gente séria e depois, não satisfeito, ainda obrigou o Banco de Portugal a deixar que Santos Ferreira e Vara fossem conspurcar as sacras alcatifas do BCP. Donde, a ânsia destes jornalistas em ajudar a Justiça em ordem a que se faça justiça não pode ser maior.

Um deles é o extraordinário Pedro Santos Guerreiro. Um crânio superior e uma pena diamantina. Eis como o homem se oferece aos procuradores interessados:

«Na semana em que Joe Berardo foi ao Parlamento, na CPI da Caixa, rir-se na nossa cara e dos nossos impostos, escrevi aqui no Expresso que já não interessava chorar das bestialidades: “O Ministério Público tem de analisar as suspeitas criminais de que os bancos possam ter sido burlados. E se sim, então a associação que interessa analisar é a de Joe Berardo & André Luiz Gomes, porque ninguém acredita que Joe saiba fazer contratos complexos.” Nesse texto, explicava como a renegociação do contrato da coleção Berardo tinha incompreensivelmente prejudicado o Estado, e perguntava: “Houve burla? Burla dá cadeia”. O texto é de maio de 2019. Hoje, junho de 2021, Joe Berado e André Luiz Gomes foram detidos por suspeitas de burla qualificada, de administração danosa, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais.

[...]

A associação Berardo & Gomes segue agora para um juiz, mas por prender duas andorinhas não acaba a primavera. É preciso mais, é preciso continuar a investigar e a inquirir. Se não, apenas continuaremos nos ai olé, ai olé, foi na loja do Mestre André.»

Percebido? Em 2019, já estava tudo explicadinho numa página do Expresso graças ao brilhantismo deste Guerreiro. Contudo, o Ministério Público demorou dois anos a decifrar a caligrafia, daí o atraso em mandar a ramona. Se o cooptarem, promete, o bando completo das andorinhas será apanhado e depenado em menos tempo do que ele demora a teclar os seus relatórios semanais. Ai olé, ai olé.

Outro bravíssimo jornalista disposto a sacrificar a sua carteira profissional pela honra e prazer de perseguir uns certos malfeitores que ele conhece de ginjeira é o João Vieira Pereira, actual director do PSG. Com vista a ajudar a boa gente do MP a entender o que lhes está a oferecer, escreveu um artigo intitulado A quadrilha, onde se pode ler o seguinte:

«Esta semana recordaram-me um texto que escrevi no Expresso em outubro de 2011 onde acusava Berardo de se ter especializado em investimentos de guerrilha, pois entrava em empresas de forma hostil, atacando a gestão e outros acionistas até estes pagarem para ele se ir embora. No mesmo texto defendia que não precisávamos de “empresários” como ele. Naquela altura, há dez anos, Berardo era notícia por existirem dúvidas sobre o valor da sua coleção, que tinha sido dada como garantia aos bancos depois de um negócio duvidoso com o Estado que levou à criação da atual exposição.

[...]

Falta o capítulo final. Qual será o próximo passo de Berardo, que hoje com 76 anos enfrenta a possibilidade de passar até 12 anos na prisão? Não acredito que o faça, mas ia adorar que ele não ficasse calado.»

Este Vieira ganha ao Santos por 8 anos. Ao ir buscar um texto seu de 2011, com a supina beleza de já nem se lembrar dele não fora uma alma atenta e devota que lho recordou, mostra os seus incandescentes predicados para tratar do Joe. O Joe sabe coisas, sabe nomes, recorda-se das datas e dos locais, e só precisa da motivação certa para abrir a boca e começar a cantar. O João valentão gostaria de ajudar o velhote nesse processo, só precisa de ficar a sós com ele um bocadinho, de preferência com um rottweiler ao lado e uma moca de Rio Maior nas mãos.

O Expresso e a SIC têm outros jornalistas doidinhos para colaborarem com o Ministério Público em certos casos literalmente fantásticos, como este do filme “O Assalto ao BCP”. Seria muito bom que tal acontecesse, nem que fosse para acabar com as doridas lamentações de falta de recursos em que tropeçamos sempre que uma parte do Ministério Público se entretém a mandar-nos areia para os olhinhos.

Delenda Cabrita

Podia-se montar uma equipa multidisciplinar para descobrir quem é a figura da democracia portuguesa mais odiada desde o 25 de Abril. Essa equipa reuniria e trataria os megadados disponíveis e chegaria inevitavelmente a este nome: José Sócrates. Sabemos empiricamente que tal seria a conclusão pelo que escusamos de cansar os imaginados investigadores. O que não sabemos é porquê. Não por faltarem explicações, antes por serem tantas quantas as opiniões. Será por causa do TGV que nunca se construiu? Do aeroporto que nunca passou dos planos? Da avaliação dos professores que se manteve a farsa que sempre foi? Da aposta na ciência, nas tecnologias da informação, na educação de adultos, nas energias verdes, na dignidade e segurança dos mais pobres, nos direitos das mulheres e das minorias? Será que foi Sócrates quem causou a Grande Recessão de 2008, e depois a crise das dívidas soberanas, e por fim deu ordens ao PS para chumbar o PEC IV pois queria afundar o País para brincar à reengenharia social e vender empresas públicas com o respaldo da Troika? Ou será por causa de um certo dinheiro que lhe emprestaram (ou deram) e que não saiu do bolso de nenhum de nós nem existe quem consiga relacioná-lo com algum dano ao Estado?

Não. O ódio a Sócrates é uma construção mediática para efeitos de exploração sensacionalista e luta política. Alimenta-se disso e, num plano mais decisivo, da real força política de Sócrates. É por ser um adversário formidável que, especialmente na direita, a resposta é de pavor, depois de secreto fascínio, e por fim de ódio, como única resposta que mantém a solidez da identidade. Esse ódio não precisou das revelações da Operação Marquês para existir, pelo contrário. Ver o terrível inimigo ferido de morte (política) e humilhado deu real consolo às patologias que corriam soltas muitos anos antes da sua prisão. Só que Sócrates continua biologicamente vivo (portanto, nunca se sabe, né?), teve uma estrondosa vitória na Justiça (abafada e deturpada pelos impérios mediáticos), e isso desperta mecanismos automáticos de protecção que alimentam o fogaréu do ódio. Nesta arena, Cabrita tornou-se um alvo prioritário dessa energia contagiante, como se vê pela exploração odiosa (no sentido em que se procura intencionalmente provocar respostas de ódio nas audiências e na sociedade) do acidente de automóvel em que está envolvido. Recomendo que se use a gravação do que Clara Ferreira Alves disse no último “Eixo do Mal” sobre Cabrita – onde deixou a tese de que esse ministro deve ser castigado por ser odiado – como material de estudo em várias universidades (e não só portuguesas) onde haja departamentos dedicados ao estudo do fenómeno.

O desejo de falar do Rui Rio é quase irresistível mas malhar em quem acaba de ir de cornos contra um bloco de granito não seria decente. Pelo que vou recorrer a um outro fulano muito mais significativo para dar conta da extensão do ódio como cultura ubíqua na ecologia mediática. Eis o que se lembrou de escrever o Daniel Oliveira:

«Outra questão é mais simbólica, mas conta muito: se for verdade que nem condutor nem ministro saíram do carro, é humanamente miserável.»
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«Há uma discordância quanto à sinalização dos trabalhos na estrada, com um comunicado da Brisa que desmente o que foi dito pelo MAI. Isso terá de ser esclarecido. Não sabemos se essa sinalização tinha alguma ligação com o lugar onde o trabalhador foi colhido. Mas, se ela existia, sabemos que o comunicado mentiu, o que num caso destes é inaceitável e politicamente incontornável.»
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«A minha opinião sobre Eduardo Cabrita é clara e há muito tempo que acho que devia ser demitido. É um monumento à incompetência política e, todos os sinais o indicam, falho de sensibilidade e empatia.»

O Daniel é um dos mais importantes comentadores nacionais, tanto pela qualidade como pela quantidade do seu trabalho. Escreve todos os dias úteis e desmultiplica-se em vários canais e actividades neste universo do jornalismo de opinião. Acima de tudo, esforça-se por aparecer intelectualmente honesto. Esse esforço tem mérito e por si só chega para o separar da pulharia. Porém, é igualmente recorrente a cena de o vermos a escorregar para o chinelo da hostilidade cega quando entra em cena Costa, o seu alvo de estimação nesta legislatura. No caso, Cabrita aparece-lhe com o rosto de Costa e o resultado é um exercício de apelo ao ódio.

Nos exemplos que cito acima, vemos o prestigiado comentador, no prestigiado Expresso, a revelar que, tratando-se de Cabrita, a atitude mais inteligente quando se tem um acidente numa auto-estrada é sair do carro. E sair do carro para quê? Isso, infelizmente, o Daniel não chega a dizer. Será que ele queria o ministro a correr em direcção à vítima para a tentar salvar com os seus conhecimentos clínicos ou ficar a dar-lhe palavras de consolo enquanto não chegasse a ambulância? Para quem não esteve lá e nada sabe das condições no local nem das circunstâncias do atropelamento, o que parece “humanamente miserável” é a calúnia preemptiva que deixa estúpida e sonsamente. O mesmo mecanismo trambiqueiro em relação à problemática da sinalização, situação em que ambas as partes poderão ter razão calhando a sinalização existente não ser a adequada para as reais condições do acidente. É precisamente isso que o inquérito irá apurar, estar já a festejar a culpa do ministro é só reles, soez. Finalmente, repare-se como a pulsão do assassinato de carácter é libertada em toda a sua fétida violência ao se permitir descrever a pessoa na berlinda como sendo falha de “sensibilidade e empatia”. Quem és tu, Daniel, para validares a sensibilidade e empatia daqueles com quem não privas?

A empáfia do “a minha opinião é clara e há muito tempo que acho” não sei quê é marca d’água desta actividade de livre crítica dos poderes que podia ser preciosa para a cidade. Só que, como vemos, a nódoa do ódio chega a quase todos. E quando ele chega, defender a cidade implica denunciá-lo e combatê-lo. O ódio merece o nosso ódio – não os ministros, os governantes, os políticos, os cidadãos, as pessoas, pois eles somos nós.

Operação Joe por causa do 13 de Julho

Por que razão Sócrates foi detido a 22 de Novembro de 2014, e não meses antes ou meses depois? Quem souber responder à pergunta, seguramente saberá responder também a esta: por que razão os procuradores responsáveis pela Operação Marquês decidiram cometer o crime de publicar o essencial da sua investigação e respectivo alguidar de invenções em Julho, 4 meses antes do espectáculo de shock and awe preparado com a comunicação social? Para além de todos os poderes despóticos a que podem recorrer, os procuradores do Ministério Público possuem completa liberdade – consagrada na sua autonomia – para escolherem os calendários das buscas e detenções que melhor favoreçam as suas agendas, sejam elas quais forem. Visto de fora, nunca nada se explicando, parece completamente arbitrário. Mas mesmo que haja algum dever de justificação interno, como igualmente me parece lógico por todas as razões e mais algumas, continua a valer a imagem da “Rainha de Inglaterra” lançada por Pinto Monteiro como retrato de uma instituição dominada pelo sindicato e pelo negócio dos crimes de violação de justiça. Um vero Oeste selvagem pejado de xerifes que, não disparando mais depressa do que a sombra, só disparam pela sombra.

Neste caso do Joe Berardo, a investigação começou em 2016. Porquê, então, só agora as buscas e as detenções? Sabendo o que a casa gasta, a explicação mais provável, dentro das minhas duvidosas capacidades adivinhadeiras, remete para o dia 13 do corrente. É a data em que vai ser lido o acórdão do julgamento de Armando Vara. Depois do que Ivo Rosa fez à Operação Marquês, demonstrando à prova de estúpidos a fraude política que a engendrou, caso Vara seja absolvido, ou mesmo que leve uma pena suspensa, tal seria mais um grossíssimo prego no caixão de Rosário Teixeira, Carlos Alexandre, Joana Marques Vidal, todos os mandantes da vingança em curso e a direita decadente no seu conjunto. Donde, aquela parte fora-da-lei do Ministério Público quer dar aos juízes que estão neste momento em processo de decisão a munição suficiente para que saia mais uma pena “exemplar” em ordem a salvarem a face e continuarem o abuso iniciado com o Face Oculta e seu desfecho penal. Uma pena à medida do Vara, um dos maiores facínoras da História, o primeiro e único condenado a pena de prisão efectiva na Justiça portuguesa por causa de um crime de tráfico de influência (e mesmo assim teve de se torcer a lei para lá caber e despachar penas violentamente absurdas para os restantes condenados), um génio do crime capaz de ficar com 25 mil euros de um sucateiro (que nunca se encontraram, e para um fim que nunca se realizou) e que teve a ousadia de pôr uns trocos na estranja sem passar pela casa do fisco. O solo que pisa tem de ser salgado como aviso à navegação do que pode acontecer a quem é odiado pela oligarquia que nos deu o BPN e o BCP do Jardim, entre outras jóias do laranjal. A mesma oligarquia que tem milhares de milhões alhures sem pagar tostão ao Estado. Um bode expiatório perfeito, diabolizado obsessiva e sistematicamente nos esgotos a céu aberto. Não há ninguém que o defenda, sequer que mostre compaixão ou peça mínimos de justiça, para além do seu advogado.

O DCIAP publicou um comunicado a respeito das diligências onde se queixa da falta disto e daquilo, assim dando uma aparente explicação para o atraso com que foram vasculhar os computadores e telefones da bandidagem. Mais uma vez, actuam como se a audiência fosse constituída por borregos. Do texto só se aproveita a última frase, que reza assim: “O inquérito encontra-se em segredo de justiça.” Ou seja, e de acordo com a prática corrente, podemos ter a certeza certezinha que daqui até 13 de Julho vamos ter fascículos diários sobre a teoria da conspiração que mais delírio provoca na pulharia, o filme em que Sócrates telefona a dar ordens para que o Conselho de Administração da CGD encha as mãos ao Joe para este ir fazer maldades aos anjinhos do BCP. Muita desta gente, mesmo que viva 300 anos, irá morrer com uma expressão de felicidade a imaginar o Vara abraçado ao Santos Ferreira a fumarem charutos e a rirem à gargalhada enquanto o Joe sai da CGD ao volante de um camião cheio de notas. Não é defeito, são mesmo assim.

Alguém que meta uma cunha em Fátima, faxavor

Há partidas de futebol que valem muito mais do que títulos. Como é o caso do França-Suíça neste Euro. O êxtase provocado nos adeptos suíços ultrapassa em 21 ordens de grandeza a satisfação obtida pelos adeptos portugueses com a vitória no Euro 2016 e a dos adeptos gregos com a vitória no Euro 2004 – exemplos siameses de equipas que mostraram um futebol horrível ao longo desses torneios e ganharam aquilo sem saber ler nem escrever para indigestão de quem gosta de ver bola.

Quando Pogba marcou o terceiro da França, por si só um dos melhores golos deste Euro, e quando ficavam a faltar 15 minutos para o final, até Deus e o Diabo apostaram 10 euros em como seria impossível alterar o destino: a Suíça ia para casa. O mais certo era até acontecer uma goleada de arrebimbomalho por superioridade evidente dos gauleses e afundanço anímico dos helvéticos. As flutuações quânticas saíram-se com outras ideias e não podiam ter sido melhores do ponto de vista do gozo dos suíços: 6 minutos depois, redução da diferença; mais 4 minutos e um golo do empate anulado; épico golo do empate em cima dos 90 minutos; e o craque maior do adversário a ser enganado pelo guarda-redes e a permitir uma defesa do tamanho dos Alpes.

Ligo esse jogo aos de Portugal porque odeio a herança salazarista que o Scolari avivou e cristalizou na terrinha, a miséria do ideal de se ambicionar ganhar “por meio a zero”. Essa converseta parece muito profissional e competitiva mas só gera cinismo, medo, atrofio da criatividade e exílio da paixão. Joga-se à bola, ou pratica-se qualquer desporto, não porque seja necessário ganhar, antes porque é maravilhoso tentar ganhar. É só isto que faz falta para se cumprir plenamente a experiência de nos fundirmos com o magma ctónico da identidade.

Fernando Santos atribuiu ao deus dos católicos e à “sua mãe” [fonte] o comando técnico-espiritual que levou Portugal à conquista do Euro 2016. A ser verdade (confesso a minha incapacidade para ter certezas a respeito), daqui peço à malta que passar por Fátima o favor de dizer a quem de direito que o senhor está a precisar de ordens superiores para ir fazer milagres noutras paragens. No reino da Selecção já não consegue.

Pedro Marques Lopes ao poder

Por causa do Pedro Marques Lopes assinei a Visão. Para ler coisas como esta:

«Podemos pensar que a corrupção em Portugal é um fenómeno recente ou que é agora pior do que já foi? Nos anos 80, 90 e já neste século, tudo corria muito melhor? Claro, não havia processos e não se se conheciam suspeitas. Vivíamos no paraíso.

Só quem não viveu nesses tempos, só quem nunca tentou abrir um negócio, marcar uma escritura ou sequer ir a uma consulta médica, pode de boa-fé pensar que a situação é pior. Tudo isto num País em que o Estado estava muito mais presente na economia. E se falarmos em fundos europeus, só mesmo alguém completamente ignorante ou de muita má-fé pode afirmar que os critérios e procedimentos dos princípios dos anos 90 eram sequer comparáveis na sua transparência e controlo aos de agora.

É preciso viver muito longe da realidade portuguesa, não a ter vivido ou viver de falar sobre corrupção para ignorar isto.»

A outra indústria da corrupção

Todo o artigo se recomenda mas aproveito o balanço das palmadinhas nas costas ao autor (de quem sou o maior fã a seguir à família e amigos) para também lhe dar uma biqueirada nas canelas. É que o estimado Pedro fica-se pela rama. Fala de uma indústria sem, acto contínuo, falar corajosamente nos seus industriais e respectivas ligações, conivências, parcerias. Fala de uma indústria sórdida e nefanda como se o principal foco de atenção devesse limitar-se aos profissionais da calúnia e ao negócio respectivo, o dos próprios e o de que quem lhes paga.

Não, senhor Lopes. A calúnia como carreira não começou com o João Miguel Tavares, ele é apenas um oportunista que se aproveitou do mercado já existente. E quem criou o mercado foi a direita portuguesa logo a partir de um outro Lopes e da sua invenção do Freeport e da homossexualidade de Sócrates. Estávamos em 2004, íamos para as eleições de 2005 com a inaudita chegada a Portugal das campanhas negras à americana. Testado o conceito, visto o seu potencial, ele voltou em 2007 pela mão da Sonae e do Zé Manel e nunca mais deixou de empestar o espaço público e fomentar os assassinatos de carácter e o ódio como armas políticas.

O cúmulo deste fenómeno de decadência moral e degradação institucional da República é referido no texto do Pedro, e remete para a chegada dos magistrados com agendas políticas e gula corporativa – os quais se sentiram blindados pelo que viam os jornalistas e políticos fazerem para também eles aproveitarem o seu formidável arsenal de poderes judiciais e passarem a perseguir e destruir alvos impunemente. E assim nasceu o Face Oculta, o qual deixou os seus mentores furibundos por ter sido apenas um sucesso parcial. Os mesmos iriam voltar, num contexto de pleno domínio político em toda a hierarquia do Estado, para lançarem a Operação Marquês e consumarem o plano original. A Cofina, ao pé destes meninos e da sua capacidade de destruição, parece uma associação de colecionadores de borboletas. A judicialização da política e a politização da Justiça, enfunadas pelo zeitgeist mundial e que nos deu as estrelas Carlos Alexandre e Joana Marques Vidal (entre muitos outros justiceiros), transformaram-se na suprema obsessão da direita nacional por não ter esta qualquer projecto político capaz de vencer eleições.

Ferreira Leite, Cavaco Silva e Passos Coelho representam dezenas e centenas de outros quadros políticos de topo que os acompanharam no desempenho das suas funções. Ferreira Leite, Cavaco Silva e Passos Coelho são concomitantemente líderes históricos da direita portuguesa que não só conviveram pacificamente com a indústria da calúnia como a usaram para benefício político próprio. Querer aparecer decente a tratar deste assunto e não chamar os bois pelos nomes é pífio, na melhor das hipóteses, e colaboracionista, na pior.

O Pedro Marques Lopes terá as suas razões, que não precisa de revelar e que serão absolutamente legítimas, para não concorrer a presidente do PSD com os seus valores e a sua visão para a comunidade que somos. Apenas lhe digo que é trágico termos um PSD sem uma liderança capaz de derrotar – ou que fosse só afrontar – os decadentes do poder pelo poder.

Começa a semana com isto

2021, para além da continuação da anormalidade pandémica, deu-nos uma anormalidade leonina: um ano onde o Sporting alcançou a glória, sendo rei no futebol e no seu lendário ecletismo – com títulos europeus, um campeão do mundo e até triunfos em modalidades historicamente muito amadas em Alvalade, casos do hóquei (Livramento!) e do basquetebol (um crime de lesa-sportinguismo terem acabado com a equipa há trinta e muitos anos).

Tudo isto embrulhado e servido por um presidente sem carisma nem discurso que sucede ao taralhouco-mor. Eis o Sporting.

Revolution through evolution

Sports: Men and women react differently to a missing audience
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It’s true: Stress does turn hair gray (and it’s reversible)
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Toxic Workplaces Increase Risk of Depression by 300 per cent
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What Bird is Singing? Ask the Merlin Bird ID App for an Instant Answer
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Comet strike may have sparked key shift in human civilization
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Ancient chickens lived significantly longer than modern fowl because they were seen as sacred, not food
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Powerful people are less likely to be understanding when mistakes are made
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O que faz o ódio

«E por falar em Passos Coelho, que vai acontecer a Rui Rio depois das autárquicas? Adivinha-se uma derrota. Para a direita, se Rio cair, só existe uma solução, convencer Passos a regressar, mas não para Belém. O enigmático Passos parece não apreciar o poder como os antecessores. Se fosse o político que a direita acha que ele é, e precisa que seja, teria uma oportunidade de ouro para fazer Costa pagar e para tomar a fortaleza. Deixar que comecem os julgamentos de Salgado e Sócrates e atacar. Eu sou o único político português que continua pobre e sem emprego. Eu sou diferente. Esta carta seria de trunfo no empestado ambiente político português. Claro que nunca mais poderia aparecer no palco com o joker ao lado, Relvas. E teria de fazer esquecer os pronunciamentos da troika. Esse tempo acabou.»


Clara Ferreira Alves, candidata a Maria Vieira do Passos

Vamos lá a saber

Se nos dermos ao exercício de escolher os mais importantes jornalistas portugueses – importantes no sentido em que o seu trabalho jornalístico corresponde à consistente produção de um bem com valor para a qualidade da democracia e para a defesa dos direitos e das liberdades – que nomes registaríamos numa lista de 10, ou de 5, ou 3?

Abismo chama o abismo

Há um abismo entre a governação e a oposição.

Há um abismo entre a representação política e a comunicação social.

Há um abismo entre o jornalismo e a opinião.

Há um abismo entre o conhecimento e a ignorância.

Há um abismo entre a responsabilidade e a ganância.

Nesses abismos, que é só um, estamos sempre à beirinha de perder a inteligência, a coragem e a liberdade.

Todos os dias. De hora em hora.