De saída da liderança do Bloco (“Terei sempre um papel no Bloco”) Louçã deu uma entrevista a Clara Ferreira Alves, no Expresso deste sábado. A entrevistadora conduz o diálogo na base da troca de impressões (com a dela sempre presente, às vezes demasiado) entre amigos, ou pelo menos bem conhecidos, perdendo com isso a oportunidade de aprofundar algumas declarações do entrevistado, que bastante interesse teria. Assumo que é o meu ponto de vista, mas achei Louçã francamente desinteressante. Não sei se é a personagem que está gasta, sem confiança e talvez no fundo com má consciência, ou se é o discurso que perde cada vez mais aderência à realidade, se alguma vez a teve. A situação política na Grécia trouxe um balão de oxigénio, ainda que longínquo, ao Bloco. Mas na Grécia os grupúsculos de agitadores nunca deixaram de pulular e são bastante violentos. O Syriza até parece comedido. Por outro lado, a proximidade do poder para um grupo com características semelhantes às do Bloco impõe-lhes a revisão da sua missão primordial de protesto (despreocupada e inconsequente), o que farão, diria eu, a contragosto. Aí, talvez, a maior condicionante desta entrevista. A primeira parte gira, portanto, à volta do tema Syriza. Eis o percurso:
– O Syriza, a sua grande ascensão (um orgulho!), a porta aberta que representa para a afirmação de movimentos como o dele (não o diz, mas depreende-se do entusiasmo com que se lhe refere);
– A ideia de que, conquistada uma maioria democrática de esquerda (a dele, a dita “dos valores” (?), para Louçã, não há outra), Merkel, a CE e o FMI seriam obrigados a negociar (com tudo o resto estático, depreende-se);
– A ideia de que a sociedade só logra a equidade e a justiça quando o povo conquistar o poder (ou, na nova linguagem não bolchevique “A única possibilidade é os de baixo imporem aos de cima novas políticas”);
– O perdão de parte da dívida, a correção do défice através de políticas fiscais (“Taxando os ricos?”, pergunta a entrevistadora. “Não, isso são políticas de financiamento. Eu falo de políticas para promover capacidade exportadora, capacidade de criação de emprego qualificado, de inovação tecnológica inteligente…” (?));
– A ideia de que vender empresas e bancos a países totalitários (China, Angola (resta saber como seria o país não totalitário dirigido por ele)) é uma nacionalização (quando acusado de querer nacionalizar tudo, como o Syriza). Aqui, um regresso à linguagem panfletária;
– O objetivo prioritário (e único?) de conquistar eleitorado ao PS (“Contamos [ir à luta] com metade do eleitorado do PS, mais as pessoas que se abstêm”. “A história do Bloco sempre foi dialogar com essa gente”). Parece não ter percebido o episódio Manuel Alegre. Mas também é certo que o secretário-geral do PS agora é o Seguro;
– A sanha contra os grupos Mello e Espírito Santo (e contra os hospitais privados) e o tiro aos grandes grupos económicos em geral, como a Galp, a Cimpor, sem esquecer o Amorim, o seu fantasma predileto;
– As razões para o chumbo do PEC 4 (“Quando foi recusado porque a direita o recusou, nós estivemos contra todos os PEC. Teixeira dos Santos queria despejar os inquilinos, liberalizar os despedimentos, privatizar a TAP, os CTT e os hospitais.” (sem comentários, face ao observado na atualidade);
– Sócrates? Muito bom nas questões “fraturantes”, alguém cheio de genica e uma vítima de uma perseguição pessoal miserável (onde estavas em 2008, 09, 10, 11?), mas um vendido aos grandes grupos, claro. Para Louçã, ninguém em Portugal pode ter um grande grupo económico (talvez o Estado?). É mau para o país;
– Uma certa mágoa pelo fim do seu papel como líder do Bloco, que no entanto mantém numa nebulosa (“[…]mas não vou falar do meu afastamento. Na Convenção se decidirá”).
Em suma, pareceu-me muito pouco. O afundamento do Bloco depois do chumbo do PEC 4 prometia ser longo e irreversível e quase nada indica que assim não será. Louçã está politicamente gasto e possivelmente cansado. Não tem a idade de Tsipras. Como este, não se descortina ninguém nas hostes bloquistas. A crise e sobretudo o Syriza (a ver vamos se a sedução de Tsipras se mantém, ou se Samaras o utiliza habilmente como força de pressão perante a Europa) ofereceram uma tábua de salvação ao agrupamento, que me parece ilusória, porque distante, apesar de os 9% que uma das recentes sondagens lhes dá serem motivo de grande júbilo e esperança para Louçã.