“Moral hazard” e cobardia

Dizem os alemães que presidem à Europa mais os seus correligionários que a adoção de euro-obrigações encorajaria os países do sul a desrespeitarem a disciplina financeira, a não sanearem as contas públicas e a não fazerem as reformas que eles consideram indispensáveis, dado que teriam o dinheiro a juros muito mais baixos. (O que não pode ser. Imagine-se! Aqueles pés rapados com dinheiro mais barato? O que não fariam? Iriam logo gastar em droga, ou pior, em linhas de comboio, quando existem por lá tantos burros.)

Mas, e se os gregos votarem (votassem?) nos partidos pró-memorando, que não desejam contestar (muito) as imposições da Troika, não seria isso incentivar a Alemanha e amigos a não reverem o seu egoismo, egocentrismo e arrogância e a não se compenetrarem de que têm mesmo muito a perder com a desagregação da zona euro, mesmo até com a redução do número de países que nela se mantivessem? E deixar de ganhar ao não irritar os alemães?

Estou pela chantagem como resposta à chantagem. O programa austeritário em dose concentrada não nos interessa. Mata a economia, condena as pessoas à pobreza ou à emigração e não dá qualquer esperança aos que permanecem. Já que, do norte, nos dizem que é austeridade ou morte, e a austeridade é, de facto, a morte, e defendem sobretudo os seus interesses, vamos por aí. As populações dos países do sul estão a ser condenadas à miséria, enquanto, a norte, se continua a viver bem e o Estado social se mantém intacto, pese embora alguma austeridade, ligeiríssima quando comparada com a que nos impõem. Não foi para isto que se passou da CECA à CEE e depois à UE. Para regressar aos nacionalismos (agora não assumidos) e às desigualdades, mais vale sair do clube e manter a independência. Ou jogar com as armas que se têm.

Se a Espanha falir e o desmantelamento da zona euro acontecer, não pensem Gaspar e Passos que a Alemanha vai premiar o seu bom comportamento convidando Portugal a integrar a nova aliança monetária do norte. Seria para rir. E Seguro, já é mais que tempo de começar a pensar com o segundo neurónio. Se não for capaz, ou não o tiver, os militantes que ainda o não perceberam que acordem e tratem de escolher novo líder. Os líderes fazem a diferença. Os sociais-democratas suecos, por exemplo, depois de décadas no poder, passaram há 6 anos para a oposição, onde se têm mantido com baixíssima popularidade e perspetivas quase nulas de recuperação, assistindo tristonhos a duas vitórias do centro-direita e condenados a assistir à terceira em 2014. Até há uns meses, altura em que mudaram de líder. Um líder sindical e ex-metalúrgico, carismático e empático, aproveitou o facto de o desemprego estar nos 7,8% (para nós, que saudades) e de a direita se ter envolvido num escândalo de armas e ter privatizado, com resultados desastrosos, parte da assistência a idosos para, em pouco tempo, recuperar 10 pontos percentuais nas intenções de voto, reunindo agora 37%.
Não podemos defender os nossos interesses sob o jugo da Troika? Claro que podemos. Os alemães não têm interesse em voltar ao marco. Têm, por isso, todo o interesse em ouvir e respeitar os países do sul. Evidentemente, refiro-me aos conhecedores da história e aos orgulhosos que tiverem alguma coisa a dizer. Não aos capachos.

Não vale já a pena ao PS invocar os compromissos assinados. Foram obrigados a isso e não governariam bem com eles. Deixemo-nos de hipocrisias. Para aplicar tão tenebrosa agenda, mais vale que sejam outros. Que ainda por cima gostam dela. Mas é essencial que haja uma oposição séria, fundamentada e determinada, ancorada noutras formas de pensar existentes também noutros países. Tendo em conta o fanatismo ideológico gasparense, o tal sado-monetarismo, e a alteração de circunstâncias na Europa, não me parece difícil a um partido da oposição ganhar credibilidade. Estes tipos têm maioria absoluta, caramba! Podem bem fazer o que querem sem os socialistas. Já não há saco para ouvir os comentadores da direita a elogiar a postura de Seguro. Como se tal postura fizesse a mínima diferença no descalabro que se avizinha. Mais: se o descalabro não se verificar, ou por milagre ou porque a Alemanha, pressionada, inverteu o rumo, o que ganhou Seguro em não descolar de tal agenda, ainda por cima altamente extravasada?

13 thoughts on ““Moral hazard” e cobardia”

  1. Ainda bem, Penélope, que o teu post nos afasta do anterior e das glândulas mamárias. Ainda por cima já secas, como as da Madona.
    O que dizes sobre a actuaçâo do PS-Seguro é certeiro. Este esqueceu que o PS foi encostado à parede pela oposiçâo em peso e, sem PEC IV, só restava a troika e o seu memorandum. E Seguro nem por um minuto que ser visto colado ao anterior governo, que durante seis anos combateu. No fundo, ele está a ser perfeitamente coerente. O memorandum e a troika são tão seus quanto de Passos Coelho, mesmo na forma actual como o dito está a ser aplicado. Seguro só abre a boca porque é empurrado pela funçâo a que se candidatou e foi eleito. O PS, por esmagadora maioria, deu-lhe a voz exacta com que ele fala.
    Quanto mais tarde mudar de lider, mais pro fundo vai o PS.

  2. Há muito que se viu não ser o Seguro o lider de que o PS precisa, só lá está para
    servir de álibi a Passos Coelho, sairam do mesmo aviário não têm sequer um pou-
    co de experiência de vida real, sempre se abrigaram no partido e, foram criados no
    mundo virtual da partidocracia na sombra da A.R.!
    Não será respeitando isto, a que chamam democracia ou curvando-se perante os
    mercados que se resolvem os problemas que nos afligem! Para quando uma ver-
    dadeira proposta que respeitando o acordado com a troika, possa ser efectivamen-
    ta uma alternativa ao actual des-governo? Está mais que visto que, este regime es-
    tá podre que, a paciência dos portugueses está no limite, é urgente avançar com
    uma verdadeira reforma estrutural, credibiklizar a democracia mudando o regime
    para presidencial, reduzir o número de deputados bastam 150 em “full-time” e, não
    venham com a treta da representatividade, abrir a A.R. a deputados eleitos unino-
    minalmente que respondam aos eleitores e não aos caciques patidários!
    Claro que o PCP está a fazer pela sua vida e a defender os seus 10% de eleitores,
    óbviamente, não têm verdadeiras propostas que sejam exequíveis e sabem que
    não chegam às cadeiras do poder…compete ao PS dar a volta ao assunto!

  3. Infelizmente, J. Madeira, a paciência dos portugueses não está nos limites, pela simples razão que não tem limites! Não os viste esta tarde encher a deitar por fora o Terreiro do Paço a cantar alegremente as cantiguinhas dum tal T.Carreira? Não ouviste aquele que se diz Presidente da República elogiar todos os “partidos conscientes” que estão ao lado do governo no momento difícil que o país atravessa? Não viste o PCP armado em mau vaiando o tal presidente, quando tudo fez, numa maquiavélica política do “quanto-pior- melhor”, para entregar o poder à direita mais cretina deste mundo e do outro?

  4. «Os alemães não têm interesse em voltar ao marco»?! Pois sim, sonhem, sonhadores, que o vosso sonhar tem graça…

    Os alemães teriam todo o interesse em voltar ao marco… se os deixassem, sem declarações de guerra. Talvez convenha lembrar que a concessão de abandono da moeda autónoma foi a única maneira de fazer aceitar a reunificação alemã ao dueto Thatcher & Miterrand, ou seja, foi a maneira de se continuar a manter a Alemanha atrelada à carroça europeia, ficando, aliás, a Inglaterra de fora como habitualmente, e a França de simbólico baraço ao pescoço, armada em animal de tiro, mas bem sentadinha na carroça, como convém.

    O que é o mesmo que dizer que a simples existência de uma Alemanha auto-determinada e independente é coisa que os aldrabões desta Europa falsificada não estão dispostos a permitir. Nem que seja precisa uma nova guerra de extermínio nacional? — eis a questão que se vai pôr na hora da verdade.

  5. Caro Gungunhana M., fico sempre contente quando alguém recorda a Atlantida. Estive quase para mencionar o tsunami que deu cabo dos minóicos proveniente do mamilo de Thera, ali no Valupi, mas agora ando retirado de comentar desgraças, mesmo estas malthusianas com que nos defrontamos.

    Outrossim não esquecer lá das suas bandas – Mas Mouzinho também não regateia o elogio a Manhune: mandei-o então amarrar a uma estaca da paliçada e foi fuzilado por três brancos; não é possível morrer com mais sangue frio, altivez e verdadeira heroicidade; apenas disse sorrindo que era melhor desamarrá-lo para poder cair quando lhe dessem os tiros.

    Ignatz isso do brazuca já foi pá, agora andamos no sol nascente.

  6. Sim, essas homenagens dos fuziladores aos fuzilados caem sempre bem, especialmente às vaidades sobreviventes que gostam de brilhar a grande altura no circo dos banquetes de estado.

    Mas para melhor avaliar a personagem Mouzinho é indispensável ler o que António Ennes sobre ele escreveu em «A Guerra de África em 1895».

    Pode ser útil perceber que o kraal de Chaimite onde se acolheram os vátuas em fuga e desmoralizados se compunha de aproximadamente 25 palhotas. Eram «250 ou 300 pretos, que depois vi que estavam dentro da povoação», como escreveu o próprio Mouzinho, à cabeça da coluna atacante que tudo fez para não conceder tempo à rendição que já se encontrava praticamente assegurada, como acusa António Ennes. E a coluna compunha-se de 53 brancos (3 oficiais, 1 médico e 49 praças) + «uma pequena guarnição» + 1800 «guerras» indígenas, inimigos dos fugitivos.

    A despropósito? Nem por isso. Apenas para lembrar que para ver melhor, é melhor olhar mais do que uma vez.

  7. Já agora, para completar: a «pequena guarnição» diz respeito a militares auxiliares nativos, em número nunca bem determinado, tanto quanto eu saiba; e os «guerras» que seguiam nos flancos, de um e outro lado da coluna, e executaram o cerco ao kraal, eram guerreiros nativos aliados dos portugueses. Não é bem assim que os bardos costumam cantar, ou filmar, a história, mas é assim que ela se revela nos escritos dos protagonistas.

  8. É isso. Eu li o Ennes, só biquei para ver se nos entendíamos. Bem, eu estou uns tantos fusos mais além, o que quer dizer que vou saltar com as quatro patas para debaixo do mosquiteiro não tarda e amanhã logo vejo a ressonância do Alex.

  9. «e a França de simbólico baraço ao pescoço, armada em animal de tiro, mas bem sentadinha na carroça, como convém.»

    Ressalvo: a palavra é «canga». Baraço, neste contexto, não faz sentido.

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