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Um bom livro

Cleopatra – A Life

Cleópatra chamou aos seus filhos gémeos (de Marco António) Alexandre Hélio (Sol, em grego) e Cleópatra Selénia (Lua). Alexandre – em homenagem a Alexandre da Macedónia, do qual se considerava descendente. E Cleópatra, porque em toda a dinastia ptolemaica os nomes das mulheres distribuíam-se por quatro variantes, uma das quais esta. Apesar de ser rainha do Egipto, as divindades gregas, romanas e egípcias eram aceites com alguma facilidade, pelo menos a nível superior da pirâmide social. O livro é fascinante. O inglês magnífico. Ganhou o prémio Pulitzer deste ano.
Cleópatra e todos os outros protagonistas – Júlio César, Marco António, Octávio, generais vários – viveram nos anos imediatamente anteriores ao nosso ano zero (um), embora, evidentemente, nem suspeitassem o que isso fosse. Foram, portanto, contemporâneos de Herodes (e da temível sogra), amplamente descrito no livro – o que remete para a temática ali mais abaixo de J. Cristo pedreiro, que já devia andar por ali.
Mas o que interessa também é a história dos países do Mediterrâneo naquela altura, o império romano e o preço de o manter/alargar, as longas ausências de Roma, a inconcebível violência de tudo aquilo, a beleza de Alexandria…

Fuga de cérebros

Lemos no Jornal de Negócios:

«O gabinete do primeiro-ministro, contactado, também não quis prestar esclarecimentos. “Não fazemos comentários sobre isso. A fuga de informação não partiu de nós e não quisemos tirar vantagens dela”, sublinhou ao Negócios um assessor de Passos Coelho.»

Nos últimos 5 anos falou-se mais em “fugas de informação” do que nos últimos 100. Não haverá português nenhum que não saiba o que são. Ora, falar de fuga de informação a propósito da notícia de que o primeiro-ministro e comitiva viajaram em classe económica num voo da TAP é um rotundo disparate vindo da assessoria de Passos. Nem era suposto tal acto ser segredo, muito pelo contrário se a ideia era dar o exemplo, nem jamais poderia sê-lo: pelo menos 100 passageiros presenciaram o evento e não consta que o comandante tenha feito, lá do cockpit, um apelo ao sigilo.

Ir mais longe e enfim descansar (socratista, eu?!)

O pedido de “ajuda” externa, protelado até ao limite por José Sócrates pelas razões já conhecidas, que não vou aqui repetir, e acertadas, como em breve iremos sentir na pele, levou a que, na recente campanha eleitoral, os dois principais partidos utilizassem slogans diferentes, ou pelo menos frases marcantes, sobre essa matéria. Sócrates, lutando, mas frustrado com a falta de solidariedade europeia no combate à especulação financeira com os juros da dívida e a sentir a perda de soberania a aproximar-se, para grande gáudio dos seus opositores, optou por proclamar, chegadas as eleições, que as medidas da Troika não eram o mais importante e que, para austeridade, chegariam, como, aliás, já teria chegado o PEC IV. O programa de reformas do governo PS iria prosseguir nos restantes domínios, com as prioridades já traçadas. Não convenceu, obviamente. Ele próprio se sentia em conflito com o papel para que o empurraram.

O PSD escolheu outro slogan. Para ultrapassar a questão da efectiva perda de soberania (conhecida, mas nunca referida, claro), decidiu gritar, impante, que “iremos ainda mais longe do que as medidas da Troika”. Por um lado, era uma maneira de iludir a triste realidade e de iludir os outros. Por outro, do ponto de vista da psicologia de massas, é uma frase que resulta, porque pressupõe que a base de partida é positiva: o que nos impuseram em termos de políticas ainda não está à vista para ninguém, muito menos aplicado, não doendo nem deixando de doer; a imagem benéfica que nos levam a atribuir ao que aí vem podia, e ainda pode por mais alguns dias, ser explorada perfeitamente. Mais ou menos, é como dizer: “Vêem ali aquele solar antigo? Está em obras, mas há uns tempos que as mesmas não avançam! Observámos a sua degradação (“Aqui para nós”, segreda Relvas, “contribuímos até para ela, sabem? Bloqueámos as obras. Questão de baixar o preço de venda…” (leia-se vitória nas eleições)). A vista é deslumbrante, floresta até ao rio, jardins, fragrâncias mil. Pois dos alicerces ao telhado, vereis, tudo novo! Mas não nos ficaremos por aí! Haverá mais. Vão ficar surpreendidos.” (e nós logo a imaginar courts de ténis)

Se assim não vendessem cobertores, como os venderiam?

Bom, por estes dias, aguardamos com alguma ansiedade a tal surpresa, embora ainda não tenhamos visto sequer a mais pequena martelada no solar. Em Bruxelas, há dois dias, insistia Passos Coelho em que irão já ser tomadas, de imediato, medidas adicionais, prolongando o slogan da campanha. A tal surpresa, mais cedo do que o prometido? Excelente! Posso ir comprar as raquetes!

E quanto ao “Ir mais longe?” Segundo as teorias que animam por estes tempos o PSD, quase tudo no Estado pode ser dispensado. Os privados prestarão com muito mais eficácia e eficiência os serviços aos cidadãos e, sem a concorrência de empresas públicas, as privadas poderão enfim sentir-se livres para se organizar, criar empregos, exportar, vender cuidados de saúde, etc. Não é verdade que “empresas prósperas, trabalhadores felizes”? Pois é. Mais ou menos, dependendo dos salários, que por sua vez dependem dos que estão lá fora, sem emprego. O novo Ministro da Educação propõe mesmo que os exames nacionais sejam encomendados a privados, sem dúvida muito mais competentes e, a haver vários, mais baratos.

Ora, nessa óptica, poderiam ter começado melhor. Ir mais longe, muito mais longe, logo no governo, por exemplo. Para quê ministros e secretários de estado pagos pelo orçamento de Estado? Consideremos os vários sectores da economia – Energia, Banca, Indústria Transformadora, Agricultura – e dos serviços – Justiça, Educação, Saúde. O primeiro-ministro eleito reunia as diversas empresas de cada ramo, através das suas associações representativas. Não precisaria sequer de estar presente. O objectivo último já todos sabem qual é. Cada associação elegia então um decisor que representasse os seus interesses e definisse as políticas mais convenientes, pagava-lhe bom salário e teríamos o país governado. Revista a Constituição, o mesmo valeria para os serviços – privatizados, entregues. Restaria o ministro das Finanças para cobrar os impostos, de preferência baixos para as empresas. Passos poderia então ir dormir descansado para Massamá. Ser primeiro-ministro não é mesmo a profissão ideal?