Da competência. Modesto contributo para o conflito norte-sul

Não gostando da arrogância, do moralismo e da total injustiça com que a atual liderança alemã lida com os países do sul da Europa (não obstante as férias agradáveis passadas num deles), nada me move contra os cidadãos alemães em geral. Não têm o mínimo sentido de humor, é certo, mas há pessoas razoáveis e outras insuportáveis como em todo o lado. Já o mito de que os alemães são o paradigma do rigor e da competência é que urge ser revisto. Não falo já de questões mais abstratas como a condução da política europeia em momento de crise, onde as vistas curtas e o egoismo os levará muito provavelmente a cair com estrondo, como tem acontecido, destruindo tudo à volta. Falo de um nível mais comezinho: transportes, obras. A circulação ferroviária é frequentemente interrompida por problemas técnicos e até acidentes. Agora são as derrapagens em grandes obras. Viria a propósito dizer que é como nos países do sul, mas não vem. É bem pior.

A notícia, lida na revista Der Spiegel, refere-se ao novo aeroporto de Berlim. Não um aeroporto qualquer, em Alguidares de Baixo “am Main”, mas o futuro aeroporto Willy Brandt, o da capital do império (Brandt está inocente). Devia estar pronto em 30 de Outubro de 2011. Estamos em Julho de 2012 e, após sucessivos adiamentos, a abertura foi novamente adiada, desta vez para a primavera de 2013 ou, na opinião dos mais avisados, sine die. A razão nada tem a ver com imprevistos no terreno nem com intempéries, muito menos com atrasos dos fornecedores.

Quem usa e abusa de frases como “Só mesmo em Portugal. Não há uma única obra pública que não derrape. É um escândalo!” devia pensar em retirar-lhe a primeira. O novo aeroporto, situado fora da cidade, no Estado de Brandenburgo, é uma obra orçada em milhares de milhões de euros. O projeto de arquitetura foi entregue a Meinhard von Gerkan, um arquiteto de renome mundial, cujo ateliê constituiu um consórcio com uma empresa de engenharia e uma outra de arquitetura, de Frankfurt, responsável pela área comercial do empreendimento (nome do consórcio pg bbi).

A empresa operadora do aeroporto, na qual estão representados o Governo Federal, a cidade de Berlim e o Estado de Brandenburgo, acaba de introduzir uma queixa contra o dito consórcio pedindo uma indemnização por danos no valor de 80 milhões de euros.

O que se passou? Segundo a revista, o projeto arquitetónico (supõe-se que concebido para deslumbrar) descurou completamente os aspetos técnicos, ao ponto de ter sido praticamente impossível aos elementos da Bosch instalar coisas tão fundamentais neste tipo de obra como os sistemas elétricos e de segurança – as câmaras de videovigilância e os sistemas contra incêndios. Planos deficientes e cálculos sistematicamente errados impossibilitaram a tarefa, para grande irritação de quem era chamado a lá trabalhar. Obrigado a revê-los (o que aconteceu repetidas vezes), Gerkan e o seu consórcio cometeram novos erros, coisas incríveis como confundir tubagens, cablagens, condutas, complicando uma situação já difícil e ingerível. Não previu, por exemplo, espaço suficiente para a instalação das ditas câmaras. Intervindo nas suas funções habituais, a autoridade reguladora do setor da construção acabou a discutir exaltadamente com os arquitetos. O próprio operador do aeroporto não teve outro remédio senão denunciar o contrato com Gerkan sem pré-aviso a 23 de Maio, enviando-lhe uma dura carta, em que diz que a confiança nele enquanto principal responsável pelo projeto estava de tal maneira abalada que não lhes era simplesmente possível prosseguir a colaboração. Isto sim é um escândalo.

Não admira, portanto, que haja grande interesse na Alemanha em engenheiros, e presumivelmente arquitetos, do sul. Convinha era que pagassem o seu fabrico.
Já agora, também a nível político, não seria mau darem ouvidos ao que lhes dizem os políticos mais competentes de alguns países onde passam férias. Monti e outros. Sócrates também teria algo a dizer-lhes, aposto. Tivesse a Alemanha de financiar-se a juros de 7% e passar a pente fino as continhas e obrinhas várias dos seus diversos Länder, muito nos iríamos rir com os esqueletos que sairiam daqueles armários…

13 thoughts on “Da competência. Modesto contributo para o conflito norte-sul”

  1. Interessante.
    E que tal pedir (fora de prazo) uma indemnização ao calatrava pela estação do oriente?
    Diz a saloiada qué uma obra de arte. Admito. Mas que não serve adequadamente o fim a que se destinou. Lembro: estação de comboios de grande movimento.

  2. fica descansada que os pagará , os 7% ..tudo indica que o cerco está a ter bom resultado.
    e ainda vamos ser os últimos a rir , os do sul , peões numa guerra que não é nossa.

  3. não é só incompetência, tamém dão cartas em corrupção, mas abafam rápidamente as evidências.

  4. O Alberto Pimenta escreveu há uns anos atrás, no JL, que os alemães gostavam tanto de trabalhar como nós, com uma única diferença: como tinham de fazê-lo para ganhar a vida, procuravam fazê-lo bem. Com qualidade, rigor, transparência, ética protestante e tal…
    Eu, que conheço relativamente bem o país, posso confirmar isso. Fossem os portugueses tão honestos nas suas competências e o nosso país estaria, certamente, bem melhor.
    O exemplo do aeroporto é, de facto, incompreensível, mas – ao contrário de Portugal – uma excepção. Por exemplo: as obras no nova chancelaria alemã, construída em Berlim após a reunificação, terminaram antes do prazo de entrega e os custos previstos no orçamento ficaram abaixo do previsto. O excedente, voltou aos cofres do estado. Quantas obras conhece a Penélope em Portugal que não tenham derrapado?
    Já relativamente à Gare do Oriente, não podia estar mais de acordo: a sinalização é péssima e em letras minúsculas, no Inverno sofre-se com o frio e a chuva e, no Verão, torra-se ao sol…

  5. Há uma questão que sempre me há-de inquientar quando me falam de obras públicas. Tudo bem que há cadernos de encargos e o poder de direção da obra, mas quem faz as obras são as empresas privadas às quais as empreitadas são adjudicadas e não as públicas, ptt, são elas as primeiras responsáveis das derrapagens. Isto convém mencionar antes de apontar ao Estado todos os males do mundo.
    Quando os comentadores têm obras em casa, tb se sentem responsáveis quando estas derrapam ou atrasam?

  6. rui mota: Muitas vezes há imponderáveis e alterações das circunstâncias de partida. Parece-me que raramente houve casos em Portugal de projetos simplesmente mal concebidos. Normalmente o que não funciona é a prestação de contas e, claro, a Justiça. Só isso permite grandes despreocupações na execução das obras. No caso alemão, admira-me como é que ninguém passou os olhos naqueles planos antes de a obra avançar.

  7. Penélope:
    Parece que em Coimbra, na construção da Ponte – Europa aconteceu algo de semelhante…
    pelo menos as derrapagens já excediam os 200%!!!! certamente deu para a assessoria juridica + empreiteiros + comissões para fulanos e beltranos….

  8. Penélope,

    Os “imponderáveis” também se prevêem. As “alterações”, é menos provável, mas podem acontecer (mau planeamento, por exemplo).
    Tens de concordar que é preciso muito boa vontade para aceitar derrapagens nestas obras todas: CCB, EXPO, Ponte Vasco da Gama, Gare do Oriente, Casa da Música, Estádios do Euro, Troço do Metro na Praça do Comércio, Ponte de Coimbra, etc…etc…
    Somos bonzinhos, mas não somos parvos.
    Estamos a falar de corrupção. É tão simples como isto. Toda a gente “mama”: os arquitectos, os engenheiros, os empreiteiros, os sub-empreiteiros e toda a espécie de intermediários. É uma tradição nacional e como a tradição tem muita força…
    Claro que há derrapagens em todo lado (na Alemanha também). Mas, há mais controlo, supervisão e punição dos corruptos, caso haja indícios disso. E rapidamente (ver caso dos submarinos da Forrestaal) são identificados e punidos os culpados. Onde é que estão os corrompidos do lado de Portugal? De resto, basta consultares o índice “Transparency” do PNUD e vês logo onde há mais corrupção.
    Portanto, e com todos os seus defeitos, os alemães e os povos do Norte, em geral, são bastante mais “honestos” e transparentes, do que os povos do Sul. Estamos a falar em “médias”, claro. Lamento reconhecê-lo, mas a experiência directa com esses povos, assim o confirma.

  9. Rui Mota,

    A propósito, a “TI – Transparency International” é um negócio sujo (e chorudissímo), em que o indice não passa do produto que vendem aos governos com meios para comprarem “ranking”. A história é complexa, mas alguém um dia terá a paciência para a compilar.

    Basta dizer que o fundador – personagem tenebrosa de nacionalidade alemã que dá pelo nome de Peter Eigen – começou a carreira no Banco Mundial e acabou-a como responsável pelos “Crown Agents”… no Iraque!!!

    Quanto à “supervisão e punição dos corruptos”, no caso dos submarinos, que se saiba, nenhum corrupto foi punido. A justiça alemã limitou-se a chatear de maneira supersoft os responsáveis pelos pagamentos aos ditos (ou seja, os empregados dos corruptores)… por terem “abusado” do património da ferrostaal e metido algum ao bolso pelo caminho.

  10. doorstep

    Percebi. Os alemães têm chifres e cheiram a enxofre. Os portugueses têm asas e são inocentes. Tadinhos.

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