João Semedo, o futuro co-líder do Bloco de Esquerda, deu ontem uma entrevista a Paulo Magalhães, na TVI24. Foi um tanto deprimente. Em primeiro lugar, João Semedo nenhuma novidade representa. Pelo contrário. É mais um Louçã sem a sua acutilância. Durante largos minutos não consegue justificar de maneira minimamente convincente a liderança bicéfala. Responde com o modernismo e a inovação e a sintonia ideológica existente entre os dois e fica-se por aí. A insistência nas duas cabeças, que tornaria muito complicada a definição de um primeiro-ministro no caso de o partido ganhar umas eleições, deixa desde logo claro que o objetivo é a prossecução da prática habitual de protesto e denúncias, sem outra ambição, nem a que seria a ambição mínima de integrar um governo.
Transparece no seu discurso o recém-descoberto orgulho num partido irmão, grande tábua de salvação, já assumido por Louçã. Mas diga-se que, para quem pretende imitar o Syriza, a imitação é deficiente e a estratégia muito pouco ambiciosa. Ao que se sabe, Tsipras não partilha a “coordenação” com ninguém. Além disso, é por demais evidente que tentar repetir em Portugal o sucesso do Syriza, como se a realidade social e política de Portugal e da Grécia fosse idêntica, é não só pouco inteligente, porque artificial, como também sintoma de vazio e desorientação. Se por mais não fosse, o PS não se encontra de modo algum na posição do PASOK.
Depois, o radicalismo, que, francamente, não assenta nada bem a Semedo, mas que, como líder designado por Louçã, terá de assumir. Louçã caiu num caldeirão de radical-trotskismo quando tinha 14 anos e a impregnação foi profunda. Já não lhe passa. Mas Semedo? Semedo até abandonou o PCP em 2002! Diz ele que a clivagem entre a esquerda e a direita está no posicionamento em relação à Troika. Entende que (e diz isto sem se rir), quem romper com a Troika é de esquerda, quem não romper é de direita. E o mundo é simples e a vida sorri. Que um jovem Tsipras diga tais coisas e acrescente que quer manter o euro compreende-se. Que um homem da idade e com o aspeto certinho de Semedo as diga já soa algo patético. Não lhe perguntou o jornalista, e foi pena, onde iria o Bloco financiar-se para que o país sobrevivesse e onde começariam e acabariam as nacionalizações.
Muita gente do Bloco sonha ainda com a revolução, aquela em que se pega em armas e se desfraldam bandeiras ao vento para a posteridade e uma imaginária fotografia. Na realidade, o agrupamento pouca representatividade tem hoje no panorama eleitoral. A importância que é dada a estas cabeças alucinadas decorre apenas e tão só da sua utilidade para a direita, dado o objetivo declarado de cindir o PS. A oportunidade é, evidentemente, aproveitada e o tempo de antena preenchido ora com acusações a quem governa ora com um discurso justicialista, moralista e de boas intenções vagas, cujo detalhe nunca ninguém deseja aprofundar, por calculismo ou compaixão.
