Senhor Klaus Regling: “Nem a Alemanha”

Em entrevista a publicar amanhã, o alemão que preside ao FEEF (Fundo Europeu de Estabilidade Financeira) afirma que, sem o Fundo, Portugal e a Irlanda já não estariam na zona euro. OK, Klaus, não presides ao fundo de promoção da apanha da azeitona e a tua função é importante. Vida longa a Klaus Regling!

Mas, embora desconhecendo o contexto em que tais palavras foram proferidas, não posso deixar de observar que este tipo de afirmações espera normalmente uma resposta dos supostos prevaricadores do género – “Eternamente agradecidos pela bondade de Vossa Excelência. Muito obrigados. Bem haja. Deus lhe pague”.

Ora, todos sabemos, olhando para o caso da Grécia e para as hesitações e receios dos dirigentes europeus, com destaque para os alemães, no que respeita à saída do país da zona euro, que a criação do referido fundo e a ajuda aos países vítimas da especulação visa sobretudo evitar males maiores (como os custos de uma crise humanitária ao estilo de África, ou, no caso concreto da Grécia, a sua perda e a dos Balcãs para a esfera russa), o efeito dominó e uma descida (já estudada) do PIB alemão e de outros países do Norte em largos pontos percentuais. Não visa propriamente a prática da caridade e muito menos da solidariedade. Assim sendo, e a ser assim, Regling prova ser mais um que está convencido que fala para mentecaptos e que perde facilmente, como alguns compatriotas seus, oportunidades para estar calado. Não ajuda. Crispa.

É muito provável que os dois países já não se aguentassem nem aguentassem o euro (moeda forte) sem os empréstimos desse fundo (presumo que a Grécia, para este senhor, pelo menos na sua cabeça, já saiu). Mas a Alemanha também já não estaria nada bem e possivelmente nem euro haveria. Poupem-nos.

4 thoughts on “Senhor Klaus Regling: “Nem a Alemanha””

  1. o que eu sinto é admiração pelos autores ACTUAIS do blogue, pela perspicácia, paciência, resiliência e resistência e inteligência. Algum destes factores me falhou, mas continuo a acompanhar, apesar de achar que há desvios do essencial…mas o essencia é relativo, depende da perspectiva de cada um. O inevitável acontecerá depois de Outubro. E deixo um apontamento para lembrar ao blogue que talvez fosse bom voltar a ter um centímetro quadrado para outras formas de contestação. A propósito, alguém assistiu ao momento aflitivamente indescritivel do espectáculo do Jack White no Coliseu na sexta-feira? Asseguro-vos que vale 1000 leitutas de jornais. 3000 visitas aos telejornais na procura da essência, ou raio que parta que peocuramos. E há quem não viveu isso, não se viveu uma parte importante do que a vida nos disponibilizou. Não está disponível no youtube em condições. Vai uma derivação, caramba, amaricana, ajuda aqui, caralho.
    http://www.youtube.com/watch?feature=endscreen&NR=1&v=YAEckoLx3LM
    http://www.youtube.com/watch?v=s92smjLq_38

  2. Para além de comungar do “espírito do texto”, acrescento um pequeno apontamento:

    (…)ou, no caso concreto da Grécia, a sua perda e a dos Balcãs para a esfera russa.

    Certamente, mas há um dado mais importante e que explica todo o “frenesim” da política imposta na Grécia: o petróleo e o gás. Todos sabemos quão importantes são no gizar na geo-estratégica internacional. Esta gente é movida a dinheiro e a poder. Não dão ponto sem nó, e isto é evidente quando deparamos com políticas congenitamente erradas. Há um propósito, e está a ser cumprido. Sim, os objectivos dos memorandos, troika, neoliberalizadores e evangelistas do mercado estão a promover o efeito esperado. Isto ultrapassa governos, mas usando-os, muitas vezes com a devoção acrítica de quem acredita que há uma mão escondida que magnanimamente controla tudo. Esqueçam os défices, os juros, as políticas de “desenvolvimento”.Repito, o programa está a ser cumprido, exemplarmente. Quem compactuar está a promovê-lo. Urge resistir e romper.

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