Os limites das lentidões

Não simpatizo com Mariano Rajoy. Preside a um governo de direita em que pontuam personagens ligados ao setor mais conservador da Igreja católica e herdeiros do franquismo, que, em matéria social, por exemplo, querem fazer inverter certas políticas relativas às mulheres. A sua figura também não suscita qualquer empatia e personifica o oposto de um político mobilizador. Mas compreendo o homem e a sua reação perante o aperto em que o país se encontra atualmente: protela por todos os meios um pedido oficial de resgate, nos termos por nós amargamente conhecidos, e joga os seus trunfos.

Plenamente consciente do peso da Espanha na moeda única, começou por um desafiante, embora desajeitado, “mãos ao ar senão eu mato-me” (numa expressão feliz de Braga de Macedo), dirigido à Alemanha e às instituições europeias, prosseguiu depois para negociações bem sucedidas sobre uma ajuda exclusivamente à banca, que acelerou a criação de uma união bancária a nível europeu, e, apostado em que o BCE, com um italiano na presidência, aceda a desafiar o Bundesbank e Merkel em defesa da própria Itália, aguarda o resultado das pressões, demográficas e diplomáticas e outras (apoio de Hollande), que lhe pouparão a humilhação da vinda da tenebrosa Troika (sim, só alucinados como Passos, Mira Amaral ou Gaspar a veem como uma brisa retemperadora com poderes redentores). O que é certo é que não só as yields pedidas pela compra de dívida espanhola, embora altas, deixaram de subir, como também Mario Draghi já ousou publicar anteontem no jornal alemão Die Zeit um artigo expondo claramente e sem temor os seus pontos de vista, discordantes dos do Banco Central alemão, sobre o papel do BCE na atual crise. Não deixando de lembrar, como convém, os benefícios para a própria Alemanha de uma mudança na estrutura do euro (“A new architecture for the euro area is desirable to create sustained prosperity for all euro area countries, and especially for Germany. The root of Germany’s success is its deep integration into the European and world economies. To continue to prosper, Germany needs to remain an anchor of a strong currency, at the centre of a zone of monetary stability and in a dynamic and competitive euro area economy. Only a stronger economic and monetary union can provide this.”), Draghi defende, entre as linhas, a intervenção do BCE nos mercados da dívida de modo a aliviar a pressão sobre alguns países, embora apelide a medida de excecional. Lembra os objetivos de paz e prosperidade que estão na origem do projeto europeu. Aponta os defeitos da criação de uma moeda sem Estado e a sua relação com o desejo de soberania dos diversos países e, desejando embora uma maior integração económica, entende não ser altura para decisões forçadas de federalismo, como parece pretender Angela Merkel com a ideia de um novo Tratado, nem, ao invés, um recuo ou abandono do projeto europeu com a exclusão de certos países. Eis o excerto final: “Yet it should be understood that fulfilling our mandate sometimes requires us to go beyond standard monetary policy tools. When markets are fragmented or influenced by irrational fears, our monetary policy signals do not reach citizens evenly across the euro area. We have to fix such blockages to ensure a single monetary policy and therefore price stability for all euro area citizens. This may at times require exceptional measures. But this is our responsibility as the central bank of the euro area as a whole.
(…) The banknotes that we issue bear the European flag and are a powerful symbol of European identity.
Those who want to go back to the past misunderstand the significance of the euro. Those who claim only a full federation can be sustainable set the bar too high. What we need is a gradual and structured effort to complete EMU. This would finally give the euro the stable foundations it deserves. It would fully achieve the ultimate goals for which the Union and the euro were founded: stability, prosperity and peace. We know this is what the people in Europe, and in Germany, aspire to.”

Um passo importante para o isolamento da Alemanha na sua ortodoxia austeritária e para a revisão do papel do BCE? É cedo para o sabermos, mas o desafio está lançado. E, hoje, já o presidente do banco central alemão ameaça demitir-se com fundamento nas discordâncias.(Este senhor, Weidmann, é o que considerou há dias que o programa de compra de dívida pública pelo BCE poderá ser “viciante como uma droga”).

O problema europeu não vai ser fácil de resolver, atendendo à clivagem a que já se chegou entre o Norte e o Sul, não só no plano económico como também no mental, graças ao moralismo inaceitável envolvido, mas algo mexe. Esperemos que as palavras de Mario Draghi não sejam apenas uma varejeira de fim de verão, que sobressaltou, agitou, mas teve vida efémera. Pode ser que em setembro tudo regresse à “disciplina” e aos ditames alemães, que Draghi volte a meter a viola no saco (linguagem passista), como já tem acontecido, que a Espanha peça mesmo o resgate e que a Itália se lhe siga (apesar dos avisos de Monti), perante a total indiferença do governo alemão, enquanto engordam os seus bancos com os depósitos dos continentais receosos e inseguros e o país se financia a custo zero. Mas não creio. A dimensão da Espanha e do seu vizinho do Mediterâneo deve fazer alguma diferença.

O que faz e pretende Rajoy não é em nada diferente do que fez e pretendia Sócrates há um ano e meio: que a União Europeia defendesse a moeda única da especulação e que os países procedessem aos ajustamentos gradualmente e com tempo de modo a não matarem as economias. Mas a Alemanha entrou em pânico com as consequências da crise nos seus bancos. E Sócrates liderava um governo minoritário e o único consenso político que então existia era entre as forças da oposição e no sentido de deitarem abaixo o governo e abrirem rapidamente caminho à ocupação. Conseguiram-no e, não sendo Portugal um ator de peso na UE, o vexame começou e aí está para ficar. E a economia moribunda.

Apesar da agonia para que se dirige também a Espanha, Rajoy terá provavelmente mais sorte. Se dúvidas ainda houvesse, Espanha e Itália mostram claramente que a solução para o agudizar da crise na zona euro passa forçosamente pela Europa e mais especificamente pelo Banco Central Europeu. Por cá, a ânsia da ida ao pote, a prática da distribuição do pote e o comportamento ultra-reverencial em relação a Merkel já conseguiram destruir muito mais do que o decorrente das imposições dos credores. Mais do que em Espanha e na Itália, países avessos ao suicídio coletivo.

Os circuitos neuronais de Vítor Gaspar ficarão sem dúvida seriamente perturbados com um eventual alívio das taxas de juros da dívida soberana, pois a sua missão foi desenhada para um contexto preciso e não lhe conhecemos apetência por desvios do modelo. Imaginamos de imediato uma grande desorientação por ter de olhar para a economia. Um país não será provavelmente irrecuperável, e esse é o lado menos mau da tragédia, mas certas cabeças são-no certamente, pelo que o seu lugar ideal será longe daqui, onde possam, com calma e lentidão, estudar novos modelos para legar às futuras gerações.

4 thoughts on “Os limites das lentidões”

  1. Penople.acertou na mouche.os meus prabens pelo seu post.cá o resgate “era” a salvaçao do pais.já não havia dinheiro para pagar salarios,diziam os pulhas e os seus escrivas.Rajoy,luta e bem para o evitar, e nisso está acompanhado pelos partidos de esquerda na oposição.gente com ética digo eu.os “fatidicos” 7% de juros já foram ultrapassados num determinado momento,mas isso não esmoreceu a vontade de lutar.podem não o evitar,mas fizeram tudo, para que tal não acontecesse.A direita em portugal, pelo contrario, lutou para que o fmi e bce cá entrasse ,para melhor levar a cabo a sua agenda ultraliberal,com a ajuda preciosa da” esquerda” que portugal despreza,dando-lhes 15% para irem pregar para outra freguesia.

  2. Sugestiva reflexão. Mas também é verdade, lapalassiana, que a União Europeia e sua Zona Euro, por corresponderem a um modelo recentíssimo que se funda para a sua legitimidade e eficácia nas mais avançadas democracias da História, teria e terá sempre de passar por crises que porão em risco a sua viabilidade. A complexidade da globalização, e seus efeitos políticos e ecológicos, assim o dita. A economia passou a ser uma das ciências do caos, ao contrário do sonho das suas maiores figuras ao longo dos tempos.

  3. Os equilíbrios são o resultado de uma harmonia, deixando de existir essa harmonia o resultado é sabido.
    A Alemanha e alguns (felizmente parece que cada vez menos) países do Norte querem apenas receber os efeitos benéficos resultante do mecessário equilíbrio europeu o que não pode acontecer durante muito tempo pois quando alguém ganha terá de haver sempre quem perca alguma coisa e neste momento estão os países do sul a pagar a vitalidade do norte, mas isso não durará eternamente até porque os recursos e o sofrimento levam a que a depreciação social levará inevitavelmente a uma situação em que ninguém ficará a ganhar, todos perderemos (os europeus, principalmente) no fim.
    Rajoy tenta aqui, não a salvação de Espanha, mas a salvação da Europa como a conhecemos, mesmo que não seja esse o seu interesse principal, pois para ele a Espanha vem primeiro.

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