Visto da América, lido de cá

Apinocados, prontos para sair de casa, mas sem sítio onde ir dançar – diz Paul Krugman dos investidores (tradução muito livre).

Porque se financiam alguns países a um custo negativo? Porque, com meio mundo em contenção, os investidores não têm onde investir com garantias mínimas de vendas.

Estados Unidos (-0,6%), Alemanha, Bélgica e Holanda são exemplos de países a quem pagam para lhes guardarem as poupanças. Há dinheiro. Algumas empresas têm os cofres cheios. Os paraísos fiscais estão a abarrotar de depósitos. E então, porque não investem? E mais do que isso, porque têm alguns países de ser asfixiados quase até à morte?

«So what is going on? The main answer is that this is what happens when you have a “deleveraging shock,” in which everyone is trying to pay down debt at the same time. Household borrowing has plunged; businesses are sitting on cash because there’s no reason to expand capacity when the sales aren’t there; and the result is that investors are all dressed up with nowhere to go, or rather no place to put their money. So they’re buying government debt, even at very low returns, for lack of alternatives. Moreover, by making money available so cheaply, they are in effect begging governments to issue more debt.»

Krugman é crítico da política de austeridade seguida na Europa. Este artigo gira principalmente em torno da situação dos Estados Unidos, mas não deixa de referir a situação europeia e de classificar a adesão da Espanha, ou da Grécia, à moeda única de erro que se está a pagar caro.

Portugal é um dos países que supostamente está a tentar pagar a dívida, fadado a não o conseguir, e onde é proibido contrair empréstimos para investimentos na economia e no desenvolvimento. Tudo está, portanto, a degradar-se. A Troika assim o impõe. Antes dela, os investidores/especuladores assim o impuseram com as yields incomportáveis. Caso decidíssemos dar um valente piparote na Troika e nos troikos que os representam e, ainda no euro, fôssemos ao mercado, não nos emprestariam dinheiro a juros aceitáveis.

Há algo de muito absurdo na economia ocidental hoje em dia. Uns são forçados a empobrecer, outros não têm onde investir porque os pobres não compram e, entretanto, o dinheiro é depositado, se não nos paraísos fiscais, nas dívidas de alguns países, que agradecem. Agradecem e continuam a impor a outros uma austeridade assassina, justamente porque, como se demonstrou, lhes interessa. Um interesse muito acima de zero, ao contrário dos juros que (não) pagam, e que tem tendência a prolongar-se. E assim não saímos do impasse desta história hipócrita.

As ameaças da Moody’s pregam um susto apenas relativo à Alemanha, se os investidores continuarem a elegê-la para cofre-forte. O que parece estar a acontecer.

Não é do interesse dos espanhóis o país entrar em bancarrota. Mas poderia ser a única maneira de alguma coisa mudar na Europa. Começo a ter as minhas dúvidas. O pior que pode acontecer e que provavelmente acontecerá é a Espanha pedir um resgate, este ser-lhe concedido e o país dispor-se a percorrer o calvário dos outros três, ficando tudo o resto na mesma. A bem do Reich.

5 thoughts on “Visto da América, lido de cá”

  1. Estranho que escrevas isso Penélope, precisamente no dia em que
    a Alemanha, derrotada pela realidade, bate em retirada, talvez para
    se entrincheirar nalgum bunker do BCE, para fútilmente resistir
    ao cerco dessa mesma realidade, ou talvez seja mesmo a
    debandada caótica final.

    Senão vejamos:
    http://www.guardian.co.uk/business/2012/jul/27/debt-crisis-emu

    O cerco aperta-se:
    09:29 BST “Mario Monti’s office has just announced that the Italian PM will meet with French president Francois Hollande next Tuesday. No word of what’s on the agenda yet – will update if we hear more.”

    As divisões do Bundesbank tentam uma manobra de contra-ataque
    esperando algum apoio na frente política:
    “10:20 BST The Bundesbank has popped the Draghi Rally!
    Germany’s central bank has given a strong indication in the last few minutes that it is not impressed by Mario Draghi’s comments yesterday – particularly the implication that the ECB might start buying Spanish or Italian government bonds, or even launching a full-scale quantitative easing package.
    A Bundesbank spokesman described the idea of the ECB buying government bonds as “problematic”, as it creates “false incentives” (Dow Jones reports). It would apparently be “unproblematic” for the EFSF bailout fund to buy government bonds.
    The Bundesbank has also reiterated that it opposes the notion of giving the European Stability Mechanism a banking licence (which would allow to increase its firepower by leveraging its assets via the ECB).”

    A chefias políticas alemãs mostram-se
    completamente paralizadas:
    “10:48 BST Germany’s finance minister Wolfgang Schaeuble will apparently be issuing a statement on the general euro situation today, a spokeswoman has said.
    According to Reuters, the German government’s position on euro area instruments – presumably the ECB and the bailout funds – remains unchanged. So what Shaeuble plans to say is unclear.”

    Oops! O Bundesbank pode esperar sentado pelos reforços…
    A generala foi capturada pelo inimigo!
    “10:59 BST German chancellor Angela Merkel and French president Francois Hollande are set to discuss the ECB plan today, according to Le Monde.
    The paper also says the ECB and the EFSF bailout fund are preparing co-ordinated action to support Spain and Italy. Le Monde says the EFSF could be used to buy Spanish and Italian debt on the market, with this function taken over by the replacement bailout fund, the ESM, when it comes into force.”

    Rendição?
    “11:35 BST Just in – François Hollande and Angela Merkel are to hold a telephone call at noon BST (so in around 30mins time) to discuss the decisions made at the EU Summit at the end of June.”

    Há quem perceba exactamente
    o que se está a passar:
    “First the Bundesbank opposes Mario Draghi (see 10.20am); then Le Monde reports that the ECB and the EFSF are planning ‘co-ordinated action’ (see 10.59am); and now the leaders of France and Germany are about to discuss the crisis.”

    É uma rendição, mas em termos
    não excessivamente humilhantes:
    “12:22 BST Interesting! Wolfgang Schäuble, German finance minister has welcomed Mario Draghi’s pledge yesterday to do everything necessary to preserve the eurozone.
    Schäuble cautioned, though, that the European Central Bank should not take unilateral action, saying:
    The precondition is that politicians also take and implement the necessary measures to overcome the financial and confidence crisis.”

    E aqui está o que destruiu as divisões Panzer,
    qual batalha de Kursk:
    “13:29 BST SPAIN “DISCUSSED €300bn BAILOUT” – REUTERS
    Another interesting newsflash, this time out of Brussels, where Reuters are reporting Spain’s finance minister discussed the possibility of a €300bn bailout with his German counterpart earlier this week.
    According to an “unnamed eurozone official”, economy minister Luis de Guindos broached the subject when he met with Wolfgang Schäuble on Tuesday night.
    “De Guindos was talking about 300 billion euros for a full program, but Germany was not comfortable with the idea of a bailout now,” the official told Reuters.”

    Finalmente entrou na cabeça dos alemães que a factura de continuar no presente rumo será muito maior do que permitir ao BCE uma maior intervençao nos mercados de dívida.

  2. Correcção ao post anterior (cut & paste mal feito):

    Falta isto

    Há quem perceba exactamente
    o que se está a passar:
    “11:47 BST It rather appears that there is a battle of wills taking place in the eurozone this morning. First the Bundesbank opposes Mario Draghi (see 10.20am); then Le Monde reports that the ECB and the EFSF are planning ‘co-ordinated action’ (see 10.59am); and now the leaders of France and Germany are about to discuss the crisis.”

  3. Kid Karocho: Sim, mas nada disso contraria o que eu disse. Não nego que haja agitação nas hostes. Ela é evidente (e obrigada pelo excelente relato!). Os alemães vão resistir até poderem. Mas até ontem nenhuma das suas condições de financiamento tinha sido afetada. Se puderem manter tudo como até agora, mesmo “socorrendo” a Espanha, é o que farão. Aliás, basta ver o que continuam a dizer sobre o BCE.

  4. Concordo que “os alemães vão resistir até poderem”, mas neste momento estão reduzidos a resistir sobre o que são as competências do BCE.

    Os pronunciamentos do tipo: “por cima do meu cadáver” de há umas semanas atrás
    acabaram, porque “de repente” a própria consequência lógica das políticas alemãs
    (o “socorro” a Espanha) emerge com uma factura demasiado alta.

    Esta factura inclui, em cenários bem prováveis, a própria desintegração do €,
    uma consequência catastrófica para os alemães, ao contrário do que acontece
    na alternativa intervenção do BCE nos mercados de dívida.
    Daí a presente paralisia / hesitação do governo Alemão.

    Aliás, a “teimosia” do governo Espanhol na recusa a considerar um possível “resgate”
    tem justamente origem na percepção de que os alemães não seriam suficientemente
    estúpidos para insistir num plano que acabaria por destruir o €.
    A ver vamos se essa percepção é correcta e quais são os limites (se os há)
    da estupidez alemã…

  5. Kid Karocho: Já agora, acrescento que estou curiosa para ver o tratamento dispensado à Espanha. Em caso de privilégio em relação a nós, vai ser divertido ver a reação dos nossos pategos… Um recuo grande da Alemanha no rumo atual deve deixá-los perdidos.

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