Vasquinho, és lixado

Vasco Pulido Valente, num exercício de puro desfastio típico da silly season, pegou numa frase rasca, rasca no estilo e no intento, e divertiu-se a imaginar que continuava o grande alquimista da nossa praça, conseguindo transformar merda em ouro sempre que lhe desse na veneta. Quem é que foi logo a correr beijar-lhe os pés? O Zé Manel, selando o episódio com o seu brilho intelectual e a sua autoridade moral.

Acontece que Pulido Valente talvez seja o maior especialista vivo em PSDismo. Como prova trago um texto com 25 anos. O que nele se encontra pode sem dificuldade ser comparado com o PSD actual, o tal que Passos estaria a pôr na ordem entre uns aperitivos e a chegada dos bifes. Acima e antes de tudo, o texto é uma cápsula do tempo que permite compreender o fenómeno Cavaco e o percurso de todas as suas vedetas. Na pena ultra-lúcida do escriba, o filho de Boliqueime era o testa-de-ferro ideal para manter a direita dos privilégios no poder, aliando o simbolismo da matriz ditatorial que Portugal tinha celebrado ao longo do século XX com uma retórica modernista de sobre-humana competência técnica.

Mas sim, pois, nem o Vasquinho conseguiria antecipar o BPN, a “Inventona de Belém” e a procissão de misérias políticas que Cavaco – sem qualquer mistério, apenas a mais soberba opacidade – despeja numa sociedade que tem exactamente o Presidente da República que merece.

O MISTÉRIO DE CAVACO

Uma pessoa senta-se, na sede dos tempos de antena do PS, com todos os discursos, entrevistas e declarações de Cavaco Silva desde 1980. Todos. O objectivo do exercício, praticado num espírito de absoluta malevolência, consiste em descobrir coisas comprometedoras: gaffes, contradições, sinais inquietantes de reaccionarismo. Ao fim de uma tarde inteira, nada. Não vão acreditar: nada por nada ser. Seis ou sete horas de convivência com a alma mais desértica que o Ocidente produziu e chega-se ao fim de mãos vazias. O homem é certamente uma invenção. Não pode existir. O homem diz o que faz e faz o que diz. Diz que tem princípios e tem princípios. Diz que é social-democrata e é social-democrata. Pede rigor e fala com excruciante rigor. Nunca se engana. A sério, nunca se engana. Ele bem preveniu!

E, no entanto, não se gosta dele. Pelo contrário, gosta-se cada vez menos dele. Acaba-se mesmo com um sentimento muito próximo do horror. Porquê? Não há razões aparentes. As ideias são simpáticas e sensatas, os propósitos impecáveis, a competência óbvia, a vontade impressionante. Concorda-se bastante mais do que se discorda e às vezes até se concorda com prazer (exemplo: “O Estado não é Deus e o mercado não é salvador”). Que mal, então, nos faz a criatura? É um mistério.

Na sua conhecida superfície, o dr. Aníbal António Cavaco Silva não é um mistério. Talvez não seja mau lembrar os seus antepassados: o “filho do tendeiro de Algodres”, António Bernardo da Costa Cabral; o pequeno proprietário de Alcaide João Franco Castelo Branco; o feitor de Santa Comba, António de Oliveira Salazar; o camponês de Alcains, António dos Santos Ramalho Eanes. E, na linha colateral, outro pequeno proprietário de Alcaide, Francisco Pinto da Cunha Leal e o “menino pobre” Marcello José das Neves Alves Caetano. Donde vieram eles? Donde este veio: da notória incapacidade que tem a classe dominante portuguesa de gerar os seus próprios dirigentes. O melhor que se consegue espremer do mundo dos “colunáveis” da OLÁ! é Francisco Balsemão. Foi sempre historicamente assim. Entregue a si mesma a Direita não se salva. Pior: suicida-se. Precisa por isso de arranjar quem a meta na ordem e a conserve nos seus privilégios. De um “preboste”, como chamavam a Cabral, magro como ele, ou como Franco, ou como o jovem Salazar, ou como Cavaco; magro e esfomeado, com a sua fome, e com a fome social de uma pequena burguesia em ascensão. Duro de humilhações e começos difíceis, penetrado da segurança de quem sobreviveu à sua custa, enérgico por hábito e regra moral.

O “cavaquismo”, como o “cabralismo”, é um casamento de conveniência entre dois desprezos. O desprezo que a classe dominante tem pelo arrivista de quem depende e o desprezo que o arrivista tem pela gente fraca, que protege e tutela. Não há por ali amor perdido. Há a necessidade pela qual os velhos interesses aceitam admitir à festa, numa quase igualdade, os instrumentos que não podem dispensar. Cavaco, como Cabral, é o chefe e o símbolo. Por detrás dele, acotovela-se a torpe tropa dos acólitos e, por detrás desta ainda, a inumerável multidão dos que estão a subir ou esperam subir na vida.

Mas evitemos ser reaccionários. “Subir na vida” é um direito que constitucionalmente lhes assiste e não é coisa má para o país. A sociedade fuida do pós25 de Abril tinha de os trazer à tona: e admitamos, sem excessiva repugnância. que o merecem. Eles e o seu chefe proclamam que são, e sem qualquer dúvida são, os melhores. Os melhores nas empresas, no funcionalismo, nas universidades, na política, na cultura. Os melhores que há. Com boa boca, esperteza e vigor tomaram conta da feira. O mundo é deles e o resto, como eles dizem, é o Portugal dos coitadinhos.

Nada de misterioso, portanto. Claro e simples como as razões que levaram esta nova classe média, filha da revolução e da democracia, a escolher o PPD (aliás, PSD) para seu partido. A Esquerda (o PS e o PC) têm um passado, o CDS é o passado. O PPD nem é o passado nem tem um passado. À imagem e semelhança da maioria dos seus dirigentes e notáveis, nasceu ontem ou, pelo menos, anteontem. Não se definiu. Serve para tudo, para o melhor e para o pior: normalmente, para o pior.

O PPD pretende-se “social-democrata” e aqui começam de facto os problemas. Porque naquela tábua rasa existe um único valor prático: o poder, ou seja, o sucesso. Feito pelo sucesso, ou querendo vir a ser feito pelo sucesso, o público do PPD só respeita o sucesso. Em 78 e 79, os príncipes de hoje ficaram em casa e desligaram o telefone. Muitos aderiram ao partido já no Conselho de Ministros. No PPD nasceram algumas das mais horríveis obsessões da política portuguesa: a obsessão com “ganhar”, como se “ganhar” fosse por si uma virtude, e a obsessão com a autoridade, como se a autoridade não exigisse justificação. O verdadeiro ethos do PPD é o ethos do arrivista. Quanto ao mais, desembaraçado de tradições, sem nenhum vínculo social seguro, recebe quem o ajuda e ajuda quem o recebe.

Hoje reúne a Direita arcaica, que lá no fundo continua em guerra com o regime, a Direita dita “civilizada” dos empresários “dinâmicos”, das profissões e dos quadros “qualificados”, que se acham com um divino direito à proeminência e são PPD como poderiam ser socialistas, liberais, democrata-cristãos ou qualquer outra coisa que lhes conviesse.

Direita? Mas não é Cavaco um social-democrata? Direita, sim. Onde se meteu a Direita senão no PPD? No CDS não está. Pelo PS andará alguma, embora pouca. Se Portugal não se tornou de repente numa espécie de ilha dos amores e a Direita não desapareceu por graça especial do Altíssimo, o PPD é necessariamente a Direita.

Para esconder esta circunstância infeliz usaram-se dois métodos. Meia dúzia de intelectuais reconvertidos aboliram a luta de classes e declararam extinta a distinção entre Esquerda e Direita. Tirando o sossego que presumivelmente isso lhes trouxe, os resultados não foram prometedores. Cavaco seguiu outro caminho. Sem se dar ao trabalho de negar a evidência, proclamou-se social-democrata e de Esquerda moderna, plantando as tendas no campo do inimigo. Tão bem ou tão mal as plantou que pôs o inimigo em completa desordem. Basta ler o Expresso para verificar.

Convém compreender que o homem não é um oportunista e muito menos um hipócrita. É a criatura de um imperativo estratégico. Vivemos numa democracia e o poder vem do voto. Ora em Portugal, um país pobre, com uma classe média apesar de tudo fraca, se a Direita se mostrasse no esplendor da sua nudez, não teria votos. Cavaco é o manto (nada diáfano) que a cobre. O rosto humano da reacção, que lhe arranja votos.

Há precedentes. Costa Cabral começou a sua carreira na conservação pelo centro-esquerda. João Franco queria “caçar no mesmo terreno que os republicanos”. Ambos. como Cavaco, perturbaram as “consciências” do tempo. Não era aquela uma solução possível? O próprio João Chagas, que não passava por sentimental, se apanhou um belo dia a admirar Franco. Nem isto, nem a devoção que Cavaco suscita nos mais inesperados corações, se consegue mentindo.

Cavaco acredita. Se houvesse nele uma fenda, a sombra de uma dúvida, não seria capaz de manter a ficção de que o PSD é, como ele, social-democrata. Não seria capaz de agir e falar, como um social-democrata, sabendo que era, como é, o chefe da Direita. Escrevi sobre ele, em 1982, que as suas relações com a realidade me pareciam vagas e intermitentes. O que há altura imaginei que fosse uma fraqueza. Erro meu. Não ver a realidade, não dar pelo baixo mundo que se move a seus pés, é precisamente o que funda a sua terrível coerência, o seu sufocante rigor. E também, sobretudo, esse poder de convicção que arrastou atrás dele, tontos e beatos, alguns milhões de portuigueses.

Como disse no princípio, Cavaco inspira-me um sentimento muito próximo do horror. Um homem como ele não pode existir. E não existe: a humanidade começa na dúvida e ele não tem dúvidas. Mas não o odeio, longe disso, e descubro-me mesmo por ele uma certa compaixão. Mais dia menos dia, a realidade, que até aqui a sorte lhe permitiu ignorar, levantará a sua feia cabeça e encontrá-lo-á desarmado. Não é um destino invejável.

Semanário, 27 de Junho de 1987

5 thoughts on “Vasquinho, és lixado”

  1. “quando deus subiu aos céus, disse a todos os mortais: lixem-se vocês agora na terra que a mim já não me lixam mais”, retirado do discurso de pedro aos apóstulos, na última ceia, em s. bento. o papa valente já se pronúnciou, agora falta a interpretação da aura miguel.

  2. e tb tem dito mal do PPC… não estou a ver em que é que isso lhe retira razão em biblicamente estupidos , toda a gente sabe que um dos problemas desta “democracia representativa ” é que os “representantes” governam (endividam-nos) para chegar e ficar no pote e que se estão lixando para o país , que ficou neste triste estado.
    não acredito é que esteja a falar a sério.. nem os cromos parasitas da assembleia o permitiam : olha se inicia uma escola de governar para o país e não para os partidos ?

  3. eh pá, o vasco está velho. parece que já não sai de casa, apesar de continuar a ser investigador coordenador (ok, ostenta o título) no ics. basta lembrar quando vendia os seus bocejos como comentário político na tasca da coxa da mmguedes. ainda por cima ouvi dizer que a constança o deixou para ir ter com o ribeiro ferreira (podem imaginar como ele se encontrar). mas vocês aí no mainstream lisboeta devem saber disso.

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