Tiro à demagogia

1. Madeira e continente. É muito comum ouvir-se, dos direitolas e não só, que Portugal não se pode queixar da postura da Alemanha em relação a nós e aos países do sul em geral, quando, em relação à Madeira, nós próprios nos comportamos agora de igual maneira e não compreenderíamos que assim não fosse. Para quem vende tal hipotética semelhança, pergunto: qual o papel do continente na definição das políticas da Madeira nos últimos 38 anos? Acaso o Governo da República lhes impôs, por exemplo, a destruição de culturas ou das pescas? Haveria reuniões regulares, por exemplo, conselhos insulo-metropolitanos, para decidir das ajudas, das prioridades ou, mais recentemente, das formas de combate à crise internacional? Uma mera miniatura de um PEC que fosse? Quais as contrapartidas para o continente dos fundos nacionais atribuídos? Em que medida se harmonizavam as práticas do arquipélago com as do continente, como acontecia entre este e a Europa? É ou não é a primeira vez que o continente está a ser responsabilizado pelas finanças da Madeira? A Madeira recebia ou não fundos europeus como região ultraperiférica? Qual a semelhança entre o escrutínio feito às contas da República e o feito às da Madeira, região jardinistamente autónoma? Quem, no continente, escondeu de Bruxelas faturas no valor de 8000 M€?

2. Europa. Schäuble, ministro das Finanças alemão, anda a dizer que deviam ser transferidas mais competências, ou seja, mais poder para Bruxelas. Eis o que diz: “Até agora, os Estados-membros da Europa tiveram quase sempre a última palavra. Isso não pode continuar”. Última palavra, só a deles, claro. Compreendemos porquê. Fartos de que lhes seja colocada nos ombros toda a responsabilidade pela resolução da crise do euro (chama-se a isso os ossos do ofício de quem decide de facto), os alemães, também para não serem acusados de serem os maus da fita e os donos da Europa, querem a aparência de que são outros a decidir e, sobretudo, que não é apenas o dinheiro deles que entra. Mas, admitindo que são sinceros e que até quereriam em Bruxelas um governo eleito por todos os europeus, alguém acredita que aceitariam cumprir ordens de Bruxelas se as considerassem contrárias aos seus interesses? Aliás, admitiriam sequer um presidente europeu que não fosse alemão ou sua marioneta? Transferir poderes para Bruxelas? Sim, mas no esquema do BCE, onde são eles que mandam.

3. Perdão da dívida. Moreira da Silva, vice-presidente e coordenador político do PSD, mostrando-se adepto de toda a austeridade e do máximo agravamento da dívida possíveis, afirmou: “Se amanhã a ‘troika’ perdoasse toda a dívida” a Portugal “nem assim os problemas estariam resolvidos”, porque o país tem “outros défices estruturais”. Na fase a que chegámos, quase concordo. Difícil consertar o país agora. Com a economia e o comércio quase totalmente destruídos, os jovens mais qualificados ausentes em melhores paragens, o poder de compra em mínimos históricos, investidores estrangeiros sem objeto do tipo não chinês em que investir e o crédito interno totalmente ameaçado, de facto, mais dívida menos dívida até pode ser considerado irrelevante. Mas não seria, se tivesse havido o cuidado de manter o país a funcionar, nem que tal implicasse divergências com os credores, lembrando-lhes, justamente, que, assim, nunca irão reaver o seu dinheiro. Mas vejamos as soluções propostas pela personagem, com um foco especial na sua distinta lata: “O desafio passa por reformas estruturais e investimento seletivos na área do conhecimento, da política industrial e da economia verde”. Pára tudo! Estamos perante um génio. Como é que Sócrates não se lembrou de tal coisa?

“Aquilo que aconteceu durante um período longo em Portugal deu origem a problemas estruturais, nós somos um dos países da União Europeia com maiores desigualdades sociais, com maior dependência energética, com menores competências ao nível da leitura, das ciências e matemática, o país com maior abandono escolar, com uma dependência alimentar elevada”, assinalou.
Chega. Com todos estes indicadores a agravarem-se graças às políticas que defendem e aplicam, anunciei tiros, mas este tipo de demagogia só mesmo à bomba.

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