Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Balada da Fábula Urbis

Na antiga marcenaria

Numa das sete colinas

Há um lugar de poesia

Numa casa sem esquinas

No gaveto de duas ruas

Sobreloja, boas vistas

Uma hora vale por duas

No roteiro dos turistas

Um piano e uma guitarra

Personagens num estrado

A música alcança a barra

Do Tejo que passa ao lado

Na passagem das figuras

As coisas mais importantes

São as rodas das viaturas

E os livros nestas estantes

Para quem já perdeu a fé

Ou apanhou grande susto

Senta-se e bebe um café

Ajuda o comércio justo

Nas janelas de Lisboa

Entre vozes de vizinhas

Na roupa a secar à toa

Há gatos e cuequinhas

Já passou um amarelo

A caminho dos Prazeres

Na direcção do Castelo

Ouvi risos de mulheres

Vozes puras, de cristal

Miradouro da alegria

São sonhos de Portugal

Na porta da Livraria

Vinte Linhas 343

«Tribunais Políticos» entre 1926 e 1974

Os processos dos chamados «crimes políticos e sociais» e os ditos «crimes contra a segurança do Estado» que foram julgados em Portugal entre 1926 e 1974 pelos Tribunais Militares e pelos Tribunais Plenários, são o ponto de partida para este trabalho de Irene Pimentel, João Madeira, Luís Farinha e Maria Inácia Rezola com a coordenação de Fernando Rosas.

São 3975 réus julgados entre 1933 e 1945 e 3888 réus julgados entre 1945 e 1974, 61 por cento dos quais são oriundos do mundo operário (indústria, transportes, agricultura) emparceirando numa espécie de frente popular com aqueles sectores que eram a base do republicanismo radical (pequenos industriais, comerciantes e proprietários) e os empregados dos serviços das cidades – caixeiros, funcionários públicos e empregados de escritório.

Os advogados de defesa destes réus são em número notável e algo inesperado: 320 no período inicial de 1926 a 1945 e 386 a partir dessa data até 1974. Os juízes entre 1945 e 1974 são ao todo 81 e a justiça democrática saída do «25 de Abril» foi muito lenta e generosa para com eles. Várias das mais sinistras figuras dos Tribunais Plenários terminaram gloriosamente as suas carreiras nas cadeiras prestigiadas do Supremo Tribunal de Justiça. E nunca pediram desculpa às suas vítimas.

Esta edição com 663 páginas do Círculo de Leitores e da Temas e Debates integra no seu final uma lista tão completa quanto possível dos réus julgados nos tribunais do Estado Novo. Alguns dos processos foram distribuídos às diversas comarcas do país e o seu rasto perdeu-se no escuro dos arquivos.

Vinte Linhas 06

Uma manhã no Chiado

Todas as manhãs o Chiado é uma romaria. Será uma maneira de dizer. Às dez da manhã em ponto uma pequena multidão já não cabe no adro da igreja. O mesmo é dizer não cabe na confluência da Rua do Carmo com a Rua Nova do Almada. Segundos depois das dez, o sacristão vem abrir a porta da igreja. O mesmo é dizer o jovem segurança vem abrir de par em par as portas do templo do consumo. Como que impelidos por uma mola, frenéticos, ansiosos, todos se dirigem apressados para os seus destinos como se o Mundo dependesse dos seus gestos nervosos e tensos. Cada um tem o seu objectivo. Uns procuram as lojas de roupa (lembram os paramentos), outros procuram os cafés (lembram as galhetas da água e do vinho), outros ainda procuram a loja das sandes (lembram as partículas de pão ázimo antes da consagração). No templo do consumo até o ruído dos travestis com as suas piadas soltas de mesa para mesa («Tá calada oh preta! És uma parva!») lembra o soar das malhas do jogo do chinquilho nos minutos parados antes da missa das onze nos domingos de manhã. E há aquele escritor pouco conhecido que ergue o jornal «Público» como quem segura um hissope ou uma caldeira de água benta e se dirige à FNAC para rezar sozinho tal como nos tempos da minha infância algumas senhoras da minha terra acompanhavam à distância a missa da paróquia nas suas capelas particulares sentadas nas suas cadeiras forradas de veludo vermelho. Todas as manhãs o Chiado é uma romaria. Será uma maneira de dizer. Mas não vejo passar ninguém com a saca vermelha das esmolas para as almas do purgatório. Talvez porque o purgatório é eu estar aqui entre esta multidão frenética e ansiosa.

Vinte Linhas 342

O sal da minha terra era daqui que vinha

Não havendo frigoríficos nas casas particulares as pessoas da minha terra (Santa Catarina) conservavam a carne na salgadeira. Mas o sal não servia apenas para conservar a carne; acabava por lhe vir a dar um sabor muito especial e que hoje será quase impossível repetir.

A colocação durante largos meses de uma peça de carne de porco num espaço em que o sal a cobria por cima, por baixo e pelos dois lados, fazia com que essa mesma carne adquirisse um sabor diferente.

Por isso era uma festa quando um miúdo ouvia a sua mãe dizer: «Hoje pus carne ao lume!». Porque nesse tempo de não haver nem electricidade nem bilhas de gás nem sequer fogões a petróleo, o calor da cozedura era dado por um lume de lenha. E não interessava muito se à água se juntava hortaliça, cabeças de nabo, batatas ou arroz. O que já se sabia antecipadamente era QUE TUDO O QUE ENTRAVA NA PANELA VIRIA A BENEFICIAR DO MAGNÍFICO TEMPERO DESSE BOCADO DE CARNE SAÍDO DA SALGADEIRA E LAVADO EM ÁGUA FRESCA TIRADA DO CÂNTARO. Depois de pronto o prato bastava a boa vontade e o engenho de quem desfiava (com uma faca das nossas ou com uma navalha porque somos uma terra de navalheiros) todos os bocadinhos da carne.

Era uma sopa que servia de sopa e de segundo prato. Qual bife, qual carapuça! Melhor do que uma sopa com carne da salgadeira só outra sopa com carne da salgadeira…

Um livro por semana 117

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«Anotação do mal» de Jaime Rocha

O ponto de partida da narrativa é uma rua: «A rua sobrevive como pode nos escombros, é uma sombra do que foi, no tempo em que eu passava por debaixo das arcadas, de sandálias. Ia à loja, ao pão, comprava cigarros, remédios, jornais». Nessa rua habitada pela mulher («uma mulher com um gancho no pescoço») e pelo velho («apenas um velho se prepara para atravessar o alcatrão»), surge uma realidade sórdida («Havia ali uma convulsão, uma ruptura com a realidade») que é o resultado de algumas mutações: «O seu passado foi noutro lugar, um sítio que deixou de existir. As casas ruíram, as pessoas mudaram de país, de língua, o gado adoeceu». Frente ao cemitério a história salta dos livros e aparece na rua: «um quadro com duas mulheres deitadas nos roseirais, duas mulheres de Dresden». São as migrações: «Um viúvo com uma filha que se mudou para uma vila distante, no fim da Europa, onde existe uma floresta». Eles chegam à rua: «Pode ser cigano ou então da Lituânia ou da Roménia». O narrador decide morrer: «Decidi morrer para não assistir ao desaparecimento das casas. O cemitério tem estado agitado, os coveiros não descansam um segundo». Texto premiado pelo PEN Clube português no passado mês de Dezembro, há neste minucioso registo de uma rua que representa uma civilização em crise, uma reflexão enunciada: «Este acontecimento fez-me reflectir sobre a morte das árvores, sobre o espaço que ocupam, sobre as casas e o tempo».

(Editora: Sextante, Design: Henrique Cayatte/Susana Cruz)

Vinte Linhas 339

E dizia o parvalhão «O sal de Rio Maior não salga!»

A cena tinha algo de patético: o emigrante português em Paris desde 1979 nunca tinha ido a Rio Maior, não conhecia as salinas e acabava de oferecer um saco de plástico com sal de Rio Maior a uma prima quando o marido da dita cuja, parvalhão até dizer chega, se saiu com um inesperado «O sal de Rio Maior não salga!»

Vivemos tempos complicados, a nossa civilização apresenta sinais de óbvia doença como por exemplo a excessiva atenção dispensada aos animais desprezando ao mesmo tempo as pessoas ou a febre da chamada «bricolage» que leva milhares de pessoas a desprezarem o saber e a competência dos pintores, ladrilhadores ou carpinteiros para fazerem eles mesmos aquilo que deveria ser feito por profissionais competentes. Outra doença é a mania de ter opinião como se ter opinião fosse um valor acrescentado na nossa vida – e não é. Há mesmo pessoas que perdem tempo a responder a inquéritos sobre Pinto da Costa, Carolina Salgado, o caso Freeport, o treinador do Benfica ou outros assuntos afinal não prioritários porque não dependem nem deste escrutínio nem desta opinião avulsa. É neste contexto geral que eu vejo a frase do parvalhão, marido da prima do emigrante a quem eu, ingénuo português de Portugal, fui mostrar as salinas de Rio Maior. Esse parvalhão tentou passar por cima da memória de todos nós que (como eu) conhecem o sabor do sal das salinas de Rio Maior desde a infância ou os camiões que levam para toda a Europa comunitária o excelente sal nascido daquele poço tão especial e tão antigo. Esse parvalhão não percebe que a sua opinião não conta para ninguém nem talvez para ele mesmo. Conclusão definitiva: para falar por falar é melhor estar calado.

Vinte Linhas 341

Em 15 de Julho de 1997 as garrafas de águas choviam aos nossos pés

Esta situação (mais uma…) de uma arbitragem contra o Sporting Clube de Portugal (anular um golo limpo num momento decisivo) sugere-me uma ideia – Guimarães fez-me lembrar a Nazaré. Porque o árbitro é o mesmo, a situação repete-se. Vejamos: em 15-7-1997 na Nazaré foi disputado um decisivo jogo Sporting-Boavista para atribuição do título de campeão nacional de juniores dessa época. O Sporting tinha uma bela equipa: Nuno Santos, Travassos, Caneira, Valente, Orlando, Gomes, Kakinda, Assis, Gabriel, Vargas, Simão Sabrosa, Nuno Moreira, Alhandra e Paulo Costa. O Sporting marcou primeiro por Gabriel mas o Boavista na segunda parte deu a volta ao jogo. Segundo o jornal «A Bola» (fundado por Ribeiro dos Reis, apaixonado pela arbitragem) passo a citar «o Boavista apelou a todas as suas reservas físicas e anímicas para operar a reviravolta. Com alguma sorte e a ajuda do árbitro que lhe perdoou uma grande penalidade aos 85 minutos – braço na bola de Nuno Gomes».

Quando acabou o jogo eu atravessei o relvado ao lado de Aurélio Pereira e desci as escadas de acesso às cabinas do estádio municipal da Nazaré para entrevistar o treinador e o capitão da equipa – Caneira, esse mesmo mas 12 anos mais novo. Estava eu, o Aurélio Pereira e os dois guardas da GNR local ao lado do árbitro. As garrafas de água choviam aos nossos pés e o árbitro dizia. «Não percebo porque razão atiraram estas garrafas de água…» Entretanto o treinador do Boavista (Queiró) dizia sorridente para Rui Palhares do Sporting: «Pensava que eras tu a trazer o árbitro mas fomos nós!»

As pessoas não mudam e quando mudam é para pior. Isso já eu sabia. Apenas confirmei.

Vinte Linhas 338

Aurélio Lopes – «Videntes e confidentes» sobre Fátima mas não só

Foi lançada a mais recente obra do antropólogo Aurélio Lopes em edição da Cosmos «Videntes e confidentes – um estudo sobre as aparições de Fátima». Já no seu primeiro livro («Religião Popular do Ribatejo») o autor tinha estudado este tema que divide aqui em quatro capítulos: «Mulheres e Deusas», «Aparições», «Fátima» e «A construção do Sagrado». Além de Fátima são estudadas nestas páginas as aparições de Vilas Boas, La Salette, Lourdes, Vilar Chão, Ladeira do Pinheiro, Madjugorje e Escorial. Joaquim Garrido, em nome da Editora, referiu que a Cosmos tem um passado rico e um futuro promissor tendo este livro sido recusado em Fátima – o que é um bom princípio. Francisco Moita Flores afirmou que este é um livro a ler sem preconceitos porque o mundo não é a preto e branco e o Concílio de Trento já passou mas em Portugal ainda não. O escritor Domingos Lobo comentou ser este um livro em contra-ciclo pois neste tempo precisamos de ilusões e não de dúvidas. Embora não presente, Frei Bento Domingues afirma no prefácio que aprendeu muito jovem que podia-se ser católico e não acreditar em Fátima, recorda que sempre se irritou tanto com a apologia oficial das aparições como a visão do fenómeno como uma invenção dos padres recomendando a obra de Aurélio Lopes como um estudo isento dum fenómeno que ultrapassa em complexidade o que a ignorância e a crendice podem supor. Aurélio Lopes referiu por fim que Fátima é um caso de religiosidade popular que envolve milhões de pessoas em todo o Mundo e é um objecto social, não apenas religioso. Porque a verdade não é linear, há muitas maneiras de interpretar a realidade e só acontece aquilo em que acreditamos.

O lugar do vento

Desde sempre quis saber porque razão se chama moinho a este pequeno navio.

As velas projectam a velocidade que não desloca o moinho mas, pelo contrário, interioriza essa velocidade e transforma-a em farinha de milho e de trigo.

Alguns teimosos ainda fazem pão verdadeiro

porque recusam o pão de plástico do hipermercado.

De vez em quando um cabo trava o movimento das velas

tal como a âncora que imobiliza o navio, no sossego da tarde, no tempo suspenso,

no lugar do vento onde se junta o sal do mar e a argila desta terra singular.

A terra de onde parti e aonde hei-de voltar um dia para descansar perto do lugar do vento, sem obter resposta para a minha dúvida de sempre:

saber porque razão se chama moinho a este pequeno navio.

Um livro por semana 116

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«penúltimos cartuchos» de Miguel Martins

O discurso da brevidade sempre fascinou os poetas e os leitores de poesia. Há quem saiba de cór os poemas breves de Carlos de Oliveira («A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da terra») ou a Aldeia de Manuel da Fonseca: «Sete casas / duas ruas / no meio das ruas um largo / no meio do largo um poço de água fria».

Miguel Martins abre este livro numa meditação sobre o Tempo: «Uma das perversidades da velhice consiste em fazer parecer que os minutos são horas e as horas minutos».

Se o ponto de partida é o Tempo, o ponto de chegada é o Paraíso: «Um silêncio antigo, grave; uma imobilidade, como se tudo se achasse agrilhoado a tudo – o Paraíso».

Mas Sonho pode ser o outro nome do Futuro: «O preço do futuro é o presente. Ou, dito de outro modo, o preço do sonho é a vida. E o facto de sabermos que o sonho, como o futuro, nunca o alcançaremos, só torna mais bela a nossa dádiva».

Seja como for a Poesia está sempre presente («O poema é uma escala que os olhos descem enquanto a alma sobe») tal como os poetas: «A diferença entre os pequenos e os grandes poetas é a que separa o ilusionismo da magia».

Entre o Eu e o Mundo, o autor não esquece o tempo dos outros («Se fosse proibido usar as palavras eu e não, a maior parte das pessoas permaneceria muda») nem a filosofia que toda a poesia subentende: «Quem acha que a vida é para levar a sério deve andar convencido de que a morte é a brincar».

(Editora: Tea for one, colecção: Matéria mínima, www.t41editores.blogspot.com)

Vinte Linhas 59

Os cuidados intensivos

Desde sempre se tem discutido o que é a poesia e o que é a literatura. Para muitos de nós a poesia vem antes da literatura pela simples razão de que a primeira poesia era cantada de terra em terra pelos antepassados dos trovadores. Por outro lado a literatura só começa a existir quando aparecem os primeiros livros. Ou seja, quando a poesia começa a poder ser repetida. Cada livro é como se fosse um trovador que vai cantar de terra em terra, de casa em casa. Já não vai a voz mas sim o seu registo gráfica, não vai a temperatura mas sim o seu desenho nas letras. Tenho para mim que a poesia é a mais pura modulação da voz do homem. Cheguei a ter uma série de versos que citava de cor. Por exemplo de Carlos de Oliveira: «A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da terra». Ou de José Gomes Ferreira: «Viver sempre também cansa!» Ou ainda de Carlos de Oliveira: «O sal é o mar servido nas nossas praias domésticas de linho».

Hoje gostaria de compartilhar convosco um breve poema dum autor grego (não sei se homem se mulher) que assina S. Kharkianákis e que a mão amiga de Maria Estela Guedes me ofereceu. «A poesia, irmã, não é nem canção nem reflexão. Poesia é cuidado intensivo aplicado à criação em sangue. E sobretudo registo de como a vida conduz à morte». O que estas crónicas pretendem ser é também isso mesmo: o intervalo possível entre canção e reflexão, entre a simples narrativa e a complicada filosofia a tentar compreender o que somos. Mas como o que fazemos não passa de uma apoteose efémera lá voltamos, mais uma vez, teimosos, a ver se, com o nosso sangue pisado, conseguimos escrever para não morrer.

Vinte Linhas 57

Cronistas – Cuidado com a amizade

O escritor brasileiro José Lins do Rego (1901-1957), autor do hoje romance clássico publicado em 1932 «Menino de engenho», tinha muitos amigos e a Fundação Joaquim Nabuco editou em 1982 um número especial da Revista «Ciência e Trópico», assinalando os 80 anos do seu nascimento.

Um dos seus numerosos amigos, o escritor Ledo Ivo, depois de lhe chamar «um dos brasileiros mais povo e até mais Zé-povinho» escreveu «Uma vez foi na Suécia com a selecção que disputava a Copa do Mundo. Ficou ao lado do rei, na disputa memorável. E quando um golo de Garrincha desmoralizou para sempre a superioridade racial dos vikings, ele se virou para sua majestade e lhe disse no mais castiço português da Paraíba: «Seu rei, com o Brasil ninguém pode!»

Este é o texto que o escritor Ledo Ivo assinou no livro de homenagem a José Lins do Rego; agora vamos ver a realidade concreta. Primeiro erro crasso de Ledo Ivo: José Lins do Rego faleceu no Rio de Janeiro em 1957 e o Campeonato do Mundo da Suécia foi disputado em 1958. Segundo erro crasso de Ledo Ivo: Garrincha não marcou nenhum golo na final do Mundial de 1958 entre Suécia e Brasil pois os autores dos golos brasileiros foram Vavá, Pelé e Zagalo.

O título desta crónica pode parecer insólito mas afinal está certo. Todo o cronista tem que ter muito cuidado com os exageros da amizade. A verdade é muito mais importante do que a amizade. Nenhuma amizade justifica uma mentira, mesmo uma mentira piedosa. O cronista, qualquer cronista precisa de ter as suas amizades bem vigiadas.

Vinte Linhas 337

Nemésio tem razão, o amigo de Onésimo não

Na crónica de Abril na Revista Ler Onésimo Teotónio de Almeida refere uma conversa com um seu amigo sobre a Margarida de Mau Tempo no Canal que vai à missa em Sexta-Feira Santa, coisa impossível pois (segundo esse amigo) esse dia não tem missa.

Não é bem assim. Tenho a meu favor dois argumentos: a minha memória pessoal e um livro editado em 1850 – Horas da Semana Santa. Nasci em 1951 e lembro-me bem de, com dez anos de idade, ajudar á missa em dia de Sexta-Feira Santa. Era aquilo que em linguagem simples (de sacristão) o meu avô chamava missa seca pois não tinha nem consagração das partículas nem comunhão aos fiéis. Apenas o celebrante tomava uma partícula consagrada no dia anterior. E era naturalmente uma missa muito mais rápida dos que as outras. A minha memória não me deixa mentir.

O livro de 1850 que obviamente estava em vigor quando Nemésio concebeu o romance, ele que nasceu em 1901 e veio para Lisboa em 1919 fazer a tropa, o livro explica textualmente «E omitindo tudo o mais que se pratica nas outras missas prossegue, dizendo: Pai nosso que estás nos céus…» Refere assim na sua página 372 esse «salto» na liturgia pois passa por cima da consagração e a comunhão fica restrita ao celebrante. Conclusão: Nemésio tem razão, o amigo de Onésimo não.

Para mim este episódio vem recordar um dos mais belos salmos que eu tenho memória de ouvir: «Meu Povo, que te fiz Eu ou em que te contristei? Responde-me! Porque te extraí da terra do Egipto, preparaste uma cruz para o teu Salvador.»

Toda a tragédia do Mundo em duas linhas de versos…

Vinte Linhas 20

Crónica quase em verso

Em latim a palavra «verso» significava a volta que dava a charrua ao fim de cada sulco inscrito na terra. Mais tarde, por extensão, a palavra passou a aplicar-se ao próprio «sulco». Depois, muito tempo depois, ganhou o sentido de «linha» de escrita. Talvez com estas palavras fique explicado o meu pendor para as referências agrícolas quando escrevo. Os meus poemas e as minhas crónicas viajam pelos lagares de azeite, pelas vinhas, pelos pomares, pelo lagar de vinho, pelo suor dos ceifeiros, pelo cansaço de quem ao fim da tarde regava uma horta a que chamava «brejo» a partir de um pequeno poço. De onde a água saía puxada por alguém numa picota com uma pedra pequena atada ao balde e uma pedra grande no fim do pinheiro furado ao meio: uma servia para ele entrar de lado na água e a outra para ser mais fácil subir o balde já cheio. Afinal poesia e agricultura são da mesma família. Em ambos os lugares se semeia e se perdem colheitas, em ambos os ofícios há o risco de uma colheita perdida – título de um livro de Carlos de Oliveira. Talvez não por acaso esse mesmo poeta e romancista escreveu e afirmou várias vezes: «Escrever é lavrar numa terra de camponeses e escritores abandonados». Por mim, na modéstia de uma intervenção quase particular, sem holofotes nem referências, respiro de alívio ao descobrir que a minha intuição me colocou, sem eu o saber ou prever sequer, nos caminhos dos versos mais antigos do Mundo. Por isso quando escrevo, quando te escrevo, me coloco ao lado dos mais obscuros agricultores, aqueles que, anónimos e confiantes, regam com o seu suor uma sementeira da qual nada nem ninguém lhes poderá garantir frutos. Mas dão-se por inteiro nessa tarefa.

Vinte Linhas 99

Saudação breve a Ana Carolina

Eu te saúdo oh! Ana Carolina, menina pequenina envolta em cor-de-rosa numa alcofa de ternura entre o olhar doce da tua mãe e a força do teu avô, entre o frio da tarde a anunciar hipóteses de chuva e a minha pressa em te conhecer. Tu não sabes mas, minutos depois de te ter conhecido, eu comprei uma embalagem de beijinhos e fiz-me à estrada a caminho de Lisboa. Tu não sabes mas nessa tarde choveu muito. As terras finalmente encharcadas fizeram deslizar essa água fértil para as valetas. Passei pelas Gaeiras, pela Ponte Seca, pela Sancheira Grande, pela Palhoça, pelos Carreiros e pelo Cercal sempre debaixo de uma chuva que nos anunciava e nos trazia de facto a fertilidade. E tu dormias descansada nos braços do teu avô dando à tua mãe um pouco de descanso nas rotinas e nas tarefas diárias perante um recém-nascido. Tua não sabes ainda mas a fertilidade começa pela água e eu já não via chover assim desde 2003. Aquilo a que chamamos «vida» começa com um momento que se define como «o rebentar das águas». Pequena e indefesa tu, oh! Ana Carolina não sabes como gostei de te conhecer e de fazer esta viagem entre as Caldas da Rainha onde ficaste e Lisboa onde te escrevo esta saudação breve e emocionada. Vejo naquela chuva que caiu poucos minutos depois de te conhecer um anúncio de vida e de alegria contra a aridez hostil da seca do ano que passou. As valetas da estrada velha entre as Caldas e Lisboa ficaram cheias de água nessa tarde em que te vi pela primeira vez. E os meus olhos cansados ficaram com uma neblina de alegria. Graças a ti oh! Ana Carolina e à tua alegria cor-de-rosa dentro de uma alcofa de ternura. Porque o teu rosto envolto em rosa foi uma presença efectiva no espelho do meu velho Citroen, cinzento e cansado. E cheirava a maçãs no pequeno habitáculo entre a pressão da chuva e o negro do asfalto da estrada velha das Caldas até ao Cercal.

Alexei Bueno nas Escadinhas do Duque

Tinha que ser escritor este bandeirante

Nome herói de romance em homenagem

Assim a Rússia já não fica tão distante

Numa vida que é também uma viagem

Nas Escadinhas do Duque é rei à mesa

Dá lições de poesia em breve seminário

Entre cerveja e amendoim nasce a beleza

Da Poesia que o Mundo vê ao contrário

Somos poucos aqui um grupo acantonado

Na mesa posta por D. Rosa na sexta-feira

Viajamos num bacalhau bem temperado

Pelo azeite tão puro e leve duma oliveira

No Camões a mulher feia vende cocada

Desesperam por um visto os brasileiros

Que pena a vida não poder ficar parada

Aqui onde os poemas nascem inteiros

Um livro por semana 115

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«Contos» de Hélia Correia

Entre Natureza e Cultura – estas duas palavras podem definir, além do talento, a escrita de Hélia Correia. Tendo vivido a infância e a adolescência na Estremadura (serras, planícies e praias) ficou entretanto apaixonada pela cultura grega (teatro, poesia, pensamento) e esse fascínio é uma das características da sua escrita. Este recente livro de contos engloba seis segundo uma escolha pessoal da autora: Eirene, Capadores, Nessa noite, Sul, Doroteia e A compaixão, este último resvalando já para o formato de novela. Vejamos um excerto de Capadores: «A Europa mandava o seu dinheiro, especialmente destinado àqueles que deixassem morrer os animais. Os pastores levavam os rebanhos para o relento e a seguir embebedavam-se para não os ouvirem a chamar. Os camponeses viam os pomares e os favais cobertos pelo mato e só passados uns instantes conseguiam sorrir para a paisagem. Mas passara. Passara tudo. Uma justiça inesperada, quase ofensiva, se exercera sobre as classes sem, no entanto, descobrir a mão. De facto toda a gente se vestia de modo semelhante e, mais do que isso, todos desfrutavam do enorme serão televisivo que não apenas irmanava a noite de pobres e de ricos mas também lhes irmanava os próprios pensamentos. Estavam todos nas mesmas circunstâncias, preocupados com inundações e um pouco divertidos com as guerras que não ameaçavam chegar perto. Tinham todos o mesmo futebol e os mesmos enredos de ficção.»

(Editora: Relógio de Água, Capa: Paulo Scavullo, Foto: Graça Sarsfield)

Vinte Linhas 336

«Salão Portugal» de Vítor Serpa

São 15 viagens à infância do autor: «O meu mundo era Lisboa; o meu país, Belém; a minha aldeia, a Travessa da Memória». Esta infância, tempo no qual não há preço nem para os beijos nem para as lágrimas, tem uma geografia: «A fronteira sul era o Tejo, a norte era a Ajuda, a leste era a Boa-Hora, a poente o Restelo. Os meninos que lá viviam não brincavam connosco nem faziam trocas dos bonecos da bola». Cromos entre o «não tenho» e o «fica para a troca»: «o Ramin, o Falé, o Rita, o Paz, o Rocha». Nesta infância há diferenças entre dona e senhora: «a mulher do peixe, varina velha e cansada, não se chamava dona mas senhora». Aprende-se o primeiro amor (Leila) que veio com o circo Filadélfia, chamava-se Dores e desapareceu numa manhã de nevoeiro. Aprende-se o segundo amor (Sissi) no Salão Portugal: «Na minha frente a deslumbrante visão da Romy Schneider, haveríamos de andar de mão dada». A Escola Primária («os heróis da Pátria eram vizinhos de Deus») faz a ponte para a memória do atentado contra D. José: «Saíra o rei por amor. Outros terão saído por ódio. Tudo acabou em cinzas e sal». Da montra da D. Vitória onde Cochise, Zorro, Silver, Jim Clarck, Buda e a Senhora de Fátima vivem em fantasia, a narrativa salta para a verdade da viúva de 26 anos com o marido morto em Tete que, farta de ser chamada «gaja, mulherzinha e reles» se lança à linha do comboio deixando um bilhete: «Amar-te-ei sempre. Ainda mais na morte do que na vida. Laura» No tempo definido («operários presos pela PIDE, crianças internadas com tuberculose») o registo dual do texto oscila entre a vida («o Matateu foi para o Atlético») e a morte: «Que orgulho pode uma mãe ter pela morte de um filho? Só porque militares fardados lhe chegaram à porta e lhe dizem que o filho morreu pela Pátria?» Entre a vida e a morte, fica o lugar do sonho: «Era a Baixa de Lisboa. As mulheres, elegantes. Os homens, ricos. Os carros, luminosos. As montras, apetecíveis».

(Editora: Dom Quixote, Capa: Henrique Cayatte, Fotos: André Alves e Horace Bristol)

Vinte Linhas 335

Homenagem a um mestre da fotografia no Chiado

O espaço belíssimo e acolhedor, composto por uma sucessão de salas em abóbada, tem o nome de «Fábulas» e fica na Calçada Nova de São Francisco nº14, ao Chiado. A exposição de fotografias de Manuel Luís Cochofel (n. Huambo, 1965) intitula-se «Binary Bodies – After Muybridge» e organiza-se numa homenagem à obra do fotógrafo Eadweard Muybridge. Explica Manuel Luís Cochofel: «Uma das características que mais me interessou explorara é o isolar de cada um dos movimentos tornando cada corpo no autor de um gesto que não compreendemos e temos dificuldade em imaginar como se seguirá, se terá continuação e nos deixa uma certa angústia e perplexidade que me interessa gerar».

Em vez de reproduzir apenas as imagens do clássico que pretende homenagear, este trabalho pega em velhas fotografias nas quais se depositou o pó do tempo e vai ampliando umas e fragmentando outras, fazendo de cada rosto uma silhueta, de cada movimento uma suspensão, de cada corpo uma memória difusa.

Já Aragon tinha avisado («Car j´imite, tout le monde imite, tout le monde ne le dit pas») e poetas de grande craveira como Carlos de Oliveira ou José Gomes Ferreira escreveram poemas em forma de imitações de poemas de Luís de Camões – por exemplo. No caso de Manuel Luís Cochofel em vez de imitação trata-se de uma transfiguração.

O local da exposição também convida a essa dicotomia: há nas lajes do pavimento e nos tijolos das abóbadas o peso do que é perene enquanto a fotografia aparece muitas vezes (e quase sempre) como a apoteose do efémero. (A não perder até 30 de Abril).

Um livro por semana 114

«O meu cinzeiro azul» de Henrique Manuel Bento Fialho

A origem deste livro é o Blog antologiadoesquecimento de Henrique Fialho (n. Rio Maior, 1974) e a sua primeira frase em 5-9-2005: «O meu cinzeiro azul está repleto de cinza». O ponto de partida destas reflexões é o tempo actual: «Para o bem e para o mal a religião chama-se hoje economia, a santidade metamorfoseou-se em fama, Deus dá pelo nome de dinheiro. No meio disto tudo, a liberdade, estro da indignação, é sonho, é utopia, é poesia». Neste mundo a poesia tem um lugar: «A poesia mora num lugar muito para lá da palavra, independente das costuras da linguagem. Ela é miopia reveladora». Mas além do lugar tem uma função: «Como entender a função da poesia num mundo que sobrevive à custa de uma constante simplificação das perspectivas que lhe dão forma?». Também a poesia tem uma vitalidade própria: «A poesia é útil como um garfo, um martelo ou uma esferográfica. Mais útil porque está mais presente na minha vida do que qualquer destes utensílios». Esta perspectiva conduz a uma compreensão de toda a poesia: «ver num poema uma representação do universo». Entre o mundo e a poesia, surge o amor: «Quem ama ou odeia nunca está só. Pode amar-se em dor, nunca em solidão. Havendo memória não há morte. Havendo memória há presença. Mas o amor é uma palavra demasiado grande. Tão grande que não cabe num poema». Fica a ideia final: «A poesia, a ser alguma coisa, que seja esse lugar de reencontro do homem consigo mesmo, do homem com a sua condição, lugar de encontro com uma verdade não mais triste porque inútil, nem mais alegre porque pateta, do que a própria vida: um passar por cá, entre a lágrima e o sorriso, entre a dor e o prazer, entre o gelo e a chama, entre a terra e o céu, entre os outros que são aqueles entre os quais também nós nos encontramos».

(Editora: Canto Escuro, Ilustrações: Cristóvão Crespo, Grafismo: Mário Pedro)