
«penúltimos cartuchos» de Miguel Martins
O discurso da brevidade sempre fascinou os poetas e os leitores de poesia. Há quem saiba de cór os poemas breves de Carlos de Oliveira («A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da terra») ou a Aldeia de Manuel da Fonseca: «Sete casas / duas ruas / no meio das ruas um largo / no meio do largo um poço de água fria».
Miguel Martins abre este livro numa meditação sobre o Tempo: «Uma das perversidades da velhice consiste em fazer parecer que os minutos são horas e as horas minutos».
Se o ponto de partida é o Tempo, o ponto de chegada é o Paraíso: «Um silêncio antigo, grave; uma imobilidade, como se tudo se achasse agrilhoado a tudo – o Paraíso».
Mas Sonho pode ser o outro nome do Futuro: «O preço do futuro é o presente. Ou, dito de outro modo, o preço do sonho é a vida. E o facto de sabermos que o sonho, como o futuro, nunca o alcançaremos, só torna mais bela a nossa dádiva».
Seja como for a Poesia está sempre presente («O poema é uma escala que os olhos descem enquanto a alma sobe») tal como os poetas: «A diferença entre os pequenos e os grandes poetas é a que separa o ilusionismo da magia».
Entre o Eu e o Mundo, o autor não esquece o tempo dos outros («Se fosse proibido usar as palavras eu e não, a maior parte das pessoas permaneceria muda») nem a filosofia que toda a poesia subentende: «Quem acha que a vida é para levar a sério deve andar convencido de que a morte é a brincar».
(Editora: Tea for one, colecção: Matéria mínima, www.t41editores.blogspot.com)