Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 353

«Entre pedra e água» nas Portas da Cidade das Caldas

António Rodrigues expõe fotografias de grande formato («As matérias de Deus e o engenho do Homem») nas paredes do belo espaço da pastelaria Portas da Cidade, nas Caldas da Rainha, na Rotunda da EDP – que não se chamava assim no tempo de Cesário Verde, Rafael Bordalo Pinheiro e Júlio César Machado. O autor das fotografias não nasceu nas Caldas e, talvez até por isso, a sua perspectiva, que as imagens revelam a preto e branco sobre a cidade e o seu povoamento, é diferente, inesperada e inovadora.

António Rodrigues rejeita o bilhete-postal. Os seus registos a preto e branco mostram um lugar fascinante entre o fulgor do iodo das nossas praias e a dureza da pedra das nossas serras, passando pela fertilidade da água das grandes planícies. A Estremadura é esse encontro. A rainha D. Leonor também se deixou fascinar pelas coordenadas do lugar e permanece entre nós sob a forma de estátua visitada às vezes pela pomba do Espírito Santo. Depois há uma igreja onde o relógio mede o som dos sinos de bronze. Ao lado uma rosa de pedra e uma estreita rua de árvores na Mata com suas sombras a perder de vista. Mais ao lado o Hospital Termal e os seus caminhos cruzados: história e quotidiano, memória e esquecimento, luz e sombra, velocidade e quietude, ruído e silêncio. A fotografia surge, pois, como o encontro feliz entre o olhar do forasteiro (mais disponível para o inesperado) e a força do lugar onde as águas milagrosas trouxeram uma Rainha de Portugal para desenhar uma Cidade a partir dum Hospital Termal. Cesário Verde, Rafael Bordalo Pinheiro e Júlio César Machado, chegados aqui pela diligência do Carregado, com paragem no Cercal e na Sancheira, teriam gostado muito de ver estas fotografias.

Tempestade

Eu vou beber em cada café perdido
Nas mesas das pastelarias da cidade
Toda a saudade e a falta de sentido
Do rumo em direcção à tempestade

Que é não ter o teu destino cada dia
E não saber teu paradeiro e latitude
Primeiro deixar de saber o que sabia
Depois confundir a doença e a saúde

Eu vou beber em cada café perdido
Sentado nas cadeiras das esplanadas
Este poema que ainda não foi lido
Porque as palavras estão espalhadas

Pelos blocos que esperam um início
Pelas canetas como cavalos de corrida
O castelo mais que pedra é precipício
Onde a tarde empurrou a minha vida

Louvor e simplificação de Armando Silva Carvalho

Nos mais difíceis momentos, nós, sós

somos o campo na cidade, a surpresa:

– a luz eléctrica, o autoclismo, o jornal à porta

(Era assim quando chegámos, debruçados

na fotografia amarrotada da nossa alma).

Eram eles que há vinte anos partiam

procuravam nomes, ruas, padrinhos vagos,

e, mal pagos numa selva de secretárias,

iam estudar à noite, procurar.

Partimos, saímos mas voltamos sempre

ao pó, quando os carros passavam tão poucos,

quando os moinhos hoje páram tão cansados

quando os rios morrem nos peixes mortos

para lá do horizonte e da ganância.

Eram eles que dormiam mal, sós,

cavaleiros dum selo de correio para a mãe

dez tostões de palavras trémulas

entre os pontos e o relógio de ponto.

Partimos, saímos, o Império a chamar

tínhamos tido um tio em Cabo Verde

um primo na Índia, anos depois,

nós mesmos temos encontro marcado

seja em África ou num qualquer regimento.

Eram eles que tremiam na voz do padre

nos domingos na missa campal ao sol

e a mãe desmaiava nos braços da avó

ou no coração da tia mais sentimental.

Partimos, saímos, mal habituados

aos cinemas no Inverno, legendas breves,

os olhos a piscar, dois Cineclubes, a voz

– entretanto um remorso a crescer

nos mais difíceis momentos

quando somos o campo na cidade.

_

in «Leme de Luz» 1993 edição «Sol XXI Poesia»

Vinte Linhas 351

Fotobiografia de José Afonso ou a nossa memória do andarilho

Falei duas vezes com José Afonso. A primeira foi na Livraria Forja no Bairro Alto a propósito de uma notícia publicada no jornal A BOLA sobre as suas ligações desportivas à Académica: «É pá, em Setúbal e em Azeitão toda a gente me falou disso. Parece que a última página é mais lida que a primeira!». A recente «Fotobiografia de José Afonso» assinada por Irene Pimentel (edição Círculo de Leitores) veio em boa hora porque a sua leitura me emocionou. Fiquei espantado em ver como, passados tantos anos, a autora conseguiu recuperar fotografias de 1950, 1951, 1952 e 1953 ou seja, as fotografias do casamento de José Afonso com Maria Amália de Oliveira, as fotos de José Manuel e de Maria Helena, filhos ambos nascidos em 1953 (Janeiro e Dezembro) numa altura em que o pai de José Afonso lhe suspendeu a mesada e ele foi incorporado no serviço militar. Na segunda vez ou seja na entrevista que me deu para o jornal «Poetas e Trovadores» falou desses tempos difíceis: foi revisor do «Diário de Coimbra» e deu explicações a alunos do Liceu. Mas a vida era muito complicada e o casamento naufragou talvez porque se tratava de um casamento de dois náufragos – ele, longe dos pais e a dar-se mal com a tia Avrilete e ela, uma costureira, órfão de 18 anos de idade, pobre mas muito bonita, a dar-se mal com a família adoptiva. Um dos aspectos que emociona neste livro é a sensação de que estamos todos lá dentro. Na página 96 revejo a capa do livro «Cantar de Novo» da «Nova Realidade» de Tomar. Esse livro obrigava as pessoas da editora a irem aos Riachos, a Ourém ou a Torres Novas enviar os livros de Zeca Afonso porque em Tomar havia um bufo nos CTT que desviava as encomendas da editora.

Louvor do pastel de nata (Doce Real)

Como no pódio em lugar cimeiro
Acima do queque e do croissant
O pastel de nata é o primeiro
Da mais bela fornada da manhã

O forno cozeu pão de madrugada
Não esgotou o calor e a doçura
O pão mata uma fome já esperada
A nata adoça o sal da amargura

Quem chega e se dirige ao balcão
Zangado com notícias e jornais
Recebe prazer da boca ao coração
E fica com vontade de pedir mais

No ritual da manhã de cada dia
Tem lugar ao balcão e à mesa
O pastel de nata dá a energia
Para combater a nossa tristeza

Louvor do Vinho Fino

Nas linhas onde o comboio já não anda
Só ecos do rumor de gente nas estações
O poema principia na voz de Fernanda
Versos são socalcos de pedras e canções

Nos seus lábios, palavras são rebanhos
Que se unem à Terra como quem reza
O santuário, o ritual parecem estranhos
O altar já está escolhido, é esta a mesa

Aqui juntamos no cálice todo um mundo
Paisagem povoada por lentos lavradores
Nos seus braços existe um saber profundo
Repetido tanta vez entre pedras e sabores

O vinho bebido longe, no café da cidade
É líquido e mais que líquido é resultado
Da lenta fermentação de uma diversidade
Junta paisagem, luz, suor, tudo registado

Aqui chega o aroma perfeito e suspenso
Há no copo um silêncio que não termina
Prazer está no sabor, no aroma, é imenso
Castas Aragonês, Arinto e Malvasia Fina

Outras são Touriga, Verdelho, Folgazão
Celebradas num lagar em nova liturgia
Cada vindima é o fruto de uma paixão
Repetida cada ano numa ansiosa alegria

De súbito Leandro, menino de dois anos
Quer deixar de ser apenas um espectador
Embrulha-se na azeitona, nos seus panos
Como já tinha procurado andar no tractor

Na poda, na empa, o trabalho é empresa
Joaquim, Nuno e Nely cuidam do tesouro
Tempos depois a garrafa trazida à mesa
Tem o frio e o calor das terras do Douro

Vinte Linhas 349

A cidade começava o dia devagar

Não fosse a espuma levantada pelo cacilheiro e eu não teria percebido o início do movimento. Há mulheres que se demoram na luz do dia. Também a cidade, nesse distante dia 9 de Setembro de 1966, me pareceu adormecida, suspensa num sono de séculos, um sono marginado pelas colunas do cais e pelo castelo de S. Jorge. Uma vedeta da marinha levava operários do Arsenal do Alfeite e contornou uma fragata com cortiça vinda do Montijo. Já havia ponte sobre o Tejo mas as galeras de Vendas Novas e de Pegões deixavam ainda a sua carga no Cais dos Vapores da antiga Aldeia Galega. Deste lado das colunas é a apoteose do silêncio: acabo de chegar a Lisboa para o meu primeiro dia de trabalho e ainda não vi os eléctricos com bilhete de operário. A Sé à direita e as ruínas do Carmo à esquerda são compassos de oração numa cidade sem vida. Tenho 15 anos e nada sei do Mundo. Um avião por cima do Jardim Botânico anuncia o movimento mas o resto da cidade dorme o sono das muralhas. O Rossio ainda tem eléctricos mas agora só vejo árvores e anúncios luminosos nos telhados. No Terreiro do Paço ninguém se cruza com a estátua de D. José. Nem sequer um guarda-nocturno com as chaves a tilintar. Tal como um poema, uma peça de teatro ou uma orquestra segundos antes de uma sinfonia, o esplendor do silêncio da cidade espera-me. Caminho até à Rua do Ouro, amanhã vou tirar medidas ao alfaiate, sei que vou ganhar 900 escudos por mês. Os telhados alinhados da Baixa parecem livros. Mais de 40 anos depois estou fascinado como na primeira vez. A cidade começa o dia devagar. Os prédios alinhados continuam a parecer livros nas prateleiras dum alfarrabista. Hoje como em 1966. Lisboa – minha cidade, meu amor.

Vinte Linhas 350

Amanhã 13 de Maio na FNAC Chiado Aurélio Lopes apresenta «Videntes e confidentes»

O antropólogo Aurélio Lopes (que se estreou em 1995 com «Religião Popular do Ribatejo») vai estar na FNAC do Chiado às 18,30 h de amanhã (13) para divulgar o seu mais recente livro «Videntes e Confidentes» – uma edição da COSMOS. Embora subintitulada «Um estudo sobre as aparições de Fátima» a obra engloba outros três aspectos: «Mulheres e Deusas», «Aparições» e «A construção do Sagrado».

Um dos temas mais curiosos tem a ver com a multiplicação quase milagrosa de testemunhos muitos deles até contraditórios como refere o escritor fatimita Sebastião Martins dos Reis ou seja, «ao sabor do critério estreito de uma interpretação pessoalíssima». Na verdade Lúcia, nas entrevistas e inquéritos a que é submetida em 1917 e nos diálogos breves e simples que ao tempo estabelece, responde quando lhe solicitam um maior rigor nas declarações: «não me recordo já bem», «podia ter sido isso, não sei», «cuido que sim», «cuido que foi em», «talvez não entendesse bem», «parece-me que não» ou simplesmente não responde. Várias décadas depois rememora diálogos complexos, compridos e eruditos com a maior das facilidades. A título de exemplo veja-se o extracto de um pretenso diálogo entre Lúcia e Jacinta em 1917: «Ó Lúcia, aquela Senhora disse que o seu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá a Deus. Não gostas tanto? Eu gosto tanto do seu coração! – É o Coração Imaculado de Maria, ultrajado pelos pecados da Humanidade e que deseja reparação». Esta será uma conversa entre duas crianças de sete e dez anos, rurais, incultas e analfabetas em início do século XX – observa Aurélio Lopes na página 342 do livro.

Terceira balada para Luciana

Luciana quase menina

Tem o jeito de mulher

Lavando na sua rotina

Chávena, pires, colher

Envolvida numa espuma

As mãos na água quente

Não pensa coisa nenhuma

É trabalho transparente

Fica um balcão brilhante

Com brilho do seu asseio

O seu olhar tão distante

Lembra lugar donde veio

Nem repara que na mesa

Se veio sentar Cesário

Chegou aqui de surpresa

Ficou sentado ao contrário

Para a Rua dos Fanqueiros

Fica a loja de ferragens

Os poemas tão pioneiros

São a força das imagens

O Conde de Monsaraz

Vem a chegar em atraso

O café dá-lhe outra paz

Quando ele sai ao acaso

Pelas ruas desta Baixa

Melancolia não tem fim

E o pobre com a caixa

É um professor de Latim

Luciana sorri, continua

Põe ordem no seu balcão

O poema vem para a rua

Transforma-se em canção

Segunda balada para Luciana

Se aqui entra zangado

Com notícias de jornais

Já sabe que deste lado

O café tem algo mais

Uma força, um perfume

Trazido das plantações

Um calor feito de lume

Com lenha de emoções

Porque o café é diferente

Das bebidas do mercado

Mata o frio com o quente

E o corpo fica encantado

Só me apetece cantar

E entrar no pé de dança

Com a idade a recuar

Quase chego a criança

Uma luz a meio do dia

Intervalo no cinzento

Patrocina uma alegria

Dura além do momento

Saem novos paladares

O calor que se transmite

Há aqui muitos lugares

Neste pequeno limite

Que é o lugar e a mesa

Luciana e seu sorriso

Bebo café na certeza

De que existe Paraíso

*

Na esplanada

À minha última mesa desta esplanada

Chega a sombra dum choupo deslocado

No meu olhar, na solidão compartilhada

Surge a força do teu rosto multiplicado

Nos vidros tão vagarosos dos autocarros

Nas revistas do quiosque neste passeio

No brilho a sair dos pacotes dos cigarros

E no vermelho das carrinhas do Correio

Chega aqui toda a frescura das ribeiras

No choupo que imagino ser uma latada

As uvas quase que chegam às cadeiras

De repente é um lameiro na esplanada

Na mesa nasce o poema dum regresso

Entre quiosque e esplanada, são sinais

As revistas com o teu olhar impresso

A luz do teu rosto em todos os jornais

Vinte Linhas 348

Vale sempre a pena escrever – alguém nos lê mesmo quando não parece

No passado dia 20-3-2009 foi publicado no nosso Blog um texto meu com o título de «De como a ASAE me estragou o Dia do Pai ou Não se pode exterminá-lo?». Para quem não se lembra tratava-se de uma associação cultural e recreativa que abrange 180 pessoas das freguesias de S. Salvador e Espinheira pertencentes a dois concelhos – Cadaval e Azambuja. A ASAE, utilizando a sua arrogância, prepotência a autismo e trabalhando como os fogos florestais (ou seja queimando tudo à sua volta) lá passou uma multa por falta do livro de reclamações do café da Associação. Choveram aqui respostas maldosas e até agressivas contra mim (como se eu fosse de lá) não percebendo os que me atingiram com más palavras que se fosse a minha terra eu teria utilizado a artilharia pesada e não apenas um pranto e uma lamentação perante a brutalidade e a desproporção da actividade da ASAE. Horas depois de ter assistido a uma brutal agressão à verdade desportiva que levou ao colo o Barcelona à final da Champions e minutos depois de ter festejado a vitória do Werder Bremen contra tudo e contra todos – incluindo o árbitro que tudo fez para que o Hamburgo fosse em frente e anulou um golo limpo ao Werder Bremen – pois vim a saber que as Câmaras Municipais respectivas ajudaram a Associação de S. Salvador e Espinheira a pagar a multa injusta, imoral e absurda da ASAE.

Valeu a pena ter protestado aqui. Porque daqui passou para as rádios e das rádios para os gabinetes de quem governa os concelhos. E como nos tempos medievais ainda há «homens bons» nos concelhos. Nem tudo é lixo humano, nem tudo é brutalidade nem tudo é corrupção no sentido total da palavra. Valeu a pena ter saído a notícia aqui.

Balada para Luciana

Luciana num balcão

Debruçada no sorriso

Empresta calor da mão

Quando café é preciso

No combate à tristeza

Derramada pela rua

No centro duma mesa

Seu sorriso continua

Não havia o adoçante

Adoça com seu olhar

Simpatia no instante

Faz do balcão o altar

Onde a nova liturgia

Como se numa oração

Celebrando a alegria

Do encontro no balcão

À esquerda é o Chiado

E o Castelo é à direita

O sol bate no telhado

A tarde ficou perfeita

Quando olha para o Rio

Não repara na distância

No nevoeiro mais frio

Recorda a sua infância

Em baixo as duas linhas

Além é a Sé de Lisboa

Não há mesas sozinhas

Quando o café se povoa

De gente que não repara

Na pressa, no seu bulício

Luciana então já separa

As tarefas do seu ofício

Tomou o sabor profundo

Do café que nos vendia

Trazendo do seu Mundo

Um grão de pura alegria

Vinte Linhas 347

Moradores do Bairro Alto foram burlados

A crónica de Joel Neto no «Diário de Notícias» do sábado alerta para um problema grave: o estacionamento no Bairro Alto. Ele foi burlado, eu já tinha sido, pois moro cá desde 1976. A burla consiste no seguinte: de 1999 até 2002 os moradores com cartão de residente podiam estacionar no Bairro e, como alternativa, em diversos espaços como (por exemplo) o Largo de São Carlos, o Largo do Carmo, o Largo Trindade Coelho, a Rua da Mãe de Água e a Calçada da Patriarcal. Havia uma carta do presidente da EMEL a autorizar a situação porque ele (como todos nós) já sabia que os nossos carros não cabem todos no Bairro. Eu deixei de ser membro da Assembleia de Freguesia ao perceber que a Junta de Freguesia não defendia os interesses dos eleitores. Talvez por opção e obstrução da própria Câmara. Tenho documentos da EMEL a afirmar que «os moradores poderão estacionar livremente com o uso de identificadores da EMEL» mas é mentira porque só se pode circular – não estacionar. É que há mais dísticos do que lugares. Quando trocámos os dísticos de morador pelo dispositivo com célula fotoeléctrica perguntei se não íamos perder os direitos adquiridos. Fui enganado e saí da Assembleia de Freguesia. Bastaria um pouco de bom-senso mas da parte da EMEL, dos Bombeiros e da Polícia Municipal só se vê é arrogância, maldade e autismo. Por exemplo há ruas onde é possível criar mais alguns lugares pois eles encontram-se situados frente a muros (como por exemplo na Rua dos Mouros, nos Calafates ou no Instituto de São Pedro de Alcântara). Com as obras em frente ao elevador foram mais oito lugares que se perderam. E ninguém faz nada; só furam os dois pneus ao carro do jornalista.

O segundo segredo de Ourozinho

Oh Senhora da Assunção

Meu lugar de ser e estar

Os andores ali no chão

Esperam quem vai cantar

No desfile em lentidão

Da música, seu compasso

Os ritmos do coração

Revelam tempo e espaço

Como esquecido brasão

Invisível para o Mundo

Há em mim a inscrição

Do contrato tão profundo

Entre o instinto e a razão

Entre a paixão e a lucidez

Dum lado o apelo do chão

Do outro a luz dos porquês

Estou dentro da procissão

Vivo de novo a verdade

São momentos de paixão

Largas horas de saudade

Na festa e na ocasião

O meu corpo nada pesa

Estar aqui é a oração

Que em silêncio se reza

Oh Senhora da Assunção

Eu canto para não chorar

Os andores ainda estão

Só agora se vai andar

Oh Senhora da Assunção

Vou dar-te a despedida

Não posso dizer que não

Aos desafios da vida

O segredo de Ourozinho

O segredo de Ourozinho

Está na luz do teu olhar

Que trouxe pó do caminho

Ao asfalto deste lugar

Nela veio a terra trazida

Batata, milho e centeio

As origens de uma vida

Onde não cabe o receio

Onde o futuro sonhado

Infância em pensamento

Não é o comboio lotado

Nem cidade de cimento

Na festa do padroeiro

Coração em pé de guerra

Santiago é o verdadeiro

Vértice entre rio e serra

Monumento ao emigrante

Pedra feita num abraço

Nossa vida é um instante

O caminho é só um passo

Na tua voz tão devagar

No seu timbre de metal

Chega o som do lagar

Com o azeite sem igual

No sabor destas castanhas

Vinho doce do teu Mundo

Vem o frio das montanhas

E o calor forte e profundo

E já noutra sonoridade

Mais alta que um moinho

A roda chega à cidade

No segredo de Ourozinho

Vinte Linhas 346

Uma mentira repetida desde 1966

Começou a Feira do Livro e a minha filha mais nova lembrou-se da minha paixão pelo desporto e ofereceu-me «A história dos campeonatos do Mundo de futebol», uma edição da «Ideias & Rumos Lda.». Até aqui tudo bem mas a partir daqui deu barraca. Na página 116 surge uma legenda errada – «Pelé lesionou-se no jogo contra Portugal». O erro está no seguinte facto: Pelé lesionou-se em 12-7-1966 no jogo com a Bulgária, não jogou em 15-7-1966 a partida com a Hungria (no seu lugar jogou Tostão) e jogou em 19-7-1966 quando ainda não tinha recuperado da cacetada violenta de Voutsov em 12-7-1966. Na página 196 lá aparece outro erro crasso. Alguém escreveu o seguinte: «para a selecção canarinha a partida com Portugal torna-se decisiva por força da derrota por 3-1 diante dos búlgaros no qual Pelé não jogou por lesão». Está tudo errado, a verdade é outra coisa: em 12-7-1966 há uma entrada violenta do búlgaro Voutsov sobre Pelé; em 15-7-1966 Pelé, lesionado, não jogo com a Hungria; em 19-7-1966 Pelé joga inferiorizado com Portugal. O treinador lança, com Pelé, um grupo de nove jogadores que não tinha ainda alinhado: Manga, Fidelis, Brito, Orlando, Rildo, Denilson, Lima, Silva e Paraná. Uma mentira repetida muitas vezes não deixa de ser uma mentira mas esta cheira mal e acontece desde 1966. Primeiro foram alguns jornalistas brasileiros, cheios de complexos em relação ao futebol português que sempre falaram dos portugueses com preconceito («jogam de tamancos em vez de botas de futebol») e por isso nunca perdoaram o seu desaire com Portugal esquecendo a sua derrota com a Hungria. Agora os portugueses é coisa que não tem mesmo piada nenhuma. Não sabem? – Estudem e informem-se!

Vinte Linhas 345

A mais pequena livraria do Mundo

À cautela deverei afirmar: esta é, provavelmente, a mais pequena livraria do Mundo. Fica nas Escadinhas de São Cristóvão nº 18, ali à Rua da Madalena e ocupa uma superfície de 3,8 metros quadrados mas está cheia como um ovo. Gosto de livrarias porque gosto de livros. Depois da roda, a invenção mais importante do Homem foi o livro. A roda permite todas as viagens, o livro permite levar na mão todas as memórias e dissertações do pensamento. Ainda outro dia publiquei um poema sobre a livraria Fábula Urbis na Rua Augusto Rosa (à Sé). Fiz uma nota para a «Ler» sobre uma livraria nas catacumbas de Provins, já estive em Veneza numa livraria que empresta galochas aos clientes no tempo da acqua alta, quase cheguei atrasado ao casamento da minha filha mais velha porque me perdi na livraria de Helmesley num velho quartel de bombeiros. Nas Caldas vou à 107. Gosto de ir ao Bocage na Calçada do Combro 38 e aos Bonecos Rebeldes nas Escadinhas do Duque 19ª ou ainda à 1870 na Travessa de São José ali a São Bento. Quando posso começo no Largo da Misericórdia e bato-as todas do Calhariz ao Poço dos Negros. Quando não posso vou aos sábados à Rua Anchieta onde eles estão quase todos. Esta livraria das Escadinhas de São Cristóvão é especial e recomenda-se pela sua variedade: José Afonso, Raul de Carvalho, António Nobre, Jorge de Sena, Cesário Verde, Ruy Cinatti, Pablo Neruda, Ramos Rosa, António Osório, José Fernandes Fafe, Ângelo de Lima, Manuel Bandeira, António Botto. E uma raridade bibliográfica: o «Levantado do chão» com as dedicatórias entretanto apagadas. Só por isso valeria a pena a visita. Mas conversar com o livreiro é um valor acrescentado ao passeio entre chás e ortopedia.

Vinte Linhas 344

«Luz indecisa» de José Mário Silva

Camilo Castelo Branco escreveu um dia («Narcóticos») que «a poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade». Neste seu segundo livro de poemas, José Mário Silva (n.1972, Paris) viaja também entre a saudade e a esperança. A luz indecisa do título do livro é a memória; seja dos rituais infantis («Jogávamos / à bola com pinhas, usávamos / cuspo para limpar o pó dos sapatos / ortopédicos, esfolávamos joelhos») seja das habitações: «As casas que habitámos ainda nos habitam». Quando não é memória, é nostalgia: «Aos 14 anos, o futuro era um território confuso / um país estrangeiro; não sabíamos como lá chegar».

Para José Mário Silva a recordação nunca é apenas o «eu» fechado em si mesmo; incorpora o «outro». Pode ser um jogador de futebol como Maradona («um relâmpago azul atravessava, em ziguezague o longínquo relvado do estádio Azteca») ou um artista gráfico como Olímpio Ferreira: «Mesmo olhada de frente, a ausência / continua a ser cruel, o silêncio uma/ ignomínia. / Descemos à rua, bebemos / café, fingimos seguir em frente.» Ou ainda outro país: «Os corpos encostados à parede / talvez recordem paisagens brancas / um Inverno ucraniano com árvores / perdidas na neve».

Quanto ao futuro pode ser um olhar («Os teus olhos são os meus – é o que toda a gente diz») ou uma formiga: «A minha filha acompanha a subida / heróica da formiga pela parede / branca, vira-se para mim, sorri.» Mais ao fundo do livro a luz do poema ilumina a cidade: «É um pequeno milagre esta claridade / Os telhados acendem-se como fornalhas / permanece vermelha uma parte do céu».

(Editora: Oceanos, Design: Rogério Petinga, Capa: António Rosado)

O moinho na cidade

A casa tem quatro velas

Não é casa, é moinho

No som de quatro janelas

Vem tua voz de mansinho

No vento que apregoa

No castanho dos telhados

Uma canção de Lisboa

Com sons não esperados

Na luz que chega à vidraça

Onde escrevo estas linhas

Dou o teu nome à praça

Onde as almas vão sozinhas

Praça das Flores talvez

Talvez Praça da Alegria

Onde o dia vale um mês

Onde a hora vale um dia

Quando tu estás presente

Na paisagem da cidade

A vida fica diferente

Nasce uma nova verdade

A casa tem quatro velas

Não é casa, é moinho

À noite a luz das estrelas

Vem indicar um caminho