Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 541

Rui Pinheiro também merece uma notícia

Nada contra Joana Carneiro que ocupou a semana passada largo espaço de entrevistas a propósito do cargo de maestrina na Universidade de Berkeley mas os jornalistas do nosso país parecem não saber nada de Rui Pinheiro, o jovem young conductor in association da Bournemouth Symphony Orchestra sedeada em Poole, na Inglaterra. Fundada em 1893, a BSO é de momento dirigida (principal conductor) por Kiril Karabits e dá uma média de 150 concertos por ano, actuando regularmente na BBC e no Royal Albert Hall. Já foi dirigida por monstros sagrados da música como Edward Elgar e Gustav Holst além de Stravinsky, Rachmaninov e William Walton. Recentemente actuou nos EUA, na República Checa e na Áustria.

O nosso compatriota é director artístico e maestro titular do Ensemble Serse – uma companhia londrina de ópera barroca. Fundou na mesma cidade o Ensemble Disquiet, projecto dedicado à divulgação da música contemporânea portuguesa. Foi maestro da Orquestra do Conservatório Nacional entre 2005 e 2008, tendo dirigido a Filarmonia das Beiras e a ONP – Orquestra Nacional do Porto. Como maestro-assistente trabalhou com Sir Roger Norrington, Esa-Pekka Salonen, Vladimir Jurowki, Martin André, John Wilson, Peter Stark e Robin O’Neill. Trabalhou com os compositores contemporâneos Keneth Hesketh, Alison Kay e Augusto Read Thomas. Concluiu o mestrado em Direcção de Orquestra no Royal College of Music de Londres trabalhando com os maestros Jorma Panula e Colin Metters. Fez estudos musicais e teve actuações em diversos países da Europa além da Inglaterra – Roménia, Áustria e Hungria.

Na janela

Tão oculto na janela a passar
Mais veloz por baixo do avião
Teu rosto, sua medida e lugar
Ocupa nesta cidade o coração

Sucedem-se as várias imagens
Mais nítidas nesta velocidade
E porque iguais às carruagens
Não percebo onde a claridade

Que rodeia o quadro do teu rosto
E ilumina este lado da carruagem
O escuro do túnel no lado oposto
É a sombra do olhar e da viagem

Depois do intervalo no meu dia
Regresso às tarefas repetidas
Ao esplendor da monotonia
Pronta a ocupar as nossas vidas

Um livro por semana 200

«Uma história de amor» de Miguel de Unamuno

Escrita em Salamanca em 1911, esta pequena obra-prima da literatura (segundo Jorge Luís Borges) relata os amores de Ricardo que, junto da grade da casa, dizia para Ludovina: «Não tenho mais nada que fazer, senão olhar para ti». Amores contrariados pelas famílias: «Nem a mãe dela nem o pai dele queriam aceder a dar-lhes o consentimento para se casarem». Os dois fogem de comboio mas regressam passados poucos dias. Ela a uma tia paterna («Não te fazia tão criança!») e ele ao pai («Palerma!»). Ricardo, no convento para onde foge, queima a última resposta dela sem abrir a carta e torna-se um frade complicado: «Procura destacar-se; supõe-se superior aos outros; despreza os companheiros». Ludovina refugia-se num convento de uma vila escondida numa serra agreste: «Ali se enterraria em vida, à espera da morte, da justiça divina e do amor que sacia». Mas é nesse casarão conventual da Província que se resolve esta história circular iniciada junto de um casarão da Cidade perto das muralhas de um convento. Frei Ricardo vem pregar um sermão e reencontra Sóror Ludovina: «Ao estreitarem-se e confundirem-se em um só os soluços de ambos, fundiram-se-lhes os corações e ficou a nu, e descoberto, o amor que, a partir daquela triste fuga, os sustentara pelos caminhos solitários. E a partir desse dia…»

(Editora: Padrões Culturais, Tradução: Alberto Cardoso, Paginação: Mário Andrade)

Vinte Linhas 540

Trinta anos depois a mesma magia, o mesmo ritual

Vou ao lançamento de um livro, estamos em 2010 mas é sempre como em 1980 quando, por um encontro fortuito no «Diário Popular», Jacinto Baptista dividiu comigo os vários convites das editoras. Daí surgiu a coluna «Um livro – um autor» e uma sucessão de nomes: Nuno Júdice, António Alçada Baptista, Joaquim Pessoa. O livro de hoje «A implantação da República na Imprensa Portuguesa» recorda-me de imediato «Um jornal na Revolução» de Jacinto Baptista. Trata-se de um baptizado mas o hissope está disfarçado de garrafas de água e os celebrantes são três – autor, editor, apresentador. Nair Alexandra, Guilhermina Gomes e Luís Farinha. O ano de 1910 corresponde a uma explosão de jornais operários com mais de 600 títulos mas há muitos outros sobre temas novos na vida portuguesa – desporto, cinema, teatro, música. É também o tempo do esplendor do fotojornalismo com Joshua Benoliel, o homem que estava em todo o lado. Mudava o rosto do jornalismo em Portugal, da palavra apoiada na gravura passava à fotografia que dizia mais do que a legenda. Pormenor curioso: a presença em Portugal do presidente eleito do Brasil (Hermes da Fonseca) leva alguns jornais a proclamar «Viva o República do Brasil!». Tempo também de mistérios: havia mais homens no Torel para defender a Monarquia do que na Rotunda para empurrar a República. Nas eleições de 28-8-1910 foram eleitos 14 deputados republicanos e desde 1908 a Câmara Municipal de Lisboa era governada por uma vereação republicana com um governo central monárquico. Nair Alexandra (n.1966) prova que a Imprensa é um meio excelente para ler a dinâmica das mudanças da História. E eu recordo Jacinto Baptista.

CEMISTÉRIO

Aqui se fixam as diferenças
até na morte como mercadoria.

Dinheiro em pedra nos jazigos;
campas pobres só com a terra
– por detrás dos muros, prédios,
vozes, gente que faz barulho
e estende roupa para este sol.

Pode chegar-se aqui de “táxi”
ou também de autocarro.

Nas flores mais secas
se vai perdendo a luz.
Outras memórias, palavras,
São o lixo deste dia.

Um tempo para dizer este tempo
quando o relógio se cansa
e perde os ponteiros do coração,
um tempo para lembrar
as flores tão verdadeiras
num frasco de tofina bem lavado.

Outras facturas, outro dinheiro
se perdem nesta morte a prazo.

Morre-se também na tarde,
perguntando sempre à morte
qual a diferença de luz
entre o mármore e a terra.

Vinte Linhas 539

Das aldeias de Xisto aos passarinhos de Alcobaça

Passei um fim-de-semana em cheio numa casa de Xisto nos arredores de Penela (Ferraria de São João) pois fui convidado a apresentar um livro na Festa do Livro de Penela. E foi tão em cheio que até um mal-entendido sobre um restaurante que, afinal, estava fechado, se resolveu, por bem, com uma refeição alternativa no Retiro do IC8 algures entre o Casal de São Simão e o Fato. Carapaus divinais em molho de escabeche, bom pão e óptimo vinho, fizeram as delícias dos viajantes cansados.

Ao lado de Festa do Livro, a feira de Penela com produtos da terra (nozes, cebolas, alhos, arroz carolino, vinho, azeite) e as chamadas quiquilharias: comprei um cinto novo a um feirante marroquino que, quando lhe pedi para pôr o meu cinto velho no caixote do lixo, respondeu: «Este cinto não de deita fora, está só usado mas funciona».

Para quem vive lado a lado com a ideia e a prática do desperdício fácil, esta foi uma lição de sobriedade, de ecologia, de vida enfim. Porque aquele cinto velho mas funcional pode (vai) ser útil a alguém que vive em piores condições do que nós.

Parei em Alcobaça para tomar uma bebida fresca e descansar. Como tinha o carro perto do Tribunal, achei curioso as duas gaiolas que numa das paredes do edifício são a casa de alguns passarinhos. Estes são felizes. Num restaurante do Alandroal («A Maria») as autoridades obrigaram o proprietário a substituir o passarinho vivo por um desses dos chineses. De plástico, claro, talvez por razões higiénicas. Mas os de Alcobaça são mais felizes do que o do Alandroal. A eles ninguém chega, neles ninguém toca. Estão na parede do Tribunal e a ASAE não chega lá. Ainda bem.

Um livro por semana 199

«Da cidade, do campo, dos sorrisos» de Margarida Gama de Oliveira

O poema, tal como a oração, liga de novo o que a erosão da vida se encarregou de separar. O poeta é o sacerdote da liturgia celebrada na folha branca de papel (qual altar) com uma caneta, qual hissope com lágrimas no lugar da água benta.

O ponto de partida deste livro é a relação entre a Natureza e a Cultura. O primeiro poema é um programa: Naquele vale / a casa onde nasci / A casa onde senti / que havia sol / mãe / um mar de pão / um pai / a dor / leite e amor / água e mel / e uma caneta preta para escrever a vida. O poema olhou à sua volta e descobriu uma paisagem povoada pela chuva e pelos frutos silvestres: Gosto da chuva / sentada / na cadeira da varanda / a conversar comigo (…) Gosto de violetas roxas / perdidas nas levadas (…)

Ao lado da paisagem vegetal o poema registou, na sua particular cartografia, o povoamento humano, os ofícios a desaparecer, como o do cesteiro ou do moleiro:

E aquela mó / para quem a eira / as velas / o moleiro / e o trigo magoado / eram mesmo / só passado. «Terra de Mel» é um poema que junta de modo hábil a Natureza e a Cultura. O motivo repetido deste poema é a ligação entre o mel (produto da terra) e o coração (produtor de sentimentos). Partindo de uma aldeia na moldura da serra (o casario, as ruas, o rio) o poema alcança a memória da Bíblia (a terra do leite o do mel) sem esquecer o Novo Testamento quando refere a triste traição de Judas.

No poema se registam duas geografias; uma geral (Senti a Primavera desde a primeira hora) e outra particular: Na minha pele / sinto o calor da eira / e a pereira / em flor.

(Edição: Corpos Editora, Designa e Ilustração: Bruno Gomes)

Vinte Linhas 538

López Herrera – da magia do real aos destroços a invencível armada

Até ao dia 24 de Outubro próximo vai estar patente ao público na Rua da Misericórdia nº 30 (Chiado) uma exposição do pintor madrileno López Herrera.

Algumas facetas do chamado «orgulho espanhol» estão evidentes nos protagonistas desta série intitulada «A magia do real».

Dom Quixote num cavalo de brincar e Sancho Pança num bote que sugere os destroços da invencível armada, surgem no quadro «Personajes».

Os moinhos de vento não couberam no quadro mas fazem parte.

Também não aparecem os almocreves agressores a quem Dom Quixote quis convencer da formosura de Dulcineia, a mais bela dama do Mundo. Mas fazem parte.

O quadro sugere o desastre da invencível armada como prenúncio do desastre pessoal do próprio Cervantes quando perde o lugar de comissário real de víveres e fica na prisão entre 1592 e 1605.

Outros são os quadros nos quais o tema da viagem se impõe: «Navigator», «Paisaje habitado», «Marina» ou «El vigia».

Noutros quadros o autor projecta o seu próprio rosto nos contornos dos protagonistas. Por exemplo nas peças «Newton», «Arquitectos» ou «El cazador de ideas».

De qualquer modo a ideia geral é voltar sempre ao motivo inicial do conjunto. Num mundo onde os verdadeiros valores estão ausentes, o ideal é um código de comportamento caído em desuso desde as novelas de cavalaria. Ou também desde o tempo da invencível armada, cujos destroços circulam por aqui nas paredes da galeria.

Raúl Solnado no Doce Real entre o palco e o público

No Doce Real o balcão era o palco. Como numa liturgia teatral, Raul Solnado pedia um garoto e um pastel de nata. Então era como se, de repente, chegassem os bobos e os jograis, os histriões e os segréis para o banquete no Paço da Rainha D. Alice. Como no Renascimento, Raul Solnado fazias mistérios e milagres, transformando um pastel de nata e um garoto num banquete real. Dobrou a esquina a sorrir depois de repetir o adjectivo do costume – apetitosíssimo! Não se despediu porque continua por aqui.

ATÉ ESSE MOMENTO

Lembrarás então o pai aqui sentado
A máquina de escrever no chão
Os discos na parede entre a luz e o pó

Irão passar talvez muitos anos
Farás promessas que não vais cumprir
E dirás ruas para voltar noutras horas

Será como quem percorre um caminho
Iluminado pela luz do teu olhar
À procura das palavras subterrâneas

Lembrarás então o pai aqui sentado
Um gelado presente do indicativo
E silencioso que não fala – não esquece

Passarás nas tuas mãos um fio
Será talvez a memória das noites
O tempo do leite e das fraldas

Será como quem procura descobrir
Nos desenhos (nos cadernos escolares)
Uma outra maneira – a tua outra voz

Lembrarás então o pai aqui sentado
Não como pai mas como anónima pessoa
Surpresa a esperar no céu do outono

Terás nas tuas mãos um retrato
O voo das aves por cima da casa
Como inesperada vírgula do tempo

Será como quem procura fragmentos
Num momento ou talvez num lugar
Na tua idade como um portão aberto

Vinte Linhas 537

A Big Band da Nazaré, Margarida e as memórias convocadas

No passado dia 9-9-2010 às 7 da tarde ouvi no Jardim do Torel a Big Band da Nazaré dirigida por Adelino Mota. Pelo palco passaram temas famosos de Charles Mingus, Miles Davis, Mark Cally, Joe McCoy, Wayne Shorter, Errol Garner e outros clássicos. No fim do concerto, adquirido o CD para o ouvir em casa, ficou-me na retina o olhar da trompetista Margarida, a única mulher executante do grupo pois o outro elemento feminino (Júlia Valentim) é a vocalista residente. Há olhares assim: acumulam os sinais de muitos anos de memória. Este olhar trouxe a terra da Nazaré a um Jardim de Lisboa e nele me apercebi dos contornos das mulheres que povoaram a minha infância. As mulheres e os seus trajes de trabalho: as chinelas, as blusas, os corpetes, as saias, os aventais, as capas, os lenços, os chapéus de feltro com as suas rodilhas que faziam altura. As mulheres e as suas vozes que misturavam de modo sentido os sons do mar e da terra na sua voz magoada quando perguntavam à minha avó: Há por aí uma pinguinha de café? As mulheres e a sua fala arrastada pelo cansaço e pela chuva; só desanuviava num sorriso quando a minha avó atirava uma brasa para dentro da cafeteira e a espuma do café descia de imediato. Depois do café apregoavam melhor a sardinha escalada, o carapau seco ao sol além do peixe do dia a espreitar na canastra. Melhor do que a minha memória, este desenho de Abílio Mattos e Silva explica a paisagem humana desses anos 50 em Santa Catarina. E a Margarida que me perdoe mas depois das palmas para a música só vi no seu olhar as recordações das Nazarenas que chegavam à minha terra pela estrada de Alcobaça entre pó no Verão e lama no Inverno.

O segundo segredo de Ourozinho

Oh Senhora da Assunção
Meu lugar de ser e estar
Os andores ali no chão
Esperam quem vai cantar

No desfile em lentidão
Da música, seu compasso
Os ritmos do coração
Revelam tempo e espaço

Como esquecido brasão
Invisível para o Mundo
Há em mim a inscrição
Do contrato tão profundo

Entre o instinto e a razão
Entre a paixão e a lucidez
Dum lado o apelo do chão
Do outro a luz dos porquês

Estou dentro da procissão
Vivo de novo a verdade
São momentos de paixão
Largas horas de saudade

Na festa e na ocasião
O meu corpo nada pesa
Estar aqui é a oração
Que em silêncio se reza

Oh Senhora da Assunção
Eu canto para não chorar
Os andores ainda estão
Só agora se vai andar

Oh Senhora da Assunção
Vou dar-te a despedida
Não posso dizer que não
Aos desafios da vida

Vinte Linhas 536

De como José Saramago também fala de cebolas

Faço parte de um clube de leitura e hoje (18-9-2010) na Livraria Fábula Urbis em Lisboa discutimos durante duas horas «O ano da morte de Ricardo Reis». Houve uma referência na página 331 da edição de 1984 (com a dedicatória original À Isabel, outro livro, o mesmo sinal) às cebolas que me lembrou uma nota dum «pobre» a propósito do aqui publicado «Fado Feira da Cebola». Escrevi «cabos de cebola» e o «artista» disse que não era cabo mas sim réstia. Pois Saramago escreve «Um rasto de cebola. É verdade, um rasto de cebola». No famoso dicionário de Moraes, página 462 lá temos «rastra – réstia de cebolas ou de alhos». Rasto é outra coisa mas compreende-se a mudança em relação à norma do dicionário.

O livro arranca com «Aqui o mar acaba e a terra principia» em homenagem a Camões: «Aqui onde a terra se acaba / e o mar começa». O autor coloca habilmente em diálogo uma figura de ficção (Ricardo Reis) com um fantasma (Fernando Pessoa) que já não podia dialogar em 1936. No quarto 201 do Hotel Bragança o protagonista tenta escrever poemas a uma mulher sabendo, entre cálculo e ilusão, que «muitas vezes começamos por falar no horizonte porque é o mais curto caminho para chegar ao coração». São Pedro de Alcântara, o Terreiro do Paço, o Cais das Colunas, o Chiado, o Hotel Bragança e o miradouro do Adamastor (entre outros) são lugares e palcos da cidade aqui revisitados por Ricardo Reis, o médico criado por Fernando Pessoa que nasceu em 1867 no Porto e vive no Brasil até 1935, data da morte do poeta dos heterónimos. Um ano antes da revolta dos marinheiros no estuário do Tejo contra Salazar.

Vinte Linhas 535

A música dos gatos entre Elza e Fernanda

O gato de Fernanda faz do seu telhado uma ameia de castelo. Não há invasores capazes de vencer a muralha de indiferença superior deste gato. Perto da febre do trânsito, os passos vagarosos do gato de Fernanda, no fim da tarde, pelas telhas, são música no lugar onde a chaminé projecta sombra. Não foge; afasta-se. Não teme; desvia-se. Não vacila; avança até ao limite do espaço do telhado, feito uma ameia de castelo.

O gato de Fernanda fica sempre por cima. Nenhum conflito o envolve, nenhuma guerra o mobiliza, nenhuma disputa o desgasta. Sobranceiro e distante, afasta-se para o outro lado das telhas, solene e vagaroso. Procura o sorriso de Fernanda, uma espécie de vírgula num discurso de amizade partilhada, algures no esgaço e no tempo da janela onde os seus dois mundos se misturam de modo apropriado, rápido e feliz.

A música dos gatos passa veloz e intensa do telhado para a tela em acrílico. O mesmo é dizer do telhado de Fernanda para a Galeria de Arte de Elza. Ali, na Rua da Misericórdia nº 30, perto do Chiado, o sol incide sobre as linhas do eléctrico 20 (Cais do Sodré – Gomes Freire), percurso há muito desactivado. O brilho do sol faz dos ferros um espelho que devolve às telhas um resto dos compassos de João Sebastião Bach.

A música dos gatos oscila entre os olhares de Elza e de Fernanda. De um lado a paixão do rigor das imagens, dos pormenores quase infinitos que podem caber numa tela de reduzidas dimensões. Do outro a ternura derramada que começou nas prateleiras de álbuns da livraria e passou para o perímetro da casa com a janela aberta para o castelo invisível onde o gato permanece de atalaia. Quando o telhado parece um castelo.

Balada da Escola de Brooklands em Blackheath

Passa pelo seu porteiro
Gente de vários tamanhos
Passa aqui o dia inteiro
Não deixa entrar estranhos
As mães são todas bonitas
No olhar dum coração
Combinam chá e visitas
Entre a sala e o portão
Na mesa dos animais
Tomás toma o seu lugar
Os monstros originais
São pesadelo a sonhar
Nesta escola de crianças
O horário é pequenino
A manhã das esperanças
Sonha o futuro destino
Onde os meninos de agora
Que chegam de bicicleta
Aprendam que estrada fora
Há no fim a luz da meta

No sorriso do consolo
Cada criança trazia
Um pequenino bolo
Feito entre a alegria
Entreajuda, amizade
Todos iguais na diferença
Vão viver numa cidade
Onde o ódio é doença
Uma cidade, um futuro
Onde o sonho se faz acção
A escola é lugar seguro
Porque todos dão a mão
Ao sonho em teimosia
Dum mundo onde a gente
Prefere uma harmonia
Em vez da voz divergente
Por isso não dão pelas horas
Levam a pasta oferecida
No olhar das professoras
Está um programa de vida

Vinte Linhas 534

Uma memória do «Record» a propósito do Eduardo

«Morreu o Eduardo!» – esta notícia dolorosa chegou-me através do Cândido, um amigo e vizinho de Santa Catarina. Uma coincidência de datas leva-me a 7-9-1986. Era domingo na minha estreia nas páginas do «Record». Fui convidado pelo Ricardo Tavares mas foi graças ao Eduardo que fui acamaradar com a malta do andebol. Muitas vezes ele organizou idas colectivas dos simpatizantes do Passos Manuel («Passos! Passos!») ao recinto desportivo do CACO – Clube Atlético de Campo de Ourique. Íamos a pé e às vezes víamos vários jogos de enfiada. O Eduardo andava sempre com o «Record» debaixo do braço e a minha colaboração entre 1986 e 1987 só foi interrompida por um processo em Tribunal por abuso de liberdade de imprensa mas um juiz ex-jogador da Académica resolveu o caso em três tempos a meu favor. O queixoso saiu com o rabo entre as pernas. Nunca me disseram mas esse processo acabou por ditar o meu afastamento. Sempre me dei bem com o Ricardo Tavares, com o Alves de Carvalho, com o Rui Cartaxana mas a minha colaboração (paga a 50 escudos a linha) cessou para não mais voltar. Mais tarde no BPA convivi com o António Lopes que jogava no Belém e era amigo da grande equipa «leonina» do treinador Matos Moura. Também se dava com os irmãos Vasconcelos do Benfica. Conheci essa malta toda – o Carlos Silva, o Hernâni, o Franco, o Luzio, o Castanheira, o Bessone, o Anaia. Todos. Em Alvalade, no estádio, muita gente reparava num bombeiro que ouvia o relato num rádio pequenino e dava informações ao «banco» dos sportinguistas sobre a evolução dos resultados dos adversários directos. Há fotografias. Esse bombeiro era o Eduardo.

Um livro por semana 198

«Portugal – O sabor da terra» de José Mattoso, Suzanne Daveau e Duarte Belo

Esta é a reedição do clássico de 1998 cujo título (O sabor da terra) vai homenagear Ruy Belo e que, através da mistura feliz de imagens e de texto, procura desvendar a terra e o homem nos seus caminhos em busca do pão, do amor, do poder ou da morte. Além de capítulos sobre Lisboa e Porto, o volume abarca onze regiões: Trás-os-Montes, Minho, Douro, Beira Litoral, Beira Alta, Beira Baixa, Estremadura, Ribatejo, Alto Alentejo, Baixo Alentejo e Algarve. Ficam de fora Açores e Madeira por serem territórios acrescentados no século XV. O título poderia ser «Portugal ponto por ponto» e, como convite ao leitor, ficamos pela Estremadura. Em 1416 o arauto do conde Barcelos, natural de Lamego, escreveu «a Stremadura tem este nome de extremada porque é a melhor, a mais rica e a mais forte de todas as regiões do reino. É, entre todas as regiões, a mais bela e notável, está quase a meio do reino e os seus encantos deleitam.» Esta é a região que faz a síntese da geografia do país: nos cumes das serras, nas praias ricas de iodo, nas planícies férteis de vinha e pomar. As fotos de Duarte Belo mostram ora um moinho em Runa, ora uma falésia na Serra do Bouro, ora um penedo em Cheleiros, ora um maciço de calcário no Arrimal. Sintra, Alenquer, Leiria São Martinho do Porto, Zambujal, Picanceira, Sobral do Monte Agraço, Penafirme, Alcobertas, Lourinhã, Arruda dos Vinhos e Atouguia da Baleia (entre outros pontos) são registados pelo fotógrafo e cada legenda dá origem a um novo aspecto.

(Editora: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Textos: José Mattoso e Suzanne Daveau, Fotos, legendas, capa e maqueta: Duarte Belo)

Vinte Linhas 533

Miguel Garcia, Kyros Vassaras, Pedro Silva e a fraca memória do Benfica

Quem destruiu a carreira do Miguel Garcia no Sporting foi um péssimo árbitro vindo da Grécia para arbitrar o Sporting-Udinese de má memória. O bicharoco transformou uma falta atacante numa grande penalidade contra o Sporting e a carreira do Miguel Garcia acabou: foi despachado a grande velocidade para o Reggio Emília de Itália.

Não deixa de ser engraçado ver os corpos sociais do SLB a gritarem contra o árbitro de um jogo recente esquecendo que ainda há muito pouco tempo esse mesmo árbitro em Alvalade expulsou logo aos 2 minutos um jogador do Sporting, favorecendo de modo decisivo o SLB com essa decisão. E a Taça da Liga que foi ganha no Algarve de parceria com um árbitro que inventou uma grande penalidade e alterou o resultado, destruindo ao mesmo tempo a carreira de Pedro Silva no Sporting. Na altura soube bem gozar com a situação e dizer «Eles com a azia e a gente com a Taça!».

O ano passado gozaram com os adversários vendo-os serem sistematicamente prejudicados e a acabarem os jogos com apenas dez jogadores. O ano passado houve casos de jogadores adversários postos fora de combate pelos chamados processos dos túneis. Os árbitros são sempre influentes e muitas vezes decisivos. Fui jornalista desportivo entre 1988 e 2006, vi centenas e centenas de jogos de todas as categorias (escolas, infantis, iniciados, juvenis, juniores, equipa B, primeiras categorias e jogos internacionais) por isso já tenho a minha conta e estou vacinado contra estas pandeiretas do SLB. Uma última nota: ponham os olhos nestes jovens de 1966 que quando entravam em campo não se preocupavam em saber o nome dos árbitros.

Vinte Linhas 532

José Torres – 1938-2010 – uma certa memória 11 anos depois

Faz hoje (9.9.2010) 44 anos que comecei a trabalhar. Ganhava 900 escudos por mês e descontava 18 escudos para o Fundo de Desemprego, 9 escudos para o Sindicato, 25 tostões para a Caixa de Abono de Família e 25 tostões para o Grupo Desportivo. O curioso é que tinha 15 anos e pagava quotas ao Sindicato mas só podia ser sócio aos 18 anos e se ficasse no desemprego não recebia nada. No mesmo dia recebi a edição do jornal O MIRANTE que reproduz a entrevista que fiz a José Torres em 16-6-1999 na sua casa da Amadora. No essencial, além de recordar a carreira de jogador e de treinador, o bom gigante explica que na Segurança Social só constam os descontos efectuados entre 1953 e 1959 na empresa Claras de Torres Novas. Tudo o resto (Benfica, Setúbal, Estoril Praia. Estrela da Amadora, Varzim, Boavista e Portimonense entre outros) não consta e voou dos talões de ordenado para o vazio. Estes os factos. Daí a frase de José Torres: «Para a Segurança Social eu não existo como jogador de futebol». Filho de Francisco Torres (que jogou no Carcavelinhos) e sobrinho de Carlos Torres (que jogou no Torres Novas e no Benfica) José Torres cumpriu um fado triste que foi jogar no Benfica doze anos e nunca ter tido um ordenado maior do que 4 mil escudos mas mais grave foi os descontos terem desaparecido entre os Clubes e a Caixa – como então se dizia. Este dia 9 de Setembro fica como uma data especial na minha vida. Passaram 44 anos sobre o meu primeiro dia de trabalho e sobre os meus descontos para nada. Passaram 11 anos sobre a entrevista que fiz a José Torres sobre os seus descontos para nada. Moral da história: é por sermos portugueses. Não há remédio.