Vinte Linhas 537

A Big Band da Nazaré, Margarida e as memórias convocadas

No passado dia 9-9-2010 às 7 da tarde ouvi no Jardim do Torel a Big Band da Nazaré dirigida por Adelino Mota. Pelo palco passaram temas famosos de Charles Mingus, Miles Davis, Mark Cally, Joe McCoy, Wayne Shorter, Errol Garner e outros clássicos. No fim do concerto, adquirido o CD para o ouvir em casa, ficou-me na retina o olhar da trompetista Margarida, a única mulher executante do grupo pois o outro elemento feminino (Júlia Valentim) é a vocalista residente. Há olhares assim: acumulam os sinais de muitos anos de memória. Este olhar trouxe a terra da Nazaré a um Jardim de Lisboa e nele me apercebi dos contornos das mulheres que povoaram a minha infância. As mulheres e os seus trajes de trabalho: as chinelas, as blusas, os corpetes, as saias, os aventais, as capas, os lenços, os chapéus de feltro com as suas rodilhas que faziam altura. As mulheres e as suas vozes que misturavam de modo sentido os sons do mar e da terra na sua voz magoada quando perguntavam à minha avó: Há por aí uma pinguinha de café? As mulheres e a sua fala arrastada pelo cansaço e pela chuva; só desanuviava num sorriso quando a minha avó atirava uma brasa para dentro da cafeteira e a espuma do café descia de imediato. Depois do café apregoavam melhor a sardinha escalada, o carapau seco ao sol além do peixe do dia a espreitar na canastra. Melhor do que a minha memória, este desenho de Abílio Mattos e Silva explica a paisagem humana desses anos 50 em Santa Catarina. E a Margarida que me perdoe mas depois das palmas para a música só vi no seu olhar as recordações das Nazarenas que chegavam à minha terra pela estrada de Alcobaça entre pó no Verão e lama no Inverno.

2 thoughts on “Vinte Linhas 537”

  1. JCF.
    Também gosto de ouvir estes grupos porque nos trazem à memória algo da nossa infância mas se forem da nossa terra melhor ainda. Não me canso de falar dos da minha terra e sinto grande orgulho por podermos oferecer a quem nos visita ou quem nos ouve a nossa cultura.
    Já o referi aqui e mais uma vez o refiro – não gasto nada, a internet tenho-a de a pagar quer a use muito ou pouco – que a Associação Cultural Recreativa Pedaços de Nós, tem feito pela nossa cultura, quer a nível de teatro e da música e envio uns vídeos para essa mesma demonstração. Senão for ao gosto de quem os veja ou ouça paciência, a oferta é com as melhores das intenções.

  2. Obrigado pelo comentário. Já ouvi músicas sugeridas, não todas mas voltarei ao tema. Gostei francamente. Parabéns aos jovens de todas as idades que integram o Grupo!

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