Todos temos momentos de ingenuidade, momentos em que acreditamos que as coisas vão passar-se tal e qual as vemos acontecer na nossa visão de instinto.
Lemos isto, um artigo de opinião assinado pelo Chefe de Serviço Hospitalar do IPO publicado na ROM, e a estupefacção é tanta que esperamos, mais do que reacções legais, o repúdio imediato, sem condescendências, vivo, pedagógico, de quem representa a comunidade médica nesta democracia de 37 anos, onde é imperativo constitucional e legal ter por iguais, no sentido mais profundo que a ética, a dignidade da pessoa humana, o livre desenvolvimento da personalidade e, por consequência, a proibição de considerações discriminatórias arbitrárias sobre as pessoas com base na sua orientação sexual impõem.
Assim é, felizmente, porque as forças maléficas com repouso em argumentos incompreensíveis para uma lógica racional, desligada de mandamentos do além ou coisa que o valha, deixaram de poder ditar o seu preconceito infundado para uma lei que dizia crime, para uma lei que dizia doente, para uma lei que dizia anormal.
Formalmente, essas leis já não existem, já não amedrontam, já não causam desgraça.
De tempos a tempos, porém, vem a memória delas, porque quem odeia certas pessoas, ou quem tem medo de certas pessoas, esse medo tremendo do que é diferente, quer fazer propaganda do antigamente, insistindo em estereótipos, denunciando práticas sexuais que para espanto têm por exclusivas dos homossexuais, finalmente caluniando o grupo de pessoas: “doentes, defeituosos, anormais, portadores de taras”, mas gente que acabou por ser objecto de uma estranha tolerância apesar de terem condutas sexuais “aberrantes”.
Sim, uma pessoa lê isto e sabe que este Senhor sabe que em Portugal a liberdade de expressão, como em todos os outros países democráticos, não é ilimitada; não pode, por exemplo, ser invocada se, no caso concreto, está a ser veículo de compressão de maior relevo de outros bens e valores constitucionais, como os que referi mais atrás. Este senhor deve saber, acho eu, que não pode invocar a liberdade de expressão para praticar crimes. A ver se ele entende: eu não posso invocar a liberdade de circulação para atropelá-lo não parando na passadeira; simples, certo?
Ora bem: o avançado mental que escreveu o artigo de opinião não pode invocar a liberdade de expressão para caluniar todos os homossexuais e lésbicas, fazendo propaganda contrária ao sistema de princípios e valores constitucionais que não só protegem as pessoas em causa após séculos de perseguição, como o foram outras categorias de pessoas, como consubstanciam alguns dos pilares do Estado de direito em que nos inserimos.
O autor não pode invocar a tal da liberdade se alguém entender por bem fazer qualquer coisa, mas o mundo em que vivemos precisa realmente desta tristeza que é deitar fora minutos de ingenuidade e andarmos antes de olhos bem abertos, porque quando perguntado sobre aquele lixo grave, o bastonário da Ordem dos Médicos “considerou normal a publicação”. O Bastonário invocou a liberdade de expressão, que não exerceu para contraditar o conteúdo daquele lixo, antes preferindo mentir , dizer que não tem nada a ver com a publicação.
É convidar um médico, para a próxima, que defenda a menoridade biológica das mulheres, dos negros, ou coisa assim. Liberdade de expressão.