Verbalizações

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Às tantas, é provável que não seja o assunto mais importante da actualidade. Às tantas da manhã. Mas pode ser visto como sinal dos tempos. Eis o caso de um deputado que acerta na escolha do particípio do verbo pagar quando conjugado com o verbo auxiliar ter só para se arrepender de imediato, introduzir um erro popular e ainda pedir perdão aos ilustres colegas no Parlamento por ter ousado respeitar a perfeição gramática.

Este deputado acha que a forma irregular é a que melhor se adequa à semântica e sintaxe do ter. Vícios de uma certa linguagem.

Dia 17, abrir os olhos do Estado a famílias reais e juridicamente “clandestinas”

 

 

Sexta-feira, 17 de Maio, entre outras iniciativas, será discutido e votado o projeto de lei, do qual sou subscritora, que permite o que foi recentemente considerado de consagração obrigatória, tendo em conta o superior interesse da criança, pelo TEDH: trata-se de consagrar o instituto da co-adoção para casais do mesmo sexo, o qual já existe para casais de sexo diferente.

Vivemos num mundo que trata os direitos que se relacionam com a homossexualidade de forma diferente: do horror dos que consagram penas de prisão e de morte, passamos para os que consagram alguns direitos, sem no entanto poder dizer-se que se atingiu o grau civilizacional (e vencedor do medo) de se ter todas as pessoas por iguais, vitória crescente num Globo que consagra direitos de adoção e direito a celebrar casamento. Esta vitória sobre o medo, em número impressionantemente crescente, significa a vitória da compreensão correta de que os planos pessoais de vida e os sentimentos e desejos aos mesmos associados unem, na sua substância, todas as pessoas, sendo portanto indiferente a respetiva orientação sexual.

Dia 17 de Maio, dia mundial contra a homofobia, apresentamos um projeto que chega atrasado para pais e mães e para crianças que, na sua inocência, desconhecem que o Estado desconsidera os seus progenitores.

 São inúmeros os casais do mesmo sexo, casados ou unidos de facto, que constituem família e cujos filhos, biológicos ou adotados, crescem num contexto familiar desprovido de proteção jurídica adequada: a resposta só pode ser um quadro jurídico seguro para situações residuais não solucionadas pela adoção.

Se o preconceito trava a palavra igual sem adversativa, temos o dever de apresentar um projeto-lei que não é travado por qualquer preconceito ou ideologia. 

Todos conhecemos as famílias que beneficiam deste projeto: famílias em que por exemplo alguém adota singularmente, casando mais tarde ou vivendo em união de facto, sendo este cônjuge ou este unido de facto, na realidade, tão pai ou tão mãe de facto e nos afetos como quem detém o vínculo jurídico da parentalidade. Acontece que não pode tomar decisões urgentes quanto à educação ou saúde do filho de facto e, se o pai juridicamente reconhecido morrer, a criança sofre uma dupla orfandade: perde o pai sobrevivente, e também perde avós, tios, etc.

Isto é insuportável.

A resposta a esta orfandade legal está no projeto de lei que consagra o mesmíssimo regime da co-adoção no caso de casais de sexo diferente, em nome, finalmente, de uma coerência jurídica neste domínio.

 Que sirva este 17 de Maio para um passo que dispensa grande reflexão.

Que sirva este 17 de Maio para o exercício livre do dever de dizer sim a um pedaço urgente de uma República que não se resume certamente a uma estátua.

Dados do INE: um Governo que aposta no crescimento

No 1º trimestre de 2013, a economia portuguesa apresentou um crescimento negativo de 3,9% em termos homólogos e 0,3% em cadeia.

Segundo o INE, o principal fator para esta queda foi a redução do Investimento: “A procura interna apresentou um contributo mais negativo para a variação homóloga do PIB, em resultado da diminuição mais acentuada do Investimento, com destaque para o comportamento da FBCF em Construção. Em sentido oposto, o contributo positivo da procura externa aumentou, refletindo principalmente a redução mais intensa das Importações de Bens e Serviços.”

A economia portuguesa apresenta a recessão mais prolongada de sempre: dez trimestres consecutivos de quebra no PIB (em cadeia e/ou nove em termos homólogos).

Em 2008/2009 (grande recessão a nível mundial), a economia portuguesa retraiu quatro trimestres consecutivos, agora, no 1º trimestre do ano, já vai na 10º quebra consecutiva (variação em cadeia).

Segundo as projeções da Comissão Europeia, o PIB português deveria ter caído, neste 1º trimestre de 2013, 3,7% em termos homólogos e 0,1% em termos trimestrais, ora, afinal a quebra foi mais acentuada. Segundo este organismo, o PIB deverá contrair até ao 1º trimestre de 2014 (em termos homólogos).

Recorde-se que as últimas projeção do Governo e da “troika” (revistas), apontam para uma queda do PIB de 2,3% este ano e um crescimento de 0,6% para 2014.

 

Comparando com a União Europeia destaca-se:

Em termos de variação homóloga:

 

ü Portugal apresenta a 3ª contração do PIB mais elevada a seguir à Grécia e Chipre.

ü Portugal apresenta uma contração do PIB quase 6 vezes maior que a da UE 27 e quase 4 vezes maior que a da zona euro.

ü O PIB na UE27 cai 0,7% e na zona euro 1,0%.

ü Letónia apresenta o maior crescimento (5,6%).

 

Em termos de variação trimestral/cadeia:

 

ü  Portugal apresenta o 6º maior crescimento negativo do PIB

ü O PIB na UE27 cai 0,1% e na zona euro 0,2%.

 

 

A quem interessar possa

Diz o Expresso que Sócrates viajou hoje em executiva e Passos Coelho em económica num voo de Paris, cumprindo a regra que impôs ao executivo.

Tão perto e tão longe, o primeiro viajou em classe económica, obrigado pela regra que impôs a todo o governo no início do mandato. Livre de tais constrangimentos, o ex-primeiro e comentador dominical da RTP viajou em executiva. Onde, aliás, era o único passageiro.

Pois viajei no mesmo voo que o Gaspar na quarta-feira passada e estou em condições de confirmar que o ministro não respeitou a dita regra, viajando em executiva.

É isto importante? É. Para responder às parvoíces do Expresso.

A política do “entretanto” ou do “entreter”

A França e a Alemanha preparam-se para apresentar aos outros países da União Europeia (UE) uma iniciativa em favor do emprego jovem inspirada no New Deal concebido pelo presidente americano Franklin Roosevelt para reconstruir a economia do país depois da grande crise dos anos 1930. […]

O jornal (Rheinische Post) precisa que o plano é apoiado por “grandes empresas” e inclui o envolvimento do Banco Europeu de Investimentos (BEI) — a instituição financeira da UE — através da concessão de crédito às empresas que se comprometam a contratar jovens. […]

No início de 2012, a Comissão Europeia já tinha lançado a criação de “grupos de acção” nos oito países com taxas mais elevadas de desemprego jovem — Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda, Itália, Eslováquia, Letónia e Lituânia — para os incitar a reafectar ao combate ao desemprego jovem os fundos estruturais comunitários de apoio ao desenvolvimento das regiões mais desfavorecidas que lhes estão atribuídos entre 2007 e 2013 mas que não estavam a ser utilizados. Apesar da iniciativa, reconheceu ontem László Andor, comissário europeu responsável pela política social, no fim do ano o desemprego jovem continuou a subir em Portugal e na Itália para cerca de 38% dos jovens, em Espanha para quase 56% e na Grécia para mais de 58%.

(Fonte: Público de hoje)

Esta ideia de que a principal medida a tomar para reduzir o desemprego jovem é conceder estímulos às empresas para a contratação de gente nova é absolutamente extraordinária no contexto atual. Não se contratam jovens nem se contrata ninguém porque não há procura. E não há procura porque há, no melhor, contenção salarial e, no pior, cortes salariais acentuados e aumento dramático do desemprego. Generalizados na Europa. Logo, redução do poder de compra. Além do medo do futuro, que não induz consumo. Continuar a insistir numa solução que situa a crise do emprego na falta de crédito às empresas ou na falta de dinheiro para contratações, ainda por cima perante provas de que as medidas de estímulo não funcionam se nada de mais profundo for feito, é prosseguir na via do discurso enganador tão a gosto dos alemães e continuar a não querer atacar a raiz dos problemas. Hollande está a revelar-se, para já, um Sarkozy não assumido no que toca à Alemanha (eleitorado “oblige”), obrigado em nome do prestígio imperial da França (?) e do seu papel de segundo motor da aeronave europeia a não cortar os laços com a maior potência económica da Europa, sob pena de ficar a liderar um clube de «indigentes», neste momento verdadeiramente depauperados, famélicos e pés descalços. Quem quereria?

O grande problema desta crise europeia é que, depois do estoiro da bolha financeira internacional que teve como principais responsáveis os bancos, todos por cá compreendemos o problema de todos. A solidariedade quebrou-se, ninguém tem a coragem de romper e há quem não tenha sequer interesse em romper, porque o drama dos outros lhe é favorável. Mas as populações europeias estão a acumular tensões.

Um dia, não sabemos em que circunstâncias e com que protagonistas, abandonar o discurso estigmatizante, parar com a austeridade, atribuir um novo papel ao BCE e concertar a política económica poderiam ainda salvar o Euro. Mas esse dia não consta de nenhum calendário conhecido. Assim, é cada vez mais tarde. E cada vez mais impossível.

Crónicas da gente séria

paulo rangel

Senhor Presidente, eu queria denunciar aqui aquilo que se está a passar em Portugal neste momento, onde é claro que a comunicação social trouxe à luz um plano do governo para controlar os jornais, para controlar estações de televisão, para controlar estações de rádio, o que põe em causa a liberdade de expressão. Ainda esta semana um jornalista muito conhecido, Mário Crespo, viu censurada uma crónica sua também por sugestão – ou aparente sugestão – do Primeiro-Ministro.

Perante isto, o Primeiro-Ministro José Sócrates tem de dar explicações substanciais ao País, tem de explicar que não está a dominar, a cercear, a censurar a liberdade de expressão em Portugal.Pela forma que estamos a andar, Portugal já não é um Estado de Direito, é um Estado de Direito formal onde o Primeiro-Ministro se limita a formalidades, a procedimentos, a formalismos e não quer dar explicações substanciais.

Para Portugal queremos um Estado de Direito material!

Paulo Rangel, denunciando no PE coisas muito sérias que se passavam em Portugal em 2010

Nigel Farage é um bom orador: com presença, com estilo, com humor, com sarcasmo, seduz facilmente os seus ouvintes. Primeiro seduz, depois convence.Numa altura de crise, com tanta gente injustiçada e em grave aflição, o seu discurso é popular. Mais do que popular, é demagógico; é uma autêntica antologia do populismo. Tudo se resume à busca de responsáveis imediatos, de culpados próximos, de bodes expiatórios.

Paulo Rangel, denunciando o populismo e alarmismo irresponsável de Nigel Farage em 2013

Com senso

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Nesta edição da Quadratura, falou-se do discurso do reformado de Belém, o qual tinha resolvido celebrar o 25 de Abril indo para a Assembleia da República dizer aos deputados e ao Povo que as eleições são inúteis e que só nos resta comer e calar. Lobo Xavier adorou. Pacheco Pereira detestou. E António Costa explicou.

Mas o que me interessa realçar está contido na última intervenção de Costa, acima, onde em dois minutos retira a crise política portuguesa da lixeira da demagogia e da desonestidade intelectual e coloca-a dentro da História. E tudo começa com o Tratado de Maastricht; isto é, tudo começa com a criação da União Europeia. Aí se estabeleceu um conjunto de metas que se revelaram demasiado ambiciosas face à arquitectura da união monetária e da sua moeda. A relação entre a dívida e o défice ambicionados e o ambicionado crescimento económico tem sido um berbicacho para todos os países da UE, a começar logo pela Alemanha e a França – ao ponto de já se terem revisto as metas face às circunstâncias. Logo, se o actual projecto é demasiadamente difícil, e se a Europa admite a flexibilização dos objectivos para o défice e a dívida em casos especiais, então estamos numa dessa situações onde as regras devem mudar. Só falta para tal aquilo que é o fundamento primeiro e último da União Europeia: vontade política.

Costa lembra o óbvio. Que estamos na Europa. Que estar na Europa é para o bem e para o mal. E que não há só uma forma de lidar com o mal:

Temos que equilibrar entre a velocidade que impomos, o respeito pela Lei, a segurança que temos de assegurar para nós próprios e para os outros, e é assim que tem de ser conduzida a acção e a vida económica.

Eis o retrato simetricamente oposto da substância e estilo do Governo da coligação Passos-Gaspar-Cavaco, o qual conseguiu ultrapassar a Troika pela direita e com o acelerador ao fundo, o qual assinou dois Orçamentos inconstitucionais e prepara-se para um terceiro, e o qual faz das ameaças à segurança da classe média e dos pobres um método para agradar aos credores. Estando em causa alterações drásticas no modo de vida de milhões de portugueses, os actuais governantes decidiram desprezar qualquer cuidado ou protecção social, antes preferindo agir a coberto da perda de soberania para reduzir a política a uma contabilidade de merceeiro onde o Estado passou a ser concebido como uma empresa e não como a estrutura pública da comunidade. Essas escolhas celeradas e violentas, ainda por cima escondidas e negadas na campanha eleitoral, são uma novidade em quase 40 anos de democracia.

Lobo Xavier termina o diálogo a concordar com António Costa. O seu rosto é particularmente expressivo. Ostenta um sorriso de cumplicidade. Uma cumplicidade plena, sincera, pura. Uma genuína empatia. Lobo Xavier diria o mesmo que tinha acabado de ouvir ao socialista se as câmaras não estivessem a filmar. Estando, o máximo a que poderá chegar é a esse sorriso calado. Porque o que António Costa esteve igualmente a dizer por debaixo das evidências coloca os Lobo Xavier da nossa sociedade no grupo de traidores que tudo fez para afundar Portugal no momento em que a união das forças políticas que apoiam a pertença à União Europeia teria sido mais necessária. Agora que estão instalados no poder, estes traidores, com o Presidente da República à cabeça deles, querem finalmente o consenso depois de o terem boicotado e impedido custasse o que nos custasse.

Com senso, há que confrontar quem trata os portugueses como se fossem servos da gleba. Perguntar-lhes se eles conhecem a História. Avisá-los de que ela ainda não acabou.

Tá tudo bem no governo, a comunicação social é que alimenta umas tricas

Eu acho que há aqui uma mistificação muito grande por parte de alguma comunicação social em torno desta matéria, a posição do Governo desde o princípio tem sido a mesma, conforme foi dito quer pelo senhor primeiro-ministro, quer pelo líder do principal partido da oposição e que faz parte da coligação de Governo, doutor Paulo Portas, nas comunicações que fizeram já há uns dez dias atrás.

Marques Guedes, ministro da Presidência, hoje em Oeiras.

Os loucos tomaram conta do asilo

PSD congratula-se com acordo entre Governo e troika

CDS «aceitou excecionalmente» contribuição sobre pensões

Pires de Lima garante que quem cedeu foi a troika

CDS recusa cedência e reclama vitória na taxa sobre pensões

‘Troika’ exige “clareza” e não dá por fechada sétima missão

Cavaco convoca Conselho de Estado para dia 20 às 17h

Passos garante que “não há divergência no Governo”

Marques Guedes chama CDS “principal partido da oposição”

Um faz apenas mais barulho que os outros

angry-poodle-32

O primeiro-ministro sabe e creio ter compreendido. Esta é a fronteira que não posso deixar passar

Paulo Portas, recusando o corte de pensões a 5 de Maio de 2013

O líder do CDS e ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros aceitou, a título excepcional, a nova contribuição dos reformados (a taxa de sustentabilidade), depois de ter admitido que a insistência nesta medida podia gerar uma crise política.

Paulo Portas, aceitando o corte de pensões a 12 de Maio de 2013

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É oficial: Passos Coelho não tem dois caniches. Tem três.

Revolution through evolution

Branded by tattoos: A lesser-known form of domestic violence
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Women Sell Themselves Short On Team Projects, Study Suggests
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All Hospitals Should Require Drug, Alcohol Tests for Physicians, Experts Say
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Turning Adversity into Creative Growth
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So-Called Cougars, Sugar Daddies More Myth Than Reality
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Live and Learn: Most GenXers Continue Their Education
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Do Markets Erode Moral Values? People Ignore Their Own Moral Standards When Acting as Market Participants, Researchers Say

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Se existisse imprensa em Portugal

Se existisse imprensa em Portugal, tanto aqueles que realizaram, como aqueles que apoiaram, como aqueles que exploraram, e ainda aqueles que se calaram, todos seriam questionados a respeito das declarações de Noronha do Nascimento, a que se devem juntar as de Pinto Monteiro, que nos revelam como se fez um dos dois golpes de Estado tentados no Verão de 2009. E pelas respostas obtidas ficaríamos imediata e absolutamente esclarecidos quanto ao grau de pulhice de cada um dos interrogados.

Este caso – Atentado contra o Estado de Direito: “Vou jantar, estou estoirado, vou dormir – deixou a direita histérica e em modo de linchamento colectivo. Valia tudo, estávamos no nível anterior ao de uma intervenção militar para o mesmo objectivo. Mas colhe recordar que sem a cumplicidade da esquerda tal não teria sido possível, ou, no mínimo, não teria sido possível deixar os responsáveis sem qualquer punição e a continuarem durante 2010 a aproveitar-se dos danos causados – não foi, Pacheco? não foi, Semedo? – chegando os efeitos difamatórios e caluniosos às eleições de 2011.

Se existisse imprensa em Portugal também existiriam decência e coragem em Portugal. Não existem, pela simples, oh tão simples, razão de ser impossível que um país se pretenda digno sem se querer justo.

Pequeno desabafo entre amigos

Não tenho escrito muito, o que é simplesmente uma maneira simpática de dizer que não tenho escrito nada. Há várias razões para isso, entendendo-se por “razões” as desculpas que uso para não o fazer, que não vale a pena detalhar, como desculpas que são. Mas a verdadeira razão talvez seja outra: há um desânimo que não consigo evitar. Para quem escreve sobretudo sobre politica, para quem gosta de politica, da politica para além das tricas de gabinete, isto são tempos terríveis. E não, não falo apenas do governo. Falo também da falta de alternativas na oposição, desde o lirismo desmiolado do BE, aos dogmas bafientos do culto a fingir de partido politico que é o PCP, mas sobretudo à mediocridade deslavada a que o PS se deixou chegar.

Ora, para um optimista, como gosto de me considerar, isto é a pior tormenta possível. Estamos, desculpem a expressão, atolados na merda até ao pescoço. De um lado, um governo cuja politica é comandada por um perfeito lunático, lunático esse que usou os seus consideráveis conhecimentos técnicos para dominar por completo um Primeiro-Ministro cuja falta de inteligência só tem comparação com o nível de chico-espertice, ambos épicos, e cujo plano consiste em cumprir ordens de uma Europa que não sabe, ela também, sair do pântano em que se atolou. Tudo afiançado por um dos mais cínicos actores políticos da nossa praça, cuja preocupação única e exclusiva é sair bem na fotografia, seja de que maneira for. Do outro, uma oposição que aparentemente só faz oposição sob ameaça de chicote, que está perfeitamente satisfeita em esperar que tudo caia de podre, e depois logo se vê. Que se convenceu que o governo caia com a decisão do tribunal constitucional, e que se vê agora a braços com uma campanha eleitoral nos braços sem saber o que fazer com ela. Basta ver o que foi o congresso do PS. Entretanto, vai apresentando uns paninhos quentes e mezinhas caseiras que em tudo se assemelham às promessas vazias do PSD pré-2011. Queremos crescer, mas com contas públicas “rigorosas” e pacto orçamental. Ou seja, o que quer que seja que pensam que os eleitores querem ouvir. Responsabilidade, que uma pessoa com as minhas responsabilidades tem que ser muito responsável. Honestidade. A Merkel não dura sempre, aguentemos que venham ventos mais favoráveis, e entretanto faremos tudo para que isto arda mais lentamente. Viva a Europa, espaço de paz e solidariedade. Somos boas pessoas, gostamos muito de pessoas, e choramos muito, à noite na almofada, com as histórias das dificuldades das pessoas que todos dias nos chegam. Perguntem à minha esposa, aqui ao meu lado.

Bardamerda.

Por isso, aqui estava no meu próprio atoleiro, sem grande vontade ou inspiração para escrever o que quer que fosse. Não gosto de estar constantemente a atacar o governo, a atacar as imbecilidades com que todos os dias nos brindam, sem que haja, do outro lado, algo a que possa chamar de esperança, algo porque lutar. E neste momento, não há grande coisa. Há esperanças, sim, mas não para agora, e agora é quando é urgente. Agora.
Depois li isto. E é exactamente isto, palavra por palavra. Obrigado, muito obrigado, e a devida vénia. Nesta altura, era mesmo o que estava a precisar.

E se Cavaco e Passos forem os nossos melhores?

Passos conseguiu vencer os cavaquistas à segunda tentativa e conquistou o partido literalmente sem saber ler nem escrever. Depois, bastou-lhe aproveitar o trabalho feito desde 2008 pela onda caluniadora e conspiradora do tandem Manela-Pacheco. O homem invulgar até nas vírgulas do programa do PSD mentiu e aldrabou esfuziante nos espaços entre as letras das promessas eleitorais que despejou capitosamente. Mas chegou lá, manda nisto.

Cavaco planeou derrubar um Governo e derrotar um partido através de uma aliança estratégica com o laranjal e fazendo uso de forças judiciais e mediáticas corruptas que produziram abundante material para as campanhas negras. Tendo causado o maior escândalo que se pode associar à Presidência da República, foi reeleito e de imediato, numa sessão solene e no Parlamento, abriu uma crise política no pior momento possível para o interesse nacional. Ele estava lá, manda nisto.

Constatando a passividade reinante na sociedade – onde PCP, BE e sindicatos não mostram sequer metade da energia despendida nas gloriosas lutas contra os terríveis socialistas, pese a situação actual ser duas ou dez vezes mais grave – e observando em Cavaco e Passos o sistemático derrube de um respeito módico pelo povo, pela Constituição e pelo regime construído nas três últimas décadas, a conclusão só pode ser uma: eles são os grandes, os intocáveis, os supremos vencedores.

Há que começar pelo princípio: Passos e Cavaco têm todo o direito à sua visão para Portugal, qualquer que ela seja e admitindo que tenham alguma; ambos ganharam actos eleitorais legítimos; não se conhece nenhuma personalidade portuguesa com poder político para lhes fazer frente. Ora, à luz destas evidências, talvez seja um erro continuar apenas a registar a vergonha que se sente por ver o País entregue às duas decadentes e inanes figuras; e logo nesta altura do campeonato internacional, tragédia completa. Talvez uma explicação mais larga e profunda para este tempo nos obrigue a um triste confronto com a realidade, esta: a de que somos piores do que Cavaco e Passos – exemplos notáveis do sucesso pessoal sem constrangimentos morais, da conquista do poder pelo poder, do triunfo político contra tudo e contra todos.

O País continua classificado como lixo, mas é um lixo tão bonito

Carlos Moedas, na última campanha eleitoral, e muito provavelmente depois de um almoço bem regado, chegou a dizer que bastaria o PSD chegar ao poder para que as agências de notação fizessem disparar o rating do País. Passados dois anos, e com um Governo que é um mar de credibilidade, o rating não mexe, é que não sobe nem um degrauzinho. Como é que o primeiro-ministro, que ainda hoje no Parlamento enumerou os sucessos do seu Governo, explica isto? Se o ajustamento está a correr tão bem, se Portugal é o melhor aluno da Europa e arredores, se temos um ministro das Finanças que fora do País tem fama de ser um génio, um primeiro-ministro com uma coragem nunca antes vista, uma coligação à prova de tudo, por que raio de carga de água as agências de rating não agem em conformidade?

A propósito do enorme sucesso da ida aos mercados houve quem lembrasse que a maioria dos investidores não pode comprar dívida portuguesa exactamente por causa do rating da República. Se não está à vista um segundo resgate, o que significa que a troika vai embora daqui a um ano, como é que o País vai regressar plenamente aos mercados classificado como lixo? Se calhar é só um pormenor sem importância. Ou então o Governo espera que até Junho do próximo ano, com as novas medidas de austeridade, ou seja, com o agravar da recessão, do desemprego e do desespero dos portugueses, as agências de notação comecem finalmente a ver a beleza que há em tudo isto.