Com senso

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Nesta edição da Quadratura, falou-se do discurso do reformado de Belém, o qual tinha resolvido celebrar o 25 de Abril indo para a Assembleia da República dizer aos deputados e ao Povo que as eleições são inúteis e que só nos resta comer e calar. Lobo Xavier adorou. Pacheco Pereira detestou. E António Costa explicou.

Mas o que me interessa realçar está contido na última intervenção de Costa, acima, onde em dois minutos retira a crise política portuguesa da lixeira da demagogia e da desonestidade intelectual e coloca-a dentro da História. E tudo começa com o Tratado de Maastricht; isto é, tudo começa com a criação da União Europeia. Aí se estabeleceu um conjunto de metas que se revelaram demasiado ambiciosas face à arquitectura da união monetária e da sua moeda. A relação entre a dívida e o défice ambicionados e o ambicionado crescimento económico tem sido um berbicacho para todos os países da UE, a começar logo pela Alemanha e a França – ao ponto de já se terem revisto as metas face às circunstâncias. Logo, se o actual projecto é demasiadamente difícil, e se a Europa admite a flexibilização dos objectivos para o défice e a dívida em casos especiais, então estamos numa dessa situações onde as regras devem mudar. Só falta para tal aquilo que é o fundamento primeiro e último da União Europeia: vontade política.

Costa lembra o óbvio. Que estamos na Europa. Que estar na Europa é para o bem e para o mal. E que não há só uma forma de lidar com o mal:

Temos que equilibrar entre a velocidade que impomos, o respeito pela Lei, a segurança que temos de assegurar para nós próprios e para os outros, e é assim que tem de ser conduzida a acção e a vida económica.

Eis o retrato simetricamente oposto da substância e estilo do Governo da coligação Passos-Gaspar-Cavaco, o qual conseguiu ultrapassar a Troika pela direita e com o acelerador ao fundo, o qual assinou dois Orçamentos inconstitucionais e prepara-se para um terceiro, e o qual faz das ameaças à segurança da classe média e dos pobres um método para agradar aos credores. Estando em causa alterações drásticas no modo de vida de milhões de portugueses, os actuais governantes decidiram desprezar qualquer cuidado ou protecção social, antes preferindo agir a coberto da perda de soberania para reduzir a política a uma contabilidade de merceeiro onde o Estado passou a ser concebido como uma empresa e não como a estrutura pública da comunidade. Essas escolhas celeradas e violentas, ainda por cima escondidas e negadas na campanha eleitoral, são uma novidade em quase 40 anos de democracia.

Lobo Xavier termina o diálogo a concordar com António Costa. O seu rosto é particularmente expressivo. Ostenta um sorriso de cumplicidade. Uma cumplicidade plena, sincera, pura. Uma genuína empatia. Lobo Xavier diria o mesmo que tinha acabado de ouvir ao socialista se as câmaras não estivessem a filmar. Estando, o máximo a que poderá chegar é a esse sorriso calado. Porque o que António Costa esteve igualmente a dizer por debaixo das evidências coloca os Lobo Xavier da nossa sociedade no grupo de traidores que tudo fez para afundar Portugal no momento em que a união das forças políticas que apoiam a pertença à União Europeia teria sido mais necessária. Agora que estão instalados no poder, estes traidores, com o Presidente da República à cabeça deles, querem finalmente o consenso depois de o terem boicotado e impedido custasse o que nos custasse.

Com senso, há que confrontar quem trata os portugueses como se fossem servos da gleba. Perguntar-lhes se eles conhecem a História. Avisá-los de que ela ainda não acabou.

11 thoughts on “Com senso”

  1. O discurso está perfeito. O do Valupi. Porém, a hora é das “fúrias”, como diz a F.Câncio. Fúrias que não estão no nosso ADN. Cedemos até ao apodrecimento. 48 anos, 28 ou 18. De cavaquismo já lá vão muitos. Imparáveis. Sem fúrias. Vou emigrar, que também não sou de fúrias.

  2. Com as devidas e eventuais desculpas aos alfacinhas, não se pode trocar?
    Isto é, vir o Costa para líder da oposição e despachar o António José para presidente da Câmara de Lisboa?

  3. A pergunta é:
    Quando é que Portugal informa que vai encetar (já) negociações para a saída do euro?

  4. ó bento, pá agora não tenho tempo para ler factos históricos e narrativas à época, não queres fazer aí um resumo?

  5. augusto, não bata mais no seguro.costa teve a possibilidsade de ir a jogo e não foi. o proprio socrates, que muitos de nos defendem hoje o seu legado, só foi a jogo depois de vitorino se por de fora.josé seguro se formar um dia governo não estará sozinho! os socialistas saõ muito exigentes nas escolhas dos seus lideres.para registo:jeronimo no ps não passava de sindicalista.

  6. bento,estive a ler parte do teu texto e não vi nada sobre o papel dos comunistas na guerra civil de espanha.bento, para teu bem larga essa “droga”! depois só consegues largar quando fores para a reforma!

  7. Aprecio a paciência do Ant.º Costa para “dialogar” com um brutamontes intelectual como o piolhoso do Xavier.

    Com gente desta nem deve haver qualquer tipo de diálogo, quanto mais “consenso”!

    É a água-do-banho. Deve seguir o seu caminho natural para o coletor, porque não faz cá falta nenhuma! E a culpa toda é do Otelo, que devia ter resolvido isto tudo há quarenta anos, numa grande faena ali ao Campo Pequeno.

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