Pequeno desabafo entre amigos

Não tenho escrito muito, o que é simplesmente uma maneira simpática de dizer que não tenho escrito nada. Há várias razões para isso, entendendo-se por “razões” as desculpas que uso para não o fazer, que não vale a pena detalhar, como desculpas que são. Mas a verdadeira razão talvez seja outra: há um desânimo que não consigo evitar. Para quem escreve sobretudo sobre politica, para quem gosta de politica, da politica para além das tricas de gabinete, isto são tempos terríveis. E não, não falo apenas do governo. Falo também da falta de alternativas na oposição, desde o lirismo desmiolado do BE, aos dogmas bafientos do culto a fingir de partido politico que é o PCP, mas sobretudo à mediocridade deslavada a que o PS se deixou chegar.

Ora, para um optimista, como gosto de me considerar, isto é a pior tormenta possível. Estamos, desculpem a expressão, atolados na merda até ao pescoço. De um lado, um governo cuja politica é comandada por um perfeito lunático, lunático esse que usou os seus consideráveis conhecimentos técnicos para dominar por completo um Primeiro-Ministro cuja falta de inteligência só tem comparação com o nível de chico-espertice, ambos épicos, e cujo plano consiste em cumprir ordens de uma Europa que não sabe, ela também, sair do pântano em que se atolou. Tudo afiançado por um dos mais cínicos actores políticos da nossa praça, cuja preocupação única e exclusiva é sair bem na fotografia, seja de que maneira for. Do outro, uma oposição que aparentemente só faz oposição sob ameaça de chicote, que está perfeitamente satisfeita em esperar que tudo caia de podre, e depois logo se vê. Que se convenceu que o governo caia com a decisão do tribunal constitucional, e que se vê agora a braços com uma campanha eleitoral nos braços sem saber o que fazer com ela. Basta ver o que foi o congresso do PS. Entretanto, vai apresentando uns paninhos quentes e mezinhas caseiras que em tudo se assemelham às promessas vazias do PSD pré-2011. Queremos crescer, mas com contas públicas “rigorosas” e pacto orçamental. Ou seja, o que quer que seja que pensam que os eleitores querem ouvir. Responsabilidade, que uma pessoa com as minhas responsabilidades tem que ser muito responsável. Honestidade. A Merkel não dura sempre, aguentemos que venham ventos mais favoráveis, e entretanto faremos tudo para que isto arda mais lentamente. Viva a Europa, espaço de paz e solidariedade. Somos boas pessoas, gostamos muito de pessoas, e choramos muito, à noite na almofada, com as histórias das dificuldades das pessoas que todos dias nos chegam. Perguntem à minha esposa, aqui ao meu lado.

Bardamerda.

Por isso, aqui estava no meu próprio atoleiro, sem grande vontade ou inspiração para escrever o que quer que fosse. Não gosto de estar constantemente a atacar o governo, a atacar as imbecilidades com que todos os dias nos brindam, sem que haja, do outro lado, algo a que possa chamar de esperança, algo porque lutar. E neste momento, não há grande coisa. Há esperanças, sim, mas não para agora, e agora é quando é urgente. Agora.
Depois li isto. E é exactamente isto, palavra por palavra. Obrigado, muito obrigado, e a devida vénia. Nesta altura, era mesmo o que estava a precisar.

15 thoughts on “Pequeno desabafo entre amigos”

  1. O texto está impecável, mas gostaria de fazer uma pergunta, o que é que o lunático fez para você achar que ele tem uns consideráveis conhecimentos técnicos? E eu desvalorizo o facto de ele ter copiado a folha de Excel, e de não ter visto que aquilo estava errado.
    Em dois anos, diga-me apenas uma medida ou outra qualquer situação relevante para merecer a sua distinção técnica.

  2. Ó Vega, como eu te entendo! Quanto ao dramático texto da Fernanda Cãncio, também eu a citei num dos comentários que para aí deixei algures e que aqui não resisto a reproduzir:

    “Tem de haver qualquer coisa que se possa dizer para acordar os que, dormentes, assistem a isto como se não pudesse ser verdade.Não, não é a gritar fascismo, nem nazismo, nem que está toda a gente a morrer de fome ou a suicidar-se aos magotes. Não, não é de buíças que precisamos, sequer da memória deles. Nem de hipérboles, tiradas piedosas ou indignações espúrias. Precisamos de fúria.Não promessas sem osso, não estratégias para ganhar tempo. Não temos tempo – tenhamos o que nos resta, se nos restar coragem”

    Pois é, Fernanda, até lá, não temos outro remédio senão ficar com Almada Negreiros, esperando que:

    “Portugal, Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia – se é que a sua cegueira não é incurável – e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem, de ser qualquer coisa de asseado.”

  3. Vega,

    e eu também te agradeço, muito obrigada por teres retirado um bocadinho de força da falta que temos, para que eu pudesse ler aquilo que penso, mas escrito por outra pessoa. Porque a falta de força anímica está neste povo – conseguiram! E não no Relvas.

    Como tu, também me considero optimista e luto e esperneio e faço o que posso. Mas isto é como um beco sem saída. Eu não a vejo, não tenho políticos no meu país, a construir alternativas, muito menos esperança.

    Como dizia o Sócrates, um líder político que não consegue criar ao menos esperança…Acontece que este povo, no seu lado pior, quando lhe oferecem saídas e esperança, luta activamente e caga nelas e quando sofre as consequências, fica sem força. É fado? Nesse caso, odeio o fado.

    Fomos suficientemente grandes e unos para lutar pela libertação de Timor – choramos pelos outros -, mas somos os nossos piores inimigos.

  4. Cícero,
    li-te agora e mais o Almada que citas. Mas esse é o desespero de uma elite pensante que está só e é cada vez mais rara. Atolamos, chafurdamos e o asseio é valor em extinção. vejo uma parede à frente. Quanto à fúria, nestes casos é o último recurso. Pomos um explosivo na parede. Se a democracia já está suspensa, qual o mal de suspender a suspensão da democracia? A fúria tem de passar à acção. Não seria a primeira vez, mesmo nesta aldeia de brandos costumes…o que nos trava? O que é que se passa com este país esquizofrénico? Lá porque estamos na europa decadente, não podemos sair da caixa e fazer uma coisa à moda antiga?
    http://www.youtube.com/watch?v=5A7DZmgHgzo
    http://www.youtube.com/watch?v=olAOazHmn7I

  5. que força é essa amigo que te põe de bem com outros (bons alunos) e de mal contigo?
    Somos o oposto dos americanos. Hoje como sempre, sou americana, de coração. O karma pôs-me aqui, karma is a bitch.

  6. só acredito neste fado.
    “Espectacular!! No dia em que Goldman Sachs supera estimativas de lucros com negociação de dívida [16 Outubro 2012]. Tenho a certeza que desta estrumeira há-de nascer um cravo vermelho!* Cá dentro inquietação…é só inquietação.”
    (comentário a este tubo actualizado peor um fadista de cá acompanhado por uns fadistas do oeste americano.
    http://www.youtube.com/watch?v=cuMcEC8YygU
    Eu não sei o que tenho de fazer, mas sei que essa coisa é que é linda. Lindo.
    * já o chico buarque tem esperança de que tenha ficado uma semente de cravo nalgum canto de jardim.
    http://www.youtube.com/watch?v=PsJpeR2K-is

    Mas amanhã voltamos ao mesmo, e não vemos sementes, nem sequer as sementes de fúria, nadainha de nada.

    Desabafei. E vou à vidinha,amigos :)

  7. Precisamos de tenacidade. É o que o momento pede. Um povo com tenacidade. Mas é difícil. Como Gramsci escreveu «A crise consiste precisamente no facto de o velho estar a morrer e o novo não poder nascer». Num tempo em que duas alternativas ao capitalismo puro e duro (o comunismo e a social-democracia) despareceram — uma virou os dentes para si própria e devorou-se, a outra não tinha dentes e foi desmantelada — esta frase faz mais sentido que nunca.

    Em muita esquerda (tanto no campo marxista como no social-democrata), o pessimismo torna-se agora uma espécie de desilusão protectora do eu que, funcionando em círculo fechado, se preserva a si própria ao não investir em acção no presente, em abrir caminhos no imediato.

    Ao longo de muitos anos de derrotas, desilusões, de ideias salvadoras que não funcionaram como era suposto, certos comunistas (hegemónicos nos seus partidos) e também alguns socialistas disseram que o curso da história era inevitável. Mostrando condescência por todos os que se lhes opunham, disseram que dadas as condições actuais da sociedade, gerou-se uma «correlação de forças» que só podia conduzir a este resultado; ou então viraram-se para teses conspirativas mais ou menos imaginativas. Será isto um mecanismo de defesa? Uma forma de negar a dor, o desespero, a frustração, proclamando a justeza da sua visão? Será que isso produz algo palpável (para além de juntar um grupo de fiéis em torno de uma ideologia que, na prática, fica reduzida às funções menores de religião)?

    Eu creio que não há desenvolvimentos históricos inevitáveis. A raça humana pode extinguir-se a si própria; ou pode entrar em decadência e regressar à condição de espécie animal irracional; mas também pode muito bem cumprir o potencial que tem. Esta tudo em aberto; é essa a beleza da dialéctica, do livre arbítrio; a verdadeira beleza de um mundo que «é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades»; motivo tanto de angústia e desespero, como de esperança e audácia.

    Para tornar a esperança real, para que a vontade de mudança deixe de ser apenas vontade e passe a ter expressão prática, é preciso que cada um de nós invista: investir o nosso tempo e motivação, ajustar o nosso próprio eu (mais audácia, na forma como cada pessoa se vê no mundo). Sem isso, não há movimento que se consiga mover. É isso que cada português precisa. Algumas pessoas, com um grande coração e capacidade de liderança, podem ajudar-nos a sair deste abatimento.

  8. bardamerda com a fúria!, Vega e Fernanda. fúria talvez seja o melhor para quem só escreve sobre o desespero, ou o chora na cama, dos outros. fúria é o pior para quem o vive de facto.

  9. bora lá bater punho

    “Para tornar a esperança real, para que a vontade de mudança deixe de ser apenas vontade e passe a ter expressão prática, é preciso que cada um de nós invista: investir o nosso tempo e motivação, ajustar o nosso próprio eu (mais audácia, na forma como cada pessoa se vê no mundo). Sem isso, não há movimento que se consiga mover. É isso que cada português precisa. Algumas pessoas, com um grande coração e capacidade de liderança, podem ajudar-nos a sair deste abatimento.”

  10. Portugal é um país de mansos. Num país de mansos o que está a acontecer é perfeitamente normal.
    «é hora também de reconhecer que Portugal e os países do Sul fizeram, desde o início da crise, “esforços consideráveis que ultrapassam, em intensidade, vigor e impacto os esforços de ajustamento que foram feitos pelos países do Norte»

  11. deixo uma pergunta: o que aconteceria no futuro a gaspar, se levasse a cabo uma politica contraria à que executa em portugal? acham que ele apareceu por acaso no governo? julgo que a sua vinda para o governo, foi obra de durão barroso para levar a cabo esta agenda.resumindo:temos um inimigo de portugal infiltrado no governo! que o pariu!

  12. …num pequenino ensaio com um titulo (digo eu) actual «o eterno retorno do fascismo» rob riemen usou uma citação do poeta auden… qualquer coisa como – para desmascarar a mentira revelada / tudo que tenho é uma voz – tal como mandela nos demonstrou nada mais poderoso que a palavra…por isso a pertinência deste texto de f. que leva consigo esse poder…

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