E se Cavaco e Passos forem os nossos melhores?

Passos conseguiu vencer os cavaquistas à segunda tentativa e conquistou o partido literalmente sem saber ler nem escrever. Depois, bastou-lhe aproveitar o trabalho feito desde 2008 pela onda caluniadora e conspiradora do tandem Manela-Pacheco. O homem invulgar até nas vírgulas do programa do PSD mentiu e aldrabou esfuziante nos espaços entre as letras das promessas eleitorais que despejou capitosamente. Mas chegou lá, manda nisto.

Cavaco planeou derrubar um Governo e derrotar um partido através de uma aliança estratégica com o laranjal e fazendo uso de forças judiciais e mediáticas corruptas que produziram abundante material para as campanhas negras. Tendo causado o maior escândalo que se pode associar à Presidência da República, foi reeleito e de imediato, numa sessão solene e no Parlamento, abriu uma crise política no pior momento possível para o interesse nacional. Ele estava lá, manda nisto.

Constatando a passividade reinante na sociedade – onde PCP, BE e sindicatos não mostram sequer metade da energia despendida nas gloriosas lutas contra os terríveis socialistas, pese a situação actual ser duas ou dez vezes mais grave – e observando em Cavaco e Passos o sistemático derrube de um respeito módico pelo povo, pela Constituição e pelo regime construído nas três últimas décadas, a conclusão só pode ser uma: eles são os grandes, os intocáveis, os supremos vencedores.

Há que começar pelo princípio: Passos e Cavaco têm todo o direito à sua visão para Portugal, qualquer que ela seja e admitindo que tenham alguma; ambos ganharam actos eleitorais legítimos; não se conhece nenhuma personalidade portuguesa com poder político para lhes fazer frente. Ora, à luz destas evidências, talvez seja um erro continuar apenas a registar a vergonha que se sente por ver o País entregue às duas decadentes e inanes figuras; e logo nesta altura do campeonato internacional, tragédia completa. Talvez uma explicação mais larga e profunda para este tempo nos obrigue a um triste confronto com a realidade, esta: a de que somos piores do que Cavaco e Passos – exemplos notáveis do sucesso pessoal sem constrangimentos morais, da conquista do poder pelo poder, do triunfo político contra tudo e contra todos.

16 thoughts on “E se Cavaco e Passos forem os nossos melhores?”

  1. o “gorila que sabe bater palmas” carlos abreu amorim, ofereceu-nos o espetaculo mais degradante que a politica nos podia mostrar,ao pedir a gaspar para “sair de cena,”quando dias antes o aplaudia calorosamente no parlamento.como os eleitores de gaia não gostam de gaspar, é boa estrategia eleitoral, pedir a saida do funcionario da troika, infiltrado no governo.isto na minha opinião teve mão do ideologo luiz filipe menezes,que nunca se deu com rui rio,porque pretendia candidatar-se ao porto no fim dos 3 mandatos e amizades com o inimigo de pinto da costa não era boa pratica.como se diz no norte: fodeu-se!vai ficar sem trabalho por uns dias!

  2. “somos piores do que Cavaco e Passos”?! Mas sem qualquer dúvida! Ainda há dias o disse o Jean Claude Junker, numa frase que lamentávelmente foi considerada pelos nossos “bem pensantes” como um louvor à nossa capacidade de sofrimento quando, no fundo, mais não era do que uma referência à “vil tristeza” com que aguentámos de cara alegre quarenta e tal anos de Salazar.

  3. No seguimento do que acima disse, leiam-se as oportunas palavras da Fernanda Câncio, ácerca dos “dormentes” deste país:

    “Tem de haver qualquer coisa que se possa dizer para acordar os que, dormentes, assistem a isto como se não pudesse ser verdade.Não, não é a gritar fascismo, nem nazismo, nem que está toda a gente a morrer de fome ou a suicidar-se aos magotes. Não, não é de buíças que precisamos, sequer da memória deles. Nem de hipérboles, tiradas piedosas ou indignações espúrias. Precisamos de fúria.Não promessas sem osso, não estratégias para ganhar tempo. Não temos tempo – tenhamos o que nos resta, se nos restar coragem.» [DN]”

  4. “Constatando a passividade reinante na sociedade – onde PCP, BE e sindicatos não mostram sequer metade da energia despendida nas gloriosas lutas contra os terríveis socialistas, pese a situação actual ser duas ou dez vezes mais grave ”

    É uma pena ver só o PS a lutar energicamente contra este governo.

  5. … e se Cavaco já não controlasse a função de PR ? Amorfo ( estou a ser simpático), parece que quando sai, é nos dias em que toma o comprimido…. Só assim se explica a diatribe do Ganda Nóia sobre a convocação do conselho de Estado, com que, aliás, insistiu noutro programa…. bem como a celebre reunião de 1/2 hora como o comunicado de apoio, em contradição com tudo o que dizia até então…. Vamos lá estar atentos, que isto parece mais uma golpada que outra coisa… E o Portas, sempre terá ido para um retiro ? Ou estará a meditar debaixo de água ?

  6. bento,ao que o pcp debita, a direita, e os portugueses em geral ,estão-se cagando de alto! nunca li ,nem ouvi ,nenhum comunicado vindo do governo, a contestar as medidas alternativas propostas pelo pcp! é foguetorio para inglês ver.onde o pcp é eficaz,é quando faz coligaçoes com a direita para derrubar os governo do ps,mesmo sabendo que a direita no governo não agradece o frete, com atribuiçao de lugares, ou a implementaçao de medidas da lavra da comunada!

  7. “… mesmo sabendo que a direita no governo não agradece o frete, com atribuiçao de lugares, ou a implementaçao de medidas da lavra da comunada!”

    oh santa ingenuidade! acreditas que os gajos vivem da quermesse avante e das cotizações dos camelosrego, tá bem e que paga a porta aberta, rendas, imi, telefone, água, papel higiénico, netcabo e deodorizante dos centros de trabalho, raio de nome, que rivalizam em quantidade com os balcões dos ctt. até ver só os últimos têm fechado ou mudado de gerência.

  8. Temos os políticos que merecemos, não somos nós que os colocamos lá? Continuemos assim, que vamos longe……..

  9. “Temos os políticos que merecemos, não somos nós que os colocamos lá? ”

    o sistema existente encurta as hipóteses e depois resta-te o voto no nabo com mais rama.as escolhas que nos apresentam a sufrágio são decididas por universos eleitorais que variam entre 350 e 26.000 votos, que por sua vez são controlados pelos cromos mediáticos que conhecemos. se não alterarem o esquema de selecção dos gajos que vão a votos continuaremos a brincar às democracias representativas e a eleger palhaços que ninguém conhece ou pediu.

  10. Caro Valupi.
    Sigo há muito os seus textos. Leio agora reflexões amargas, colocando
    nos portugueses “o mal”, ou pelo menos, a incapacidade de lutar contra
    a tragédia que crescentemente nos atinge. É realmente deprimente:
    ninguém quer discutir o assunto, todos resmungam entre-dentes qualquer
    coisa, revolta contida, talvez, mas também desistência.

    No entanto, relativamente às “massas”, é bom que não nos espantemos:
    anos e anos de informação anestesiante propiciou “milagres” de esvaziamento
    e castração, sempre sempre sobre a égide das audiências, que tudo justificam,
    ou do(s) “mercado(s)” de que se ignoram alternativas. E a manipulação é
    avassaladora em todas as esferas da comunicação.

    Já quanto às elites, aqueles que têm pensamento próprio, porque não se
    chegam à frente? O que os impede de ter iniciativa?

    Há ainda um país de gente digna que trabalha todos os dias e que todos
    os dias executa com qualidade e competência a sua profissão. Nos hospitais,
    nas escolas, e em tantos outros sítios. A actividade destas pessoas é ignorada
    (ou maltratada) pelos poderes? Sem dúvida. Mas é também uma forma de
    dignidade quando não se distinguem alternativas.

  11. Roteia, tens toda a razão. Faço só notar que o meu texto não apela à desistência, bem pelo contrário. O povo é quem mais ordena; isto é, a democracia somos nós. Pelo que o nosso destino político continuará nas nossas mãos enquanto o regime for o da liberdade. Aliás, mesmo sem liberdade o nosso destino continuaria nas nossas mãos…

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