Quem ontem ouviu Manuela Ferreira Leite no seu programa de comentário na TVI24 não pode deixar de se interrogar sobre o tipo de afinidade política que terá neste momento com o seu amigo Cavaco Silva, cobardemente acoitado em Belém enquanto Gaspar desmantela meticulosamente o país. Resumindo de memória, eis o que disse a ex-líder do PSD:
– Não se podem fazer ajustamentos rápidos em período de recessão, muito menos de recessão profunda a nível interno e generalizada a nível externo (europeu);
– O nível de sacrifícios imposto até agora é totalmente desproporcionado em relação aos resultados obtidos e, por conseguinte, há que arrepiar caminho;
– A decisão do TC deveria (e ela esperava ingenuamente que assim fosse) ser uma oportunidade para inverter as políticas e aliviar a austeridade, nunca para a agravar;
– Obter-se-iam melhores resultados a nível do défice e da dívida se não se fizessem mais nenhuns cortes;
– Os anunciados cortes de 4000 milhões de euros na chamada despesa pública não são exequíveis nem vão ser executados, muito menos cortes de 5600 milhões, pois há que ter em conta que os mesmos se adicionariam aos 24 000 M€ já retirados da economia desde há dois anos, e considera que se estaria a cometer um hara-kiri coletivo se tal fosse levado por diante;
– Obrigar restaurantes a fechar e dizer que isso é bom porque muitos estavam a mais é, não só cruel, como revelador de quem não percebe que as mudanças no nosso tecido económico demoram uma geração; há que dar alternativas profissionais às pessoas que cessam essas atividades.
– Não sabe como se reconstrói um país a partir de cinzas. A Troika e o Governo deviam dizer que país pretendem desenhar.
E muito mais disse dentro desta mesma toada perigosamente esquerdista (ainda que não tenha faltado o inevitável “vivemos acima das nossas possibilidades”). Já não é a primeira vez, nesta legislatura, que a ouvimos proferir palavras duras contra a atual orientação política, mas que, no fundo, relevam apenas do mais elementar bom senso. Por isso, custa a acreditar que as não transmita e discuta pessoalmente com Cavaco Silva, assim como custa a acreditar que este aprove as técnicas laboratoriais de Vítor Gaspar e que não veja os resultados que estão a produzir não só nos ratinhos como nas paredes e estruturas do edifício.
Porque viabilizou então Cavaco, no sábado passado, a permanência de Gaspar no Governo? Terá Passos ameaçado com a demissão se Gaspar saísse, sabendo que tal faz tremer o Presidente? Ou não terá Passos sequer dado a Cavaco a oportunidade de o confrontar com essa exigência ao aparecer em Belém de braço dado com o Gasparzinho? Mistérios que vão pesando e de que maneira sobre as vidas de milhões de cidadãos.
Não vi o programa até ao fim, pelo que não sei se o jornalista lhe perguntou alguma coisa sobre o papel do Presidente da República. Lembro-me que, noutras ocasiões, MFL o desculpou e atirou o ónus para os deputados da maioria dizendo que, se a Assembleia continua a dar apoio ao Governo, não é o PR que o vai pôr em causa. Não importa se esta resposta dá cobertura a uma grande cobardia, a uma enorme indiferença, a um piramidal egocentrismo ou a grandes pecados de que Relvas ouviu falar, o meu receio é que MFL seja (ou tenha sido) bem capaz de a voltar a dar. Em nome da amizade. Acontece que Cavaco Silva é a única pessoa neste país que nos pode livrar do Gaspar (nem tem que haver eleições). E não adianta dizer que, se o Gaspar se for embora, nada de essencial vai mudar, porque toda a gente sabe que isso não é verdade. O homem é um caso patológico. É muito difícil aceitar que estejamos condenados às suas decisões.
