Porque mantém Cavaco o país refém de um governo de incompetentes?

Quem ontem ouviu Manuela Ferreira Leite no seu programa de comentário na TVI24 não pode deixar de se interrogar sobre o tipo de afinidade política que terá neste momento com o seu amigo Cavaco Silva, cobardemente acoitado em Belém enquanto Gaspar desmantela meticulosamente o país. Resumindo de memória, eis o que disse a ex-líder do PSD:

– Não se podem fazer ajustamentos rápidos em período de recessão, muito menos de recessão profunda a nível interno e generalizada a nível externo (europeu);
– O nível de sacrifícios imposto até agora é totalmente desproporcionado em relação aos resultados obtidos e, por conseguinte, há que arrepiar caminho;
– A decisão do TC deveria (e ela esperava ingenuamente que assim fosse) ser uma oportunidade para inverter as políticas e aliviar a austeridade, nunca para a agravar;
– Obter-se-iam melhores resultados a nível do défice e da dívida se não se fizessem mais nenhuns cortes;
– Os anunciados cortes de 4000 milhões de euros na chamada despesa pública não são exequíveis nem vão ser executados, muito menos cortes de 5600 milhões, pois há que ter em conta que os mesmos se adicionariam aos 24 000 M€ já retirados da economia desde há dois anos, e considera que se estaria a cometer um hara-kiri coletivo se tal fosse levado por diante;
– Obrigar restaurantes a fechar e dizer que isso é bom porque muitos estavam a mais é, não só cruel, como revelador de quem não percebe que as mudanças no nosso tecido económico demoram uma geração; há que dar alternativas profissionais às pessoas que cessam essas atividades.
– Não sabe como se reconstrói um país a partir de cinzas. A Troika e o Governo deviam dizer que país pretendem desenhar.

E muito mais disse dentro desta mesma toada perigosamente esquerdista (ainda que não tenha faltado o inevitável “vivemos acima das nossas possibilidades”). Já não é a primeira vez, nesta legislatura, que a ouvimos proferir palavras duras contra a atual orientação política, mas que, no fundo, relevam apenas do mais elementar bom senso. Por isso, custa a acreditar que as não transmita e discuta pessoalmente com Cavaco Silva, assim como custa a acreditar que este aprove as técnicas laboratoriais de Vítor Gaspar e que não veja os resultados que estão a produzir não só nos ratinhos como nas paredes e estruturas do edifício.

Porque viabilizou então Cavaco, no sábado passado, a permanência de Gaspar no Governo? Terá Passos ameaçado com a demissão se Gaspar saísse, sabendo que tal faz tremer o Presidente? Ou não terá Passos sequer dado a Cavaco a oportunidade de o confrontar com essa exigência ao aparecer em Belém de braço dado com o Gasparzinho? Mistérios que vão pesando e de que maneira sobre as vidas de milhões de cidadãos.

Não vi o programa até ao fim, pelo que não sei se o jornalista lhe perguntou alguma coisa sobre o papel do Presidente da República. Lembro-me que, noutras ocasiões, MFL o desculpou e atirou o ónus para os deputados da maioria dizendo que, se a Assembleia continua a dar apoio ao Governo, não é o PR que o vai pôr em causa. Não importa se esta resposta dá cobertura a uma grande cobardia, a uma enorme indiferença, a um piramidal egocentrismo ou a grandes pecados de que Relvas ouviu falar, o meu receio é que MFL seja (ou tenha sido) bem capaz de a voltar a dar. Em nome da amizade. Acontece que Cavaco Silva é a única pessoa neste país que nos pode livrar do Gaspar (nem tem que haver eleições). E não adianta dizer que, se o Gaspar se for embora, nada de essencial vai mudar, porque toda a gente sabe que isso não é verdade. O homem é um caso patológico. É muito difícil aceitar que estejamos condenados às suas decisões.

Lusoponte ou Lusopodre?

A ponte Vasco da Gama, que até agora já foi paga duas ou três vezes, tem um anafado ex-ministro de Cavaco à frente da empresa concessionária, disposto a fazer-nos pagar o raio da ponte cinco, seis, dez ou doze vezes.

O mais cómico é que o mesmo Ferreira Amaral que contratou com a Lusoponte e que agora lhe preside diz mal das PPP:

Parcerias público-privadas “foram um desastre”, diz Ferreira do Amaral

O presidente do conselho de administração da Lusoponte, Joaquim Ferreira do Amaral, considerou que as parcerias público-privadas (PPP) “foram um desastre”, ao darem a ideia falsa de que “tudo era possível, porque não faltava dinheiro”. As declarações foram feitas quarta-feira [10 de Abril], na comissão parlamentar de inquérito às PPP. “O maior problema é que, no auge das PPP, era difícil falar mal das PPP. Deus me livre de falar contra as PPP”, afirmou, lembrando a satisfação das populações e dos autarcas com o avanço de projectos que eram impossíveis com investimento directo do Estado.
(Público online,10 de Abril de 2013).

Há aqui qualquer coisa que eu não estou a entender. O ministro que em 1995 contratou com a Lusoponte e que agora é o seu presidente diz mal das PPP?

Pois é. Já em Janeiro de 2013, de facto, Ferreira do Amaral afirmava que não considerava a Lusoponte uma parceria público-privada:

“Não percebo em que se baseiam para dizer que o contrato da Lusoponte é uma PPP”, afirmou Ferreira do Amaral, na comissão de inquérito parlamentar às PPP, quando questionado pela deputada do PS Isabel Oneto sobre “a natureza” do contrato com a Lusoponte, depois do antigo governante ter negado participação em qualquer PPP. O antigo ministro dos governos de Cavaco Silva, que, quando assumiu as Obras Públicas, chegou a acordo com a Lusoponte relativo à construção da Ponte Vasco da Gama, defendeu que “o contrato com a Lusoponte impede os malefícios das PPP”. Ferreira do Amaral realçou que, no caso da Lusoponte, o papel do Estado foi o de deixar “fazer o projeto” e estabelecer “condições que considerava imprescindíveis”, tendo a concessionária assumido o risco de financiamento. “O Estado funcionou como típico concessionário” [sic], declarou. O antigo governante sublinhou ainda que todas as compensações auferidas pela concessionária resultaram de alterações ao contrato, a pedido do Estado. “Já estamos no 10.º ou no 11.º contrato. Por razões políticas, o Estado decidiu fazer alterações ao contrato e a concessionária teve direito a compensações”, explicou.
(ionline, 23 de Janeiro de 2013).

Em que ficamos: o contrato da Lusoponte é uma PPP ou não é?

E se não é, será melhor?

Vejamos o que dizia o DN em Janeiro de 2011:

Lusoponte: assinada em 1995, foi a primeira parceria público-privada em Portugal. A concessão Lusoponte tinha como objectivo a construção da Ponte Vasco da Gama e a exploração da Ponte 25 de Abril. O contrato inicial fixava o prazo em 33 anos, com a possibilidade de o seu termo ser antecipado caso se verificassem duas condições: o pagamento dos empréstimos contraídos pela Lusoponte e a passagem nas duas pontes de 2250 milhões de veículos. No entanto, nada disto se verificou: concluiu-se que o volume de tráfego calculado não era o correcto, e a onda de contestação contra o aumento das portagens na Ponte 25 de Abril – o famoso buzinão – obrigou o Governo a rever sucessivamente todo o contrato. Ao todo, dezasseis anos após a sua assinatura, o contrato com a Lusoponte já sofreu sete alterações. Mudanças que custaram aos contribuintes 160 milhões de euros em reequilíbrios financeiros, mais compensações directas de quase 250 milhões de euros. Isto significa que esta PPP já custou mais 410 milhões de euros do que inicialmente tinha sido previsto.
(DN, 12 de Janeiro de 2011).

Contrato mal parido, portanto.

E promete ser pior para o bolso do Zé pagante do que qualquer outra PPP.

Entretanto a Lusoponte vai enchendo a mula à pala do Estado e dos contribuintes:

O Estado dava uma indemnização compensatória à Lusoponte por não haver cobrança de portagem na ponte 25 de Abril durante o mês de Agosto. Em 2011 passou a haver cobrança e a Lusoponte arrecadou o dinheiro, apesar disso o Governo mandou dar 4,4 milhões de euros, como se tivesse havido isenção de portagem, à empresa presidida por Joaquim Ferreira do Amaral, ex-ministro de Cavaco Silva.
A empresa presidida por Joaquim Ferreira do Amaral […] exigiu que a Estradas de Portugal lhe desse os 4,4 milhões de euros.
A 21 de Novembro de 2011, o secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Silva Monteiro, decidiu dar os 4,4 milhões à Lusoponte e ordenou à empresa pública Estradas de Portugal “que proceda, de imediato, à liquidação em falta”. Assim, a Lusoponte ficou com o dinheiro da cobrança das portagens no mês de Agosto de 2011 e recebeu de bónus o montante que o Governo decidiu dar à empresa como se não tivesse havido cobrança.
(Esquerda.net 2 de Março de 2012).

Quase que apetece dizer, Lusoputa que a pariu!

Da série “Olha-m’este”

Depois de, no Governo, prestar serviço a um grande amigo, como fez questão de nos dizer, e a vários outros, nomeadamente na área dos negócios, será que Miguel Relvas nem para garantir o seu futuro profissional no setor privado teve talento?

O ministro-Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, que anunciou a demissão de funções governativas na passada quinta-feira, manifestou intenção de retomar o seu lugar de deputado no Parlamento, apurou o PÚBLICO.

Outra explicação poderá estar na necessidade de proximidade com o seu irmão siamês. Necessidade de qual dos dois é uma questão que deixo em aberto.

Seja como for, o seu eventual regresso ao Parlamento pode também ser comparado com a tentativa de palestra no ISCTE. Vão calar-se os deputados do Bloco de Esquerda e outros que pensam que se trata de uma provocação e de um descaramento inaceitáveis e contemporizar com o seu sorriso permanente de gato de Cheshire? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

Governo de zombies

António Vitorino demitiu-se do Governo de Guterres por uma alegada fuga aos impostos de que viria mais tarde a ser ilibado pelas autoridades.

Jorge Coelho demitiu-se do Governo de Guterres por causa de uma ponte que caiu e como forma de simbolizar a responsabilidade do Estado.

Correia de Campos demitiu-se do Governo de Sócrates por excesso de coragem política e de eficácia executiva na Saúde.

Manuel Pinho demitiu-se do Governo de Sócrates por causa de uma infantilidade irrelevante.

Relvas anunciou a demissão do Governo de Passos por falta de condições anímicas quando o processo da sua licenciatura estava na iminência de ser enviado para o Ministério Público e após ter mentido no Parlamento, e de se saber que andou envolvido com um espião para tráfego de informações, e de nem sequer se ter defendido da acusação de ter chantageado e ameaçado um jornal e seus jornalistas, e de ter ido parar à Justiça uma suspeita de corrupção no caso Tecnoforma onde Relvas e Passos aparecem e parecem ligados. Porém, contudo, todavia, Relvas continua em funções.

Depois de ter ido além da Troika e de ter declarado obsoleta a Constituição, este Governo assume finalmente sem perturbação de maior que alguns dos seus ministros são autênticos mortos-vivos.

César das Neves saiu do armário

O regresso de Sócrates tem sido particularmente interessante para o restrito grupo de bacanos (onde se incluem alguns veterinários anónimos e vários moinas famosos) que estuda a direita portuguesa. De uma forma geral, os direitolas andam atarantados. Isto porque contra o demónio apenas contam com as calúnias porcalhonas que têm sido invariavelmente rebatidas depois de terem percorrido todo o ciclo da sujidade que se pretendia lançar contra o alvo. E isto também, e ainda com maior impacto, porque sempre que Sócrates abre a boca eles sentem-se derrotados e impotentes – pior, muito pior, oh quão pior, sentem-se arrastados por uma força negra que os faz concordar com o que estão a ouvir. Como sair da penosa e dilacerante condição? César das Neves, esse espécimen irrecuperável para o convívio com os filhos do Concílio Vaticano II, deu a mais original das respostas até agora: desatar a elogiar Sócrates com fervor mal contido.

Num artigo que intitula O inocente, acto falhado de ironia que trai o seu adâmico sentimento de culpa, este generoso contribuinte para o anedotário nacional assina por cima estas santíssimas verdades:

o regresso de José Sócrates é um espantoso feito de técnica política, do mais alto nível mundial

A personagem é notável.

Verve, atitude, táctica são excelentes

– [tem] qualidades como tribuno e estratega

Há muitas décadas que não tínhamos um político assim, e já nos esquecemos do estilo.

Além disso é terrivelmente eficaz e convence mesmo. Digno de antologia!

Por isso é tão convincente.

A nossa actual democracia nunca teve, em posições cimeiras, pessoas deste calibre.

Assim Sócrates destaca-se flagrantemente.

Admirando o engenho e a arte

Isso seria uma obra de arte incomparável.

O entusiasmo de César das Neves é contagiante. É preciso ter em conta que este panegírico ditirâmbico vem de um professor catedrático e do presidente do Conselho Científico da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa, alguém com mais de trinta livros e múltiplos artigos científicos escritos para a salvação das massas. Quer-se dizer, não é um merdas qualquer. Bá lá ber, não estamos propriamente perante um fundamentalista ou um fanático, antes de uma figura conhecida consensualmente por ser um modelo de virtudes cardinais e teologais, de bom senso e de honestidade intelectual exemplares. Repare-se na superioridade moral deste parágrafo:

Apresenta-se como totalmente inocente dos males que afligem o País. Foi primeiro-ministro durante mais de seis anos mas é inimputável pelo desastre que deflagrou nos últimos meses do seu mandato. A culpa vem de uma “crise das dívidas soberanas”, que lhe é naturalmente alheia. E claro também de um terrível bando de malfeitores, onde se inclui o actual Governo, bancos, União Europeia e FMI, que pretendem, por razões não esclarecidas, destruir Portugal. Ele, pelo contrário, sempre esteve do lado do progresso e alegria, que infelizmente não se concretizaram.

Chiça penico, é exactamente isto que há para dizer! Fica só a faltar um último esforço, grande César: ajudares Sócrates a concretizar esse progresso e alegria que tu apontas e nós merecemos. É que o principal está feito, já saíste do armário. Aproveita o balanço e sai também do quarto. Vai para a sala de jantar sorver uma canja e ver as notícias. Nem imaginas tudo o que tem acontecido em Portugal e no Mundo enquanto estiveste fechado na escuridão.

Perguntas simples

Tendo em conta que Portugal está nas mãos da gente séria, ainda por cima tendo nós a boa sorte de poder contar com estadistas visionários do calibre de Passos e Cavaco, será mesmo necessário continuar a gastar dinheiro com o inútil Tribunal Constitucional?

A dama de ferro e a contrafacção

Tony Blair relembrou Thatcher como “gentil e generosa”. Ora aí está algo que José Sócrates nunca poderá dizer da azeda e rancorosa contrafacção portuguesa da Iron Lady.

Ferreira Leite tem andado muito caladinha, ao contrário dos tempos em que esperneava e espumava contra a “asfixia democrática”. Há seis meses bem medidos lá saiu a terreiro para repetir o que a oposição diz, para cascar no Gaspar e opinar que “não é possível cumprir a consolidação acordada com a troika neste prazo”. E que “esta consolidação poderia ser menos onerosa e menos pesada para as pessoas”. E até isto: “O que é que interessa Portugal não entrar em falência, se no fim vamos estar todos mortos?”

Dentro em pouco, a dama ferrugenta vai estrear-se como comentadora política da TVI. Que irá sair dali? Segura-te Tozé, que ela quer liderar a oposição.

Marcelo, o Professor

Quem são as figuras mais representativas, que não só notáveis, da direita portuguesa? Cavaco Silva, Paulo Portas e Marcelo Rebelo de Sousa. A soma da longevidade, e da influência, deste trio tem moldado decisivamente o destino político do País e o espaço público. O elemento mais excêntrico do grupo é Marcelo, o qual exerce o seu poder apenas na comunicação social, tendo sido efémera e irrelevante a sua passagem pelos palcos partidários.

Na televisão, Marcelo é um agente incansável e eficaz de combate partidário através de uma forma sofisticada de baixa política, explorando todas as formas possíveis de difamação ao alcance da persona que passa por ter autoridade moral supra-ideológica. Na edição deste domingo, Marcelo conseguiu o duplo feito de ter colado Sócrates ao processo Casa Pia e de ter reavivado e reforçado as calúnias relativas à licenciatura de Sócrates.

Eis o que, a respeito desse último caso, despejou na pantalha:

Miguel Relvas devia ter aprendido com a experiência de José Sócrates. José Sócrates teve um episódio menos clamoroso do que Miguel Relvas mas muito parecido. Quer dizer, numa certa geração, determinado conjunto de políticos achou que precisava de canudo para a sua afirmação. Ora, a licenciatura é muito importante, mas a licenciatura é importante se for um factor de formação adicional. Uma licenciatura tirada a trouxe-mouxe, ou não tirada, que ainda é pior, não tem valor rigorosamente nenhum. As pessoas valem por si, há tanto político internacional que não precisa de licenciatura e que é um grande político sem licenciatura. Com José Sócrates, eu já acho que uma das razões pelas quais ele perdeu a maioria absoluta em 2009 foi a história da licenciatura. Ainda agora estive a reler o despacho do Ministério Público que arquivou, por não haver nenhuma prova realmente criminal contra ele, mas as trapalhices foram imensas – porque quem lhe deu equivalência não tinha competência para dar, porque as lições de Inglês Técnico eram em 15 minutos no gabinete do reitor, porque as notas foram lavradas num domingo.

Vamos esquecer que Marcelo tem explicado a perda da maioria socialista em 2009 conforme lhe dá jeito na ocasião e façamos um exercício de objectividade:

– Marcelo consultou recentemente o despacho do Ministério Público a respeito do caso e declara, do alto da sua sapiência jurídica, não ter encontrado nele qualquer prova criminal.

– Marcelo afirma ter encontrado “imensas” “trapalhices”.

– Marcelo apenas referiu três (3) supostas trapalhices: suposta incompetência de um docente para dar uma equivalência, suposta falha nas aulas de uma disciplina, e suposta irregularidade de calendário na formalização em pauta de algumas notas.

Em momento algum este nosso juiz da ética e discência alheia explica o contexto desses episódios, em especial o anterior percurso académico de Sócrates e a razão para ter optado por atingir o grau de licenciado nos modos processuais em questão. Não interessa a Marcelo dar ao público qualquer elemento que possa legitimar a inocência de Sócrates. Pelo contrário, tudo é dito e sugerido para o condenar sem possibilidade de defesa. A lógica da sua manipulação dos factos é uma e só uma: achincalhar um adversário que se teme por ser tão poderoso e tão ameaçador para o seu clã. Repare-se como a sua descrição tenta colar o caso Relvas com o caso Sócrates de modo a poder continuar o ataque contra o socialista.

Ironicamente, neste mesmo sermão (minuto 16) ouvimos o mesmíssimo Marcelo a falar da sua experiência docente. O que nos diz ganha um brilho ofuscante por comparação com a sua desonestidade intelectual e cinismo bélico:

Tenho um critério como professor, tenho uma bitola como professor, e depois aplico essa bitola de forma diversa

Ao longo do tempo vou mudando de rigor

Marcelo está meramente a ser honesto e a relatar a experiência de qualquer professor. Ensinar e avaliar é praticar diferentes formas de injustiça, eis a puta da verdade. Mas a docência também implica, se o professor for bom, a prática de diferentes formas de justiça; pois é suposto – e ainda mais no ensino superior – que o professor seja autónomo ao ponto de escolher diferentes estratégias pedagógicas consoante os diferentes alunos, as diferentes matérias e as diferentes circunstâncias na escola e na sala de aula. A esta variabilidade intrínseca à relação professor-aluno ainda devemos acrescentar a complexidade da instituição de ensino em causa, com o seu corpo de professores e administrativos a interagirem como profissionais, cidadãos e pessoas. Logo, não lembraria a ninguém fora do ensino perder tempo a discutir se um dado professor foi ou não a escolha legítima para dar uma equivalência, ou se um dado professor pode ou não optar por dar aulas de 15 minutos no seu gabinete, ou se as notas publicadas a um domingo valem menos do que as notas publicadas à segunda ou à sexta. Existem milhares de histórias escabrosas a envolver professores e escolas ao longo das décadas e a sociedade nunca se incomodou com a reinante incompetência, quando não puro desvario, de tanta gente em tanto lado. Acontece que Sócrates precisava de ser abatido e a direita, com o gaúdio da esquerda, revirou a vida do homem do avesso e avacalhou-a sem pudor nem freio.

Para Marcelo, em política vale tudo menos perder a máscara. Aposto que nessa matéria ele é um dos melhores professores que Portugal já teve ou terá.

Mudanças só acontecem mudando

I. A ira de Passos contra o Constitucional é, por um lado, como já defendi, um exercício teatral – era mais do que previsível o chumbo de algumas normas e, além disso, as medidas “de substituição/compensação” agora ressuscitadas já estavam anunciadas há muito, apenas não havendo condições para as levar por diante; mas, por outro, o que é bem mais aviltante, é também para alemão ver. A atitude doentia de subserviência assumida por Gaspar e seguida por Passos (afavelmente e por absoluta ignorância) não é compatível com um espírito negocial em defesa do país, cuja situação é deveras catastrófica. Só de pensarem que teriam de contestar alguma opinião ou ditame dos alemães (e FMI) numa tentativa de aliviarem a austeridade e darem algumas hipóteses à economia, Gaspar e Passos ficam lívidos e desorientados. Não podem. Nem querem: engoliram e infetaram-se por completo com a teoria das virtudes da “desvalorização interna”, vulgo regresso à Idade Média de onde nunca deveríamos ter saído, e comportam-se como robôs programados. Neste quadro, resta-lhes vituperar contra o Tribunal Constitucional alto e bom som, para que chegue a Berlim. Fazendo uma figura triste, note-se, pois se há povo e políticos que respeitam o seu Tribunal Constitucional são os alemães.

II. Há quem esgote os adjetivos para maldizer o bando de alucinados que nos governa e, no entanto, não os queira derrubar. Não compreendo. A situação na hora atual é esta: o desvio orçamental criado por responsabilidade do Gaspar, em virtude do qual nos concederam uma pequena folga (que não dispensaria, ao que parece, cortes de 5000 milhões), agravou-se 0,8% do PIB com o chumbo do TC (inaceitável! dizem os cínicos da UE); as medidas com que ameaçavam afundar ainda mais a economia e que apenas esperavam por uma oportunidade para serem concretizadas vão agora avançar com uma feliz e oportuna desculpa; Gaspar não foi afastado, Passos não se demitiu e o Governo mantém-se com a mesma composição, agora reforçado com o beneplácito de Cavaco. Não se vislumbra, pois, a mínima alteração nem na política nem no comportamento político tido até aqui nem no nível de pressão junto da Troika, que é zero. Pelo contrário: ameaçam-nos com o pior dos delírios – a experimentação total, uma quase que solução final. Quando já toda a gente pensava que a ideia dos cortes nas funções do Estado tinha sido abandonada ou amenizada, anunciam que, por castigo, agora vai ser a doer. Esta é a situação. Por cada hora a mais que este bando de fanáticos se mantenha no poder, há um prego que se crava no caixão da nossa economia e do nosso orgulho enquanto povo. Com esta gente ao leme, é literalmente o fim.

Não vejo, portanto, que situação se poderia afigurar pior do que esta. Há fortes possibilidades de, em eleições, nenhum partido obter maioria absoluta? Há. E depois? Alguma coligação se poderá formar. E mesmo que não se forme, como em Itália, há que dizer ao mundo que as coisas não vão bem! Que estas políticas ditam o fim da democracia. De nada serve fingir que estamos no bom caminho e que tal vai ser reconhecido, pois já se percebeu que, na hora da verdade, quem manda na Europa tem a “recompensa” no fim da lista das prioridades. No topo tem a conta dos ganhos e das perdas e, nessa matéria, nós aproximamo-nos da irrelevância aritmética. Além disso, e por causa disso, é tempo de se equacionarem outros cenários, nomeadamente o abandono da moeda única, caso não seja aceite uma renegociação das condições. Não me parece que se aguente mais austeridade. E sobretudo já seria um grande benefício tirar de lá o Gaspar.

Revolution through evolution

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Men ‘More Depressed and Sad’ Than Women If Childless, Says Study
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Passos, o Choné Psicopata

Passos acha que o Tribunal Constitucional não é o órgão mais competente para fiscalizar a Constituição. Quem o deveria fazer era o próprio Passos e mais uma mão-cheia de constitucionalistas que ele conhece. Daí denunciar o erro que esse Tribunal terá feito, o erro de ter cumprido a Constituição – porque, lá está, é ao Tribunal Constitucional, e só ao Tribunal Constitucional, que compete validar a constitucionalidade das leis, coisa que muito aborrece o laranjal.

Passos estava embalado. E declarou que o Tribunal Constitucional tem um programa de Governo: aumentar impostos. O nosso salvador, contudo, vai salvar-nos da maldade do Tribunal Constitucional. Nada de impostos, temos é de pedir desculpa à Troika pelas nossas falhas constitucionais e incendiar o Estado Social até só restarem cinzas para distribuir pelos famélicos.

Passos terminou invocando a legitimidade eleitoral e a Constituição para se considerar mandatado para continuar a violar as promessas eleitorais e a Constituição. Felizmente, a literatura científica a respeito da psicopatia é abundante.