César das Neves saiu do armário

O regresso de Sócrates tem sido particularmente interessante para o restrito grupo de bacanos (onde se incluem alguns veterinários anónimos e vários moinas famosos) que estuda a direita portuguesa. De uma forma geral, os direitolas andam atarantados. Isto porque contra o demónio apenas contam com as calúnias porcalhonas que têm sido invariavelmente rebatidas depois de terem percorrido todo o ciclo da sujidade que se pretendia lançar contra o alvo. E isto também, e ainda com maior impacto, porque sempre que Sócrates abre a boca eles sentem-se derrotados e impotentes – pior, muito pior, oh quão pior, sentem-se arrastados por uma força negra que os faz concordar com o que estão a ouvir. Como sair da penosa e dilacerante condição? César das Neves, esse espécimen irrecuperável para o convívio com os filhos do Concílio Vaticano II, deu a mais original das respostas até agora: desatar a elogiar Sócrates com fervor mal contido.

Num artigo que intitula O inocente, acto falhado de ironia que trai o seu adâmico sentimento de culpa, este generoso contribuinte para o anedotário nacional assina por cima estas santíssimas verdades:

o regresso de José Sócrates é um espantoso feito de técnica política, do mais alto nível mundial

A personagem é notável.

Verve, atitude, táctica são excelentes

– [tem] qualidades como tribuno e estratega

Há muitas décadas que não tínhamos um político assim, e já nos esquecemos do estilo.

Além disso é terrivelmente eficaz e convence mesmo. Digno de antologia!

Por isso é tão convincente.

A nossa actual democracia nunca teve, em posições cimeiras, pessoas deste calibre.

Assim Sócrates destaca-se flagrantemente.

Admirando o engenho e a arte

Isso seria uma obra de arte incomparável.

O entusiasmo de César das Neves é contagiante. É preciso ter em conta que este panegírico ditirâmbico vem de um professor catedrático e do presidente do Conselho Científico da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa, alguém com mais de trinta livros e múltiplos artigos científicos escritos para a salvação das massas. Quer-se dizer, não é um merdas qualquer. Bá lá ber, não estamos propriamente perante um fundamentalista ou um fanático, antes de uma figura conhecida consensualmente por ser um modelo de virtudes cardinais e teologais, de bom senso e de honestidade intelectual exemplares. Repare-se na superioridade moral deste parágrafo:

Apresenta-se como totalmente inocente dos males que afligem o País. Foi primeiro-ministro durante mais de seis anos mas é inimputável pelo desastre que deflagrou nos últimos meses do seu mandato. A culpa vem de uma “crise das dívidas soberanas”, que lhe é naturalmente alheia. E claro também de um terrível bando de malfeitores, onde se inclui o actual Governo, bancos, União Europeia e FMI, que pretendem, por razões não esclarecidas, destruir Portugal. Ele, pelo contrário, sempre esteve do lado do progresso e alegria, que infelizmente não se concretizaram.

Chiça penico, é exactamente isto que há para dizer! Fica só a faltar um último esforço, grande César: ajudares Sócrates a concretizar esse progresso e alegria que tu apontas e nós merecemos. É que o principal está feito, já saíste do armário. Aproveita o balanço e sai também do quarto. Vai para a sala de jantar sorver uma canja e ver as notícias. Nem imaginas tudo o que tem acontecido em Portugal e no Mundo enquanto estiveste fechado na escuridão.

14 thoughts on “César das Neves saiu do armário”

  1. não é por causa do Sócrates que o país está como está é por causa de manadas de porcos como o c.n.que desde o marquês de pombal esta merda nunca mais foi um País.

  2. É um Afonso Costa, às avessas, da Católica: doido varrido, trauliteiro, maldoso. E, claro, o responsável pelo limpar da estrada que leva à ditadura. Tal como o Gaspar que, por singular coincidência, também é menino da Católica.

  3. Caros aspirinicos,

    Como sabem, criamos ha uns meses atras uma associação para angariar fundos e mobilizar uma equipe de especialistas (psicologos, traumatologos, etc.) pronta a intervir para responder a uma grave crise de descompensação do nosso Valupi, caso José Socrates venha a ser ilibado e as pessoas deixem de dizer mal dele.

    Criamos agora um blog :

    http//ajudarovalupiquandodeixaremdedizermaldosocrates.blogpost

    Passem por la !

    Abraços

  4. Na 2ª feira ouvi o Eminentíssimo Analista Henrique Monteiro na SIC-Notícias a engasgar-se quando lhe saiu da boca “até concordo com Sócrates”.

    Que o principesco César das Neves “não seja um merdas qualquer, até concordo, e é por isso que este tipo de merdas é do mais perigoso que há.

    (esse “link” que vem aqui acima não será mas é para tratar o tal viegas?)

  5. Dá que pensar, vermos agora um tomista convertido às teses monetaristas de Milton Friedman. Eis a bíblia da acção política deste ideólogo do capitalismo desregulado:

    «Só uma crise — real ou percepcionada — produz uma transformação real [da sociedade]. Quando uma crise ocorre, as acções realizadas dependem das ideias que andam no ar. Isso, eu acredito, é a nossa função basilar: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torna politicamente inevitável.»

    E isto entronca na razão do medo a José Sócrates. Vítor Gaspar perdeu a batalha ideológica; ele sabe-o; daí a perda de ânimo. As «ideias que andam no ar», neste momento de crise, são hostis a esta estranha fusão entre capitalismo desregulado e salazarismo. Entretanto Sócrates entra em cena, com toda a sua garra, e diz:

    «Em primeiro lugar, é preciso parar com austeridade. É um erro económico e político, esta senda de austeridade», defendeu. «O Governo meteu-se num buraco e acha que o que deve fazer para sair do buraco é continuar a escavar. Se eu posso dizer o que penso é: parem de escavar! Parem com mais austeridade»

    Sobre a acção política em si, Friedman pugnava pela dissimulação e engodo. Ele não se importaria de instrumentalizar um socialista como Sócrates, ou um salazarista como Gaspar (pergunto-me qual será o estado psíquico de Gaspar, nos dias em que precisa de conciliar o anti-liberalismo de um dos seus profetas com o neoliberalismo do outro). Nas palavras de Friedman:

    «Infelizmente, a unanimidade nem sempre é possível»

    «A forma de resolver as coisas é tornando politicamente proveitoso às pessoas erradas agir de acordo com o que está certo.»

    Neste caso, a pessoa «errada» (José Sócrates) não mais pode ser seduzida a fazer aquilo que está «certo». Parafraseando Heráclito (com alguma ironia…), Milton Friedman acredita que:

    Certo é errado, e errado é certo, acertando no errar do outro, errado no acerto do outro…

    E isto é… dogmatismo!

  6. Boa Tarde,

    Não sei quem assina este post.
    Concordo plenamente com o escrito. Tenho seguido as opiniões da personagem César das Neves ( e até adquiri um livro de Ética que para ele é na perspectiva de S. Agostinho, ficou por ai ), o beato que se acha engraçado e faz rir uma certa camada de herdeiros do antigamente, o praticante missa das 9 de Domingo.

    Para esta figura e outros indigentes intelectuais que por ai andam, acham que falar sobre o Sócrates ( não comento a figura também ) até á nausea faz esquecer o presente e as opções politicas dos seus companheiros de “route” ( Gaspar e o empregado do Ângelo Correia- homem sinistro – Passos Coelho ).

    Enfim, temos aquilo que votamos.

    Nuno Borges
    http://nfcborges.wordpress.com

  7. Cada ves que me lembro que fui obrigado a comprar uma espécie de “não há almços gratis”, para estudar economia, fico doente?
    Cá, na terra, dizem que “há cada abéculas”? Já agora, que estamos em meados de abril, alguém ouviu “o cuco a cantar”? Começo a estar preocupado!
    Abraço.

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