Sem margem política para imporem os cortes que sempre pretenderam fazer na Educação, Segurança Social e Saúde, usam agora o TC como desculpa. O ar grave com que o PM declara esta “emergência” é o cúmulo do descaramento. Nojo.
Arquivo mensal: Abril 2013
Como dizia Unamuno
Falar do que aconteceu em Março de 2011 não é falar do passado. Na dimensão histórica, esse período pertence à contemporaneidade. E na dimensão política, o que aí se passou explica parte fundamental do presente e condiciona parte essencial do futuro. Pela mesma lógica, falar de 2011 implica falar de 2009. Nesse ano, um Governo foi deixado em extrema debilidade para ser boicotado todos os dias e todas as horas por interesse antipatriótico do PSD, CDS, BE, PCP e Presidente da República. De finais de 2009 a 2011, a crise económica mundial profunda começada em 2008 veio a agravar-se de forma drástica e caótica para Portugal com a erupção da crise das dívidas soberanas. Pois nem uma situação de inescapável, prolongada e imprevisível emergência nacional levou as forças políticas a abdicarem dos seus calculismos oportunistas e sectários e a terem um gesto de magnanimidade em ordem a proteger os portugueses.
Passos e Portas queriam governar com o FMI. Fizeram campanha para a capitulação do País aos mercados, chegando ao ponto de recusar o acordo que o Governo socialista tinha obtido na Europa para evitar/adiar o resgate. Aceitaram governar com o Memorando, dito conter as soluções que o próprio PSD proporia mesmo sem Troika a aterrar na Portela. E ainda receberam da população uma inércia, ou indiferença, ou complacência, ou cumplicidade, ou um pouco de cada, que permitiram desrespeitar de forma radical as promessas eleitorais e deturpar de forma insana o acordo inicial com os credores. O povo comeu e calou, nem sequer reagindo aos insultos raivosos com que os trafulhas foram colorindo a sua colossal incompetência. Foi preciso chegar-se à proposta da TSU, em Setembro de 2012, para a comunidade finalmente abandonar a letargia.
A grande lição do modo passivo como os portugueses reagiram ao facto de terem sido tratados como gado para abate é esta: teria sido possível em 2011, e ainda mais algures em 2010, ter celebrado um acordo entre as forças políticas para constituir um Governo dedicado ao combate contra uma Europa que estava disposta a oprimir os países mais atingidos pela pertença à moeda única. As elites portuguesas não o permitiram, preferindo entregar a gestão da maior crise nacional após o 25 de Novembro nas mãos do casal Passos-Relvas. As elites portuguesas, a começar em Alcácer-Quibir, tiveram sempre uma fatal atracção para o suicídio.
Exactissimamente
Da decisão do Tribunal Constitucional: contra a mentira, a inteligência moderada e a má-fé
O dia 5 de Abril confirma a enorme irresponsabilidade do Governo, apenas disfarçável com expressões de vitimização – em democracia, há deputadas “perplexas” – e de aproveitamento da decisão do TC para justificar dois anos de falhanços em todas as metas.
O Acórdão 187/2013 repete, na sua fundamentação, o que já era a jurisprudência do Acórdão relativo ao Orçamento de Estado (OE) do ano passado.
É extraordinário que o Governo, depois da violação da Constituição (CRP) verificada há um ano, tenha treslido essa decisão, ignorados todos os avisos aquando do anúncio das linhas gerais do OE de 2013 e tenha, em arrogância cega, insistido em fazer a lei mais importante do país não guardando um dos “quadradinhos” em que labora para a CRP.
Foi pois o Governo e a maioria que criou o problema e antes do anúncio da decisão tratou de se multiplicar em vozes de pressão do TC e de descrição de uma CRP imaginária.
A decisão, no que toca às normas declaradas inconstitucionais, só pode ser uma surpresa para quem não lê, não quer ler ou insiste num caminho argumentativo mentiroso acerca da CRP e, agora, da decisão.
A nossa CRP é uma constituição banal, idêntica às da nossa cultura, não sendo mais de esquerda ou mais de direita, ao contrário do que por aí se foi dizendo, por ignorância ou por má-fé. Pode pois recomendar-se a pessoas como Telmo Correia ou Nuno Melo que clamam por uma “constituição liberal” a leitura de todas as constituições que nos rodeiam.
A CRP contém o que deve conter, não havendo direitos insuscetíveis de restrições. A CRP não é rígida e a sua leitura não é imune às circunstâncias da realidade. Pelo contrário, o que é, como foi avaliado neste Acórdão, essencial, prende-se com a fiscalização de restrições à luz de princípios que todas as constituições democráticas têm de ter: é o caso dos princípios da proporcionalidade e da igualdade, sendo de perguntar aos novos “constitucionalistas” de serviço se na tal constituição liberal imaginária eliminariam princípios como estes.
É pois mentira que o TC não tenha em conta as circunstâncias da realidade do momento; tem e tem de ter, sendo naturalmente diferente restringir direitos numa situação de guerra, numa situação de crise financeira ou numa situação de paraíso, como bem ontem explicava Reis Novais.
No Acórdão que deixou o Governo “estupefato”, a situação de crise foi claramente tida em causa. Mas não pode uma qualquer situação, como a atual, justificar tudo, desde logo à luz dos princípios referidos. Não há crise que os apague.
O Governo atacou os funcionários públicos e os pensionistas e reformados à luz dos pressupostos que foram deitados por terra no Acórdão do ano passado. Fê-lo conscientemente, “sem plano b”, na lei mais importante que apresenta à AR.
A responsabilidade de tamanha teimosia é apenas do Autor do OE, que mais não deve fazer do que acatar a decisão de um órgão de soberania, o TC.
Curioso ouvir, ontem, Professores de Direito constitucional, como Rui Medeiros, que muito estimo, afirmarem (ok, ainda não tinha lido este Acórdão, este..) que o TC tinha acabado com a possibilidade de o legislador introduzir diferenças restritivas aos funcionários públicos, essa gente segura no emprego e bem paga.
Essa “gente” que tem profissões que não existem no privado e que ganha proporcionalmente menos do que no privado à medida que sobe na carreira, continua, como já está, a poder ser alvo de diferenciações.
Não saberá a longa lista de comentadores, que viu um TC a matar o legislador, que continua em vigor o congelamento de carreiras na FP? Não saberá Rui Medeiros e companhia que as reduções salarias impostas em 2011 aos FP continuam em vigor? Não saberá qualquer pessoa ler no Acórdão do TC que se afirma a possibilidade de distinções? Acontece que há limites e atendendo à crise, referindo-se à mesma, o TC, naturalmente, não admitiu que a tal “gente”, já diferenciada em reduções salariais e em congelamento de carreiras, pudesse, para além disso, ser sacrificada num salário a partir de 600 Euros mensais e ainda sujeita ao brutal aumento de impostos que se aplica a todos.
Aos olhos de quem esta medida cumpre uma igualdade proporcional? Aos olhos de quem a crise justifica este aniquilamento?
As vítimas eram, portanto, até o Acórdão 187/2013, os funcionários públicos, os pensionistas e reformados (a primeira segurança social de que dispomos nestes dias, como bem afirmou Daniel Oliveira), os beneficiários dos subsídios de doença e de desemprego e os investigadores e docentes.
Os irresponsáveis foram o Governo e a maioria parlamentar, entrando para a história da democracia portuguesa com dois OE seguidos com normas fundamentais inconstitucionais.
Cumpriram um dever todos os que, tendo legitimidade para tanto, se dirigiram ao TC (PJ; PS; PCP; BE; e Verdes).
Fica por explicar um PR que, crente na inconstitucionalidade de duas normas como tal declaradas, nada fez preventivamente.
Hoje tivemos a vitimização e o medo como arma. O “buraco” criado pela decisão, dizem, compromete tudo. Decisão que teve efeitos retroativos, imagine-se. Estando um dos subsídios a ser pago desde Janeiro em duodécimo e sendo o segundo devido em Dezembro, qual é o problema da retroatividade para o Governo?
Quanto a buracos, é bom lembrar o buracão em doses sucessivas apresentado por Vítor Gaspar contando com todos os subsídios, já que a decisão do ano passado não teve efeitos por um ano.
Devia pedir-se desculpa aos FP e aos pensionistas que andaram a financiar inconstitucionalmente as contas de um Governo que governa mal, ofende, e fica “estupefato” com o normal funcionamento da democracia.
(No Público de hoje)
A situação caricata de um dueto de cordas; que raio de perspetivas
Sabe-se desde o verão de 2012 que Miguel Relvas obteve num só ano uma licenciatura completa (36 cadeiras) numa universidade privada sem praticamente lá ter posto os pés e que apenas realizou provas a duas cadeiras, duas leram bem, que numa outra desapareceram as provas e que numa quarta, sendo obrigatória uma prova escrita, realizou apenas um exame oral (do qual não existem nem fotografias) sobre artigos seus publicados em jornais. Todas as outras cadeiras lhe foram atribuídas por equivalência – com base na experiência partidária profissional, política e associativa, uma prerrogativa que a lei consagra, sendo porém omissa quanto aos limites. Relvas entendeu, por isso, e sabe-se lá porquê, que 100% de equivalências poderia ser considerado um abuso, mas 90% era perfeitamente legal. Muito antes, ainda nem tinha começado tão feliz percurso universitário, já inaugurava alegre e premonitoriamente placas com o nome de Dr. Miguel Relvas. Quando rebenta o escândalo, que envolve também, como é óbvio, a Universidade Lusófona, o ministro da Educação não tem outra alternativa que não seja mandar a Inspeção-Geral de Educação e Ciência realizar um inquérito a esta mais que certa vigarice.
Acontece que, pela sua relação de interdependência e cumplicidade com o Primeiro-Ministro, o ministro Relvas, apesar da lista de casos polémicos que foi protagonizando desde que tomou posse, mantém-se todos os meses seguintes no Governo, como coordenador político, à espera que o ruído passe, sabendo que o seu colega da Educação o está a investigar (e sem grandes dúvidas sobre, pelo menos, o abuso da lei das equivalências universitárias). Como se passavam as coisas no Conselho de Ministros? E fora dele? O que coordenava Miguel Relvas, uma criatura trapaceira e sem saber algum, quando telefonava (se é que telefonava) ao ministro Crato e, já agora, a Vítor Gaspar e Paulo Macedo? Com Crato, coordenaria o melhor momento para anunciar ter sido considerado por ele abusador? O que fez este homem todos estes meses, além de colocar os amigos (e nem por isso sintonizados com ele) na RTP à custa de atropelos? E com que cara reunia Passos, com Relvas ao lado, o seu siamês, com os restantes ministros? E o que pensariam os ministros e secretários de Estado das tentativas públicas e descaradas de Relvas para ver a sua reputação, digamos assim, normalizada?
É evidente que Relvas ficou politicamente morto no verão de 2012. Mas, se quisermos ir mais fundo, num governo liderado por dois autênticos estarolas impreparados que têm que lidar com uma grave crise económica e financeira nacional e internacional, percebemos que quem está a mais, e desde o primeiro dia, são sobretudo os estarolas, que, no meio dos que convidaram para governar, devem ter feito uma figura digna de passar ao cinema mudo – indumentária Charlot. Não é que os outros tenham saído bem na fotografia. Todos, com ou sem curso superior e pós-graduação, levaram convictamente o país à pobreza e ao desastre.
Relvas saiu agora e por uma porta muito pequenina. Deixa um historial de disparates e uma imagem de pessoa furtiva e de má consciência. Caso não haja demissão do Governo, fica/sobra Passos. Engraçado é que, na prática, pouco muda. Passos não é nem nunca foi nada a não ser uma pose e uma voz. Assim continuará a ser, se souber e puder. Tudo o que diga respeito às relações com a troika e à gestão do dinheiro, e por conseguinte à política seguida, é Gaspar que decide. Afastar Gaspar implica arranjar alguém que aceite tomar o leme de um navio a afundar-se e sem capitão. Duvido que seja fácil de encontrar, mas também duvido que o Governo caia já. As pressões externas para se manterem devem ser fortes. A menos que a reposição de algum poder de compra com a devolução dos subsídios anime um pouco a economia, o país prosseguirá a incredulidade e sobretudo a agonia por mais dois anos e eventualmente com os mesmos protagonistas. Oxalá me engane. Afinal não é comum um dos siameses ganhar força anímica no preciso momento em que o outro a perde.
Não sejas piegas, Passos
“Não vou antecipar nenhuma resposta do TC, aguardarei a decisão que vier no acórdão. A única coisa que posso dizer é que vivemos tempos históricos e não nos devemos distrair”, disse Passos Coelho. E logo depois acrescentou: “Todos nós temos responsabilidades na forma como lidamos com isso: tem o Governo, que não se pode distrair com aspectos menores, as instituições democráticas todas, o Parlamento, que tem de ter responsabilidade, o TC, que também tem de ter responsabilidade nas decisões que vier a tomar e no impacto que elas possam vir a ter no país.”
Força nisso. Avança para a responsabilização do Tribunal Constitucional pelo facto de teres apresentado dois Orçamentos seguidos que violam a Constituição. Do alto destes três anos em que tens mentido e escavacado o País como se não houvesse amanhã, tenta lá atiçar o povo contra os juízes para ver se pega.
Vamos, sem medos, Passos. Isto não passa de mais uma etapa da selecção natural. Abandona decidido a tua zona de conforto e acaba com o regabofe que a Constituição está a provocar no teu projecto de empobrecimento à séria. Vá, bute, rápido. Toca a meter na ordem o Estado de direito, esse vício dos democratas.
Da simplicidade da procura do conhecimento permanente
Talvez algum dia se escreva um romance sobre estes tempos em que um grupo de desmiolados aldrabões, e de aldrabões desmiolados, subiu ao poder através de uma golpada que afundou Portugal e depois ainda conseguiu transformar a maior crise económica das nossas vidas numa tragédia social e numa comédia política.
Profecia
Cavaco merece uma estátua que registe o seu exemplo
Como o Miguel muito bem aponta, Cavaco recusou pronunciar-se a respeito das declarações de Sócrates que o visavam dizendo:
Há uma coisa que um Presidente da República nunca faz: é comentar comentadores.
Ora, há outra coisa que Presidente da República algum havia feito antes de Cavaco. Essa de atacar um ex-primeiro-ministro. A propósito de uma situação de suposto protocolo e onde a ligação ao contexto de responsabilidade presidencial é omitido e branqueado. Por fim, fazendo esse ataque solenemente, oficialmente e por escrito.
Mas o que mais importa neste episódio é o facto incontornável e inegável: Sócrates falou de Cavaco numa entrevista, a primeira depois de ter cessado funções governativas. Sócrates falou como um ex-primeiro-ministro que foi alvo de uma difamação inaudita por parte de um Presidente da República ainda em funções.
A hipocrisia, sonsice, pulhice e cristalina imoralidade de Cavaco deviam ser preservadas para as futuras gerações nelas se puderem arresinar na forma de uma estátua a colocar por sorteio numa qualquer lixeira. Contem comigo para comparticipar nos custos da obra.
A direita e o seu folclore
Assistir à degradação, estupidez e violência da direita portuguesa – a qual domina por completo as principais instituições políticas, os principais meios de comunicação social, os principais grupos económicos e os principais gabinetes de advogados – chega a ser um espectáculo admirável. Tanta gente junta, com tanto poder, saída das melhores escolas, rodeada do maior conforto, usufruindo da maior segurança, detendo todos os meios políticos para decidirem e realizarem, e o resultado é o empobrecimento, a miséria e o desespero de uma população inteira.
A história da direita portuguesa, tirando certos casos individuais, é uma tragédia de um provincianismo soberbo e bacoco. Não foi por acaso que ser presidente da assembleia geral da Associação de Folclore da Região de Turismo dos Templários valeu a Miguel Relvas a valorização do seu currículo pela Universidade Lusófona.
Nada que não soubéssemos desde 5 de Junho de 2011
Exactissimamente
Com quatro palavrinhas apenas
Quatro palavras chegaram para Relvas mostrar o estado a que chegámos e como foi possível aqui termos chegado:
Saio por vontade própria.
Parece que em Portugal nem sequer a oposição tem algum interesse em responsabilizar o primeiro-ministro por ter mantido a confiança política neste traste apesar das ofensas soezes, dos perjúrios e das chantagens.
É bem possível que este país já tenha acabado mas ainda ninguém teve pachorra para nos telefonar a avisar.
Relvas: uma demissão que leva passos com ela
Parece que a momentos de se confirmar a retirada da licenciatura, Relvas demitiu-se.
Foi preciso isto.
Enquanto nada de exterior à sua atividade aconteceu, Passos deixou o país governado por um Ministro que falhou em tudo aquilo que eram as suas competências: falhou na coordenação política do Governo; falhou na RTP; meteu-se na TAP e foi o desastre; falhou no impulso jovem; violou a liberdade de imprensa e mentiu descaradamente na AR no que toca ao caso das secretas. Nada demoveu Passos na sua dedicação ao violador do interesse público. Reiterou e reiterou a sua firmeza quanto a Relvas, o intocável.
Um bonito comunicado do PM despede-se do homem, despedindo-se também de um PM que tinha o demitido como a sua outra face:
“O Gabinete do Primeiro-Ministro informa que o Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, apresentou ao Primeiro-Ministro o seu pedido de demissão, que foi aceite. Em face desta situação, o Primeiro-Ministro proporá oportunamente ao Presidente da República a exoneração do Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares e a nomeação do seu substituto. O Primeiro-Ministro enaltece a lealdade e a dedicação ao serviço público com que o Ministro Miguel Relvas desempenhou as suas funções, bem como o seu valioso contributo para o cumprimento do Programa de Governo numa fase particularmente exigente para o País e para todos os portugueses”.
Só tenho uma pergunta: o embaixador do impulso jovem mantém-se?
Grande intervenção de Francisco Assis
Diga «bajular» e pense em Carrilho
Manuel Carrilho parece ter ficado deveras perturbado com o regresso de Sócrates. O seu sobressalto acontece num momento em que parece ter visto no “elegante” mas frouxo Seguro uma oportunidade de regressar ao exercício de algum cargo político, passados uns anos da campanha pirosa e desastrosa para a Câmara de Lisboa, tendo já começado o pré-exercício de bajulação. Não contente com a nojenta crónica que publicou na semana passada sobre Sócrates, hoje volta à carga e apresenta outros ângulos do seu estado de alma. Vejamos, por exemplo, o que diz da narrativa do atual PS sobre a crise:
Bom, quem viu o debate de ontem sobre a moção de censura teve uma excelente ocasião para confirmar o que muita gente vaticinou sobre a tal “consensualização” da narrativa sobre a crise: a atual direção do PS, apesar do “Documento de Coimbra”, continua a não responder a um único dos ataques do PSD baseados na “narrativa” do despesismo e da cegueira tão bem desmontada por Sócrates (e por muita outra gente do PS, diga-se). Seguro e os seus mais próximos continuam a não dizer nada perante a cassete da causa da crise posta a tocar pela direita, pactuando assim, para todos os efeitos, com tão básica, falsa e populista narrativa e facilitando a sua implantação. Mas era previsível. Carrilho só pode estar a brincar ao pretender convencer o leitor de que o acordado em Coimbra teve algum seguimento.
Ah, eis algo que estamos mesmo a ver. Bem pode Carrilho incentivar Seguro a surpreender-nos com algum rasgo estratégico. Ao fim de dois anos, já todos percebemos as suas imensas limitações. Seguro, quando surpreende, é invariavelmente pela negativa. Não tem talento nem perspicácia para a função e dizer que Sócrates terá o espaço que Seguro lhe der é um ensaio de humor involuntário que nos faz lançar sonoras gargalhadas perante a certeza do contrário. Carrilho e outros vão ter de munir-se de vários copos de água, pois vão ter de engolir em seco bastas vezes, aposto.
Extraordinário. Então o facto de Sócrates ir à televisão pública subir as audiências e mais do que provavelmente criticar o Governo é dar “uma inacreditável caução à política do Governo”? E o facto de Carrilho ir à SIC Notícias (possivelmente baixar as audiências)? Significa que está a dar uma caução a quê? Às insinuações do Mário Crespo? À orientação política do Expresso? Do Balsemão? Ou será que Carrilho tem inveja do potencial de audiências de um canal aberto e preferia que Sócrates falasse num canal de cabo, de acesso mais restrito, ou não falasse de todo?
Carrilho termina com uma declaração surpreendente e com um desafio. Surpreende a sua sugestão de que o consenso sobre as causas da crise que o próprio diz ter sido atingido na reunião de Coimbra não seja precisamente coincidente com o que Sócrates disse na entrevista da semana passada. Para mim, era. A atual direção do PS é que continua a não o assumir. E Carrilho cai na contradição de reconhecer que a narrativa da direita sobre as causas da crise está errada, mas ao mesmo tempo aceitar que o povo (o da rua) a atire à cara de Sócrates com toda a legitimidade. A raiva, de facto, cega.
Finalmente, desafia Sócrates a ir para a rua: «não se limitar a animar o circus politicus da pastorícia ruminativa, o verdadeiro desafio do seu regresso não está nos ecrãs, mas na rua, explicando a sua narrativa cara a cara com os portugueses». Carrilho, se bem conheço o bicho, não vais gostar do que aí vem, por todas as razões e mais alguma.
Manuel Acácio, toma cuidado…
Os jornalistas têm um superpoder: variadas pessoas, aparentando estar na posse das faculdades mentais respectivas, sujeitam-se voluntariamente às suas perguntas. É uma situação onde o jornalista é sempre a parte forte, mesmo quando não obtenha qualquer resposta a uma dada interrogação. Essa força começa logo pela escolha das questões, as quais obrigam o entrevistado a deixar-se atingir pelos seus pressupostos e eventuais associações, e continua através da exploração das declarações obtidas num contexto onde o sujeito interpelado corre sempre o risco de se expor demasiado ou equivocamente.
Dir-se-ia que esta prática contribuiria para o conhecimento e fiscalização dos agentes institucionais e fácticos que constituem e moldam a sociedade, assim fazendo da imprensa um verdadeiro 4º poder. Porém, em Portugal é raro encontrar jornalistas que se cumpram neste ideal, sendo muito mais frequente contemplar o pífio espectáculo onde os jornalistas são cobardes e estúpidos ou se concebem como rivais e juízes dos políticos, usando de uma soberba e acrimónia que nasce de vaidades desvairadas, perseguição agendada e ausência de respeito deontológico.
O Manuel Acácio, no Fórum TSF, tem sido eficazmente acutilante nos seus diálogos com os convidados, gerando situações caricatas onde a retórica de fachada se desmonta e cai no chão com estrondo. No primeiro exemplo, Arménio Carlos é levado a admitir que, afinal, pois é, enfim, não pretende contribuir para o aumento do salário mínimo. A culpa estará numa tal caixa de Pandora que poderia ficar aberta, e isso era um sarilho do camandro. Deve ser uma caixa de grande importância, talvez aquela onde guarda as jóias da família. Certo, certinho, é que ele entra cheio de confiança no pugilismo sindical e sai com o rabinho entre as pernas apenas porque foi confrontado com a evidência do seu indestrutível sectarismo. Oiça-se: Arménio Carlos e a mitologia grega
O segundo exemplo é como uma caixa de Petri dos tratantes que afundaram Portugal. Nuno Encarnação, de resto uma figura simpática e que aparenta ser civilizada, acumula com ser deputado do PSD o ter de falar em público. Isso leva-o para territórios desconhecidos onde rapidamente se perde e entra num estado de tamanha desorientação que o seu cérebro desliga-se e o aparelho vocal começa a funcionar em piloto-automático. Os interessados em testemunhar o fenómeno irão encontrar este conjunto de nós cegos:
– O Governo está apenas a cumprir o Memorando, o qual é responsabilidade do PS e não do PSD <-> O Memorando obriga a fazer reformas e a conter despesas, o que o PSD considera ser exactamente a solução indicada para os problemas nacionais
– O Memorando foi mal gizado pelo PS <-> O PSD a cada três meses pode corrigir com a Troika qualquer falha do Memorando
– Abebe Selassie critica o Governo <-> o Governo critica o PS
– Estamos como estamos, cada vez piores e a falhar as metas acordadas, por causa do que o PS fez no passado <-> Este Governo já não se rege pelo Memorando original porque anda a resolver os problemas todos no presente e para o futuro
Oiça-se: Nuno Encarnação e a lógica
Manuel Acácio, toma cuidado. Qualquer dia deixas de ter fregueses deste calibre.
A propósito desse estupendo socrático, o Alberto Gonçalves
Voando sobre um ninho de cucos
Antes de responder às perguntas das bancadas da oposição, a ex-ministra das Finanças fez um discurso severo contra o Governo e o ministro das finanças, dizendo que “o Governo tem actuado do lado da procura, restringindo-a com cortes nos salários e aumento dos impostos. É exactamente o contrário do que tem de ser feito. É preciso actuar do lado da oferta.”