Impunidades

Paula Teixeira da Cruz, Ministra da Justiça de um Governo onde convive com Portas e Relvas, escolheu a prisão de Caxias para sugerir que Mário Lino, António Mendonça e Paulo Campos cometeram crimes quando foram governantes: Ministra da Justiça diz que terminou o tempo da impunidade

Se calhar, ela tem razão. Se calhar, não precisamos das polícias e dos tribunais para nada, bastam as suspeitas e convicções da gente séria.

Mas mesmo que ela tenha razão, mesmo que tenha razão apenas em parte, mesmo que essa parte seja de duvidosa ou impossível prova, a Ministra da Justiça, de seu nome Paula Teixeira da Cruz, representa a direita mais abjecta que existe em Portugal.

Estamos a precisar urgentemente de uma “Désintox TV”

No jornal francês Libération, há uma rubrica audiovisual* que desmente ou corrige a má informação. Define-se como um observatório das mentiras e do discurso político. Se há país onde tal rubrica não teria falta de conteúdos, além de criar alguns postos de trabalho, esse país seria Portugal. Por cada Cantiga Esteves, Medina Carreira, Braga de Macedo, Mário Crespo, Nuno Crato, José Luís Arnaut, Passos Coelho, Matos Correia, Ribeiro e Castro e muitos, muitos outros e outras que lançam alarvidades para a praça pública sem nunca serem rebatidos, um videozinho rápido e bem feito todos os dias contribuiria imenso para esclarecer, repor a verdade e desintoxicar o ambiente.

* Acabadinho de aprender: o Désintox já era um blogue do Libération, mas há dias passou a ter um espaço TV. (Obrigada à Shiznogud pela chamada de atenção).

Quo vadis, PS?

A direita portuguesa dispôs das melhores condições para governar desde o 25 de Abril quando venceu as eleições de 2011. De um lado, tinha um Presidente da República em começo de 2º mandato que foi ideológica e activamente cúmplice no derrube do Governo socialista. Do outro, tinha um Memorando que servia de desculpa, oportunidade e escudo para qualquer medida que quisessem tomar, incluindo as mais tresloucadas. Por baixo, tinha um país que acreditou nas suas promessas de irem acabar com os sacrifícios sobre pessoas e empresas privadas, um país que acreditou nas calúnias e ataques de carácter contra Sócrates e quem esteve ao seu lado, um país que acreditou nos arquétipos salazarentos do Estado como uma casinha de família onde se tinha de contar os tostões, esconder os luxos, só dizer a verdade e pagar todas as dívidas antes de se poder sair à rua de cara lavada. Por cima, tinha carta branca para mostrar o que valiam os seus quadros e que tipo de sociedade queriam desenvolver.

Pelo menos Augusto Santos Silva, pelo menos uma ou duas vezes, expôs bem cedo aquela que deveria ter sido a estratégia do PS nesse contexto: denunciar a direita portuguesa por ter recusado o PEC IV, por ter aberto uma crise política que afundou o País na pior altura e por ter feito tudo para colocar Portugal sob o comando da Troika. Cobrar à direita a sua traição ao interesse nacional, não os deixar pensar que a sua ambição cega pelo poder iria ficar impune. A ter seguido por aí, o PS poderia até ter sido o fiel guardião do acordo com os credores, velando para que nem uma gota de austeridade a mais fosse derramada e para que os pontos onde as soluções a adoptar tinham ficado em aberto fossem discutidos e aprovados entre Governo e oposição. Dessa forma, a sua responsabilidade pela assinatura do Memorando estaria a ser cumprida na perfeição, em fidelidade inviolável com o espírito com que o Governo minoritário do PS tinha negociado o melhor possível um acordo que lhe foi imposto e o qual sabia ser errado no tempo e nos objectivos.

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15 de Setembro by Carlos Abreu Amorim

A actualidade está mais rápida do que a capacidade, ou a paciência, para a teclar. Foi assim que se perdeu um imperdível depoimento do Zé Manel, intitulado Não ganhamos nada com um clima de guerra civil. O tanto, e tão bom, que haveria para dizer sacrifica-se em hecatombe aos deuses da pastelaria fina e seus templos na Av. de Roma. Este probo que apela ao civismo e à concórdia é o mesmo que iniciou uma perseguição ad hominem no jornal que dirigia literalmente no dia a seguir a ter visto os seus patrões ficarem sem o negócio das suas vidas, e é o mesmíssimo que lançou uma conspiração político-mediática – nunca antes tentada em Portugal – com a gloriosa intenção de perverter dois actos eleitorais, acabando a berrar que o Governo tinha mandado os serviços secretos contra si e demais emails da sua rapaziada. Sim, este artista sabe bem o que é um clima de guerra civil.

O que não pode, apesar dos pesares, passar sem referência é a última obra-prima do mestre do nacional-chunguismo:

A manifestação de 15 de Setembro foi não tanto contra a TSU, o Governo e a situação atual presente mas contra as políticas dos últimos anos.

Carlos Abreu Amorim, 19 Setembro

E não é que o danado do homem tem razão? Só a má-fé e a falta de carácter típicas de todos aqueles que não lambem as mãos ao Passos Coelho será capaz de negar que o clamor da multidão estava direccionado contra esse tempo em que se gastava dinheiro público estúpida e aviltantemente com escolas renovadas, hospitais equipados, estradas a unir populações e territórios, computadores para crianças, cursos para adultos, apoios aos mais carenciados, apoios aos mais capacitados para descobrir e inovar, parques de energias renováveis, sistemas de simplificação da administração pública, apostas estratégicas no desenvolvimento da economia, modernização das exportações, políticas de negócios estrangeiros ousadas e ambiciosas, crescimento do prestígio de Portugal como país cada vez mais qualificado e até vanguardista em certas áreas. Esses foram anos terríveis, como o provam as estatísticas oficiais ao revelarem que em 5 anos se conseguiu reduzir a pobreza de 29% para 20% e que em 2009 o nosso jardim à beira-mar plantado registou a mais baixa taxa de pobreza de sempre: 17,9%. Acresce que também a desigualdade entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres passou de 6,9 vezes em 2004 para 6,0 vezes em 2009.

E aqui está à vista, ofuscante, a verdade das palavras de Carlos Abreu Amorim. Porque isto de um país ter políticas que vão conseguindo baixar a pobreza e reduzir a desigualdade só pode conduzir ao caos. De repente, a continuar nessa loucura, corremos o risco de deixar de conseguir identificar os ricos dos menos ricos, ou até dos remediados. E, depois, como é que é? Como é que os Carlos Abreu Amorim deste mundo se conseguiriam orientar na selva social? Óbvio, isto é óbvio: precisamos de afastar a gente séria dos pés-descalços, precisamos de separar as águas, clarificar, ordenar e segregar. Para que não haja confusões, para que cada um possa finalmente ir à sua vida e ser para o que nasce.

Não foi outra a mensagem desse sábado, é inegável, em que centenas de milhares de portugueses saíram à rua para exibir toda a sua indignação contra essas políticas dos últimos anos, essas políticas e esses governantes malvados que atacaram a nossa querida pobreza. Mas podemos ficar descansados. Oh, se podemos… O senhor Carlos Abreu Amorim e seus amigos valentes tudo farão para recuperarmos o tempo perdido e até ir muito além. Aliás, com o entusiasmo com que eles estão, vai ser um tirinho até estarmos quase todos na miséria. E então, subnutridos e doentes, humilhados e assustados, já não teremos necessidade de ir para a rua fazer manifestações. Ficaremos à janela a dizer adeus aos bólides dos ricalhaços que passem na mecha em direcção aos palácios e às festas, muitas festas, que eles, coitados, têm de fazer dia sim dia sim de modo a conseguirem aguentar o fardo da sua riqueza.

Inspirações canalhas

Portugal está a viver uma crise terrível, que é a crise de valores. Suspeita-se do que está por detrás dos contratos dos submarinos, suspeita-se do que está por detrás da venda da EDP aos chineses, suspeita-se do que está por detrás da Fundação Social Democrata da Madeira, suspeita-se do que estaria por detrás da proposta da TSU, suspeita-se de um ministro porque mentiu sob juramento no Parlamento a respeito da sua relação com espiões tendo ainda, no seguimento desse episódio, feito alegadas pressões sobre jornalistas no chamado “caso Relvas/Público”, suspeita-se das negociatas que esse mesmo senhor senhor quer fazer à custa da RTP. Temos em Portugal um Governo sob suspeição e isto corrói as instituições e mina a autoridade do Estado.

Inspirador: Aguiar-Branco

Canalhice: PSD usa caso Freeport para atacar governo de Sócrates

Paulo Nozolino: “Usura”

A mais recente exposição de Nozolino, composta por 9 trípticos de fotografias a preto e branco, está aberta a cada um de nós desde hoje.
Nunca foi tão importante parar perante quem insiste na memória. Se há uma experiência histórica coletiva, que se não registada mata o nosso presente e o nosso futuro, a experiência para além da visualização de cada fotografia de Nozolino é terrivelmente individual.
Não direi uma palavra sobre cada tríptico que me prendeu temporalmente, nem sobre a “usura”, que dá título à exposição, inspirada no poema de Ezra Pound.
Cada um tenha a coragem de se deter em liberdade perante os trípticos, uma e outra vez, e volte à sua vida como lhe acontecer voltar.

Antes cigarras do que baratas tontas

Não se sabe muito bem quem são as cigarras no entender do ministro Miguel Macedo, há quem pense que se estaria a referir aos que sobrevivem graças aos apoios que recebem do Estado. Mas faz mais sentido que se estivesse a lembrar dos milhares que se têm manifestado e que têm ferido os ouvidinhos sensíveis do ministro com as suas cantorias. Também podem ser os analistas, comentadores, jornalistas que não se calam com as críticas ao Governo. Ou ainda os barões do PSD e do CDS, que estando de fora, todos os dias têm recados e sugestões para o Governo, por exemplo, que se substituam algumas das baratas tontas que se sentam ao seu lado nas reuniões do Conselho de Ministros.

Seja como for, o local que esta suposta formiguinha escolheu para chamar cigarras aos outros foi uma inauguração. Será que para este Governo tão avesso a obras, fazer inaugurações é trabalho de formiga ou cantoria de cigarra? Neste caso, nem uma coisa nem outra. O ministro anda tão desorientado com os assobios das cigarras que nem competência tem para fazer uma simples inauguração, parece que abandonou o local sem ter descerrado a placa à entrada do quartel de bombeiros que supostamente foi inaugurar, ilustrando bem aquilo que é: barata tonta.

Revolution through evolution

Birth is no reason to go to hospital, review suggests
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Sexually Aroused Women Are Harder to Gross Out
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Music Underlies Language Acquisition, Theorists Propose
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The Downside of Dams: Is the Environmental Price of Hydroelectric Power Too High?
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Why Power Corrupts
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Human First Impulse Is Generosity
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People Change Moral Position Without Even Realizing It
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Reading Food Labels Helps Shoppers Stay Thinner
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The More People Rely On Their Intuitions, the More Cooperative They Become
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Revisiting Robbers Cave: The easy spontaneity of intergroup conflict
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Make Healthy Choices Easier Options
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Who creates harmony the world over? Women. Who signs peace deals? Men
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Your Body Doesn’t Lie: People Ignore Political Ads of Candidates They Oppose
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Women Speak Less When They’re Outnumbered
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Video Games Help Patients and Health Care Providers
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Smaller Waistlines, Sharper Minds, Stronger Bones and Healthier Hearts?

Antes o KKK do que as PPP

PSD e CDS, moral e intelectualmente decadentes, atiçaram o populismo e espalharam calúnias atrás de calúnias, e promessas falsas atrás de promessas falsas, para assim chegarem ao poder custasse o que nos custasse. Um dos alvos foi, e continua a ser, as PPP. A ideia que propagaram diz que esses contratos foram celebrados para burlar o Estado. Os beneficiários seriam as empresas envolvidas e os governantes socialistas. Nunca falam de governantes social-democratas ou populares, embora as PPP tenham começado com Cavaco.

Ranhosos e imbecis, broncos e analfabrutos, passaram a repetir essa cassete. Engolem agradecidos qualquer côdea que lhes ponham na gamela desde que ela permita alimentar a sua impotência, o seu imobilismo. A imagem de socialistas corruptos a meterem ao bolso como se o Estado fosse um enorme BPN é hipnótica para um país onde a iliteracia e a baixíssima cidadania são marcas seculares. Só vem confirmar o que desde sempre se repetiu em voz alta em cafés e praças de táxis: eles andam todos a gamar, o tempo todo – e os piores são os de esquerda, porque os de direita nem sequer fingem ao que andam, conclui o povoléu ao balcão entre dois amendoins.

Ora, porque será que não aparecem no Correio da Manhã excertos desses contratos com as tais cláusulas da festança expostas e as continhas feitas para todos ficarmos a saber quanto é que foi roubado e por quem? O laranjal não consegue dar com a papelada? Foram acordos de boca e ninguém assinou coisa nenhuma? Como é óbvio, óbvio em todos os países e tempos, os negócios do Estado estão sempre sob a atenção de variadas entidades, com variadas metodologias de análise e variadas agendas. Se até onde há pouco dinheiro a correr a corrupção é estatisticamente inevitável, quanto mais onde há muito. Bastaria relembrar os casos de corrupção na União Europeia, ao mais alto nível, para ninguém ter ilusões: eles podem muito bem ter acontecido nalgumas, quiçá muitas, PPP. Mas quais, se alguma? E por quem, se alguém?

Aqueles que repetem a lengalenga das PPP, onde se inclui muito jornalista que também nada explica ou demonstra mas onde o semblante carregado vale por mil documentos validados em tribunal, já só querem ver o Estado de direito a arder.

Proença apanhado pelo ar do tempo, sob o efeito do equinócio

«Para o secretário-geral da UGT, refere, “um regime democrático não é só legitimado com o voto a cada quatro anos… Temos a democracia mas, de facto, nos últimos tempos, sentimos uma democracia musculada e isso é negativo.” Daí ver que entre Passos e Sócrates há cada vez mais semelhanças: “Eu diria que por vezes, numa fuga ao diálogo social, se estão a aproximar perigosamente um do outro. José Sócrates era um homem para o desenvolvimento económico-social e avançou com medidas que se revelaram negativas. Teve pela frente uma grande crise económica, na qual a União Europeia implementou medidas e ele implementou outras que combateram parcialmente a crise de 2008. Mas, na prática, avançou por um clima de sobre investimentos e perdeu a noção de que era fundamental dialogar no quadro da Assembleia da República e no quadro do diálogo social. Este Governo está a ir um pouco pelo mesmo caminho. E aquela que foi uma das questões centrais em termos do combate à crise, que era o diálogo político e o diálogo social, está em causa. Como se vê, há um problema relativamente ao consenso político em torno da discussão do memorando e, em termos de consenso social, também.»

João Proença sente-se talvez inchado com a importância que lhe tem sido atribuída na garantia da paz social. Sem total razão, porque a CGTP ajudou. Ora, tão súbito inchaço, a juntar a outros, só pode causar perturbações e desorientação. Podendo parar para pensar e desinchar, não, permite que tal estado o leve a dizer asneiras entremeadas de ambiguidades. Cada vez mais semelhanças entre Passos e Sócrates, ó Proença? Queres dizer que Passos era até agora um amor (no que andarás de braço dado com Mário Nogueira), mas que se está a aproximar perigosamente do “grande satã”? Já desconfiávamos. Alguém, e uma grande mixórdia de votantes, deve ter içado os estarolas ao pote.

João Proença faria melhor em ser claro naquilo que afirma. A que está a referir-se quando fala na “fuga ao diálogo social” de José Sócrates? Que me lembre, sempre as medidas de caráter laboral e social foram discutidas e negociadas antes de qualquer decisão, sendo que há sempre uma decisão de quem governa. Conhecerá Proença algum caso de decisão à má fila do governo anterior, daquelas que nem a Conselho de Ministros vão, quanto mais à concertação social? Se conhece, vomite, não se contenha.

Depois diz que Sócrates “era um homem para o desenvolvimento económico-social e avançou com medidas que se revelaram negativas”. Mas quais exatamente, João Proença? E qual a sua relação com as que estão a ser tomadas agora? Logo a seguir diz que Sócrates “teve pela frente uma grande crise económica”. Então em que ficamos, a crise rebentou-lhe em cima, o homem reagiu como pôde e, concertado com a UE, procurou atenuar-lhe os efeitos. Se não tivesse reagido, nomeadamente com investimento, teríamos Proença a dizer que teria sido preciso investimento para a economia não morrer e o desemprego não aumentar, que é eventualmente o que diz acerca do atual governo. Ou não? E a partir de uma certa altura, houve ou não que conter os gastos? De todos os ângulos me parece que sim e que sim às duas perguntas. Mas eu não uso óculos. João Proença devia passar um paninho pelos seus de vez em quando.

E finalmente João Proença revela ter memória curta. Com as primeiras chuvas, varreu-se-lhe completamente da cachimónia o quadro de permanente conluio anti-governo vigente na Assembleia da República. Como se dialoga com quem espreita, calcula e conspira para derrubar um governo minoritário em tempo de grande crise económica e, na verdade, quer lá saber do diálogo? Estavam noutra, João Proença!

No princípio era uma pergunta

Na passada quinta-feira, a RTP Memória exibiu um Falatório, rubrica de entrevistas e debate apresentada por Clara Ferreira Alves, com Sebastião Salgado, Chico Buarque e José Saramago. O programa data de 1997. Há diversas entidades internacionais, e mesmo uma ou outra nacional, que garantem terem já passado perto de 15 anos desde que o ilustre encontro teve lugar. 15 anos pode ser muito tempo, ou então não, mas para o que aqui nos faz estar a gastar os monitores é alguma coisa de respeito.

Pois nesse evento televisivo ficou registada a crítica do nosso Nobel a esse presente passado através do seguinte carimbo: neoliberalismo. Eis que o neoliberalismo já merecia o estatuto de Grande Satã antes da viragem do século para um notável comunista português. Na verdade, o termo é muito mais antigo, mesmo muito e muito mais antigo, mas não conheceu grande popularidade na retórica da extrema-esquerda portuguesa antes da crise de 2008 por ser demasiado intelectual. Logo depois dessa síntese, deu-se voz a um telespectador que partilhou com os notáveis convidados e demais audiência a seguinte visão: não existia democracia em Portugal porque os partidos não representavam o povo, apenas certos interesses. Saramago concordou e mostrou-se magoado com essa realidade.

Não existir democracia, assumindo que a opinião do telespectador e do escritor representam o pensamento de uma mole de cidadãos desiludidos com o regime, não impede que se realizem actos eleitorais os mais variados nem que se continue livremente a escrever e a publicar livros cujo sucesso se mede em vendas e prémios. Poderíamos mesmo ser levados a concluir que esta falsa democracia até que nem é tão má quanto isso, que se calhar nem difere assim tanto da outra cuja ausência se lamenta. Porém, a denúncia é invencível: fora dos modelos de democracia directa, a democracia representativa sujeita-se inevitavelmente a ser vista como uma redução, ou disfunção, ou perversão, do ideal contido no conceito. A lógica que justifica a existência dos partidos, vistos como a expressão das diferentes forças que constituem a sociedade, é exactamente a mesma que os leva a favorecerem uns em detrimento de outros quando exercem o poder. Não é possível satisfazer todos ao mesmo tempo, nem sequer se tenta satisfazer todos uma só vez que seja.

Contemplar as derivas sectárias que se geram em todos os sistemas democráticos é algo que se faz na ciência política há décadas e décadas. A actual vaga de desencanto contra o regime nascido pelo 25 de Abril, para informação dos que ainda não tiraram as palas dos olhos, não é nova, não é culta e não é justa. É uma reacção emocional condicionada pela extraordinária crise económica, pelos extremismos ideológicos que sonham com ditaduras e pelo aproveitamento populista organizado, como nos casos da direita portuguesa para o derrube do Governo PS, ou inorgânico, consequência da colossal tonteira de Passos Coelho.

Mas nem tudo é perda: quem diz mal da democracia sujeita-se a que lhe perguntem pelo tipo de regime em que quer viver. E esta pergunta, mesmo que fique sem resposta, é o princípio dos princípios de todas as democracias.

Gaspar chumbou duas vezes, mas passa de ano

Depois do chumbo nas televisões, nos jornais e finalmente na rua, não houve Power Point que valesse a Gaspar frente aos senadores. O seu extraordinário plano para o aumento do emprego foi rejeitado/reprovado e seguramente por unanimidade. Temporariamente esquecida ficou a nota miserável que obteve nas frequências – a consolidação orçamental (matéria que promete voltar a sair brevemente em exame).

Quanto à avaliação que cada um dos conselheiros de Estado fez da articulação do seus circuitos neuronais com a realidade e, a estar tudo em ordem, das teorias que defende, nunca a saberemos. Sabemos apenas que Mário Soares se considerou elucidado ao cabo de duas horas. E, no entanto, a avis rara vai continuar em funções. Possivelmente intensificando as deslocações a Bruxelas e Berlim, que tanto amparo e elogios lhe granjeiam e onde tem sede o verdadeiro grande júri que o levará a aceder ao (patamar) superior. Já falta pouco, parece-me. Entretanto, a turma residente é fraca. Muito fraca. Das piores que já se viram. Não só não sabem nada, como também se apresentam com “muita escola”. Da outra. Mas vão penar.