Quo vadis, PS?

A direita portuguesa dispôs das melhores condições para governar desde o 25 de Abril quando venceu as eleições de 2011. De um lado, tinha um Presidente da República em começo de 2º mandato que foi ideológica e activamente cúmplice no derrube do Governo socialista. Do outro, tinha um Memorando que servia de desculpa, oportunidade e escudo para qualquer medida que quisessem tomar, incluindo as mais tresloucadas. Por baixo, tinha um país que acreditou nas suas promessas de irem acabar com os sacrifícios sobre pessoas e empresas privadas, um país que acreditou nas calúnias e ataques de carácter contra Sócrates e quem esteve ao seu lado, um país que acreditou nos arquétipos salazarentos do Estado como uma casinha de família onde se tinha de contar os tostões, esconder os luxos, só dizer a verdade e pagar todas as dívidas antes de se poder sair à rua de cara lavada. Por cima, tinha carta branca para mostrar o que valiam os seus quadros e que tipo de sociedade queriam desenvolver.

Pelo menos Augusto Santos Silva, pelo menos uma ou duas vezes, expôs bem cedo aquela que deveria ter sido a estratégia do PS nesse contexto: denunciar a direita portuguesa por ter recusado o PEC IV, por ter aberto uma crise política que afundou o País na pior altura e por ter feito tudo para colocar Portugal sob o comando da Troika. Cobrar à direita a sua traição ao interesse nacional, não os deixar pensar que a sua ambição cega pelo poder iria ficar impune. A ter seguido por aí, o PS poderia até ter sido o fiel guardião do acordo com os credores, velando para que nem uma gota de austeridade a mais fosse derramada e para que os pontos onde as soluções a adoptar tinham ficado em aberto fossem discutidos e aprovados entre Governo e oposição. Dessa forma, a sua responsabilidade pela assinatura do Memorando estaria a ser cumprida na perfeição, em fidelidade inviolável com o espírito com que o Governo minoritário do PS tinha negociado o melhor possível um acordo que lhe foi imposto e o qual sabia ser errado no tempo e nos objectivos.

Só que em vez de uma direita capaz de fazer jus à sua farronca reformista, apareceu-nos aquela direita ressentida, ressabiada e mentirosa que vinha de emporcalhar a política e o espaço público desde 2008. Uma direita que sonha em pôr socialistas no chilindró e em castigar os miseráveis do Rendimento Social de Inserção. Começaram de imediato a sangrar os trabalhadores, ao arrepio do cardápio de promessas que tinham agitado à exaustão. E logo em 2011 espalharam-se ao comprido na execução do Orçamento, acrescentando novos problemas ao futuro e degradando a economia sem qualquer proveito concebível. O ano de 2012 está a ser igual para pior, sendo agora mais do que evidente que a retórica das “gorduras do Estado” não passou de uma tanga básica para servir a um eleitorado acrítico, ignorante e atemorizado com as campanhas populistas e catastrofistas usadas na luta contra Sócrates.

E em vez de um PS capaz de representar os votos recebidos em 5 de Junho de 2011, um PS à altura da sua história de defesa da social-democracia, um PS que é o esteio do regime democrático tal como o conhecemos depois do 25 de Novembro, apareceu-nos o PS propriedade de Seguro. Este secretário-geral cortou toda e qualquer relação com o passado do partido antes da sua augusta pessoa ter sido entronizada, assim causando um curto-circuito na racionalidade do eleitorado socialista, onde se contam militantes, simpatizantes e moinantes. Isto tem como consequência, provavelmente intencional, deixar o flanco do partido completamente exposto aos obsessivos ataques contra o ex-Governo socialista. Sucedem-se as bacoradas a respeito das responsabilidades de Sócrates numa bancarrota que nunca aconteceu, mas que a ter acontecido teria sido por vontade da oposição que boicotou o plano para a evitar. Conspurca-se a obra feita desde 2005, obra da qual milhões de portugueses se podem justamente orgulhar em várias áreas e por várias razões. Repetem-se os insultos e ofensas ao carácter e à honra de ex-governantes e dirigentes, ficando esse veneno a circular sem qualquer antídoto por parte do partido. Ensaiam-se chantagens desmioladas onde o PS fica preso por ter cão e preso por não ter, transmitindo-se a ideia de que os socialistas são e serão sempre os culpados por tudo o que de negativo acontecer em Portugal durante os próximos 50 anos. Acima de tudo, este Seguro entusiasma-se mais com o uso do pronome pessoal na primeira pessoa, e com o que Marcelo Rebelo de Sousa diz dele, do que com o que os portugueses pensam quando olham para o PS à procura de quem os defenda e represente. O resultado está patente nas sondagens, tanto as profissionais como aquelas que fazemos no café.

A ascensão de Seguro ao topo do PS tem algo de enigmático, posto que o homem não consegue verbalizar uma ideia que mereça dois segundos de atenção e foi um aliado passivamente violento das forças que odeiam Sócrates. O facto de o partido o manter numa altura de emergência nacional ameaça tornar-se num mistério. Basta lembrar que Seguro não queria que o Tribunal Constitucional fosse chamado a verter jurisprudência sobre o plano ilegal do Governo para continuar a esmagar os funcionários públicos. Só isto, num planeta onde a lógica estivesse melhor cotada, já chegaria para lhe entregar a guia de marcha.

15 thoughts on “Quo vadis, PS?”

  1. Muito, muito bem. “Mistério” é capaz de ser pouco para descrever a aparente falta de interesse e coragem das várias personalidades do PS em retirar de lá esta não-existência que pretende comandar a oposição. Fariam bem em ter em conta os danos que esse calculismo, se é que é disso que se trata, está a fazer já não só ao PS, mas ao país.

  2. Dizem-me que o Tó disse na AR que o PS tinha feito tudo para a Troika não entrar em Portugal. A ser verdade foi estreia absoluta, o Tó não ainda não se tinha estreado na defesa do governo PS. O pior é que o mal já está feito, o pior é que a propaganda de direita e o silêncio do Novo PS já conseguiram que o povo acreditasse que Sócrates deixou o país na ruína. Na ânsia de fazer esquecer e de se vingar do seu antecessor , não percebeu que estava a prejudicar o partido que em má hora dirige. Ou é tudo calculado e pensa que em 2015 já está tudo esquecido e é eleito PM. Até pode ser mas não com o meu voto.

  3. Sugestões de explicação:
    – previa-se um longo interregno com maioria de direita, mais propício a líderes de transição
    – os líderes escolhem-se entre os candidatos que se apresentam e só houve 2, Seguro e Assis. O Assis é do Porto :)
    – o PS é, mesmo assim, ao nível da sua base efetivamente militante, um partido popular. O fogo da artilharia pesada da direita e arredores contra o governo PS (no final da maioria e, sobretudo, no governo de minoria) também atingiu essa base, indiscutivelmente.
    – a juntar a isto, muitos militantes, em vez de terem ido votar, ficaram em casa. Por acaso, gostaria de saber que percentagem votou.
    – no que toca à situação presente, o António Costa quer ser presidente da república (e quem sou eu para discutir as suas opções?)
    – sendo estas sugestões avulsas, não posso estar mais de acordo com o Valupi: sendo certo que o governo já era, a atual direção do PS não tem qualquer explicação ou justificação, pelo que muito tarda a dita guia de marcha

  4. Pois é. Livre-nos Deus de governar Portugal um partido cujos militantes, chamados a escolher líder, entre Assis e Seguro escolheram o último.

  5. Óbviamente, com a actual liderança o PS não vai a lugar algum!
    Já foi dito com algum propósito que Seguro estava muito satisfeito com o lugar de
    ministro da oposição neste governinho do amigão P.Coelho! Até agora, não se viu
    o mais pequeno rasgo ou vontade em calar ou confrontar o PSD com as suas res-
    ponsabilidades do País estar sob “assistência” internacional, eles é que fizeram ques-
    tão para que o FMI viesse!
    Finalmente, o Seguro é como o Coelho falta-lhes maturidade e mais alguns atributos
    para poderem aspirar a ser verdadeiros Primeiros Ministros, sairam do mesmo aviário!!!

  6. rr, perrdeu sim senhor. Explorar o desnecessário aumento de impostos foi o que Passos/Portas fizeram nas eleições. E ganharam, não foi? E já não houve mais aumentos impostos, pois não?

  7. É interessante ver como o habitualmente racional Medina Carreira fica
    histérico e incapaz de argumentar quando confrontado com factos que não sabe como desmentir ou rebater. Vejam aqui a partir dos 46:40:
    http://www.tvi24.iol.pt/programa.html?prg_id=4407

    Isto no seu próprio programa televisivo, perante um opositor moderado que concorda com muitas das suas críticas e não dá grande luta em terrenos que a mereceriam.

    Muito gostaria eu de ver o velho oráculo discutir os dados — e entre outros os dados econométricos precisos, históricos e datados — da governação Sócrates em comparação com as suas anteriores, com o Silva Pereira, o Santos Silva ou o Francisco Assis. Ou, é claro, com o próprio Napoleão do Crime em pessoa…

    Ou então discutir os tribunais, o respeito pela constituição e os
    direitos humanos — esses horrendos empecilhos que tanto contrariam o
    ambicionado holocausto dos corruptos e suas sementes até à 7ª
    geração (pelo menos) — com o Marinho e Pinto…

    Isso sim, seria giro. Mas nada. O melhor é insistir nas estorias de malas de cartão e criminosos em fuga, que o que interessa em televisão é distrair a malta…

  8. Melho ainda: «da governação Sócrates em comparação com as suas anteriores e estrangeiras».

    É elucidativo ver a evolução das dívidas dos vários países simultaneamente com a nossa, desde o início da crise.

  9. oh nhanha! não deves ter mainada para fazer que ouvir clássicos do disparate entrosado e ainda brindas a malta com uma longa metragem da bromidrose iolina conduzida pela podóloga judite. raio de fetiche!

  10. antes era desenvolvimento regional obrigatório para entrar na comunidade, agora chamam-lhe despesismo e irresponsabilidade.

  11. O ps vai pró seguro! Pergunto: o que têm feito os socialistas que debitam na televisão? Lelo e mais alguns? Nada. A nossa divida publica não é a soma dos varios deficites anuais acumulados ? Que culpa tem socrates se numa altura igual às outras, começa a não haver possibilidade de recorrer à banca nacional e externa como era habito por motivos que todos conheçemos ? expliquem. ponham na mesa os deficits dos governos socialistas e os da direita ano a ano, e vamos ver quem criou o monstro. A divida privada é mais do dobro e ninguem fala.Este governo foi para o poder para diminuir,mas não tem feito outra coisa senão a aumentar.

  12. Val, o PS vai mal e não se recomenda.
    Não sei quem serão os responsáveis por este apagão intencional, mas parece-me que Sócrates criou muitos anticorpos dentro do interior do partido, que agora optam por estar silenciosos não vá o diabo tecê-las.
    Nem no saco de gatos que é o PSD se deixou tanto de apoiar um ex-líder.
    Sócrates, é tabu!
    Mas tirando o Assis, que, para mim é ligeiramente mais salgado do que o insosso Seguro, onde andam as personalidades do PS.
    Lello, é o elefante numa loja de porcelana chinesa, o Vitorino nem lá vai nem sai de cima, o Costa tem outros projetos, a Ana Gomes quando abre a boca toda a gente treme com medo do que irá sair, o Alberto Martins desapareceu, outros andam pelo parlamento europeu onde, apesar de fazerem bom trabalho, não se sabe que trabalho fazem, pois ninguém o transmite.
    Depois aparece um grupo que dá ainda uma certa luta, mas que não aparece muito, o Pedro Silva Pereira, o Vieira da Silva, o Santos Silva, o Correia de Campos e finalmente os dois deputados do reviralho, a Isabel e o Galamba.
    Ora, com tão pouco material, difícil é fazer uma oposição a sério, e aí, quem decide, deveria saber o que seria necessário, mas pelos vistos, não sabe!
    Talvez, um dia, quando concluirem que matar a família nunca deveria ter sido opção, alguém acorde lá pelas bandas do Rato e se possa então vislumbrar uma oposição digna do nome.

  13. Caro ignatz: independentemente da adesão que a próxima manif. de 30 de Set. tiver, o seu enquadramento em organizações sindicais torna-a numa manif organizada. (Desculpem a tautologia, mas teve que ser). Por isso, só os mais distraídos ou mal intencionados a poderão confundir com a vaga de fundo espontânea que foi o 15 de Set.

    No entanto, é indubitável que todas as manifestações são, hoje, muito necessárias. As da CGTP sê-lo-iam muito menos se o PS se mostrasse tão activo hoje como em Julho de 1975, e organizasse algumas. A Fonte Luminosa continua lá, no mesmo local, e a Alameda D. Afonso Henriques (ainda) não foi vendida aos bancos alemães ;-)

    Quanto a esse vosso Secretário Geral, “está na hora de [ele] ir embora”. Basta!!! Ele não vê que Passos Coelho, tendo transformado o cargo que ocupa num tacho, limita-se a dar a cara pelo pior Governo do território nacional desde o tempo das invasões francesas? Este é um governo que apenas se dedica ao saque dos portugueses, a mando dos credores de Portugal.

    Assim sendo, expliquem-me vós por que razão Seguro parece tão (in)Seguro quando tem que fazer oposição? Tem medo, exactamente, de quê? É que eu não consigo perceber…

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