No princípio era uma pergunta

Na passada quinta-feira, a RTP Memória exibiu um Falatório, rubrica de entrevistas e debate apresentada por Clara Ferreira Alves, com Sebastião Salgado, Chico Buarque e José Saramago. O programa data de 1997. Há diversas entidades internacionais, e mesmo uma ou outra nacional, que garantem terem já passado perto de 15 anos desde que o ilustre encontro teve lugar. 15 anos pode ser muito tempo, ou então não, mas para o que aqui nos faz estar a gastar os monitores é alguma coisa de respeito.

Pois nesse evento televisivo ficou registada a crítica do nosso Nobel a esse presente passado através do seguinte carimbo: neoliberalismo. Eis que o neoliberalismo já merecia o estatuto de Grande Satã antes da viragem do século para um notável comunista português. Na verdade, o termo é muito mais antigo, mesmo muito e muito mais antigo, mas não conheceu grande popularidade na retórica da extrema-esquerda portuguesa antes da crise de 2008 por ser demasiado intelectual. Logo depois dessa síntese, deu-se voz a um telespectador que partilhou com os notáveis convidados e demais audiência a seguinte visão: não existia democracia em Portugal porque os partidos não representavam o povo, apenas certos interesses. Saramago concordou e mostrou-se magoado com essa realidade.

Não existir democracia, assumindo que a opinião do telespectador e do escritor representam o pensamento de uma mole de cidadãos desiludidos com o regime, não impede que se realizem actos eleitorais os mais variados nem que se continue livremente a escrever e a publicar livros cujo sucesso se mede em vendas e prémios. Poderíamos mesmo ser levados a concluir que esta falsa democracia até que nem é tão má quanto isso, que se calhar nem difere assim tanto da outra cuja ausência se lamenta. Porém, a denúncia é invencível: fora dos modelos de democracia directa, a democracia representativa sujeita-se inevitavelmente a ser vista como uma redução, ou disfunção, ou perversão, do ideal contido no conceito. A lógica que justifica a existência dos partidos, vistos como a expressão das diferentes forças que constituem a sociedade, é exactamente a mesma que os leva a favorecerem uns em detrimento de outros quando exercem o poder. Não é possível satisfazer todos ao mesmo tempo, nem sequer se tenta satisfazer todos uma só vez que seja.

Contemplar as derivas sectárias que se geram em todos os sistemas democráticos é algo que se faz na ciência política há décadas e décadas. A actual vaga de desencanto contra o regime nascido pelo 25 de Abril, para informação dos que ainda não tiraram as palas dos olhos, não é nova, não é culta e não é justa. É uma reacção emocional condicionada pela extraordinária crise económica, pelos extremismos ideológicos que sonham com ditaduras e pelo aproveitamento populista organizado, como nos casos da direita portuguesa para o derrube do Governo PS, ou inorgânico, consequência da colossal tonteira de Passos Coelho.

Mas nem tudo é perda: quem diz mal da democracia sujeita-se a que lhe perguntem pelo tipo de regime em que quer viver. E esta pergunta, mesmo que fique sem resposta, é o princípio dos princípios de todas as democracias.

4 thoughts on “No princípio era uma pergunta”

  1. “para informação dos que ainda não tiraram as palas dos olhos”

    Este é o discurso do dia 26 de Abril que se mantem até hoje para calar aqueles que diziam e que um dia “isto ia ficar uma merda”.

  2. Precisamente. Ser possível escolher dentro da lei (rua incluída). Não há louçã ou jerónimo que não queira esticar esta corda até ao seu arrebentamento. O doseamento do esforço aplicado à corda, tão, tão ponderado, foi o que permitiu o nosso 15 de setembro democrático.

  3. De um modo geral o sentimento de muitos é que se atingiu o grau zero da política, seja
    pela qualidade dos intérpretes, seja pela forma como os representantes do Povo são es-
    colhidos pelas direcções partidárias, seja pela sua eleição sob o chapéu de sigla partidária
    sem qualquer ligação entre eleitos e eleitores!
    Para não se falar nas acções “dolosas” que são frequentes, caras que aparecem nas listas
    que após o acto eleitoral nem tomam posse, cedem o lugar a outro do fim da lista. As
    promessas eleitorais para sacar o voto que, rápidamente vão parar ao caixote do lixo!
    Para além da críse internacional, sabemos que muitos erros têem sido cometidos pelos
    vários governos nestes 36 anos de democracia. Acontece que, os responsáveis nunca
    foram devidamente responsabilizados para lá do tal julgamento político, isto acontece seja
    nos governos ou autarquias, é este aspecto que, pode vir a comprometer o regime demo-
    crático em que vivemos! E, facilitar o aparecimento de uma ditadura!!!

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